Programação inédita no Brasil, homenagem ao grande cineasta Sergio Leone e pré-estreias especiais são os destaques do V BIFF – Brasília International Film Festival, que acontece entre 4 e 13 de novembro, no Cine Brasília e no Cine Cultura Liberty Mall. Serão 16 filmes, entre ficções e documentários de longa-metragem nas mostras competitivas, seis títulos assinados por Leone na mostra especial, três animações para o público infantil, dois títulos em pré-estreia e um filme especial de encerramento. A evento começa com a participação especial da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro executando composições de Ennio Morricone para a trilha sonora do filme Por um Punhado de Dólares, de Sérgio Leone, que poderá ser visto em seguida, na Sessão de Abertura, no Cine Brasília.

Voltado para a produção de jovens realizadores, o BIFF vai apresentar, nas mostras competitivas, filmes inéditos no Brasil, produzidos entre 2015 e 2016, e que são a primeira ou até a terceira realização do diretor. Para esta quinta edição, os 16 filmes em competição foram selecionados de um total de 321 produções inscritas, de 40 países diferentes. Participaram da comissão de curadoria o crítico e jornalista Rodrigo Fonseca, o produtor, exibidor e diretor geral do BIFF Nilson Rodrigues, as produtoras Lorena Quintas, Scarlett Rocha e Rafaella Rezende, a jornalista e programadora Anna Karina de Carvalho e a cineasta Érika Bauer.

O festival irá distribuir três prêmios nas mostras competitivas. Caberá ao público eleger o Melhor Filme de Ficção e o Melhor Filme Documentário. E uma comissão formada por críticos de cinema elegerá o filme agraciado com o Prêmio da Crítica José Carlos Avellar, concedido pela primeira vez, como homenagem ao grande crítico carioca, falecido em março passado, que atuou como curador do BIFF em edições anteriores.

Os filmes em competição estão divididos em duas categorias: ficção e documentário. Estão na programação títulos produzidos na Turquia, França, Espanha, Brasil, Colômbia, México, Portugal, Israel, Irã, China, Paraguai, Itália, Polônia, Estados Unidos, Alemanha e Canadá. Dentre as ficções, há títulos assinados por jovens realizadores já com trajetória sólida e prestigiada no universo do cinema mundial. É o caso do turco Mehmet Can Mertoglu, que com seu primeiro longa-metragem, Album, conquistou sete prêmios em festivais importantes como Cannes, Sarajevo e Jerusalém. Também na mostra competitiva de ficção, a israelense Michal Vinik traz Barash – O Amor Bate à sua Porta, que recebeu os prêmios de primeiro lugar em festivais como Haifa e Milão. Ainda o polonês Tomasz Wasilewski com Estados Unidos pelo Amor, que detém, entre outros, o prêmio de melhor roteiro do Festival de Berlim; e o mexicano Marcelino Islas Hernandez, com o filme A Caridade, sua segunda experiência como diretor – a primeira, Martha, conquistou prêmios na Croácia e no México. Marcelino Islas Hernandez estará em Brasília para conversar com o público no sábado, dia 5 de novembro, após a exibição de seu filme, às 19h, no Cine Brasília.

Dentre os documentários, estão na competição filmes como Al Purdy Esteve Aqui, sobre a vida e a obra de um dos maiores poetas canadenses do século XX, que marca a estreia em longa-metragem do aclamado crítico e comentarista canadense Brian D. Johnson. Também Exercícios da Memória, recentíssimo filme da paraguaia Paz Encina, que com seu primeiro longa, Hamaca Paraguaya, exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, conquistou nada menos que o Prêmio FIPRESCI, concedido pelos críticos de cinema internacionais, além de prêmios em festivais de Lima, Miami, Rotterdam e São Paulo. E ainda o espanhol Ander Duque, diretor e compositor nascido em Barcelona, que traz o filme Zoe e conversa com a plateia no dia 11 de novembro, após a exibição do documentário, programado para as 19h, no Cine Brasília.

O V BIFF fará uma homenagem especial ao premiado diretor italiano Sergio Leone (1929-1989), conhecido como o criador do western spaghettio faroeste à italiana, que renovou o gênero western. A obra de Leone, que é inspiração confessa de diretores contemporâneos, como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, estará representada por seis títulos, dentre os mais conhecidos do realizador.

A mostra começa já no dia de abertura do festival, com a exibição do antológico Por um Punhado de Dólares, que apresenta o ator e diretor Clint Eastwood no começo da carreira e marca o início do que seria conhecida como a Trilogia dos Dólares de Leone. No filme, estão presentes os elementos que fizeram a fama do estilo de western à italiana, marcado por heróis solitários, sem nome, individualistas e meio sem escrúpulos, ou seja, sem o maniqueísmo dos títulos anteriores do gênero. A programação segue com os outros dois títulos da Trilogia dos Dólares: Por uns Dólares a Mais Três Homens em Conflito, ambos protagonizados por Clint Eastwood e Lee Van Cleef e considerados clássicos.

