The Second Game (2014): as variadas facetas por trás de um jogo de futebol

second game“The Second Game” é um filme difícil de escrever sobre. Superficialmente objetivo, mas altamente subjetivo em sua essência, é um daqueles trabalhos em que, dependendo de quem sentar na cadeira para acompanhar a sessão, pode mudar completamente de significado. Para os amantes de futebol, é um registro histórico raríssimo e precioso. Para os amantes da sétima arte, é um projeto initial digno de reconhecimento. Para os amantes de política, é um retrato cru do comunismo soviético em sua reta final. Assim, prefiro acreditar que, dada a pluralidade de temas abordados na fita, o longa seja exatamente sobre tudo isso, e não apenas sobre um assunto isoladamente. Mesmo que seja algumas vezes um pouco maçante, é impossível negar a criatividade do realizador e a riqueza de conteúdo aqui presente.

Nos tempos atuais, o diretor Corneliu Porumboiu e seu pai assistem juntos a uma partida de futebol de 1988 que este apitou. Adrian Porumboiu epoch o árbitro do grande clássico Steua e Dínamo, um jogo sempre pegado e de muita rivalidade, provavelmente o maior daquele país. Debaixo de uma quase poética nevasca torrencial, os dois times duelam em campo tomado de branco, no que parece ser apenas mais um jogo para “cumprir tabela”, algo que a conversa entre pai e filho trademark faz questão de desconstruir.

O que torna esta experiência diferente das outras é o fato de que em nenhum momento realmente os vemos conversando. Assim como os dois, nós também estamos só acompanhando o jogo. É como se estivéssemos ao lado deles, sendo uma terceira parte do bate-papo. A partir daí, enquanto a fita VHS se desenrola mostrando pierce a pierce da partida, diversos assuntos são trazidos à tona – inclusive, claro, o próprio jogo, com suas jogadas polêmicas e peculiaridades, algo que, por si só, já seria o suficiente para atrair todo um nicho futebolístico para acompanhar a película.

Assim, é interessante notar como o próprio filme o ensina a lê-lo. Em seguidos momentos quando há confusão em campo (empurra-empurra, reclamação, etc), a câmera corta para a torcida, que não apresenta nada de muito individual para estar sendo filmada. Só após algumas repetições desse padrão é que Adrian fala que isto acontecia porque, em tempos de comunismo no leste europeu, não se podia tornar públicas atitudes negativas como estas, de antidesportividade e brigas em campo. E tais reflexões descambam também para vários outros assuntos, como a arte de um modo geral, com metáforas envolvendo as reviravoltas da partida e o próprio futebol e sua efemeridade, citando craques recentes e da atualidade como Ronaldinho e Messi.

O grande problema aqui é que, de forma objetiva, querendo ou não, são quase 100 minutos em que ficamos acompanhando uma modorrenta partida de futebol truncada que (SPOILER!) acaba sem sair um golzinho sequer. Isso se torna quase verbatim quando as conversas parecem cessar em vários instantes e o silêncio domina a tela. Em um divertido tom autodepreciativo, o próprio Corneliu chega a comentar que gostaria de fazer daquela conversa o seu novo filme, uma vez que obedecia a seu estilo, “longo e onde nada acontece”, e ele, seu pai, seria o grande protagonista. No que este responde: “ninguém ia querer ver isso”. Em alguns momentos da projeção, isso não deixa de ser uma verdade.

Instigante por sua abordagem curiosa, mas com graves problemas de ritmo que quase toda partida de futebol carrega consigo, especialmente uma realizada em condições basicamente impraticáveis, “The Second Game” encanta quando as reflexões entre pai e filho nos fazem esquecer parcialmente da partida. O que, por não acontecer com a frequência que deveria, acaba por desperdiçar parte do potencial que a fita parecia conter quando isto ocorre.

O filme fez parte da programação do Farol – Festival Internacional de Cinema de Fortaleza, em setembro de 2014.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *