Revelando os mistérios da arte da animação, “História Antes de uma História”, que levou 13 anos para ser concluída, chega aos cinemas de São Paulo no dia 16 de março, pelo CineSesc, e fica em cartaz até o dia 22. A animação é o primeiro longa-metragem de Wilson Lazaretti, que há mais de 40 anos se dedica a essa arte.

Com codistribuição da Spcine, empresa de desenvolvimento do audiovisual da Prefeitura de São Paulo, a animação apresenta a trajetória de Dr. K, um velho senhor que gosta muito de caminhar. No decorrer de uma de suas andanças, acaba encontrando vários objetos que o ajudarão a desvendar os grandes mistérios da técnica da animação. Como um desenho animado aprende a “andar”? O que acontece quando uma personagem é criada sem um coração? O que animar primeiro: um ovo ou uma galinha?

Em 78 minutos, Dr. K mergulha no mágico mundo da animação, ao lado do menino Matias, da menina Laurinha e da galinha Melodia, que vão conhecer e experimentar na prática as diversas etapas e instrumentos necessários para dar vida a uma história. A trilha traz canções nas vozes de Elza Soares, que interpreta duas músicas da Feiticeira, Ná Ozetti, que faz a voz da Folha Branca, e inúmeras referências a grandes compositores clássicos como Bizet, Bach, e Carlos Gomes, entre outros.

Concluído em 2014, o filme de Lazaretti foi exibido no Brasil somente em algumas sessões especiais, mas passou por festivais de países como Portugal, Croácia, Grécia, Argentina, França e Cuba.

As sessões de “História Antes de uma História” acontecem em cinco CEUs (Centro Educacional Unificado) – Meninos (16/3), Aricanduva (16/03), São Rafael (22/3), Feitiço da Vila (23/3) e Perus (29/3). Todas as sessões começam às 16h e são gratuitas. Ao fim de cada sessão, haverá oficinas com monitores do Núcleo de Cinema de Animação de Campinas, com alguns brinquedos ópticos, como o zootroscópio, que faz parte da pré-história do cinema e também é apresentado no filme.

Os corredores do espaço de convenções do Windsor Barra Hotel, no Rio de Janeiro, ficaram lotados durante o RioContentMarket, que recebeu 3.700 participantes, de 8 a 10 de março. O ânimo dos produtores independentes e a resiliência de um mercado que não se deixou afetar pela turbulência da economia brasileira ficaram evidentes.

A sétima edição do RioContentMarket, que se consolidou como o maior mercado audiovisual da América Latina, somou 1.281 projetos audiovisuais apresentados e 1.421 reuniões nas Rodadas de Negócios, 20% mais do que no ano anterior. O número de patrocinadores e expositores cresceu 54%, e também houve aumento significativo na quantidade de players e keynote speakers: em 2016, foram 197 players contra os 269 dessa edição, e 28 keynote speakers no ano passado contra 37 nesse ano.

O evento recebeu players de 30 países, como Alemanha, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Coreia do Sul, Dinamarca, Estados Unidos, Inglaterra, México, Reino Unido e Rússia. Cinco delegações internacionais também vieram ao evento: Argentina, Canadá, França, Chile e Paraguai, as duas últimas pela primeira vez, o que reforçou os laços entre o Brasil e países latino-americanos. Executivos de canais como Telefe, Caracol, TV Azteca e Señal Colombia, bem como de produtoras como a Zumbastico Studios (Chile), vieram ao Rio de Janeiro com o objetivo de desenvolver coproduções. Players de 24 Estados brasileiros também compareceram às Rodadas de Negócios, incluindo as delegações de Ceará, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Nomes de peso no mercado participaram como palestrantes, a exemplo de John Dahl (ESPN Films), produtor-executivo do documentário OJ: Made in America, vencedor do Oscar 2017; Marie Jacobson, vice-presidente-executiva de Programação e Produção da Sony Pictures Networks; Alex Hirsch, criador e produtor da animação Gravity Falls; Michelle Satter, diretora do Programa de Longas-Metragens do Sundance Institute; Zola Mashariki, diretora de Programação Original da BET (Black Enternainment Television), e John Singleton, diretor de Boyz n the Hood (Os Donos da Rua) e de episódios das séries Empire, Billions e American Crime Story – The People v. O.J. Simpson.

Além de falar em um painel, Singleton participou da cerimônia de abertura, no dia 7 de março, ao lado da atriz Danielle Moné Truitt, protagonista da série americana Rebel, que teve sua première mundial realizada no RioContentMarket. A série, com foco na comunidade afrodescendente dos Estados Unidos, foi escolhida para abrir o evento por dialogar com tema da representatividade negra no setor audiovisual, fio condutor do RioContentMarket nesse ano.

