Com a nova lei da TV por assinatura, que obriga os canais a exibirem uma quota de produção independente brasileira, o mercado de animação no Brasil, que há dez anos era quase todo voltado ao cinema, ganha fôlego e abre espaço para animadores também em diferentes regiões do país. Exatamente há dez anos, a produção para televisão começava a conquistar seus primeiros espaços, quando foram lançadas séries como “Peixonauta”, “Escola pra Cachorro” e “Meu AmigãoZão”. Em seguida, vieram as séries “Tromba Trem” e “Carrapatos e Catapultas”. “Antes disso, a produção de TV no Brasil era apenas para o mercado publicitário. Alguns curtas e 20 longas-metragens em quase 100 anos de história”, lembra Arnaldo Galvão, um dos primeiros animadores brasileiros e um dos fundadores da Associação Brasileira de Cinema de Animação (ABCA).

Esses dados são referências para o que está acontecendo no momento, com uma força dos recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para a produção independente. “O sucesso que estamos vendo com ‘Historietas Assombradas’, ‘Osmar, a Primeira Fatia do Pão de Forma’, ‘O Irmão do Jorel’ ou o ‘Show da Luna!’ é a ponta de movimento que vem forte por aí”, diz Galvão, lembrando que cada uma dessas séries emprega pelo menos 40 pessoas diretamente e gera mais cerca de 100 empregos indiretos, com potencial de venda para mais de 200 territórios. “As variáveis para consolidar esses dados sobre o mercado são um trabalho de fôlego”, argumenta o animador sobre a falta de números consolidados.

Os desafios dos realizadores regionais

Com o crescimento do mercado, muitas empresas estão se estruturando e apostando no retorno financeiro. Um exemplo é a produtora pernambucana Mr Plot, realizadora da série “Mundo Bita”, exibido pelo Discovery Kids, que iniciou suas produções com recursos próprios. “Não contamos com financiamento público nem temos como sócios fundos de investimento para viabilizar a produção dos nossos trabalhos. É uma eterna busca pela sustentabilidade”, diz João Henrique Souza, sócio da Mr Plot. Após um ano investindo em livros digitais e aplicativos educativos, ele e os sócios migraram para o audiovisual por questões mercadológicas. Os aplicativos, apesar de bem sucedidos, não rentabilizavam o esperado.

“Mundo Bita”, produção pernambucana da Mr Plot, exibida pelo Discovery Kids

Em 2014, a empresa lançou, oficialmente, a licença “Mundo Bita”, através da agência de licenciamento Tycoon 360, uma saída para aproximar a marca dos fãs e ajudar na sustentabilidade do projeto. E já são vários segmentos fechados, como brinquedos musicais, artigos de festas, higiene oral, mochilas e material escolar. “Há algo superpositivo nisso tudo: somos independentes e, apesar de ser o caminho mais difícil, podemos garantir a liberdade do conteúdo. Fazemos o que sabemos que é mais legal e educativo para as crianças”, defende Souza.

A produtora gaúcha Cartunaria também teve inicialmente como uma das principais dificuldades a falta de recursos, especialmente, para investir em capacitação e networking. “Criar laços dentro da indústria faz toda a diferença, mas como estamos no sul do país e tudo fica mais difícil e caro daqui, acabamos levando mais tempo do que outros projetos e produtores que estavam mais bem localizados, geográfica e economicamente falando”, conta o sócio da produtora, Guto Bozzetti. Junto com Lizandro Santos, ele criou a série “X-Coração”, exibida pelo Disney XD e TV Brasil.

Guto Bozzetti: “criar laços dentro da indústria faz toda a diferença, mas como estamos no sul do país e tudo fica mais difícil e caro daqui, acabamos levando mais tempo do que outros projetos e produtores que estavam mais bem localizados geográfica e economicamente falando”.

O projeto foi desenvolvido em coprodução com uma produtora canadense e inscrito no FSA em 2010, na linha PRODAV 01. O orçamento aprovado foi de R$ 800 mil, cerca de 60% do que foi solicitado. Com os contratos de licença e coprodução – que a TV Brasil ofereceu posteriormente –, os produtores conseguiram chegar a R$ 1,1 milhão, mas ainda R$ 200 mil abaixo do custo previsto. Outra questão foi que o edital exigia um pré-contrato de licenciamento com alguma emissora de TV como parte da documentação obrigatória do projeto, mas a série trata de personagens “loosers”. “Muitas TVs ainda estavam se pautando nas regras de narrativas americanas, onde o herói tem que necessariamente se dar bem em termos econômicos, de popularidade etc. A nossa ideia era a de contar o que realmente acontece quando alguém quer entrar para o showbizz e tudo pelo que tem que passar. Interessava-nos as histórias daqueles que, apesar de muito talento, merecimento, esforço, não atingiam o estrelato, mas que de alguma forma aprendiam algo muito mais valioso pelo caminho”, explica Bozzetti. A TV Brasil, no entanto, gostou da ideia.

Criação de Guto Bozzetti e Lizandro Santos, da produtora gaúcha Cartunaria, a animação “X-Coração” está na programação dos canais Disney XD e TV Brasil

Apesar do crescimento do mercado de animação, o setor ainda está em formação, e a falta de mão de obra qualificada pode ser um problema, como aponta Ale McHaddo, CEO e diretor criativo da produtora paulista 44Toons. Para suprir a demanda do mercado, a produtora começou um projeto de workshops voltados para a área. A 44Toons foi responsável pela primeira animação produzida no Brasil para o canal Gloob, “Osmar, a Primeira Fatia do Pão de Forma”, e a TV Cultura tem a primeira licença de exibição em televisão aberta. A série conseguiu investimento de R$ 1 milhão do FSA para cada temporada, além dos recursos dos coprodutores (Gloob e 44Toons).

