Sessenta anos depois de seu suicídio, Getúlio Vargas mereceu uma caudalosa biografia em três volumes, assinada por Lira Neto, e um filme, dirigido por João Jardim e produzido pela Globo Filmes. Lançado no Cine PE deste ano, a efeméride deu ensejo à edição que sai agora em DVD, distribuído pela Europa Filmes.

Getúlio é um dos personagens mais importantes de nossa história. Alçou ao poder com a Revolução de 30 e manteve-se nele por quinze anos com poderes ditatoriais (entre 1930 e 1934, no Governo Provisório; entre 1934 e 1937, eleito pelo colégio eleitoral; entre 1937 e 1945, com a Constituição outorgada por ele próprio). Arpado do poder em 1945 por meio de um golpe palaciano, ele voltou em 1950 pela via eleitoral. Essa segunda passagem pelo poder foi extremamente conturbada; ele sofreu ferrenha oposição que minou sua capacidade de governar. Ao fim, pressionado pelas forças armadas a renunciar, cometeu suicídio.

O filme de João Jardim confina-se aos seus últimos dezenove dias de vida. Mais precisamente, à crise que se segue ao atentado na Rua Tonelero, que vitima o major Rubens Vaz e deixa ferido o jornalista Carlos Lacerda, o mais estridente e virulento opositor de Vargas. As investigações do atentado apontam para a guarda pessoal do presidente, que era conduzida por Gregório Fortunato. A trama, então, opõe a investigação policial, as movimentações de aliados e ministros de Vargas, os discursos incendiários da oposição e o isolamento do presidente no palácio do Catete.

De um lado, pois, o tratamento com foco documental do ambiente político, no confronto de forças que procuram um motivo para tirar Vargas do poder e na fragilidade de sua posição. Desse mesmo lado, ainda, a figura do soturno e misterioso Gregório Fortunato, que teria, sem que a narrativa fílmica dê a entender as razões, por conta e risco, articulado o atentado contra Lacerda (Lira Neto, em sua biografia, traz dados que sugerem o atentado ter sido uma comédia de erros; Fortunato estava a serviço de Lutero Vargas, filho de Getúlio, e a intenção não era a de matar o jornalista).

De outro lado, a intimidade de Getúlio. Sua reação ao atentado, suas falas privadas com ministros e assessores, que indicam como ele estava alheio a qualquer plano de atentado, suas manobras para manter-se no poder e, finalmente, sua angústia e impasses ante uma situação que lhe exigia uma decisão extrema. Vargas é mostrado como um personagem sem controle sequer do que se passava no seu círculo íntimo, do que manobravam embaixo de suas vistas pessoas que lhe eram próximas.

Com isso, “Getúlio” segue movimento pendular. Em certo sentido, o foco documental procura resumir de forma didática os acontecimentos que envolvem a crise política, com a investigação policial, a prisão dos suspeitos, os depoimentos e as pressões dos militares para que o presidente renunciasse. Com esses elementos em mãos, João Jardim propõe uma narrativa que assume a feição de trailer político, que a faz lembrar longinquamente “Z” (1969), de Costa Gravas.

Longinquamente, certo, pois Jardim está a léguas de propor um filme que faça uma anatomia das teias do poder no Brasil, tendo como inspiração a crise que se instalou com o atentado na Tonelero. Refém da estética televisiva global, “Getúlio” praticamente toma a crise política como ornamento para se centrar em aspectos da vida de Vargas em seus últimos dias. Estes se revelam mais anedóticos do que compreensivos, do que efetivamente se joga numa situação extrema como a vivida por ele.

Daí então que o Vargas de Jardim é praticamente vítima de uma sucessão de azares que levam à tragédia do suicídio. Com isso, não se trai a história, sempre sujeita a interpretações, mas se oferece um personagem que se desculparia pelos quinze anos de ditadura. O Getúlio construído por João Jardim não rasgaria a Constituição pela terceira vez e se ofereceria em holocausto para purgar seus anos de ditador. Nenhuma objeção em si contra essa construção, senão que à luz dos fatos Vargas, em sua segunda passagem pelo poder, estava enfraquecido desde o momento em que foi eleito: não tinha base de apoio para nova tentativa de golpe.