O público poderá ver também a chamada Trilogia Era uma vez, com os filmes que Sergio Leone ambientou na América: Era uma vez no Oeste, de 1968, com Cláudia Cardinalle, Henry Fonda e Charles Bronson, apontado por muitos como o melhor western já produzido; Quando Explode a Vingança (também conhecido como Quando Explode a Revolução), de 1971, sobre a Revolução Mexicana; e Era uma vez na América, um épico sobre a ação das máfias, lançado no Festival de Cannes de 1984 e vencedor do Globo de Ouro.

Para as crianças, o festival oferece a mostra Mundo Animado, com três títulos que poderão ser vistos por alunos das escolas públicas – através de agendamento – e pelo público em geral. Canção do Oceano é animação dirigida pelo irlandês Tomm Moore e com produção internacional que reuniu Bélgica, França, Dinamarca, Irlanda e Luxemburgo. Indicado ao Oscar de Melhor Animação em 2015, o longa apresenta uma história de aventura que recupera lendas antigas do povo celta.

Em Pinóquio, da alemã Anna Justice, está de volta uma das histórias mais amadas pelas crianças do mundo. A partir de um pedaço de madeira, o carpinteiro Geppetto constrói um boneco que ganha vida e escapa de casa para viver uma série de aventuras que incluem desde fugir com um circo até ser engolido por uma baleia. Essa vivência irá mostrar ao boneco as virtudes necessárias para se tornar um menino de verdade.

E ainda Mortadelo e Salaminho em Missão Inacreditável, uma divertida comédia em animação dirigida pelo espanhol Javier Fesser, que mostra como os atrapalhados detetives terão que fazer para conseguir prender o debochado vilão Jimmy Odoidão e recuperar o documento ultrassecreto roubada da agência de inteligência T.I.A. (Técnicos de Investigações Avançadas).

Além das exibições, o festival promoverá um curso de roteiro, ministrado pela cineasta argentina Maria Meira (premiada no Festival de Sundance pelo roteiro de La Mirada Invisible), e debates sobre os filmes, com a presença de realizadores e/ou dos curadores.

Na Sessão de Encerramento, exibição de Ma Ma, o mais novo filme do escritor e cineasta basco Julio Medem, o mesmo de Lucía e o Sexo (2010). Produzido em 2015, o filme é protagonizado pela atriz Penélope Cruz.

A programação completa do festival está disponível no site www.biffestival.com.

 

V BIFF – Brasília International Film Festival
Data: 4 a 13 de novembro
Local: Cine Brasília e Cine Cultura Liberty Mall
Ingressos: R$ 12,00 e R$ 6,00 (meia) – exceção para a Mostra Sergio Leone, com ingressos ao preço único de R$ 4,00

O mundo audiovisual parece embarcar definitivamente nas plataformas de distribuição de conteúdos, seja no “ao vivo”, como ocorreu no período das Olimpíadas Rio 2016, seja “por demanda”.

À medida que o consumo audiovisual vai se modificando e se consolidando na modalidade “por demanda”, as plataformas e aplicativos de oferta de conteúdo audiovisual vão se proliferando lado a lado com a oferta de canais de TV por assinatura lineares.

O audiovisual, num ritmo ainda mais acelerado que os outros consumos de informação, migrou rapidamente para o digital, impulsionado pela tecnologia; e caminha para as soluções on line. Vivemos “plugados” na tecnologia. Onde quer que estejamos, por exemplo, num vagão de metrô, o ser humano parece estar evoluindo para ter como extensão de um dos braços um smartphone.

Isso é posto e de conhecimento geral. Mas o que as plataformas de distribuição de conteúdo audiovisual podem contribuir com o “negócio” audiovisual? Quais as novidades para o ganho de escala e as novas oportunidades para a produção independente no Brasil?

Se dermos pequeno passo atrás no contexto da regulação do setor no Brasil, vamos observar que a Lei 12.485 tem seu nome original como Lei de Comunicação de Acesso Condicionado. Já preparando terreno para as regras específicas para o momento do Vídeo por Demanda, para além da TV por assinatura linear.

Como em qualquer indústria, um dos itens que garante competividade é o ganho de escala. Se, na TV por assinatura linear, a produção independente brasileira está cada vez mais presente com crescimento de três dígitos em quantidade, o que também responde por grandes audiências na programação dos canais, nas plataformas, essa mesma produção já recebe maior demanda e, inevitavelmente, impulsiona esse segmento das plataformas brasileiras, sobretudo as associadas ainda a grandes grupos de operadoras/empacotadoras.