A produtora de McHaddo também coproduziu, com a Fundação Padre Anchieta, a série “Nilba e os Desastronautas”, destinada primeiramente à TV Ra-Tim-Bum!. Neste caso, o projeto foi inteiramente financiado pelos coprodutores, sem qualquer uso de leis de incentivo ou fundos de investimento.

Canais reconhecem qualidade das animações brasileiras

Da grade do Cartoon Network, hoje, 15% é composta por produções nacionais, inclusive no horário nobre. São oito produções nacionais no ar: “Irmão do Jorel”, “Turma da Mônica”, “Historietas Assombradas para Crianças Malcriadas”, “Sítio do Picapau Amarelo”, “Carrapatos e Catapultas”, “Tromba Trem”, “Experimentos Extraordinários” e “Gui Estopa”. Alguns projetos chegam por intermédio de processo de seleção no site da Turner, outros participam de pit-chings, e alguns o canal busca. “Sempre investimos em propriedades que atendam ao nosso padrão mundial de qualidade”, diz Daniela Vieira, diretora de conteúdo do Cartoon Network. “As produções brasileiras do canal são competitivas com as produções americanas dos estúdios do Cartoon Network. Para entrar na programação do canal, a série precisa ter o DNA de diversão e irreverência do Cartoon Network, além de personagens únicos e engraçados.”

“O Irmão de Jorel”, exibida no Cartoon Network, é produzida pelo Copa Estúdios

Algumas das séries são aquisições, outras são coproduções, a exemplo dos novos episódios de “Turma da Mônica”, realizados em parceria com Mauricio de Sousa Produções. No caso de “Irmão do Jorel”, o canal fez a curadoria e a série foi produzida pelo Copa Estúdios. Daniela explica que toda a programação passa por uma avaliação muito rígida de qualidade e só vão ao ar produções que realmente seguem o DNA do canal. Com um portfólio diversificado e personagens únicos, a marca vem se consolidando no mercado brasileiro de licenciamento. São ao todo 11 propriedades licenciadas, 2.500 produtos, em 12 categorias, em parceria com mais de 60 empresas líderes do mercado em seus segmentos.

Para Adriano Schmid, diretor de produção do Discovery Networks Latin America, trabalhar com animação só é economicamente sustentável se for produção em grande escala e pensada para ser comercializada globalmente. A grade do Discovery Kids é composta por séries, filmes e cápsulas em animação e live-action. Dos cinco programas mais assistidos no canal, quatro são animações, sendo duas brasileiras: “Meu AmigãoZão”, coproduzido com a 2DLab; e “O Show da Luna!”, coproduzido com a TV Pinguim. “O conteúdo de animação é mais versátil e não há limites para a criatividade. Podemos mostrar inúmeros mundos e temas diferentes por meio de linguagens 2D, 3D ou stop motion. Dessa forma, estimulamos e impactamos os telespectadores de maneira distinta e diversificada.”

Prestes a lançar uma nova animação brasileira, “Tronquinho e Pão de Queijo”, em parceria com a Gava, o Gloob tem uma linha editorial bem definida: busca programas com o humor muito presente e, sempre que possível, com elementos de aventura. “Procuramos sempre por estéticas e técnicas de animação o mais diversificadas possível, com programas que se diferenciem uns dos outros. Isso é importante para proporcionar às crianças um leque mais amplo de conteúdos”, conta Paula Taborda, gerente de conteúdo e programação do canal.

“Tronquinho e Pão de Queijo” é uma série que surgiu da parceria da produtora Gava com o canal Gloob

Segundo Paula, a possibilidade de trabalhar com diferentes estéticas é um dos aspectos mais interessantes da animação, além de sua linguagem universal e caráter atemporal. O canal costuma participar das pesquisas de conteúdo, avalia a concepção das artes da animação e todos os roteiros. “A parceria funciona muito bem, pois as produtoras estão sempre abertas a receber nossos inputs, de modo que nossa participação acaba sendo bem ativa. Estamos presentes em todos os processos de produção. Temos uma grande participação financeira também, mas a quantidade varia de programa a programa. Inclusive, quando o canal não fornece todo o orçamento necessário para a obra, colaboramos com as produtoras na busca por incentivos financeiros”, diz Paula.

Jimmy Leroy, vice-presidente criativo do Nickelodeon na América Latina, conta que animação foi a primeira opção do canal. Faz parte de sua política investir no gênero. “As animações demoram mais tempo para serem produzidas, mas têm mais tempo de vida no ar”, argumenta, e completa que três critérios são utilizados na seleção de projetos: roteiro original, desenhos avançados e mais interessantes do que o que já é exibido, e custo equilibrado dentro do preço de mercado. “Participamos de eventos que reúnem produtores, escritores e roteiristas, onde acontecem trocas de informações, sugestões de roteiros. Há também interessados que enviam material diretamente para o canal e que são avaliados por uma equipe especializada. Quando a produção é Nickelodeon, o envolvimento na produção é total. Interferimos diretamente no roteiro, analisamos custos, mediamos todo o processo seguindo as regras e características do canal.”