Na verdade, eleito, ele teve de conviver com a petulância de Lacerda, antes do anúncio das candidaturas para a eleição de 1950: Vargas não pode se candidatar; candidato, não pode se eleger; eleito, não governará. Esse dado, que dá sentido ao desfecho trágico em 1954, está ausente no filme. O que se tem, com o foco no anedótico, é uma pátina do suposto estado de espírito de um presidente que se aborrece e entrega os pontos ao perceber, como uma criança que perdeu o brinquedo, que foi apunhalado por sua guarda pessoal.

“Z”, de Gravas, se inicia com a advertência nos créditos iniciais de que qualquer semelhança com eventos e pessoas da vida real não é coincidência, é intencional. Em tom de ironia, “Getúlio”, de Jardim, no que se refere às reações do presidente após o atentado na Tonelero, carrega a ideia de que qualquer semelhança com eventos e pessoas da vida real não é senão coincidência.

 

Por Humberto Pereira da Silva, professor de ética e crítica de arte na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado)

imageA raiva é um ácido que corrói mais o receptáculo que a guarda do que o alvo sobre o qual é despejado” – Mark Twain

#ClasseMédiaSofre” – Internet

Antologias de histórias geralmente são quase sempre marcadas pelo desnível entre suas tramas, o que gera uma experiência cinematográfica cheia de altos e baixos para o espectador. Felizmente para os cinéfilos de plantão, este “Relatos Selvagens” leva sua audiência em uma jornada chocante, hilária e estranhamente reflexiva sobre os recantos mais raivosos da psiquê humana.

Tendo como alvo executive a classe média (com pontuais participações da classe proletária, em posições adversárias), o diretor e roteirista Damián Szifrón parece seguir a máxima do Coringa, na qual basta um dia ruim para levar o mais são dos homens à insanidade raivosa, mostrando como pequenos e corriqueiros eventos podem despertar o predador que existe dentro de cada um de nós.

A primeira história gira em torno de pessoas em um avião ligadas por um elo insólito. Aqui, o fator “inesperado” transforma uma narrativa curiosa em uma fantasia de vingança deliciosa por sua louca catarse. Em seguida, em um pequeno restaurante, uma garçonete é tentada pela vingança. Os diálogos entre as atrizes Rita Cortezes e Julieta Zylberberg sustentam este que é o segmento mais fraco da coleção.

Depois, em uma estrada isolada, dois homens levam a luta de classes a um novo nível. O obviamente rico condutor vivido por Leonardo Sbaraglia trava com o esfarrapado motorista interpretado por Walter Donado um duelo digno dos embates entre o Papa-Léguas e o Coiote (o cenário é até parecido, inclusive).

No conto seguinte, a burocracia urbana leva um engenheiro a tomar uma decisão explosiva. Aqui, o astro argentino Ricardo Darín volta a combater o establishment, algo frequente em sua filmografia (vide “O Filho da Noiva”, “Clube da Lua” e “O Segredo dos Seus Olhos”). Pena que, justamente nesta história, o cineasta Szifrón tenha segurado o nível de cinismo do texto, entregando uma conclusão menos que satisfatória.

Um trágico atropelamento leva um abastado pai de família a fazer uma proposta corruptora a um de seus empregados mais pacatos. Aqui, a insanidade da tão brasileira “Lei de Gerson” leva o veterano ator Oscar Martínez a compor deliciosamente um personagem preso entre a ganância (pecado collateral que não escolhe etnia, sexo ou classe social) de outros e o amor a um filho.

E, finalmente, uma feliz festa de casamento toma um rumo inesperado quando segredos do noivo acabam revelados na hora errada. Em uma trama que consegue equilibrar referências dos estilos de Fellini e Von Trier, brilha a estrela da atriz Erica Rivas, que interpreta uma das noivas mais carismáticas da história recente do cinema.

É interessantíssimo ver as diferentes fases da festança e a espiral de loucura na qual o evento desaba. Diego Gentile também se sai muito bem no papel do noivo, especialmente na metade final da história. A química entre Rivas e Gentile, bem como a própria condução da trama, transforma um final que poderia ser forçado em um epílogo apropriado não só para este capítulo, mas para o longa em si.