É esse ganho que vai marcar uma nova fase nas plataformas. A do crescimento expressivo das produções inéditas brasileiras para a primeira janela (primeira exibição) das OTTs. No mesmo modelo das plataformas mundiais.

Independentemente das normativas de cotas que estão para ser anunciadas a qualquer momento pela ANCINE, para o segmento de Vídeo por Demanda, a evolução de produções inéditas brasileira para as plataformas é inevitável, diante da qualidade e do retorno de crítica, público e já de alguma renda para o tripé exibidor (plataforma), distribuidor/agregador e produtor.

Embarcar é preciso, no trem das plataformas, como “transporte” paralelo ao mundo da TV. O vagão da monetização e rentabilidade ainda está para ser preenchido.

Há ainda um longo caminho a percorrer na mudança de hábitos de consumo, mas a tecnologia existente já nos demonstrou que não há ponto de retorno para os conceitos de portabilidade e mobilidade.

Última chamada para a TV “em todo lugar” e “a todo momento”.Em nossas mãos.

 

Por Mauro Garcia, Presidente Executivo da BRAVI – Brasil Audiovisual Independente

A distribuição dos filmes brasileiros nas plataformas digitais está cada vez mais interligada com o próprio processo de produção e desde as primeiras negociações entre as produtoras e as distribuidoras. Os direitos de explorar a obra nas salas de cinema e nos ambientes voltados para os vídeos sob demanda (VOD) já entram na pauta inicial e acabam resultando no licenciamento que será efetivado anos depois, quando o filme já estiver pronto. Em alguns casos, a estreia nos cinemas e no VOD acontece simultaneamente, mas a maioria dos longas-metragens ainda segue o intervalo tradicional das janelas, embora esse período esteja cada vez mais curto. A Revista de CINEMA conversou com alguns produtores e distribuidores para saber a direção que eles estão tomando em meio a tantas transformações.

As primeiras experiências

A O2 Play, braço de distribuição da produtora O2 Filmes, foi criada em 2013 e, desde então, trabalha com as plataformas digitais no lançamento de seus filmes. Naquele mesmo ano, “Cidade Cinza”, de Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo, foi a primeira estreia da distribuidora nos cinemas e, logo depois, também no iTunes. No ano seguinte, o passo foi maior, com o projeto transmídia “Latitudes”, de Felipe Braga, e a estreia simultânea, nas salas e em VOD, do filme “Junho – O Mês que Abalou o Brasil”, de João Wainer, sobre as manifestações que ocuparam as ruas de todo o país.

“A experiência de fazer um day-and-date com o documentário foi muito interessante. O filme foi captado em junho de 2013 e lançado em junho de 2014, muito rápido do ponto de vista de produção”, analisa Igor Kupstas, diretor da O2 Play. A estreia concomitante de “Junho” permitiu que o longa-metragem chegasse não apenas aos cinemas das principais capitais, mas também a todas as cidades brasileiras e a mais de 90 países pelo iTunes, com legendas em inglês, espanhol, alemão e francês. As vendas para o exterior, inclusive, foram bem significativas. Segundo Kupstas, um terço do resultado do filme no digital veio de fora do Brasil.

Igor Kupstas (O2 Play): a distribuição digital permitiu alcançar as principais capitais brasileiras e o mercado internacional ao mesmo tempo

Em 2016, a distribuidora segue ampliando o seu catálogo e linhas de atuação. Além de ser uma agregadora do iTunes, entregando os filmes codificados para ficarem acessíveis na plataforma, a O2 Play inaugurou, em abril, o serviço especializado de curadoria, realizada pelo cineasta Fernando Meirelles, apostando na indicação dele para o melhor conteúdo disponível aos usuários. Outra frente nova da empresa são os selos de diretores nacionais no iTunes. O primeiro deles foi sobre a obra de Ugo Giorgetti, com um catálogo de 12 filmes, incluindo o mais recente “Uma Noite em Sampa”, que saiu há poucos meses das salas de cinema. Para este mês de setembro, está previsto o lançamento dos filmes de Toni Venturi, na mesma plataforma, e, mais adiante, a ideia é estender o projeto a diretores estreantes.

Neste ano, o iTunes também ganhou uma nova agregadora brasileira de conteúdo: a Elo Company. Distribuidora de filmes brasileiros e internacionais nas salas de cinema e em outras mídias, a empresa aposta no VOD há muitos anos e vem crescendo nessa disputa pelo espaço digital. Com a distribuição internacional de “O Menino e o Mundo” – animação que ganhou o principal prêmio do Festival de Annecy e foi indicado ao Oscar de Melhor Animação –, a Elo se confirmou como mais uma empresa importante nesse mercado e acredita no VOD como uma janela decisiva para os filmes brasileiros.