TVE Bahia é exemplo de investimento em animação

Em novembro, entra no ar a primeira série de animação totalmente produzida na Bahia. Coprodução da Liberato Produções com a TVE Bahia, “A Turma do Xaxado” tem 26 episódios de um minuto cada. Além dessa, estão em andamento outras três: “Bill, o Touro”, da Origem Comunicação, “A Natureza do Homem”, da Inspirar Ideias, e “Tadinha”, da Truque Vídeo e Origem Comunicação. Segundo o diretor-geral do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), José Araripe Jr., esse incremento na produção local só está sendo possível graças às linhas e aos mecanismos de apoio abertos com o Programa Brasil de Todas as Telas, da Ancine, com recursos do FSA. “Além das chamadas públicas, como foi o caso do Edital 02/2104, lançado pelo IRDEB em parceria com a Ancine, no qual 11 produtoras baianas foram contempladas”, conta.

A TVE Bahia estreou, em novembro, a série “A Turma do Xaxado”, totalmente produzida no Estado

Em “Turma do Xaxado”, o IRDEB aportou R$ 26 mil, a título de licenciamento da obra. No caso de “Tadinha”, foram R$ 225 mil, também para licenciamento. Os valores recebidos para produção das obras, via FSA, foram de R$ 270 mil e R$ 1,2 milhão, respectivamente. “Tadinha”, cujo valor total ficou em R$ 1,65 milhão, também recebeu aporte do Fundo de Cultura da Bahia. “A TVE tem uma tradição em considerar a animação uma forma artística que merece destaque. Sempre foi uma marca da emissora, a exibição de séries de produção e coprodução própria de interprogramas animados por artistas baianos. Estas narrativas baseadas em HQ local, ou histórias originais de maior fôlego, significam a maturidade do mercado se consolidando de forma concreta. Os estúdios estão se organizando para a regularidade de produção”, afirma Araripe Jr.

José Araripe Jr., da TVE Bahia: “Sempre foi uma marca da emissora a exibição de séries de produção e coprodução própria de interprogramas animados por artistas baianos”.

A “cauda longa” no licenciamento de marcas

O valor total de produção de uma temporada da série “Meu AmigãoZão” é de aproximadamente US$ 5,5 milhões, segundo Andrés Lieban, sócio da 2DLab. São 52 episódios de 11 minutos, cerca de 570 minutos de animação e uma estrutura de produção de mais de 100 pessoas envolvidas ao longo de dois anos. Metade dos recursos foi captada no Canadá (entre a Treehouse e fundos para audiovisual) e a outra metade no Brasil, com recursos combinados do Discovery Kids, TV Brasil, FSA e financiamento do BNDES.

Além dos produtos licenciados, “Meu AmigãoZão” – que segue para sua terceira temporada – tem canal no Youtube, página no Facebook, já virou espetáculo de teatro, eventos em shoppings e tem um longa-metragem para cinema em processo de produção. “Animação é um negócio de cauda longa. Não é lucrativo se visto num período curto de tempo. Exige um investimento inicial elevado e um risco significativo –, por isso, é importante associar-se a diferentes players para garantir que a sua ideia tem potencial comercial”, ensina Lieban. Para ele, os maiores desafios são justamente gerenciar um grande capital de giro e formar mão de obra especializada. “Depois de uma série produzida, é preciso gerenciar e fazer manutenção do branding dos seus personagens, que podem gerar receitas ao longo de muito tempo, em diferentes escalas”, lembra.

Após ter estreado na TV Brasil, em abril de 2014, a série adolescente “Zica e os Camaleões” foi licenciada e transmitida pelo Nickelodeon Brasil e América Latina e virou livro de contos “escrito” pela personagem, game, CD, longa-metragem e produtos licenciados. “A audiência hoje está conectada em diversas plataformas e gosta de acessar seus assuntos de interesse em todas elas. Quando um personagem trafega por muitas plataformas (digitais ou analógicas) através de animação, games, aplicativos, redes sociais, música ou livros, HQ etc., ele não só engaja mais os fãs, como também rentabiliza mais o projeto, trazendo mais retorno para os detentores da propriedade intelectual”, afirma Sérgio Lopes, da Conteúdos Diversos, coprodutora da série com a Cinema Animadores.

O formato transmídia, ele acredita, será o grande alavancador de resultados para as séries, podendo superar o licenciamento clássico. “Estamos indo para o MipCom (no início de outubro) com um pocketshow da Zica (interpretado pela cantora que faz a voz da personagem nas músicas da série) para apresentar para o mercado internacional o que é a base de uma série de shows que deveremos fazer em 2016 para lançar o CD da Zica. É um negócio paralelo à série, mas que do ponto de vista dos fãs é uma possibilidade de experenciar suas músicas”, conta. E completa: quando uma série acontece em diversos países e tem bons dados de audiência, torna-se lucrativa, mas na média ainda é um negócio que do ponto de vista das produtoras se desenvolve na dependência de editais.

Sócio-diretor da Mixer, Hugo Janeba acredita que o licenciamento só funciona quando os personagens já têm visibilidade. No Brasil, para ele, esse mercado ainda tem muito o que alcançar, e uma das necessidades é que as produtoras consigam criar dentro de suas estruturas uma área exclusiva para cuidar desse tipo de ação. “É preciso foco interno das produtoras nesse sentido, porque se trata de desenvolvimento e gerência de produtos que não são audiovisuais”, aponta – no caso dos canais, isso costuma ser mais viável: o Nickelodeon, por exemplo, tem um departamento interno que cuida de todos os licenciamentos da marca e seus personagens.

