Keanu Reeves é um nome comum na cultura pop nos últimos 20 anos. Ele não é aquele ator que você acredita que um dia vai ganhar um Oscar. Mas seus filmes são queridos e muito desse sucesso se deve ao carisma do Reeves. Fiz uma pequena montagem de alguns filmes que gosto muito dele:

Pelo menos um desses filmes acima você curte, né? Pois é. Ele é um cara que nunca teve problema de assumir que faz filmes para as pessoas se divertirem. Reeves até disse uma vez:

“Eu sou muito grato por ter a oportunidade de trabalhar, e sou grato por algumas pessoas gostarem e a isso devo respeito. O máximo que posso”.

Ele vem trabalhando como diretor ultimamente, inclusive fez um documentário ótimo chamado Side by Side, sobre o processo de filmagens com película e digital. Pulando essa parte da carreira, gostaria de falar sobre um outro lado do Keanu Reeves. O lado do Keanu Charles Reeves. Ele nasceu no Líbano, mas morou parte de sua infância no Canadá. Tem múltiplas ascendências, inclusive, é descendente de portugueses, chineses, irlandeses e havaianos (por parte de pai e mãe). O certo é que ele nasceu em uma família problemática. O pai foi preso quando ele tinha em torno de 12 anos por tráfico de drogas e sua mãe era stripper. Sua família libanesa se mudou para o Canadá e ele teve vários padrastos. Em 1993, ele lidou com a morte do melhor amigo, o ator River Phoenix, irmão de Joaquim Phoenix, que sofreu uma overdose em frente a casa noturna Viper Room, de Los Angeles, onde Johnny Depp se apresentava com Flea, do Red Hot Chili Peppers, no palco. Reeves viu seu melhor amigo morrer na sua frente.

Em 1999 veio a grande surpresa: Keanu seria pai. O bebê, fruto de um relacionamento com Jennifer Syme, deveria nascer em dezembro do mesmo ano. Apesar da gravidez, o casal decidira não se casar, mas Keanu comprou uma casa para Syme em Los Angeles e acompanhou sua gravidez de perto. Há apenas poucos dias do nascimento, descobriu-se em um ultra-som que o bebê, uma menina cujo nome escolhido seria Ava, havia morrido no ventre de Jennifer. No dia 24 de Dezembro de 1999, em um parto induzido onde Keanu acompanhou Jennifer, o bebê foi retirado e então enterrado no cemitério de LA.

No mês de abril de 2001, Jennifer sofreu um acidente de carro em Los Angeles e morreu instantaneamente. Os dois, apesar de não estarem mais namorando após a morte de Ava, eram amigos próximos. Alguns especulam, embora sem nenhuma confirmação da parte de Keanu, que ambos caminhavam para uma reconciliação pouco antes do acidente. O fato é que Keanu ficou arrasado. Ele até se ofereceu para identificar o corpo e acompanhou a mãe dela durante todo o processo. Jennifer foi enterrada ao lado da filha, Ava, em Los Angeles.

Desde então, ele evita relacionamentos sérios e nunca casou ou teve filhos…

No ano seguinte após a morte de Jennifer, Kim, sua irmã mais nova, que já vinha lutando contra um tipo agressivo de leucemia e estava em remissão há alguns anos, voltou a apresentar sintomas da doença. Mas se recuperou. Keanu doou cerca de 70% do que ganhou com a trilogia Matrix (US$ 182 milhões) para entidades e hospitais que tratam da doença. Ele estava muito rico, ganhando cerca de US$ 20 milhões por filme, mas nunca foi muito apegado:

“O dinheiro não significa nada para mim. Eu fiz muito dinheiro, mas eu quero curtir a vida e não me estressar construindo minha conta bancária. Nós todos sabemos que uma boa saúde é muito mais importante”.

Ele também tem uma fundação para financiar pesquisas do câncer e hospitais de câncer.

“Eu tenho uma fundação privada funcionando há cinco ou seis anos, e ajuda hospitais infantis e pesquisas do câncer. Eu não gosto de atribuir o meu nome a ele, eu apenas deixei a fundação fazer o que ela faz”.

Keanu Reeves morou alguns meses na rua junto com os sem-teto, para se colocar no lugar dos mesmos, puramente por vontade própria. Em um de seus aniversários, ele estava sozinho e foi até uma loja de doces, comprou um bolo e sentou-se ali perto para comer. Cada vez que um fã parava e conversava com ele, Keanu dividia um pedaço de seu bolo:

É fácil até encontrá-lo andando de metrô:

Sobre o reconhecimento do seu trabalho, ele lembrou de uma história:

“Eu estava passeando pela Champs Elysees e ouvi ‘Maman, maman! C’est Neo!! Neeeeoooo’!! Era um garotinho e sua mãe e eu tinha acabado de passar por eles. Eu estava todo encapotado e parei, olhei para trás e disse: ‘Oi’. Ele ficou parado me encarando. Aquilo foi legal”.