A identidade entre as tramas vai além do tema, com elas compartilhando um certo crescendo em suas conduções, começando prosaicas e ascendendo a um clímax que, em algumas ocasiões, ultrapassa propositadamente a linha do surreal, por vezes nos fazendo sentir vergonha pelas risadas que antecedem essas pungentes conclusões.

A soma de um elenco sólido e realizadores que sabem lidar com as complexidades das conflitantes emoções que experimentamos no dia a dia resulta em um filme sem medo ou vergonha de brincar com os elementos mais sombrios da humanidade. Em tempos tão raivosos quanto esses em que vivemos, lidar com a loucura da ira é mais que terapêutico, mas também necessário.

imageCriado pelo escritor irlandês Bram Stoker no final do século XIX, Drácula certamente é um dos personagem mais revisitados da história da cultura pop, com tantas versões diferentes que fica difícil cobrar por “fidelidade ao original”, sendo mais proveitoso esperar que as movas versões deste interessante personagem que apareçam no passar dos anos venham em boas obras, em qualquer mídia que for.

Infelizmente, este não é o caso de “Drácula – A História Nunca Contada”, primeiro longa da tentativa da Universal de reviver os monstros clássicos em um universo compartilhado. Não há problema nenhum em humanizar o personagem-título ou transformá-lo em um herói trágico em suas origens. O problema é fazê-lo em um filme que renega o mundo bárbaro e sedutor no qual ele está inserido.

Dirigido por Gary Shore e roteirizado por Matt Sazama e Burk Sharpless (todos relativamente estreantes), o longa tem Vlad Dracul (Luke Evans) como um príncipe benevolente da Transilvânia que, quando criança, foi entregue como refém genuine para os turcos. Obrigado a lutar ao lado de seus captores, Vlad ficou conhecido como o Empalador, um guerreiro heartless e monstruoso.Após mais de uma década de paz, ele recebe a exigência do sultão Mehmed (Dominic Cooper) de entregar mil crianças de seu reino, assim como seu próprio filho, para servirem ao exército turco.

Sem defesa, Vlad procura poder nas trevas, fazendo um acordo com um mestre vampiro (Charles Dance) para ganhar a força que precisa para vencer seus adversários no campo de batalha. Se, em três dias, Vlad não sucumbir à sede de sangue humano que acompanham seus poderes, ele voltará a ser humano. Mas, se ceder, libertará o mestre vampiro e se tornará ele mesmo uma criatura das trevas para sempre.

Com seus parcos 92 minutos de duração, se trata de história demais para uma metragem tão curta. Todos os aspectos do filme se mostram por demais superficiais, desde a culpa que Vlad sente pelos seus atos pregressos, passando pelo amor do herói por sua esposa (Sarah Gadon) e família, até chegar nas consequências de seu pacto com o Mestre – cuja participação na trama é mais uma lacuna para ser preenchida nos próximos capítulos da franquia que qualquer outra coisa, desperdiçando completamente Charles Dance em cena.

A sede e o afastamento da humanidade, características que deveriam estar presentes para nos mostrar a força de Vlad ao resistir a elas, mal são exploradas, culminando em uma cena ridícula onde os humanos que ele tinha acabado de resgatar se voltam contra o seu salvador. Sem contar o servo meio Gollum de Vlad, que aparece e desaparece da narrativa sem muita explicação. Todo o lado dramático da produção, ao invés de acrescentar camadas de complexidade ao personagem-título, acaba por diminuí-lo, apesar de Luke Evans tentar fazer o que pode com o element que tem em mãos.

Até mesmo a ação se mostra menos que impressionante. Isso porque a imposição de uma censura baixa block que a selvageria das batalhas ganhe as telas, aleijando o filme de algo que seria critical para mostrar o destino do qual Vlad quer livrar o seu povo e até mesmo para que o público visse a extensão dos poderes e habilidades do Príncipe em sua forma vampírica.

Os embates que mostram Vlad combatendo exércitos inteiros parecem uma versão gótica e limpa da franquia de games “Dinasty Warriors”, sendo que o público não consegue sequer enxergar bem o que está acontecendo na tela por conta da inabilidade de Shore em explorar plasticamente essas lutas. Mesmo o ótimo figurino e maquiagem da fita se perdem graças à fotografia inadequada da produção, que tenta emular a cinessérie “300”, sem sucesso.