A Mixer é responsável por transformar em animação o clássico da literatura brasileira “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, em coprodução com a Rede Globo e exibida também pelo Cartoon Network, além de “Escola pra Cachorro”, coproduzida com a Cité-Amerique (Canadá), veiculada no Brasil pelo Nickelodeon e também pela TV Cultura. Mas tem em seu portfólio uma grande diversidade de outros produtos para televisão. Segundo Janeba, a principal diferença entre produzir uma animação e outros projetos para TV é que, em termos de produção, animação é mais difícil, mais trabalhosa e mais demorada. “Qualquer projeto de animação prevê um tempo maior de produção do que outros formatos. Como gestão do projeto, é necessário um tempo maior entre uma aprovação e o produto final. Dramaturgicamente, porém, as questões são as mesmas que qualquer outro formato”, pontua, lembrando que, no caso de animação, o licenciamento fica muito mais viável.

Hugo Janeba, da Mixer: “Qualquer projeto de animação prevê um tempo maior de produção do que outros formatos. Como gestão do projeto, é necessário um tempo maior entre uma aprovação e o produto final”.

A batalha pelo retorno financeiro

A animação é um dos mercados audiovisuais mais lucrativos, mas necessita de planejamento e composição de receitas, e o mais importante de tudo, que o projeto seja bem aceito pelo público. Para Janeba, a produção é muito trabalhosa, demorada, precisa de um acompanhamento muito próximo da gestão e consome muitos recursos. “Para ser um negócio grande, depende de outras receitas. Além disso, como qualquer bom negócio, precisa de escala para crescer e ter interesse internacional. Para fazer sucesso lá fora, tem que ter 52 episódios, para conseguir licenciamento, tem que ter boas audiências. Mas a história mostra que dá para fazer”, conclui.

Guto Bozzetti, da Cartunaria, tem outra percepção: “varia de acordo com o mercado econômico, como todo negócio comercial, mas é lucrativo”, diz. Para ele, o que precisa ser lembrado é que hoje existe um mercado de animação no Brasil. “Você pode criar um projeto, seja de curta, longa, telefilme ou série e vai poder produzi-lo e exibi-lo integralmente no Brasil e vendê-lo para o mundo inteiro sem ter que sair de casa, além de manter o direito patrimonial da sua criação. Mas você também pode só querer ser um animador, um intervalador, um artista de clean-up etc., e não vai mais precisar sair do país para realizar seu sonho. Não vai mais precisar trabalhar em agências de publicidade enquanto faz seus desenhos como hobby. Essa é uma realidade que mudou em muito pouco tempo e que está tão consolidada que nem parece que há pouco mais de 10 anos era piada falar em viver de animação no Brasil”, lembra.

Em busca do gosto da criançada

A grande novidade hoje, para Galvão, são as plataformas digitais que possibilitam assistir filmes ou todos os episódios da série de uma vez só, enterrando o conceito centenário de horário nobre (prime time), a exemplo do Netflix. “Apimentando essa liberdade de escolha, começam a surgir experiências ainda mais interativas que devem fazer os criadores, roteiristas e produtores jogarem fora os manuais. Mas a pergunta básica que continua é: quem paga a primeira conta?”, questiona.

“Osmar, a Primeira Fatia do Pão de Forma”, produção brasileira da 44Toons, é exibida no canal Gloob

O gerente de projetos da TV Cultura, Ivan Isola, que coordena os projetos de cultura multiplataforma, acredita que o mercado de animação está se expandindo, exatamente, porque a cauda longa alcançou também as plataformas digitais, como os tablets e smartphones, gerando também novos hábitos de acesso a esse conteúdo “televisivo”. Isola afirma que, no Brasil, o índice de crianças que sempre assistem a desenhos animados é de 99%, 75% consideram assistir a conteúdos de TV e vídeo sua atividade preferida de entretenimento e 60% preferem assistir a desenhos na TV, sendo que 70% assistem durante mais de duas horas por dia, enquanto 18% passam mais de cinco horas por dia diante da TV.

“Novas mídias e dispositivos têm permitido o acesso a esses conteúdos de vários novos lugares e 63% das crianças brasileiras já possuem tablets próprios. O Brasil é o país com maior índice de crianças que sempre utilizam a TV para assistir a conteúdos de TV e vídeo: 82% contra 67% da média global”, numera.

 

Por Mônica Herculano

A Associação Cultural Kinoforum iniciará mais uma Oficina Kinoforum de Realização Audiovisual Módulo II para as áreas técnicas, dentro do projeto Cinemação, realizado em parceria com a Prefeitura de São Paulo, através da Secretaria Municipal de Cultura. O Cinemação é uma ação expandida do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo e a Oficina Módulo II é uma possibilidade de experiências, oferecidas gratuitamente.

Poderão se inscrever pessoas com idade entre 16 a 30 anos, que já tenham participado de alguma oficina audiovisual e possuam conhecimento básico, incluindo os participantes das Oficinas Kinoforum Módulo I.

As vagas são para as seguintes áreas: Direção (6 vagas), Produção (9 vagas), Fotografia (6 vagas), Som (3 vagas) e Edição (6 vagas). As inscrições vão até 10 de janeiro, através do site www.projetocinemacao.blogspot.com.br.