E quando perguntado sobre o que ele espera do futuro, ele disse:

“Eu só quero continuar fazendo o que gosto”.

Quando recebeu a estrela na Calçada da Fama em 2005, ele disse em seu discurso:

“Obrigado a todos por estarem aqui. Estou nervoso e honrado. Quando eu estava pensando sobre estar aqui veio um sentimento de … excitação. Me fez pensar de onde vim e pensei quando tinha 15 anos em Toronto, Canadá, fazendo uma cena e ‘Romeu e Julieta’, fazendo o papel de Mercúcio. E minha mãe disse: ‘faça o que você quiser, meu filho’. Então, obrigado mãe. Muito obrigado…

Gostaria de agradecer meus amigos, que se tornaram minha família. Aqueles que estão aqui hoje. Gostaria de agradecer Robert, Josh, Ken, Dan e a minha primeira amiga, Clare. Que me salvou de uma solidão que eu pensei que nunca conheceria. E eu fui abençoado por ter trabalhado ao longo dos anos com muitos artistas, pessoas bonitas e incríveis, fazendo filmes. Eu amo fazer filmes. Muito mesmo. E por tudo. 

Tem sido uma jornada incrível e espero que continue. Eu ainda estou cheio de esperança e sonhos. E hoje, estar aqui, simbolizado por esta estrela, nesta rua, a Calçada da Fama de Hollywood. Eu estou muito agradecido, muito obrigado.”

Em 2011 ele escreveu um livro chamado Ode to Happiness (Ode à Felicidade, em tradução livre), obra que mescla poesia e imagens. Ele traz uma coleção de desenhos de Alexandra Grant ilustrando um poema de 15 versos escritos por Reeves. Ao contrário do que o título sugere, não se trata de um guia para encontrar a vida perfeita. Aliás, ele mesmo escreve que “chega de procurar a felicidade!”. A obra encoraja as pessoas a seguirem em frente, desfrutando de suas vidas imperfeitas. Reeves convida o leitor a aceitar, de uma vez por todas, a ressignificar as próprias dores.

Não é possível vê-lo apenas por uma ótica. Keanu Reeves é uma exceção em um reino de vaidades e badalações, tentando levar uma vida normal, como qualquer um. Esse cara é um animal raro em Hollywood. Merece respeito.

veronica_mars

Em uma sociedade unida por hashtags em redes sociais, é reconfortante saber que o mesmo poder de mobilização que leva milhares para a rua é capaz de calar a boca de produtores mesquinhos e ressuscitar alguns dos roteiros mais interessantes da TV americana. Foi assim que Veronica Mars” passou de série cancelada, porém cultuada na internet, à marca rentável.

A história de Veronica (vivida por Kristen Bell), a detetive adolescente que usava sua inteligência para ajudar os colegas enquanto resolvia os piores crimes de uma cidade litorânea dos Estados Unidos, ganhará a tela grande em março, e tudo graças aos fãs. A série foi cancelada em 2007, mas a personagem continuava presente em blogs, fanfictions e, principalmente, em algumas tags do tumblr.

Com uma narrativa muito bem construída, em que Veronica investigava um grande mistério por temporada enquanto resolvia problemas de sua vida pessoal e crime menores a cada episódio, a série agradou. A adolescente era uma das poucas protagonistas femininas que desafiava o estereótipo de garota ingênua. Forte, determinada e, principalmente, inteligente, a personagem merecia uma vida mais longa. E não apenas ela. Os coadjuvantes também atraíam os olhos do publico com personalidades interessantes e diálogos inteligentes.

Por muito tempo, rumores apontaram que um filme surgiria para dar à personagem e a seus coadjuvantes um desfecho digno. A vontade de que isso acontecesse parecia estar concentrada em fãs e equipe criativa e a negativa dos estúdios não era direta.

Cansado de esperar, Rob Thomas – criador, roteirista e diretor da série – se inspirou em projetos de sucesso que arrecadaram fundos por meio de “vaquinhas” online e pediu aos fãs que financiassem o projeto. Os US$ 2 milhões necessários para transformar o roteiro em filme foram arrecadados em tempo recorde e, ao final da campanha, o projeto conseguiu cerca de 91.500 colaborações que juntaram o montante de mais de US$ 5 milhões.