Os atores Lázaro Ramos e Camila Pitanga foram os anfitriões da noite de abertura, que recebeu e homenageou artistas negros do cinema, da TV e do teatro brasileiro, como Ruth de Souza, Antonio Pitanga, Elisa Lucinda, Maria Ceiça, Cris Vianna, Adélia Sampaio, Jefferson De e Luís Miranda.

A representatividade negra no setor também permeou toda a programação do RioContentMarket. Mais de 50 afrobrasileiros do mercado audiovisual falaram em painéis e participaram das Rodadas de Negócios.

Acordos internacionais

A Brasil Audiovisual Independente e a Associação de Produtores Independentes de Televisão (APIT), de Portugal, assinaram durante o evento acordo de cooperação para potencializar as oportunidades de coprodução entre seus associados. O intuito é atuar conjuntamente em busca da ampliação do acordo de cooperação entre os governos do Brasil e de Portugal, que atualmente é válido apenas para cinema, a projetos voltados à TV e a outras plataformas do audiovisual.

No campo governamental, a Ancine também celebrou protocolo de cooperação com o Centre National du Cinéma et de l’Image Animée (CNC), da França. O documento marca o lançamento de uma parceria estratégica entre os órgãos, que inclui troca de informação e intercâmbio de agentes. O objetivo principal é a expansão, assim que possível, dos acordos de coprodução para a área audiovisual, em busca de novos incentivos a projetos independentes produzidos em conjunto pelos dois países.

O Festival Visões Periféricas, que acontece entre os dias 4 e 11 de setembro, está com as inscrições abertas até 16 de abril, pelo site www.visoesperifericas.org.br. Ao longo de seus dez anos ininterruptos, o festival estimulou o surgimento, crescimento e conexão de projetos de produção e difusão audiovisual espalhados pelo Rio de Janeiro e Estados do país.

O Visões Periféricas integra a seguintes mostras competitivas em caráter permanente: Visorama (filmes produzidos por alunos de oficinas, escolas livres e projetos de formação em audiovisual de todo o país); Fronteiras Imaginárias (filmes produzidos por realizadores independentes e coletivos de audiovisual de diferentes Estados do Brasil); Cinema da Gema (panorama de filmes realizados por diretores cariocas e fluminenses); Tudojuntoemisturado (filmes de até 5 minutos exibidos e votados exclusivamente na internet). O festival também possui uma mostra informativa, a Panorâmica (filmes com duração de pelo menos 40 minutos).

Ouviu-se muito suspiro de romantismo na projeção de “Fala Comigo”, de Felipe Sholl, no último Festival do Rio, como reação à love story entre um adolescente e uma quarentona de ímpetos suicidas. Mas ninguém esperava que o primeiro longa-metragem do premiado diretor de curtas, como “Tá” (prêmio Teddy em Berlim, em 2008), fosse conquistar o prêmio de melhor filme na Première Brasil. Na entrevista a seguir, o jovem diretor carioca fala das escolhas estéticas que fizeram dele uma referência de boa dramaturgia em nosso cinema.

Revista de CINEMA: que te tipo de cinema você busca fazer em relação à sexualidade?

Felipe Sholl: “Fala Comigo” aborda as neuroses existenciais deste nosso tempo. A sexualidade tem sido um tema recorrente nos meus filmes. No meu primeiro curta “Tá”, eu brinco com a ideia de que às vezes é mais fácil fazer uma série de coisas sexuais mais “avançadas” (masturbação, dedo no cu, sexo oral), do que dar um simples beijo na boca. A intimidade é o mais difícil, é o que os personagens do curta têm mais dificuldade em falar sobre. Acho que isso tem muito a ver com as neuroses do nosso tempo. No “Fala Comigo”, eu volto a falar de sexualidade num mote parecido com esse. Os dois personagens do longa se conhecem, porque ele, um garoto de 17 anos, tem o hábito de ligar para mulheres desconhecidas e bater punheta ouvindo-as ao telefone. Aqui, eu queria brincar com a ideia de que hoje em dia é cada vez mais fácil entrar em contato com outras pessoas, mas tenho a impressão de que é também cada vez mais difícil que esse contato se aprofunde. Então, eu quis contar uma história de amor que começa dessa maneira inusitada, mas se torna de fato uma história de amor. Eu estou escrevendo um roteiro agora, com o título de trabalho “Gloria”, que também usa a sexualidade para falar um pouco sobre o nosso tempo.

“Tá”, primeiro curta de Felipe Sholl, que também aborda o tema da sexualidade, foi premiado com o Teddy Award do Festival de Berlim, em 2008

Como é a abordagem para o sexo nesse novo projeto?