“Reza a Lenda”, filme que marca a estreia de Homero Olivetto na direção e que estreia no próximo dia 21 de janeiro, é um “ovni” no cinema brasileiro. Ou seja, um longa-metragem de ação, que soma referências como “Mad Max” e “Easy Rider”, com pitadas dos épicos de Sergio Leoni, ao “nordestern”. Ou seja, aos filmes de aventura protagonizados por bando de cangaceiro.

O longa, que soma esforços da produtora de Homero, da Imagem e Globo Filmes, reuniu elenco estelar. Cauã Reymond é o protagonista e contracena com Sophie Charlotte (com visual masculinizado), Humberto Martins, Luísa Arraes, Júlio Andrade e Sílvia Buarque. Três atores nordestinos dão marca especial a “Reza a Lenda”. O pernambucano Jesuíta Barbosa, tão frágil em muitos filmes, incorpora uma espécie de “Rambo do agreste” e manda ver com armamento pesadíssimo. Os paraibanos Zezita Matos e Nanego Lira, ela, irmã de Everaldo Pontes, ele, integrante do Clã dos Lira (com Soya, Buda, Bertrand), desempenham papéis fundamentais em dois tempos da trama (durante a infância do protagonista, e em sua fase rebelde-armado-até-os-dentes, de cangaceiro primitivo-futurista).

Durante coletiva de imprensa na manhã desta quarta-feira, dia 8 de dezembro, em São Paulo, Cauã Reymond se fez passar por mestre de cerimônia dos mais divertidos, comandando o meio de campo para que as outras estrelas do elenco brilhassem. Tarimbado no trato com jornalistas, ele deu um show de animação e bom-humor. Quando Humberto Martins entrou, atrasado, na sala da coletiva, ele o saudou: ”Chegou o nosso Tom Lee Jones”.

Alguém perguntou a Sophie Charlotte se ela entrara no filme primeiro como produtora, ou como atriz. Ela respondeu: “como atriz” (ela e Cauã Reymond são coprodutores do filme). Aí, Cauã aparteou: ”quem produziu este filme, para valer, quem fez chover no sertão, foi Bianca Villar, a quem peço que se levante e receba uma salva de palmas”. E completou: “Bianca e Kiki Lavigne, que está conosco, toda chique, de saia!!!!”. E Homero Olivetto acrescentou: “(Kiki) é minha mulher”. Aí, Cauã lembrou que, além de ator, é produtor e sócio de Mário Canivello. E que os dois estão preparando um filme sobre Dom Pedro I.

O protagonista de “Reza a Lenda” lembrou também os filmes que já coproduziu: ”E se Nada Mais Der Certo”, “Alemão” (ambos de José Eduardo Belmonte) e Tim Maia, de Mauro Lima. “Coproduzir” – assegurou – “é bom, porque a gente pode opinar, ler o roteiro desde o primeiro tratamento, trocar ideias”.

Aí, Homero Olivetto revelou algo raro: “Um dos produtores do filme, Abrahão, da Imagem, fez algo que não é comum. Quando sugeriram que atenuássemos cenas violentas, ele foi o primeiro a defender a permanência delas”.

No final da conversa, Cauã provocou: ”No ‘Reza a Lenda 2′, vou ter que enfrentar o Marcinho, filho do Teodoro (o coronel interpretado por Humberto Martins)”.

Ele já tinha brincado com o ator, que garantira aceitar qualquer papel em “Reza a Lenda”, mesmo que não tivesse o destaque do terrível (e religioso) coronel Teodoro.

Cauã zoou: “até a Laura, personagem da Luísa (Arraes)?

– “Aí não, né?”, rebateu Humberto Martins.

A Revista de CINEMA dirigiu três perguntas a Homero Olivetto:

Revista de CINEMA – O filme, que você roteirizou com Newton Cannito e Patrícia Andrade, mistura cangaço e “Mad Max”, seca e misticismo. O que, nele, parece ter a ver com sua geração é o tratamento dado à narrativa: muito veloz, com mescla de gêneros e muitas referências. O que o levou ao tema nordestino e ao universo do cangaço?

Homero Olivetto – Parte da minha família é sergipana. Cresci ouvindo histórias de cangaceiros de meu avô, a quem dedico o filme (José Medeiros). Quando estudava Filosofia, na Bahia, há 20 anos, escrevi o conto que deu origem ao filme. Só em 2006 vim a transformá-lo no primeiro tratamento do roteiro.

Revista de CINEMA – Você não temeu escalar Jesuíta Barbosa, ator de muitos papeis delicados, fragéis, até femininos, para interpretar uma espécie de “Rambo do agreste”?

Homero Olivetto – De jeito nenhum. O Jesuíta é um ator incrível. Não tinha dúvida, não temia nenhuma fragilidade dele. Ele tem uma força interna e uma alma inquieta, características aliás de todos os atores do filme. Há um vulcão dentro de todos eles.

Revista de CINEMA  Gostaria que você falasse da escalação de dois atores que admiro muito: os paraibanos Zezita Matos e Nanego Lira.

Homero Olivetto – Confesso que conhecia pouco o trabalho deles. Mas o pouco que vi me encantou. Eu queria atores que tivessem, como eu disse, um vulcão dentro deles. Que se entregassem aos personagens. Que saíssem da zona de conforto.

 

Assista ao teaser do filme aqui.

