O Caminhão do Meu Pai

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos divulgou a lista de finalistas para uma indicação ao Oscar de curta-metragem, o que foi uma ótima surpresa para o cinema brasileiro: “O Caminhão do Meu Pai“, dirigido pelo paulista Mauricio Osaki, é um dos filmes na disputa.

De acordo com a Academia, 141 curtas de live-action se inscreveram para disputar o Oscar deste ano. A lista de três a cinco indicados sai no dia 15 de janeiro.

A trama de “O Caminhão do Meu Pai” gira em torno da pequena Mai Vy que, após enfrentar problemas na escola, pede para passar o dia com seu pai, um motorista de caminhão vietnamita.

A 87ª edição da cerimônia do Oscar acontecerá em 22 de fevereiro de 2015, em Los Angeles.

Veja a lista dos curtas pré-indicados:
“Aya”
“Baghdad Messi”
“Boogaloo and Graham”
“Butter Lamp (La Lampe Au Beurre De Yak)”
“Carry On”
“My Father’s Truck”
“Parvaneh”
“The Phone Call”
“SLR”
“Summer Vacation (Chofesh Gadol)”

Steve Jobs

Não está nada fácil produzir a nova biografia sobre Steve Jobs. De acordo com o site especializado Deadline, a Sony Pictures simplesmente decidiu abandonar o projeto. Apesar de má notícia, a produção, que terá roteiro do premiado Aaron Sorkin (“Moneyball”), pode mudar de mãos e ir parar na Universal, que já estaria com um contrato encaminhado para a cinebiografia do fundador da Apple.

Não se sabe se Danny Boyle (“Trance”) permaneceria na direção, e se Seth Rogen (“This Is The End”) e Jessica Chastain (“Mama”) seriam mantidos como coadjuvantes nessa história. Mas toda essa dificuldade mostra como Hollywood ainda tem receio de levar uma trama tão inusitada às telas.

A previsão mais recente dava conta de que o filme começaria a ser gravado no início de 2015, mas não se sabe como será agora com todas essas mudanças.

A-Vida-Secreta-de-Walter-Mitty-2

Existe uma conexão muito poderosa entre um filme e sua trilha sonora. Quando bem executadas, as músicas conseguem compor as cenas de tal forma que parecem ser partes indissociáveis daquele momento, rendendo uma emoção muito maior e, dessa forma, criando empatia com o espectador. Influenciados por momentos icônicos do cinema, costumamos pensar nossas próprias vidas acompanhadas das próprias trilhas sonoras.

Em “A Vida Secreta de Walter Mitty”, Mitty (Ben Stiller) é um sonhador. Ele vive no limiar entre fantasia e realidade, principalmente por não ter conquistado seus sonhos, sempre desejando algo além do que lhe é oferecido no dia a dia. Mitty é o responsável pelo departamento de arquivo e revelação de fotografias da Revista Life e, ao perceber que o fotógrafo Sean O’Connell aparentemente esqueceu de lhe enviar o negativo referente à foto de capa da última edição impressa da revista, decide partir em busca do fotógrafo para recuperar o negativo perdido. Mais do que uma simples viagem, a jornada de Mitty se torna uma busca de identidade e autoconhecimento.

Fundamental nesse trajeto, tanto no trailer como no próprio longa, é a música. Ela acompanha Mitty em suas aventuras, se mescla à paisagem que o circunda e causa um arrepio em quem assiste a tudo isso. Elas são grito de liberdade. Um impulso para pegar uma mochila, calçar o tênis e sair em busca de nossas próprias aventuras. Em busca de nós mesmos.

A trilha sonora ficou a cargo de José González, que também possui três músicas solo e outras duas com sua banda, a Junip. Of Monsters And Men, Arcade Fire, Rogue Wave, Rogue Valley, Jack Johnson e o brilhante David Bowie acompanhado da atriz Kristen Wiig também estão presentes na jornada de Mitty. Menção honrosa para Bohemian Rhapsody, do Queen, que, com seu início “Is this the real life? Is this just fantasy?” nos introduz à nossa primeira experiência com os sonhos de Mitty.

A coluna Soundtrack selecionou alguns dos melhores momentos da trilha sonora de “A Vida Secreta de Walter Mitty”:

Arcade Fire

A banda canadense é uma das mais respeitadas e admiradas do cenário indie atual. Um dos grandes nomes a vir ao Brasil em 2014 no festival Lollapalooza, o grupo é conhecido por suas empolgantes e cativantes apresentações ao vivo, além do uso diversificado de instrumentos musicais. A música “Wake Up” faz parte do primeiro álbum gravado em estúdio pela banda, “Funeral”, que fala sobre morte e recebeu esse nome pelo fato de vários integrantes do grupo terem sofrido perdas familiares na época. David Bowie já cantou “Wake Up” em show ao vivo e foi quem apresentou a banda a seus produtores. A música também fez parte de outro grande filme, “Onde Vivem Os Monstros”, de Spike Jonze.