Sholl: É a história de um antropólogo de vinte e poucos anos que se muda para o Rio para fazer um estudo etnográfico sobre profissionais do sexo e vai morar entre a região da Glória (onde ficam as travestis) e da Cinelândia (onde ficam os garotos de programa). No processo de estudar os profissionais do sexo, ele vai acabar se envolvendo cada vez mais nesse mundo. Desta vez, vou usar a sexualidade para falar de temas importantes, como o comércio sexual e como ele está presente mesmo em relações de não prostituição, HIV, visibilidade dos trabalhadores do sexo e das pessoas trans, e da chegada à idade adulta.

Qual é o seu olhar sobre a juventude?

Sholl: Esse tema da juventude também tem sido muito importante pra mim. No “Fala Comigo”, eu falo de um adolescente querendo sair da casa dos pais. No “Gloria”, agora, eu tenho um jovem adulto que chega no Rio com uma situação econômica confortável, sendo bancado pela família, mas, de repente, por causa de uma morte na família, ele tem que se sustentar sozinho.

Em “Fala Comigo”, o tema da sexualidade está presente na história entre um adolescente e uma mulher de 40 anos © Bruno Mello

Na classe cinematográfica brasileira, seu nome é um sinônimo de roteiro eficiente. Que problemas você vê no roteiro do cinema brasileiro hoje?  

Sholl: Acho que antigamente se falava muito sobre a falta de roteiristas profissionais no Brasil. Os produtores reclamavam muito disso, mas, ao mesmo tempo, não se pagava aos roteiristas um cachê de profissional e você criava um círculo vicioso, em que os roteiristas eram obrigados a manter outras ocupações pra se sustentarem por causa do cachê baixo, e isso os impedia de se dedicar exclusivamente ao roteiro. Nunca faltaram bons roteiristas no Brasil. Mas isso tem melhorado bastante. Acho que, hoje em dia, já tem várias pessoas que vivem, principalmente, do trabalho de roteirista (como é o meu caso), e os cachês têm melhorado, com a consolidação dos editais de desenvolvimento e a consciência por parte dos produtores de que é preciso investir nessa etapa do filme (ou do produto audiovisual). Temos muitos bons cursos e laboratórios de roteiro, e isso tem contribuído também para a profissionalização e formação dos roteiristas no mercado.

Como você vê a conexão do seu cinema com a cultura LGBT? 

Sholl: Eu sempre me interessei pelo cinema LGBT, não só por eu ser gay, mas também porque é um universo muito rico. Meu primeiro curta ganhou o Teddy Award, um prêmio LGBT do Festival de Berlim, e isso marcou muito profundamente a minha carreira. No “Fala Comigo”, existe uma trama LGBT, que, apesar de ter pouco tempo de tela, é uma história que eu gosto muito, porque gosto de subverter expectativas. Eu tenho dois projetos como diretor no momento. Um deles é o “Gloria”, que eu mencionei, um roteiro que eu estou escrevendo agora. Esse filme mergulha de cabeça no mundo LGBT. Pra mim, vai ser uma experiência ótima voltar a colocar esses temas no primeiro plano. O outro projeto se chama “Vozes” (também é um título de trabalho), e é um roteiro da Carolina Castro, e uma coprodução entre a minha produtora, a Syndrome, e a Migdal, a ser dirigido por mim. É um multiplot, a história de seis personagens em 24 horas no Rio de Janeiro. E nós acabamos de decidir que um dos personagens vai ser LGBT.

No Festival do Rio, o desempenho de Karine Teles, laureada com o troféu Redentor, levantou a hipótese de coautoria entre vocês. Como foi a troca com Karine?

Sholl: Eu já era amigo da Karine há um tempo, e era fã dela, principalmente, depois que assisti “Riscado”. Tinha essa vontade de trabalhar com ela, mas quando eu comecei a escrever o “Fala Comigo”, ela era nova demais para o papel. Como foi um filme que demorou dez anos para acontecer, entre o tempo que eu precisei para me considerar pronto (o “Fala Comigo” foi meu roteiro de fim de curso na Darcy Ribeiro, numa época em que eu queria ser só roteirista, e foi por causa dele que eu decidi me tornar diretor), e o tempo de captação, a Karine acabou ficando com uma idade mais próxima da personagem. Acabei tornando a personagem mais nova para poder fazer com ela. Eu lembro que a coisa que sempre mais me chamou atenção nela era a força do olhar dela. No “Riscado”, tem várias cenas (uma em particular) em que temos closes dela, e, sem falar nada, ela expressa muito com o olhar. Eu aproveitei isso bastante no “Fala Comigo”. Mas vai além disso, claro.

A atriz Karine Teles, em cena de “Fala Comigo”: personagem depressivo que se transforma em alvo das taras de um garoto © Bruno Mello

Vai aonde?