“O consumidor brasileiro realmente utiliza as mídias digitais. Além disso, a regulamentação deverá trazer maior segurança jurídica aos players e a entrada de novas empresas no país. Acredito que haverá uma enorme demanda de conteúdo nacional em VOD nos próximos anos, assim como ocorreu com a TV paga após a lei. A demanda será de volume de licenciamento e por obras originais”, aposta Sabrina Nudeliman Wagon, diretora executiva da Elo Company.

Novos modelos de negócios com a produção

Por enquanto, o lançamento de documentários em VOD são mais lucrativos quando comparados ao lançamento dos filmes de ficção, mas ainda “depende do perfil do filme”. E a estreia simultânea ainda não está nos planos imediatos de Sabrina. “Há, sim, uma diminuição de intervalo e a possibilidade de pré-venda em VOD quase simultaneamente ao cinema. Mas, em relação ao simultâneo, a própria Netflix teve dificuldades com este modelo”, compara ela.

O diretor presidente da distribuidora H2O, Sandro Rodrigues, aposta mais alto. Pela sua perspectiva, já em 2017, haverá um crescimento expressivo de estreias de filmes nacionais em salas de cinema e, ao mesmo tempo, em VOD. Ou até mesmo diretamente nas plataformas, principalmente, para os filmes de pequeno orçamento, que ele considera como “de nicho”. “Nós estamos nos planejando para isso e acho que vai mudar o mercado como um todo”, diz Rodrigues. Com isso, o catálogo de filmes nacionais também poderá ser maior na H2O a partir do próximo ano.

Sandro Rodrigues (H2O): a expectativa é que haverá um crescimento de estreia de filmes nacionais por VOD, em 2017

“O lançamento em VOD, principalmente de documentários, diminui muito o risco. A gente consegue lançar filmes que antes não eram possíveis, porque o PA [custos com a produção de cópias e materiais promocionais e de propaganda] acaba sendo muito menor”. Para filmes de grande orçamento, o cenário continuará no perfil mais tradicional, segundo Rodrigues. Como o investimento em blockbusters é muito maior, ainda é “fundamental o lançamento nas salas de cinema” e o desempenho desses filmes na tela grande também continuará decisivo para o sucesso ou o fracasso nas vendas transacionais nas plataformas, como no iTunes, Google Play, Net Now.

A H2O surgiu em 2012 e, desde então, diversifica o seu catálogo nacional com filmes de todos os tamanhos. O mais recente é a comédia “Vai que Cola”, dirigido por César Rodrigues e estrelado por Paulo Gustavo. Nos cinemas, o filme vendeu 3.307.837 de ingressos, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine). Também em 2015, a distribuidora lançou o documentário “Cássia Eller”, de Paulo Henrique Fontenelle, que levou 75.133 pessoas aos cinemas, o que é um ótimo público quando comparado a outros filmes de ficção e documentário também lançados no circuito, inclusive pela própria H2O: “Hoje” (2014), de Tata Amaral e estrelado por Denise Fraga e César Trancoso, teve 7.525 espectadores.

“‘Cássia Eller’ também foi muito bem no VOD. O que só comprova que os filmes de nicho, menores, são os que acabam tendo um rendimento maior nas plataformas, que tem uma cauda longa e onde nós encontramos o público”, diz Rodrigues.

Lucrativo para os produtores

Rodrigo Letier, da produtora TV Zero, concorda com Rodrigues e reforça a importância do VOD para o escoamento dos seus filmes, principalmente os menores. O primeiro caso de sucesso e que chamou a atenção da produtora para o rendimento nas plataformas foi de “Serra Pelada – A Lenda da Montanha de Ouro”, documentário de Victor Lopes. O filme estreou nas salas de cinema quando a série da TV Globo, “Serra Pelada”, adaptada do filme de Heitor Dhalia, estava justamente sendo exibida. “O documentário ficou pouquinho no cinema e logo depois entrou no Canal Brasil, no Net Now e no iTunes. Foi um baita sucesso, vendeu muito e a gente ganhou um bom dinheiro. Havia um interesse das pessoas que estavam vendo a ficção na TV Globo e elas começaram a se interessar também pelo nosso filme. Percebemos que o VOD era um nicho interessante para circular os nossos filmes”, relata Letier.