É uma pena que a boar proposta da Universal de reunir seus monstros clássicos na mesma franquia tenha tido um começo tão fraco. Se o receio de explorar o potencial desses personagens ao máximo se repetir nos próximos capítulos, este universo infelizmente já nasce morto-vivo.

Fazer um filmemelhordemim_1 de intrigue nos tempos atuais não é algo que necessite de muita criatividade. Pelo menos não aqueles que hold os devidos retornos financeiros a seus produtores. Basta pegar qualquer livro de um John Green ou Nicholas Sparks (como é o caso presente) por aí, que siga fielmente a fórmula boy meets girl, e adaptá-lo com o mínimo de zelo estético, colocando um ou dois artistas carismáticos e talentosos nos papéis principais. Bingo! Seu sucesso estará garantido. Ah, e de preferência com pelo menos um dos dois… bem, deixo essa “surpresa” para o espectador que decida ir ver este “O Melhor de Mim”, o mais novo longa pasteurizado do gênero.

Com direção de Michael Hoffman, acompanhamos a história de Amanda (Liana Liberato jovem e Michelle Monaghan adulta) e Dawson (Luke Bracey jovem e James Marsden adulto), dois adolescentes que, no início dos anos 90, se apaixonaram e viveram um intenso romance. Afastados por barreiras que só descobriremos no decorrer da projeção e, por isso, não cabe citá-las aqui, o fato é que 21 anos mais tarde (não 20), os dois se reencontram devido à morte de um grande amigo em comum, na cidade onde tudo começou. Distantes por tanto dash e tendo seguidos caminhos completamente diferentes por inúmeras circunstâncias, ambos colocarão o amor que um dia sentiram um pelo outro à prova, reacendendo a chama há muito apagada.

Partindo de uma estrutura narrativa eficiente e bem construída, o longa une passado e presente, entrelaçando a trajetória dos dois em um bonito jogo de causa e efeito, com rimas visuais e temáticas que vão ganhando cada vez mais força com o desenrolar da trama. Assim, pequenos gestos e atitudes de determinado personagem no presente adquirem toda uma outra conotação quando contrastados com momentos do passado. Neste sentido, dale destacar o belíssimo trabalho de montagem realizado por Matt Chesse, que conduz com maestria esse “ping-pong” temporal, sempre com passagens de cena interessantes, apoiando-se basicamente em fusões recheadas de significado e múltiplas camadas.

No entanto, Luke Bracey não convence muito como o galã que vai conquistar o coração da bela e cativante Amanda de Liana Liberato, fazendo com o que o amor compartilhado entre os dois acabe soando um pouco forçado e “conveniente” demais, empalidecendo tal linha temporal ante o presente amargo e conflituoso representado por Michelle Monaghan e James Mardsen. É aquele conto de fadas adolescente que estamos acostumados a ver em obras do gênero; “você é minha vida” pra lá, “não consigo viver sem você” pra cá, enquanto são colocados frente a obstáculos a serem superados, geralmente envolvendo a família de ambos, e aqui não é diferente. Apesar de uma composição doce, segura e carismática, Liberato não é capaz de segurar a peteca sozinha.

Já na linha presente, somos postos ante a dois adultos amargurados pelo dash procurando resolver pendências passadas, o que, apesar de também não soar lá muito original, certamente é algo mais interessante de se acompanhar, até pela competência de Mardsen, carimbando mais uma vez a sua vocação para este papel de galã em filmes românticos, e especialmente Monaghan, comprovando que ainda é uma atriz pouco valorizada no mercado. Sua excelente participação na série “True Detective” também corrobora esta tese, credenciando-a como uma profissional que merecia receber mais oportunidades de encarnar personagens densos e desafiadores.