 

Por Maria do Rosário Caetano

Nove longas-metragens compõem a mostra principal do X Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro, que este ano se dará em novo cenário, o circuito Cinépolis, de 10 a 16 de dezembro. Na abertura, teremos a première paraibana de “Chatô”, o polêmico filme de Guilherme Fontes, e, no encerramento, outra première paraibana, a de “Chico, Artista Brasileiro”, de Miguel Faria Jr. Sete títulos oriundos de diversas geografias e projetos estéticos compõem a mostra competitiva e, portanto, disputarão o Troféu Aruanda. Há filmes dirigidos por jovens realizadores e por cineastas experimentados.

O time jovem forma-se com a pernambucana Caroline Oliveira (“Invólucro”), o paranaense Aly Muritiba (“Para minha Amada Morta”) e o baiano João Gabriel (“Travessia”). No time dos mais experientes, estão os mestres Walter Lima Jr. (“Através da Sombra”), Júlio Bressane (“Garoto”) e Walter Carvalho (“Um Filme de Cinema”). No meio de campo, Roberto Berliner (“Nise, o Coração da Loucura”).

A Paraíba está inscrita na história dos dois Walter e de Júlio Bressane. Walter Carvalho aqui nasceu e aqui iniciou o projeto de “Um Filme de Cinema”, registrando imagens das ruínas de uma tristemente abandonada (e ocupada por caixas de marimbondos) sala de projeção. Uma sala que, outrora, proporcionara grandes alegrias a seus espectadores. Da Paraíba, Walter partiu para o mundo, interessado em sequenciar esta história de gente louca por cinema, como Bela Tarr, Ruy Guerra, Ken Loach, Jia Zhang-Ke, Lucrécia Martel, Gus van Sant, o próprio Bressane, Karim Ainouz e outros.

O filme de Walter Lima Jr. que será apresentado nesta décima edição do Fest Aruanda é “Através da Sombra”. Trata-se de narrativa de suspense, que recria o conto “A Volta do Parafuso”, do escritor Henry James (1843-1916). A atriz pernambucana Virgínia Cavendish (de “O Auto da Compadecida”, de Guel Arraes) é a alma do filme. Ela o produziu, em parceria com Maria Dulce Saldanha, e protagonizou, ao lado de grandes atores como Ana Lúcia Torre e Domingos Montagner. Walter garante ter construído “um filme mais de assombros, que de terror”. A história do ficcionista norte-americano foi transposta para uma fazenda de café no Estado do Rio.

O fluminense Walter Lima Jr. iniciou sua carreira de diretor na Paraíba, com o tocante “Menino de Engenho” (1965). Na equipe, participava um jovem carioca, de 17 ou 18 anos, chamado Júlio Bressane. O futuro diretor de “O Anjo Nasceu” e “Filme de Amor” estabeleceria, naquele momento, profunda relação com a terra de Augusto dos Anjos. Em especial, com o Lajedo do Pai Mateus, cenário de “São Jerônimo”, filme protagonizado pelo paraibano (de Pilar) Everaldo Pontes. Agora, Bressane volta ao Lajedo para ambientar a terceira parte de “Garoto”, um dos quatro filmes do projeto Tela Brilhadora (realizados, além de Bressane, pelos diretores Bruno Sáfadi, Rodrigo Lima e Moa Batsow).

A Paraíba marca presença, também, no elenco do denso e desafiador “Para minha Amada Morta”, do paranaense (nascido na Bahia) Aly Muritiba. Uma das protagonistas do filme é a atriz paraibana Mayana Neiva, que interpreta uma dona de casa evangélica e contracena com Fernando Alves Pinto e Lorinelson Vladmir. O filme vem fazendo carreira notável em festivais internacionais e no Brasil. A estreia de Muritiba – diretor do longa documental “A Gente”, sobre agentes penitenciários – na ficção é realmente digna de todas as atenções.

De Pernambuco, chega o documentário “Invólucro”, de Caroline Oliveira. Neste filme, duas paraibanas, a despachada Dudha, e a modelo Isabella Tucci, se somam à dermatologista niteroiense (nascida em Olinda) Astrid para compor instigante retrato da relação da mulher com seu corpo. Dudha já entrou nos anos, mas segue firme em seu propósito de cultivar o corpo esguio, curtir a praia, caminhadas e, principalmente, namorados bem mais jovens que ela. Sem complexos ou culpas. Para ela, fazer sexo é uma experiência “inenarrável”. Astrid também já entrou nos anos e foge do lugar comum. Trilha seus caminhos profissionais e existenciais, fugindo do que, muitas vezes, é imposto a mulheres de vida apenas doméstica (ou domesticada). Isabella, que nasceu mulher no corpo de um homem, é jovem, bela e vaidosa. Diz, satisfeita, ser “trans”. E reafirma sua posição de “mulher com pênis”. Por que investiria na construção de “uma vagina sem útero?”, indaga. O filme foi realizado em quatro territórios (João Pessoa, Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, Niterói, no Estado do Rio, e em Londres, capital inglesa).