Sholl: Longe… Eu lembro de ter lido num texto sobre atuação que as duas qualidades mais importantes num ator são a verdade que ele traz para o personagem e a capacidade de surpreender. E a Karine tem muito dessas duas coisas. Ela é capaz de trazer coisas para a personagem que eu, mesmo convivendo com ela no roteiro por dez anos, não tinha imaginado. Tudo o que ela faz, ela faz por inteiro, se joga de cabeça.

 

Por Rodrigo Fonseca

Em uma passagem do livro “O Escritor Fantasma”, o romancista Philip Roth aproveita a ficção para um acerto de contas. Seu alter ego, o promissor Nathan Zuckerman, sempre teve o apoio familiar com a publicação de seus primeiros contos. Até escrever uma história de sua própria família judaica. Uma história que envolve mesquinharia, sentimentos tóxicos, baixezas e traições de sangue. O pai de Zuckerman o repreende carinhosamente, aconselhando a não publicar o conto para não inflamar o antissemitismo. Ao se recusar a atender o pai, Zuckerman recebe uma carta impecavelmente redigida por Leopold Wapter, um juiz judeu que é referência moral para a comunidade. Em defesa da não publicação, Wapter argumenta: “Que conjunto de valores o faz pensar que o desprezível é mais válido que o respeitável; e o chulo, mais verdadeiro que o sublime?”

Não é por acaso que Roth avalia a literatura pela ótica de um juiz. Em todas as épocas, uma espécie de função moralizante das narrativas esteve sob vigilância e julgamento. Basta lembrar o tribunal de Madame Bovary.

Hoje é consenso que levar uma personagem literária ao banco dos réus é despropositado. No entanto, o julgamento moral da ficção nunca cessou de existir. Uma de suas formas mais presentes é curiosa: exige-se das narrativas que ela cumpra funções como salvar o mundo, levantar bandeiras, corrigir injustiças, melhorar a sociedade, fazer o bem.

Trata-se de uma forma sofisticada de moralismo. Uma espécie de repressão esclarecida, de censura iluminista. Uma atualização do decrépito realismo socialista, que só admitia a arte para orientar o povo aos propósitos da revolução.

As palavras de um músico no livro “Fabián e o Caos”, de Pedro Juan Gutiérrez, tratam dessa exigência artística na Cuba ditatorial, mas continuam tendo validade:

“A arte é tensão. E escuridão. E esses dois elementos nascem do mistério. A substância essencial da arte é o mistério. Atualmente, querem que a arte sirva à política e dizem que a arte é uma arma do povo. Isso é um verdadeiro disparate. Não vão conseguir nada. A arte é um organismo independente. O mais puro e mais perfeito que a humanidade inventou. A arte não tem explicação porque é um mistério. É evanescente. Não se pode tocar, não se pode usar, não se pode explicar”.

Deste ponto de vista, para que serve a arte? Para nada. A quem ela serve? À ninguém. Só essa liberdade absoluta confere à arte seu poder de representar a complexidade e sutileza da experiência humana. Arte como exploração, não como preceito.

“Em uma era politizada, onde todos estão presos pela estreiteza da ideologia, poucas pessoas realmente acreditam que a arte oferece o espaço contemplativo necessário para nos puxar de volta do domínio da ação, a fim de nos mandar de volta mais sábios e mais plenamente humanos”, observa Gregory Wolfe em seu livro “A Beleza Salvará o Mundo”. O título é uma máxima de Dostoievski. Mas qual é o poder redentor da beleza? Na leitura de T. S. Eliot, é a capacidade de “enxergar além tanto da beleza quanto da feiura; ver o tédio, o horror, a glória”. Aí reside, na visão do poeta, a vantagem essencial de um escritor: “não ter um mundo maravilhoso com que lidar”.

Essa intuição foi compartilhada por tantos outros criadores de mundos imaginários. Milan Kundera defende que a imoralidade do romance é a sua moral, e que sua maior proeza é a criação de um campo imaginário em que o julgamento moral fica suspenso. Para Flannery O’Connor, o escritor está mais interessado no que não compreendemos do que naquilo que entendemos.

Em tempos onde ser “do bem” é um valor para ser divulgado, é preciso ter desconfiança com a arte limpinha. Segundo o romancista Jonathan Franzen, parte do trabalho do escritor é arrumar encrenca. Não por acaso, foi o que ele conseguiu com seu último romance, que tem o significativo título de “Pureza”. No tribunal crítico dos salvadores da humanidade, o romance tem personagens muito desequilibrados.

Quando uma criança problema chega em casa toda suja de lama, é frequente a mãe reclamar que ela só faz arte. Talvez essa seja uma ilustração razoável do fazer artístico. Criar é se sujar na lama, não o garoto que mantém a gola da camisa impecável.

 

Por Ricardo Tiezzi, escritor e professor