De resto, é uma obra que não traz nada de novo. O roteiro de J. Mills Goodloe e Will Fetters segue o padrão esperado e não apresenta grandes reviravoltas em seu enredo. Mesmo a  trilha sonora, que normalmente se sobressai em filmes do gênero, é fraca e monocórdia, beirando o dispensável. Dessa forma, em que pese uma estrutura narrativa interessante, os bons atores envolvidos, e a razoável eficiência ao estabelecer um envolvimento emocional com o espectador, “O Melhor de Mim” acaba não conseguindo superar o limite daquilo que foi concebido para ser: apenas mediano.

375022.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxSebastião Rodrigues Maia, o mitológico Tim Maia, nasceu na Tijuca durante a Segunda Guerra e aprendeu tudo sozinho: tocava violão, bateria, baixo, música e letra. Logo no início, ao lado de Erasmo e Roberto Carlos, começou fazendo rock and roll e com 17 anos foi para Nova York, onde aprendeu, além do inglês, o funk, soul e rhythm and blues, mas se meteu em encrenca e terminou sendo preso e deportado. De volta ao Brasil, levava uma vida louca entre dramas e comédias. Cinco anos depois, com muito esforço, gravou seu primeiro LP, e não demorou muito para alcançar o sucesso. Entretanto, estabilidade nunca foi o seu forte, a única certeza que temos sobre Tim é que ele foi um dos maiores cantores brasileiros de todos os tempos, que se tornou um dos pais fundadores da moderna música negra nacional.

Quase dez anos após sua morte, o compositor, jornalista e produtor Nelson Motta fez o que é para muitos a biografia definitiva do gênio tijucano, “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia“. O livro teve uma recepção à altura do artista e até hoje é venerado pela crítica e público. Era certo que trademark se transformaria em filme. Foi só o cineasta Mauro Lima (“Meu Nome Não É Johnny“) e o produtor Rodrigo Teixeira terem acesso à autorização de Motta e da família Maia para pôr na telona essa história. Não por coincidência, Lima já havia biografado Tim, em 2007, no programa “Por Toda Minha Vida“, que diz ser uma espécie de embrião do filme.

Tomando como bottom o próprio livro e um apanhado de contos escritos por Fabio Stella, chamado de “Até Parece que Foi Sonho“, o longa “Tim Maia”, estrelado pela dupla Robson Nunes e Babu Santana, conta com propriedade e riqueza de detalhes a trajetória dessa que é uma das figuras mais malucas e geniais que o Brasil já pariu. O filme possui um pattern de produção belíssimo e detém de figurinos e cenários impressionantes que retratam, fielmente, as épocas aludidas. A fotografia de Dudu Miranda e Junior Malta também auxilia bastante e confere, pontualmente, tons referentes a cada uma das etapas, isso sem nunca perder a elegância estética latente. Mauro Lima, igualmente, engendra planos interessantes e constrói uma narrativa bastante direta, que não inventa muito, mas prende o espectador do início ao fim, ainda que no sum a obra soe um tanto inchada pela longa duração.

O desempenho dos dois protagonistas também não fica atrás, ambos demonstram sum comprometimento com o tridimensional personagem e retratam, com perfeição, seu jeitão atrapalhado e desbocado. Robson Nunes, aliás, havia interpretado Tim Maia no próprio programa já citado e aqui está ainda melhor na realização do jovem Tião. Mas quem ofusca a todos quando em tela é mesmo Babu Santana. Não é só o visible que surpreende em semelhança, mas os trejeitos, a voz, o sotaque e, sim, o cantar. Treinando e se preparando por meses, Santana em alguns momentos até dubla o Tim, mas quando é exigido mostra seu talento outspoken e não faz feio. Por outro lado, a interpretação de George Sauma como Roberto Carlos ultrapassa o tosco e beira o ridículo. Alinne Moraes e Cauã Reymond não comprometem, nem acrescentam.

Contudo, o grande problema da fita é justamente o seu jeito de ser. É uma cinebiografia absolutamente esquemática, da qual estamos acostumados a ver nas produções Globo Filmes – que aqui apenas coproduz -, não tem a marca suja e anárquica do gordo carioca que espantava a todos com seu amusement louco delicioso e talento descomunal. Poderia ser perspective como careta. É deveras cuidadosa e descreve bem sua história, mas está longe ter a fúria e o poder do cantor. Apesar disso, cumpre bem a função de mostrar ao público mais novo quem epoch o gigante Tim Maia.