Roberto Berliner, de 58 anos, é velho conhecido dos paraibanos, em especial dos campinenses. Afinal, ele filmou um de seus trabalhos mais conhecidos – o documentário “A Pessoa É para o que Nasce” – em Campina Grande, com as ceguinhas cantoras. Desta vez, o cineasta carioca buscou sua matéria-prima em outro Estado nordestino, Alagoas. Afinal, foi lá que nasceu Nise da Silveira (1905-1999), força-motriz de “Nise, o Coração da Loucura”. A psiquiatra, que trocou Maceió pelo Rio, ganha vida graças à sólida interpretação de Glória Pires. Em volta dela, estão os internos do Engenho de Dentro, um assustador “depósito de loucos” ao qual a médica dedicou sua vida. Buscou na arte um caminho para atenuar a brutalidade dos choques elétricos, tidos como única terapia possível, e a marginalidade e isolamento que marcavam a vida dos pacientes.

Aos fãs de Dona Ivone de Lara, um aviso: a enfermeira que no filme de Berliner é interpretada pela atriz Roberta Rodrigues dá vida (embora sem fazer alarde) à grande sambista e integrante da Ala de Compositores do Império Serrano. Dona Ivone foi colaboradora de todas as horas da Dra. Nise.

Da Bahia, chega o longa “Travessia”, do cineasta e publicitário João Gabriel. Para protagonizar esta história de desentendimentos entre pai e filho, o realizador escalou os atores Chico Diaz e Caio Castro. Em torno deles, giram Camilla Camargo (filha do sertanejo Zezé de Camargo) e os baianos Cyria Coentro, Caco Monteiro e Amaurih Oliveira. A cidade de Salvador, a febril capital baiana, ambienta esta trama em que desejos desencontrados são embalados por festas e drogas. Um acidente inusitado deixará por um fio o amor entre pai e filho.

Na noite de encerramento do Fest Aruanda, o público assistirá a um documentário sobre Chico Buarque, reserva artística e ética da nação brasileira. A première paraibana de “Chico, Artista Brasileiro” nos permitirá belo e enriquecedor encontro com um cidadão bem-humorado, inteligente, articulado, sincero e reflexivo. O produtor Jorge Peregrino representará o documentário que vendeu, em apenas duas semanas, 50 mil ingressos.

“Chatô” e Lima Duarte

O ator mineiro Lima Duarte, de 85 anos, desembarca em João Pessoa, na Paraíba, com agenda cheia. Além de receber homenagem do festival e apresentar sessão especial do filme “Sargento Getúlio”, ele promete “incendiar o debate” do filme “Chatô”, de Guilherme Fontes. Afinal, Lima foi colaborador de primeira hora da pioneira TV Tupi, emissora que Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello (Umbuzeiro, PB, 1892 – São Paulo, SP, 1968), o polêmico magnata da imprensa brasileira, inaugurou em 1950. Mas o ator não teve participação nem no livro de Fernando Morais (“Chatô, o Rei do Brasil”), nem no filme de Fontes. Quem conhece a história de Chatô sabe que ela oferece munição para fazer ferver qualquer discussão, esteja em pauta um filme, ou um livro ou a imprensa brasileira.

O mais esperado dos debates do Fest Aruanda – o do filme “Chatô” – colocará na mesma mesa, além de Lima Duarte, o escritor Fernando Morais, os cineastas Guilherme Fontes e Vladimir Carvalho, o pro-reitor de Cultura da Universidade Federal da Paraíba, Chico Pereira, e a diretora do curso de História da mesma instituição, Monique Cittadino. Como Chatô é um dos tótens da história paraibana, o debate deve mesmo pegar fogo. Os pontos de partida, claro, serão o filme “Chatô” (visto, em três semanas, por 40 mil espectadores) e o livro “Chatô, o Rei do Brasil – A Vida de Assis Chateaubriand, um dos Brasileiros Mais Poderosos deste Século”, que já vendeu mais de 100 mil exemplares.

Quem é paraibano sabe o peso de Assis Chateaubriand na história do Estado e do país. E isto fica claro na parte inicial do polêmico filme que Guilherme Fontes construiu, ao longo de vinte tumultuados anos, a partir do monumental livro de Fernando Morais, “Chatô, o Rei do Brasil”.

A première paraibana de “Chatô” apresentará aos cinéfilos de João Pessoa a chance de conferir a “chanchada tropicalista” levemente inspirada no livro fernandiano. O tema que deverá render muita polêmica no debate será, claro, a recriação cinematográfica de obras literárias. No caso, a biografia escrita por Fernando Morais. Quem leu o artigo que o jornalista-escritor publicou no Caderno 2, do “Estadão”, no dia da estreia paulistana de “Chatô”, encontrará nas entrelinhas ricas sugestões e questionamentos.

Vale lembrar que Morais abre seu livro lançando mão de recurso literário: Chatô sofre grave lesão neurológica (uma trombose dupla) e delira. Vê seu corpo e o da filha Teresa nus e pintados de vermelho e azul mastigando pedaços de carne humana. Carne do Bispo Sardinha, aquele devorado pelos índios em 1556. Mas o escritor embasa as 732 páginas de seu livro em sólidas pesquisas.

O filme de Guilherme Fontes parte dos delírios oriundos da grave lesão neurológica, que deixou o “magnata da mídia brasileira” tetraplégico, para compor – com o artifício de uma programa de TV de moldes chacrinianos, uma colorida chanchada tropicalista (e antropofágica). Escorado na liberdade narrativa, o filme funde personagens (a ponto de transformar dois inimigos figadais como o judeu-bessarabiano Samuel Wainer e o carioca Carlos Lacerda num inusitado Carlos Rosemberg), destrói a relação espaço-tempo e simplifica a complexa personalidade de Chateaubriand. O filho de família rica, que estudou em bons colégios e dispôs de muita leitura e estudo de idiomas, a ponto de tornar-se jornalista ainda adolescente (aos 15 anos) é mostrado como um celerado botocudo, priápico e desbocado full time.