Para os filmes menores, especialmente documentários, a própria TV Zero acaba disponibilizando nas plataformas, inclusive no seu próprio site. Mas quando o filme é maior e tem uma distribuidora grande atuando em conjunto, o processo é mais tradicional. Em meados de agosto, o longa de ficção “Nise – O Coração da Loucura”, de Roberto Berliner, ainda estava em cartaz em raras sessões nos cinemas de São Paulo, mas também já estava disponibilizado no iTunes, Google Play e Net Now, e acabou aproveitando o boca-a-boca positivo do filme para conquistar esse novo público.

Para o produtor, a receita em plataformas transacionais (TVOD) acaba sendo a última que sobra, assim como ocorre no cinema, depois de pagar a porcentagem de todos os agentes envolvidos. Ou seja, a cada venda ou aluguel do filme, o valor é dividido entre a plataforma, o distribuidor e o produtor. Quanto mais plataformas o filme estiver disponível, simultaneamente, melhor para o produtor. No caso de plataformas por assinatura, conhecidas como SVOD, a exemplo do Netflix, o valor de pré-venda é fixo e concede o direito de exibição para a empresa em um determinado período e território de exploração.

No futuro, Letier não descarta lançar documentários e longas de ficção diretamente em VOD. “Sempre pensamos no VOD com carinho e continuaremos pensando. É um dos lugares que, dependendo do filme, é onde é mais visto”.

Paula Cosenza (Bossa Nova Films): afirma que o VOD vem somar com as receitas das salas de cinema

A produtora Paula Cosenza, da Bossa Nova Films, também é entusiasta das plataformas digitais, mas não vê uma transformação tão radical do mercado. “Muitas vezes, você tem melhores números no VOD do que com o cinema”, conta ela, porém não é uma regra e “depende do conteúdo”.

“Tem pessoas que vão ao cinema e tem pessoas que não vão. Um filme sempre pode ser visto numa sala de cinema. É como se fossem públicos diferentes, não quer dizer que aquele filme vai para o VOD porque ele não é bom para o cinema. É o público que varia, não é o filme”. Para Paula, o aconselhável é que o intervalo entre as janelas seja encurtado, mas não que um vá substituir o outro, ou que a produtora abrirá mão de lançar os filmes nas salas. Até porque um gera o burburinho para o outro.

“Você não precisa necessariamente recuperar o PA do distribuidor só no cinema, você recupera em todas as janelas. O VOD soma e, definitivamente, é uma receita bastante importante para nós também. É uma das maiores receitas dentre as várias janelas do filme”, conclui ela.

 

Por Belisa Figueiró

A Lei 12.485, de setembro de 2011, mais conhecida como Lei da TV Paga, abriu portas para a produção independente e alavancou o mercado audiovisual de tal forma que os canais e as empresas tiveram que se adequar rapidamente à demanda de conteúdo e ao público que começou a assistir e a esperar por novos formatos e temporadas de séries brasileiras. Para os realizadores de pequenas e médias produtoras, o desafio é ainda muito maior, até porque eles não querem ficar de fora desta nova possibilidade de ampliar o seu próprio plano de negócios. Mas como emplacar um bom projeto para canais cada vez mais exigentes e em um cenário de forte concorrência?

Para as grandes produtoras, a prática da produção de séries está em uma fase um pouco menos inicial, com alguma experiência mais consolidada nesses últimos cinco anos. Contudo, para os pequenos, o caminho está sendo delineado e os recursos estão cada vez mais acessíveis para eles. Segundo Mauro Garcia, presidente da BRAVI – Brasil Audiovisual Independente (antiga ABPITV), hoje, a entidade tem 617 empresas associadas, sendo que os novos ingressos são majoritariamente de pequenas e médias produtoras, as quais já são atuantes e estão em um primeiro nível de captação no Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

O próprio fundo vem se afirmando como uma fonte importantíssima de fomento, não apenas para as produtoras de maior porte, mas inclusive para quem está dando os primeiros passos, e esta é uma orientação recorrente da BRAVI para os novatos. Em primeiro lugar, Garcia reforça que, antes de desenhar qualquer esboço de projeto, é preciso estudar os editais e fazer uma autoanálise para identificar em qual estágio a produtora se encontra. Começar pelas linhas de desenvolvimento de projetos ou núcleos criativos do FSA, por exemplo, é um ótimo ponto de partida, até porque exigem menos dos iniciantes.

Para Mauro Garcia, presidente executivo da BRAVI, as linhas para o desenvolvimento de projetos são um passo importante, até para amadurecer o projeto

“As linhas para o desenvolvimento de projetos são um passo importante, até para amadurecer o projeto e só depois concorrer nas linhas de produção. Tem uma outra, a dos núcleos criativos, que eu gosto muito. Esses núcleos permitem desenvolver uma cartela mista de cinco projetos, no período de um ano. Com isso, os pequenos têm a chance de trabalhar com bons líderes e consultores, sem precisar de capital próprio. Você amadurece a sua estrutura criativa, de produção executiva e de plano de negócios, e a exigência depois é que dois desses projetos consigam ser viabilizados por contratação de canais”, explica Garcia.