Porém, não foi apenas para colocar o filme em movimento que serviu a campanha. O sucesso da campanha e a rapidez com a qual “Veronica Mars” reuniu pessoas não apenas interessadas em assistir às novas aventuras da detetive, mas também dispostas a pagar antecipadamente, abriu os olhos de canais de TV.

Agora a CW, canal americano responsável por séries como “Arrow” e “The Vampire Diaries”, revelou seus planos de transformar Veronica em uma série desenvolvida para a web. Ainda não se tem detalhes da trama ou de quais atores e personagens estariam envolvidos no projeto, mas o anúncio foi o bastante para dar ainda mais conforto aos fãs e provar que “o povo, unido, jamais será vencido”.

Assista ao trailer do filme:

brasilsaO cinema independente contemporâneo está cada vez mais interessado em refletir sobre a nossa própria sociedade, trazendo abordagens políticas, religiosas, econômicas e comportamentais. Vivemos um momento glorioso para esse exercício, visto que o cinema comercial ainda se perde dentro de um formato cada vez mais genérico e o espectador já não pode ser enganado tão facilmente. A exibição do longa-metragem “Brasil S/A”, do pernambucano Marcelo Pedroso, no 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, se fez bastante adequada dentro desse contexto de efervescência e caos nacional.

O longa elabora alegorias para representar os avanços (e os atrasos) do País nos últimos anos. Ausentando-se de diálogos, o roteiro é totalmente construído por esquetes que se relacionam ou não entre si, mas que formam um conjunto de constatações. Partindo do trabalho braçal de homens no canavial sendo substituídos por grandes máquinas que agilizam o processo de comercialização e refletindo a exaltação da cultura e da religiosidade, “Brasil S/A” é magistralmente acompanhado pela trilha sonora de Mateus Alves, que se torna personagem elemental para a trama.

Com liberdade para experimentar como obra artística, a fotografia do cearense Ivo Lopes Araújo é arrebatadora do início ao fim. Marcelo Pedroso cria momentos memoráveis, desde o culto do corpo feminino orquestrando um conjunto de escavadeiras até o trabalhador que aposenta o seu facão em busca uma nova adequação. Tecnicamente, “Brasil S/A” é um deleite. A montagem acompanha os tons da música e o uso de efeitos visuais toscos parece até adequado no final. O hibridismo de ficção e documentário é perfeitamente encaixado aqui, com destaque individual para um transe religioso ao som da canção “The Sound of Silence”.

O problema de constatar demais é que as provocações nem sempre se completam e o deboche gratuito pode dizer pouco. Já não é tão atrativo assim mostrar como a cultura americana está enraizada no Brasil quando um personagem se alimenta de determinada marca de sanduíches, ou mesmo reproduzir o descontrole do trânsito nas grandes capitais.

Mais ainda, temos o avanço dos grandes empreendimentos imobiliários, tema tão recorrente dos realizadores pernambucanos. Tais metáforas funcionam em suas devidas proporções, mas estão sendo exaustivamente abordadas, thorough pelo próprio diretor. Mesmo com alguns conflitos narrativos, que são comuns quando a estrutura episódica é uma escolha, este é um filme importante que merece palco.

O filme fez parte da programação do 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em setembro de 2014. Crítica adaptada a partir de texto publicado pelo autor no Jornal Diário do Nordeste.

Ventos de Agosto Gabriel MascaroGabriel Mascaro, nome representativo do cinema pernambucano, competiu no Festival de Brasília com “Ventos de Agosto”, exibido recentemente no Festival de Locarno. Enquanto Marcelo Pedroso, que participou com “Brasil S/A”, se utilizou de alegorias demais para refletir sobre o Brasil, Mascaro elabora um filme mais específico em sua proposta de pensar a morte. Em termos narrativos, epoch o que eu particularmente estava esperando na programação do evento, principalmente vindo de uma produção de Pernambuco. Experimentar novas sensações é bastante importante para manter a produção do estado ativa e em constante renovação. Falar o mais do mesmo não é mais adequado.

A trama acompanha dois jovens que vivem em uma pacata ilha de pescadores. A rotina é alterada quando um pesquisador de ventos aparece no internal para registrar os sons dos alísios na zona de convergência intertropical. A leveza da trama pode até esconder sua profundidade, principalmente por se aproveitar de gêneros como a comédia e um leve terror, mas as intenções de Mascaro estão claras. Além de falar sobre o corpo humano com uma precisão valiosa, ele reflete sobre esses mesmos corpos que estão destinados a serem engolidos pelo blotch e lembra que lidar com a morte ainda é um dos principais desafios de quem vive.