David Bowie

Conhecido como o “Camaleão do Rock”, devido à capacidade de se renovar constantemente, Bowie é uma das figuras mais importantes e influentes do cenário musical mundial há décadas. Ao longo dos anos, Bowie transitou por diversos estilos musicais, passando pelo folk psicodélico, glam rock, soul, funk, elétrico e rock clássico, deixando um grande legado não só musicalmente, mas também socialmente. “Space Oddity” foi sua grande porta de entrada ao público, ocupando o quinto lugar no UK Singles Chart. E, assim como Cheryl explica a Mitty em “A Vida Secreta de Walter Mitty”, a música é sobre coragem e desbravar o desconhecido.

Of Monsters And Men

A banda indie islandesa, embora com pouco tempo de vida, já passou pelo Brasil em 2013 na segunda edição do Lollapalooza. Embora o grupo tenha sido conhecido pelo hit “Little Talks”, seu primeiro álbum, “My Head Is An Animal”, é recheado de músicas cativantes e inspiradoras, elogiadas por grandes veículos de imprensa. Of Monsters And Men são constantemente comparados ao Arcade Fire e buscam falar sobre a mitologia e lendas de sua cultura em suas letras.

Rogue Wave

Uma banda indie californiana, Rogue Wave nasceu em um momento de transição de seu líder: Zach Schwartz. O grupo hoje conta com cinco integrantes, mas muitos outros músicos fizeram parte de sua história ao longo dos anos. Essa não é a primeira vez que o grupo tem uma música em uma produção audiovisual; composições do Rogue Wave já estiveram presentes em vários filmes e séries de TV, como “Napoleão Dinamite”, “Apenas Amigos”, “90210”, “Heroes”, “Friday Night Lights”, “Scrubs”, “Chuck”, “Weeds” e “The O.C.”, além de eles mesmos aparecerem no filme “O Amor Acontece”.

José González

Sueco e filho de emigrantes argentinos, o cantor indie e folk cresceu ouvindo música folk latina. Além de tocar solo, ele também é o vocalista e guitarrista da banda sueca de folk rock e rock psicodélico, a Junip, juntamente com Tobias Winterkorn. González é o responsável por nos guiar musicalmente em “A Vida Secreta de Walter Mitty”, além de ter três músicas solo (incluindo um cover de “#9 Dream”, de John Lennon) e duas com seu grupo Junip.

LVT

Muito antes de chegar às salas de cinema em 10 de janeiro, “Ninfomaníaca – Vol. I”, o mais novo trabalho do diretor Lars von Trier, já estava cercado por polêmica. Esta, aliás, que parece povoar não só os trabalhos do diretor, como ser parte indispensável de sua própria figura. Durante a produção, ao falar sobre o projeto, ele já prometia material indigesto, chamando o longa de ‘europeu demais’ para este lado do atlântico.

“Não quero dizer que farei um pornô. Esse será um filme com muito sexo e muita filosofia”, prometeu.

Apontado por muitos como o cineasta dinamarquês mais ambicioso e original desde Carl Theodor Dreyer (“O Martírio de Joana D’Arc”), Lars von Trier nasceu no fim da década de 1950 em Copenhague, onde mais tarde frequentaria a Escola Dinamarquesa de Cinema. Já em seu primeiro longa, o thriller “Elemento de Um Crime” (1984), o cineasta chamou a atenção da crítica internacional com uma mistura refinada entre filme noir e expressionismo alemão que lhe rendeu o Grande Prêmio Técnico no Festival de Cannes.

O primeiro grande tumulto da carreira veio justamente durante o festival, quase duas décadas depois, em 2000, com o musical “Dançando no Escuro”. Em entrevista a jornalistas, o diretor chamou sua protagonista, a cantora Björk, de louca, e declarou ter sido uma experiência terrível dirigi-la. Boatos dos bastidores diziam de embates intermináveis entre o ego dos artistas e suas diferenças criativas. Björk chegou a dizer publicamente em seu blog que Trier teria inveja das mulheres, indispensáveis para dar alma a seus trabalhos e, por isso mesmo, teria de destrui-las durante as filmagens. Catherine Deneuve (“Os Guarda-Chuvas do Amor”), colega de elenco da cantora, chegou a afirmar à época que o processo de filmagem teria sido tão traumatizante que talvez demorasse uma década para que Björk voltasse a fazer cinema.

NKOutra atriz que parece não ter tido a melhor das experiências ao trabalhar com o diretor foi Nicole Kidman (“Moulin Rouge: Amor em Vermelho”). A protagonista de “Dogville” (2003), primeiro filme de Trier desde o premiado musical com Björk, evitou comentar os desgastes na produção do filme, mas não voltou para participar de “Manderlay” e “Washington” – sequências do longa – justificando incompatibilidade de agenda. O mesmo filme voltaria a ser motivo de polêmica em 2011, ao servir de inspiração para o sociopata Anders Breivik no massacre que deixou 77 mortos na Noruega. Na página de Anders no Facebook, “Dogville” era listado como um de seus filmes favoritos, junto de “Gladiador” e “300”. Kidman recusou também, mais recentemente, um papel em “Ninfomaníaca”.