Os projetos dos núcleos criativos podem ser de diferentes gêneros e formatos, para TV e cinema, e acabam englobando muitos interesses de diferentes produtores, que podem trabalhar em parceria e cujas ideias podem ser incubadas por produtoras maiores até ficarem prontas e melhor resolvidas em um intervalo maior. Com isso, Garcia também alerta que o produtor pequeno ainda acaba ganhando tempo para organizar a estrutura da sua própria empresa, levando em consideração aspectos para além do ambiente artístico.

“Não dá mais para fazer tudo sozinho, ser o criativo e o responsável por prestar contas. Não vai dar certo. As exigências estão grandes e o tempo dedicado a cada uma dessas etapas é igualmente grande. Você tem que ter estrutura administrativa, uma arquitetura de orçamento para ver a composição financeira de várias fontes diferentes, públicas ou privadas, para financiar o seu projeto. Tem que ter alguém pensando nessa arquitetura econômico-financeira. Cada vez mais, a prestação de contas e os controles estão mais rigorosos. A parte criativa não é mais suficiente para dar conta disso”.

Aproximação com os canais

Embora o percurso mais natural seja o passo a passo para estruturar os projetos e as produtoras, a BRAVI lembra que não é “impeditivo” para os pequenos e médios se lançarem diretamente nas linhas de fomento de produção e abordarem os diretores dos canais de TV com suas ideias. Inclusive, o próprio RioContentMarket – encontro internacional de produtores independentes que ocorre sempre no mês de março, no Rio de Janeiro, organizado pela entidade –, estimula isso e oferece oficinas, laboratórios e eventos, justamente para aproximar esses agentes e encorajar novos negócios.

Além dos grandes canais internacionais, o evento convida os representantes de canais brasileiros que têm a produção independente no seu DNA e estão em busca de projetos interessantes. Dentre eles, Garcia menciona o Curta! e o CINEBRASiLTV. “Eu diria que esses canais têm um papel fundamental para esse primeiro negócio, a primeira série, essa primeira oportunidade, principalmente, para as pequenas produtoras. Eles trabalham as séries até com menor expectativa comercial e é um aprendizado importante. São parceiros do produtor na curadoria e na formatação do projeto. Os grandes canais já não teriam essa paciência”, acredita ele. Canais internacionais “trabalham com produtoras maiores que eles já conhecem, até porque querem ter certeza da entrega”.

CASES DE PRODUTOS DIFERENTES

Taquaras, Tambores e Violas

Hidalgo Romero acabou trilhando esse caminho. Formado em arquitetura, entrou para o audiovisual e realizou a sua primeira série depois de dirigir o curta-metragem “Acontecências”, que foi selecionado para grandes festivais, como o International Documentary Film Festival Amsterdam (IDFA), em 2009, e o É Tudo Verdade, em 2010. O projeto de “Taquaras, Tambores e Violas” já tinha um primeiro esboço quando surgiu a oportunidade de apresentá-lo ao CINEBRASiLTV. O canal estava recebendo propostas de projetos de documentários ou séries documentais produzidos com recursos do FSA e a ideia de Romero foi aceita.

“Taquaras, Tambores e Violas”, seriado da produtora Laboratório Cisco para o canal CINEBRASiLTV

A série de 13 episódios se dedica a olhar e registrar as manifestações populares brasileiras a partir da fabricação de seus instrumentos musicais. Foi realizada durante oito meses, com recursos do PRODAV 01 do FSA. Inicialmente, a ideia era reunir a cultura popular brasileira com a música e tentar traduzir esse universo em uma linguagem audiovisual. Para estabelecer o recorte final, o projeto passou por um “pitching interno” do coletivo Laboratório Cisco e a proposta final levou alguns meses para se concretizar em textos, imagens e estrutura orçamentária.

“Depois de apresentar a ideia ao diretor do canal, começamos uma frutífera conversa, no sentido de adequarmos a minha proposta a um formato televisivo que viesse ao encontro do perfil do CINEBRASiLTV. Ele foi um grande colaborador e parceiro em todo o processo de elaboração do projeto, e mesmo na realização”, conta Romero.

Para cada um dos 13 episódios, a série apresentava um novo instrumento musical, com suas técnicas e fabricação, em cidades e povoados de cinco Estados, lugares nem sempre de fácil acesso. A pesquisa de pré-produção foi extensa e minuciosa, considerando muitas variáveis que poderiam comprometer o andamento do projeto. A filmagem, no entanto, foi “tranquila” e apontava para as inúmeras possibilidades que se abriam diante da riqueza do tema, segundo Romero. Mas nem tudo foi tão orgânico e fluido nesse processo. Os problemas começaram na montagem, na hora de adequar o resultado final ao formato do canal.