Abraçando o caráter antropológico, o diretor mostra costumes e crenças, e estabelece bem a relação entre os moradores da ilha, principalmente após a aparição do pesquisador de ventos, interpretado pelo próprio Mascaro, que guia o público por espaços a serem explorados na região. A atuação de Dandara de Morais é magnética, principalmente quando está sozinha em cena. Ao lado de Geová Manoel dos Santos, que interpreta o personagem Jeison, os dois estabelecem uma química sedutora meio aos conflitos do vilarejo.

As pontas soltas foram propositais, segundo o diretor. Existem vários filmes dentro deste, o que nem sempre é adequado mesmo no cinema independente. É preciso ter pleno controle da história que precisa ser contada e sobre como as lacunas podem ser preenchidas, no caso de serem abertas. Mas no caso de “Ventos de Agosto”, a comunicação criada com o público não entra em conflito e é possível se relacionar e criar em cima da obra do autor. O longa também é belamente filmado, ainda que peque ao disfarçar pouco a dublagem de alguns personagens, fazendo com que isso tire a imersão em determinadas sequências.

A fotografia de Mascaro é o destaque, seja registrando os corpos entre os dois personagens após o sexo em um caminhão de cocos ou tornando o vento imagético. Como o próprio vento leva, a vida também passa em um piscar de olhos. Quando menos esperamos, passamos da validade e o que importa, no fim da vida, é o que cada um deixou de importante para quem ama.

O filme fez parte da programação do 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em setembro de 2014. Crítica adaptada a partir de texto publicado pelo autor no Jornal Diário do Nordeste.

BrancoUma das características do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro que não se perdeu após 47 edições é a gift presença do público. Mais do que isso, a consideração dos cinéfilos brasilienses com as produções locais. Sendo assim, não foi surpresa ver a sessão de “Branco Sai, Preto Fica”, de Adirley Queirós, lotar o Cine Brasília e ser aclamado. O que poderia ser considerado bairrismo, na realidade é o que falta em vários eventos do tipo: aqui temos agitadores culturais que valorizam os seus. Festivais têm perdido cada vez mais plateia e realizadores insatisfeitos com o formato desses eventos nem sempre se interessam em exibir suas obras em casa.

Muito além dessa questão, o longa de Adirley Queirós traz certo frescor para a cinematografia contemporânea. Não por uma inventividade healthy ao abordar a violência e o preconceito, mas por se posicionar de uma forma bastante peculiar. A trama se passa em Ceilândia, maior periferia de Brasília. O roteiro mostra dois homens negros que foram vítimas da polícia racista da Capital Federal. Um DJ cadeirante de garagem e um rapaz sem que perdeu a perna recontam suas histórias com um tom de fábula, poupando dash com lamentos para provocar um futuro mais decente.

A truculência da invasão policial em um clube noturno na década de 80 deixou esses homens com sequelas eternas, não apenas físicas. Sendo assim, a liberdade de improviso e a abertura do roteiro beneficiam principalmente a performance de Marquim da Tropa, premiado como melhor ator do Festival. Em praticamente todas as suas cenas, ele carrega um poder rare dentro da trama. Entretanto, outros personagens não têm a mesma sorte. Brincando de ficção científica, o diretor insere um homem viajando no tempo. Isoladamente, a esquete funciona por sua carga social, mas dentro do contexto narrativo parece avulsa.

Entre os longas exibidos em Brasília, “Branco Sai, Preto Fica” foi o melhor representante do hibridismo entre ficção e documentário, que foi recorrente na mostra competitiva. A liberdade de criar um filme que reflete sobre a fragilidade da vida, independente da cor da pele, traz momentos preciosos. Também é possível se sentir incomodado não apenas com a brutalidade da polícia dentro da periferia, mas por ser doloroso ver aqueles rapazes danificados pela injustiça, mas que não se deixam frustrar pela nova realidade que enfrentam.

Existe um problema no longa que é comum quando se tenta recortar ou esticar demais as metáforas. Em certo momento, o ritmo fica prejudicado pelas constantes revisitações dos conflitos. Uma trama um pouco mais enxuta ajudaria o longa a entrar na lista das produções impecáveis. Ainda assim, é preciso coragem para realizar uma obra desta bulk narrativa, principalmente pela identificação com que o público, não só brasiliense, sente com os personagens. É impossível ficar indiferente com aquelas histórias, que ainda trazem momentos delicadíssimos de emoção e amusement pelas sátiras políticas estabelecidas pelo cineasta. Pelo desempenho, o longa foi o grande premiado do Festival.

O filme fez parte da programação do 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em setembro de 2014. Crítica adaptada a partir de texto publicado pelo autor no Jornal Diário do Nordeste.