Relatos Selvagens (2014): antologia da ira e seu lado terapêutico

imageA raiva é um ácido que corrói mais o receptáculo que a guarda do que o alvo sobre o qual é despejado” – Mark Twain

#ClasseMédiaSofre” – Internet

Antologias de histórias geralmente são quase sempre marcadas pelo desnível entre suas tramas, o que gera uma experiência cinematográfica cheia de altos e baixos para o espectador. Felizmente para os cinéfilos de plantão, este “Relatos Selvagens” leva sua audiência em uma jornada chocante, hilária e estranhamente reflexiva sobre os recantos mais raivosos da psiquê humana.

Tendo como alvo executive a classe média (com pontuais participações da classe proletária, em posições adversárias), o diretor e roteirista Damián Szifrón parece seguir a máxima do Coringa, na qual basta um dia ruim para levar o mais são dos homens à insanidade raivosa, mostrando como pequenos e corriqueiros eventos podem despertar o predador que existe dentro de cada um de nós.

A primeira história gira em torno de pessoas em um avião ligadas por um elo insólito. Aqui, o fator “inesperado” transforma uma narrativa curiosa em uma fantasia de vingança deliciosa por sua louca catarse. Em seguida, em um pequeno restaurante, uma garçonete é tentada pela vingança. Os diálogos entre as atrizes Rita Cortezes e Julieta Zylberberg sustentam este que é o segmento mais fraco da coleção.

Depois, em uma estrada isolada, dois homens levam a luta de classes a um novo nível. O obviamente rico condutor vivido por Leonardo Sbaraglia trava com o esfarrapado motorista interpretado por Walter Donado um duelo digno dos embates entre o Papa-Léguas e o Coiote (o cenário é até parecido, inclusive).

No conto seguinte, a burocracia urbana leva um engenheiro a tomar uma decisão explosiva. Aqui, o astro argentino Ricardo Darín volta a combater o establishment, algo frequente em sua filmografia (vide “O Filho da Noiva”, “Clube da Lua” e “O Segredo dos Seus Olhos”). Pena que, justamente nesta história, o cineasta Szifrón tenha segurado o nível de cinismo do texto, entregando uma conclusão menos que satisfatória.

Um trágico atropelamento leva um abastado pai de família a fazer uma proposta corruptora a um de seus empregados mais pacatos. Aqui, a insanidade da tão brasileira “Lei de Gerson” leva o veterano ator Oscar Martínez a compor deliciosamente um personagem preso entre a ganância (pecado collateral que não escolhe etnia, sexo ou classe social) de outros e o amor a um filho.

E, finalmente, uma feliz festa de casamento toma um rumo inesperado quando segredos do noivo acabam revelados na hora errada. Em uma trama que consegue equilibrar referências dos estilos de Fellini e Von Trier, brilha a estrela da atriz Erica Rivas, que interpreta uma das noivas mais carismáticas da história recente do cinema.

É interessantíssimo ver as diferentes fases da festança e a espiral de loucura na qual o evento desaba. Diego Gentile também se sai muito bem no papel do noivo, especialmente na metade final da história. A química entre Rivas e Gentile, bem como a própria condução da trama, transforma um final que poderia ser forçado em um epílogo apropriado não só para este capítulo, mas para o longa em si.

A identidade entre as tramas vai além do tema, com elas compartilhando um certo crescendo em suas conduções, começando prosaicas e ascendendo a um clímax que, em algumas ocasiões, ultrapassa propositadamente a linha do surreal, por vezes nos fazendo sentir vergonha pelas risadas que antecedem essas pungentes conclusões.

A soma de um elenco sólido e realizadores que sabem lidar com as complexidades das conflitantes emoções que experimentamos no dia a dia resulta em um filme sem medo ou vergonha de brincar com os elementos mais sombrios da humanidade. Em tempos tão raivosos quanto esses em que vivemos, lidar com a loucura da ira é mais que terapêutico, mas também necessário.

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