Para Hidalgo Romero, a parceria com o canal foi fundamental para o desenvolvimento final do seriado

“Quando cheguei à ilha de edição, o material bruto era enorme. Tive uma dificuldade imensa em fechar uma edição de 26 minutos”. Ao entregar a primeira cópia e receber um retorno nem tão positivo, Romero teve que voltar para a montagem e entendeu que ali nascia mais uma nova etapa. “Nunca havia pensado na linguagem televisiva do ponto de vista do realizador. Havia pensado apenas como receptor, como público. A primeira coisa que percebi é que não existe exatamente uma única linguagem televisiva. Depende do perfil do exibidor, do público alvo, do assunto que se trata e até do horário em que será exibida a série. Acabei aprendendo como normalmente se aprende: com acertos e erros”.

Em retrospecto, ao comparar a dinâmica da TV com o cinema, Romero conclui que “produzir conteúdo para a televisão é completamente diferente de fazer documentário para salas de cinema” e que “o aspecto mais importante nessa transição foi com relação à narrativa”. No projeto inicial, ele não tinha “sequer considerado ter narração” na edição. Mas, como o público de televisão é mais diverso, foi sendo convencido de que era melhor não deixar as coisas não ditas, o que talvez resultasse num desinteresse do espectador nem tão habituado à linguagem mais subliminar. Aos poucos, foi incluindo o texto de forma inclusive poética e usando mapas ilustrativos. Para dar conta de uma edição mais rápida e intensa do que um curta-metragem, Romero também percebeu que os episódios, embora criativos, precisavam entrar numa linha de montagem para honrar a entrega no prazo. “Correção de cor, mixagem, desenho de som, legendas, arte gráfica, vinhetas, tudo acaba sendo feito em série”, define ele.

302

Da mesma forma que havia uma certa demanda inicial do CINEBRASiLTV percebida por Romero, David Butter encontrou uma oportunidade “difícil de se repetir” por meio do Canal Brasil. Eles procuravam programas voltados para o público feminino, quando Butter estava justamente buscando algum canal que se interessasse por “302”. O projeto é uma transposição do trabalho do fotógrafo Jorge Bispo para o audiovisual, com ensaios de nus de mulheres que queriam posar para suas lentes, dentro de um apartamento. Em 26 episódios, de 10 a 12 minutos, a série conta a história dessas pessoas que, no passado, foram clicadas no “Apartamento 302”.

A série “302”, de David Butter, que explora o corpo feminino e se encaixou no perfil do Canal Brasil

A aproximação com o Canal Brasil se deu em 2013, durante um pitching, dentro da programação do I Workshop de Produção Independente do Mercado de TV, apoiado pela Riofilme. Daquela apresentação, começaram as negociações e, em abril de 2014, ocorreram as filmagens. Segundo Butter, desde a primeira conversa, o canal ajudou a avançar no conceito, a pensar no formato, na duração dos episódios, em quantos depoimentos colocariam em cada um deles e onde seriam as locações. A série foi financiada com recursos do canal, sem verba do FSA.

David Butter encontrou uma oportunidade para vender sua série ,“difícil de se repetir”, por meio do Canal Brasil

“O maior desafio foi transmitir à série o espírito do projeto original. Para transformar em TV, fomos atrás de pistas oferecidas pelo próprio processo de produção”. Uma das participantes, descreve Butter, teria perguntado ao fotógrafo se ele não gostaria de saber por que elas tinham interesse em posar naquele apartamento. No caso dela, “o ato de posar fechava um lento ciclo de aceitação, iniciado lá atrás, a partir de um incidente de violência sexual. Presumimos, então, que todas tinham e teriam uma história para contar”.

Mais Amor por Favor

André Amparo teve um caminho diferente. Antes de desenhar o projeto da série ficcional “Mais Amor por Favor”, ele conseguiu emplacar a primeira série, ainda inédita, em um canal internacional, mas ainda não pode contar detalhes em função das cláusulas de confidencialidade. A sua trajetória também é mais ampla. Além das séries, ele é diretor de documentários de longa-metragem, tem mais de dez curtas no currículo, além de trabalhos ligados à videoarte e videoinstalações.

“Minha trajetória é mais ligada às artes eletrônicas do que ao cinema. Sou da turma do vídeo. Agora as coisas estão todas mais misturadas e estou achando tudo interessante, tudo virou audiovisual, artes visuais. Sou, na verdade, um grande curioso, tudo me interessa e tento preservar ao máximo esse interesse pelo que é novo e diferente do que já conheço”, descreve ele.