Em 2009, após a exibição de “Anticristo” no Festival de Cannes, mais tumulto. Ao ser questionado pela imprensa sobre a motivação para o longa, o diretor afirmou não precisar justificar nada, “eu faço filmes e este é fruto da vontade de Deus”, disse. O filme já havia provocado vaias e desconforto ao utilizar elementos como ejaculações sangrentas, mutilação genital e violência para contar a historia de pais que tentam superar a perda de seu filho, morto ao cair pela janela enquanto transavam. Trier confessou mais tarde ter sido terapêutico fazer “Anticristo”, ajuda indispensável para superar a depressão que enfrentava há dois anos. O filme é considerado pelo diretor a experiência profissional mais importante de sua carreira.

“Faço filmes para mim e vocês são apenas meus convidados”, completou.

LVT2Durante a estreia de “Melancolia”, na edição de 2011 do mesmo festival, a confusão começou ainda mais cedo. Ao posar para fotógrafos em sua chegada ao Festival international du film, o diretor trazia a palavra ‘Fuck’ tatuada no punho, prato cheio para a imprensa internacional reunida no evento. Mas o mais impressionante ainda estava por vir: durante a coletiva de imprensa do longa, ele diria as famosas palavras que o fizeram Persona non grata em Cannes. Ao comentar a influência da cultura germânica em sua vida, ele disse:

“Eu achava que era judeu, era muito feliz por isso. Mas aí descobri que era nazista, quer dizer, minha família era alemã. Eu entendo Hitler. Claro que ele fez algumas coisas erradas. Mas eu o compreendo.”

O diretor chegou a emitir mais tarde um pedido público de desculpas para a organização do festival, mas mesmo depois de ter suas desculpas aceitas, continua não sendo bem vindo.

O segundo volume de “Ninfomaníaca” tem data marcada para chegar ao Brasil em março e tudo indica que teremos mais algumas polêmicas do enfant terrible do cinema dinamarquês.

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Os indicados para o Oscar 2014 foram anunciados, mas apresentam um pouco menos de vida desta vez devido à falta de uma cor em específico. E não estamos falando do verde das telas que compõem os efeitos especiais ou do vermelho amplamente presente nos filmes de Quentin Tarantino, mas sim do azul, que como Abdellatif Kechiche mostrou, pode ser, sim, a cor mais quente.

Azul-é-a-cor-mais-quente-1Mesmo com sua adaptação fora da principal premiação cinematográfica do ano, desde que foi publicada em 2010, a HQ que deu origem a “Azul é a Cor Mais Quente” e conseguiu um grande número de troféus, incluindo o prêmio de público do Festival Internacional de Angoulême e o de melhor história em quadrinhos no Festival Internacional de Quadrinhos da Argélia, ambos em 2011. Além disso, outra prova do sucesso arrebatador da história é a quantidade de traduções para diversos idiomas, como inglês, alemão, espanhol, holandês, italiano e, no final de 2013, português.

Um projeto com cinco anos de desenvolvimento, a obra impressa não difere muito de seu longa derivado, à exceção do final e do nome da protagonista, no original Clémentine. Com um traço sofisticado e estilo bastante europeu, acompanhamos a personagem principal, uma adolescente, enfrentando as crises presentes durante esta fase da vida. Entre a insegurança e as novas descobertas, ela conhece Emma que, com seus cabelos azuis, aos poucos a encanta na medida que se estabelece uma relação de amor e aprendizado.

Dentro deste turbilhão de emoções que é a adolescência, as personagens são interessantes e retratadas em diversas dimensões, todas emocionalmente complexas. Mas apesar do clima de realismo, a autora, Julie Maroh, afirma que o enredo é completamente ficcional e não baseado em acontecimentos da sua vida.

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julie-marohAtualmente com 29 anos, a francesa natural do norte do país é formada em Artes com especialização em Artes Visuais e Quadrinhos. Assim como a protagonista de sua história, Maroh também é homossexual e participa ativamente em movimentos em prol dos direitos dos gays. “Azul é a Cor Mais Quente” foi seu primeiro trabalho publicado, mas ela já lançou seu segundo, em 2013, intitulado “Skandalon” (sem previsão de chegada ao Brasil), e já prepara o terceiro.

O filme não foi a escolha da França para representá-la no Oscar, por isso a obra precisou apelar para uma intensa campanha da IFC Films para entrar em outras categorias da premiação. Por alguma razão, a Academia achou que azul não concordava com o tapete vermelho do Oscar. Resta, apenas, nos encantarmos com uma obra prima em quadrinhos a ser lida e relida, por adolescentes assustados com as transformações das cores da vida e por aqueles que, depois dessa fase, conseguem enxergar todo o espectro.

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Mateus Almeida
 é professor de Ciências, mas encontrou seu caminho na sétima arte. Na busca por ele, passou pelo MI6, Terra Média e até por galáxias muito, muito distantes, tudo dentro de uma sala escura. Atualmente, também é estudante de Jornalismo e realizou cursos na área de cinema e crítica cinematográfica.