O cineasta André Amparo, reconhecido por seus curtas experimentais premiados, emplacou sua primeira série em um grande canal internacional

“Mais Amor por Favor” está nascendo aos poucos e agora segue na fase de estruturação dos 13 episódios de 26 minutos, financiados com recursos do PRODAV 11 do FSA. A série tem temática relacionada à desmistificação de questões de gênero, relacionamento e sexualidade do público jovem. No centro da trama, será apresentada a história de dois jovens irmãos do interior de Minas Gerais que vão morar na casa da avó, em Belo Horizonte, após um deles causar problemas na cidade em que viviam. Em 2017, ocorrerão as filmagens e a montagem, e a exibição será nos canais da EBC – Empresa Brasil de Comunicações, seguindo a exclusividade inicial prevista no edital.

Cozinhando no Supermercado

Com um perfil mais voltado para a televisão, e uma larga experiência na produção de programas, curtas, médias e longas-metragens, Amadeu Alban conseguiu emplacar a primeira série da sua produtora já para um canal internacional: o Discovery Home Health. A Movioca foi fundada em 2012 e, em 2015, deu esse salto para as séries com a produção de “Cozinhando no Supermercado”. Segundo Alban, o projeto surgiu após algumas conversas com a gerente de conteúdo, ligada a marcas do canal, e também de uma demanda do supermercado Pão de Açúcar, que queria criar uma série de TV alinhada à identidade da marca deles.

“Cozinhando no Supermercado”, série de Amadeu Alban, criada sob demanda de um patrocinador

O projeto acabou virando uma coprodução entre a Movioca, o Discovery Home Health e também com a participação da produtora Floresta, que “já tinha experiência em realities”. Sendo assim, o propósito era pensar em um reality de competição culinária, totalmente filmado dentro do supermercado, em pleno funcionamento, com todos os produtos acessíveis. O desafio, portanto, não era pequeno. Mas o produtor contou com o apoio não só do canal, mas do próprio patrocinador, que disponibilizou especialistas em carnes, queijos, vinhos e pescados para participar dos episódios.

“Essa novidade gerou muitas dúvidas do ponto de vista de produção. Tínhamos que filmar com grua, cinco câmeras, uma equipe de produção, participantes competindo em meio a gôndolas, cenografar uma cozinha no mercado, lidar com o público passante e coletar a opinião dos clientes na hora, degustando os pratos dos concorrentes”, relata Alban.

Segundo Amadeu Alban, o seriado “Cozinhando no Supermercado” surgiu de uma parceria com o canal e o patrocinador

O projeto deu certo e o formato já está em negociação para emissoras regionais de TV aberta no Brasil e também com possibilidades no exterior. Na Argentina, a distribuição está a cargo da SmileHood, que já está negociando a venda para Buenos Aires e outros mercados internacionais. A segunda temporada já foi filmada e está prevista para estrear agora em setembro.

 

Ainda neste segundo semestre, a segunda temporada de “Taquaras, Tambores e Violas” também deve ser lançada. O caminho desses produtores, portanto, já foi traçado. É sentar e assistir o que virá por aí.

 

Por Belisa Figueiró

Operação Condor – Verdade Inconclusa, documentário do cineasta e historiador Cleonildo Cruz, percorre os países envolvidos –Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Bolívia, Paraguai e Perú – para buscar documentos, relatos, ouvir familiares e vítimas sobreviventes das torturas do que foi a Operação Condor.

A Operação Condor é descortinada no documentário. É revelado que, mesmo antes da formalização, em 25 de novembro de 1975, os aparatos repressivos dos regimes militares do cone sul já eram interligados, relações bilaterais nas trocas de informações entre os aparatos repressivos dos regimes militares, intercâmbio de informações pelas embaixadas, realização de operações de prisão, tortura e troca de prisioneiros.

O filme teve lançamento em Santiago do Chile, no Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, e no Senado Federal do Chile, voltando a ser projetado em fevereiro de 2016, como dos mais aplaudidos no Cine de Colección. Depois das pré-estreias em São Paulo, em 6 de julho pela Spcine, e em Belo Horizonte, pela Secretaria de Direitos Humanos, no dia 24 de agosto, o documentário será lançado nas salas do CEU Butantã (01/11), CCSP Paulo Emílio (04/11), como sessões do projeto Encontros com Cineastas, realizado em parceria pela Revista de CINEMA e a Spcine. Já em Porto Alegre, a exibição será na sala Paulo Amorim, no Espaço Cultural Mario Quintana, no dia 22 de novembro, e em dezembro, no Uruguai.

Após cada sessão, o diretor conversa com o público sobre a obra, a história que ela conta e o processo do filme.