Se Fernando Morais partiu de delírio ficcional para construir um documentário, Guilherme Fontes partiu do ficcional para o delírio pouco nuançado. Mesmo assim construiu um filme que, em alguns momentos, encontra ótimas soluções narrativas.

Homenagens

O Fest Aruanda prestará homenagem a três paraibanos: o compositor e trilheiro Geraldo Vandré, o cineasta Torquato Joel, e – in memoriam – o documentarista, fotógrafo e escritor Walfredo Rodriguez (1894-1974). Troféus Aruanda serão entregues também aos mineiros Lima Duarte (nascido em Sacramento-1930) e Fernando Morais (Mariana, 1946).

A família de Walfredo Rodriguez receberá o Troféu Aruanda em nome do documentarista que Vladimir Carvalho definiu como “o Humberto Mauro do Nordeste”. Autor de cinejornais e de um filme de longa-metragem (“Sob o Sol Nordestino”/1924-1928), Walfredo legou, ainda, a seus conterrâneos, dois livros de grande importância histórico-afetiva: “Roteiro Sentimental de uma Cidade” e “ História do Teatro Paraibano”. Os pesquisadores Wills Leal (nos dois volumes do livro-álbum “Cinema na Paraíba”) e Alex Santos (“Walfredo Rodriguez e a Cultura Paraibana”) estudaram a trajetória do pioneiro do audiovisual nordestino, que viveu seu auge ainda na era muda. Lúcio Vilar, criador e coordenador do Fest Aruanda, defendeu tese de doutorado na USP, tendo Walfredo como objeto de estudo.

O pessoense Geraldo Vandré, que em setembro último completou 80 anos, recebe o seu Troféu Aruanda pelo imenso valor de sua criação musical e, em especial, pela arrebatadora trilha composta para “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”. Os espectadores do festival assistirão a um documentário que o titã Charles Gavin e o Canal Brasil dedicaram a uma das mais importantes ações de Vandré: o estímulo à criação de um dos discos mais belos já criados neste país (“Quarteto Novo”/1967).

O roteiro de “O Som do Vinil – Quarteto Novo”, escrito por Tárik de Souza, mostra que o artista paraibano foi o mentor, mecenas e colaborador do grupo que reuniu os craques Hermeto Paschoal, Theo de Barros, Airto Moreira e Heraldo do Monte para acompanhá-lo em shows e pesquisar novas sonoridades brasileiras. Em 1968, acompanharam Vandré no disco “Canto Geral”.

Torquato Joel, nascido em Souza, formou-se em Comunicação na UFPB e frequentou, em Paris, o Ateliê de Realização Cinematográfica – Varennes. De volta ao Brasil, realizou diversos vídeos e curtas-metragens. Os mais conhecidos são “Imagens do Declínio – ou Beba Coca, Babe Cola”, “O Verme na Alma” (1998), “Passadouro” (1999) e “Transubstancial” (2003), este, sobre o universo poético de Augusto dos Anjos, eleito “o paraibano mais importante do século XX”. Hoje, além de seguir fiel ao formato curto, Torquato tem corrido municípios, onde ministra importantes oficinas de criação cinematográfica.

O homenageado Lima Duarte chega aos 85 anos em plena atividade, cheio de gás. E com invejável folha de serviços prestados ao cinema e à TV brasileiros. De 1950, ano da implantação da TV Tupi no Brasil, até hoje, Lima fez de tudo: telenovelas (como os sucessos “Roque Santeiro” e “Pecado Capital”), programas musicais (“Som Brasil”) e séries (“O Bem Amado”). No cinema, brilhou em “Sargento Getúlio”, um dos trabalhos mais notáveis (e premiados) de sua carreira. Atuou também em filmes dos lusitanos Manoel de Oliveira (“Palavra e Utopia”), José Fonseca e Costa (“Kilas, o Mau da Fita”) e Paulo Rocha (“Rio do Ouro”), e dos brasileiros Joaquim Pedro de Andrade (“Guerra Conjugal”), Anselmo Duarte (“O Crime do Zé Bigorna”), Maurice Capovilla (“O Jogo da Vida”), Walter Lima Jr. (“A Ostra e o Vento”), Ugo Giorgetti (“Boleiros”), Guel Arraes (“O Auto da Compadecida”) e Andrucha Waddington (“Eu, Tu, Eles”), entre outros.

Fernando Morais vive momentos de dor e alegria neste exato momento. Afinal, sua cidade natal, plantada no núcleo de sítios históricos do barroco mineiro, foi abalada por um dos maiores acidentes ecológicos de nossa história (o vazamento de resíduos da mineradora Samarco no Rio Doce). Por outro lado, ele vê chegar aos cinemas a recriação cinematográfica de seu livro mais ambicioso (“Chatô, o Rei do Brasil”). Antes, dois de seus outros livros haviam chegado aos cinema: “Olga” (Jaime Monjardim) e “Corações Sujos” (Vicente Amorim).

 

Por Maria do Rosário Caetano

O canal SescTV estreia, em 13 de dezembro, às 23h, a série Índios em Movimento, dirigida por Marco Altberg. Com oito episódios, a série exibirá debates com líderes indígenas e especialistas, de aproximadamente 20 minutos cada, para, em seguida, veicular um documentário sobre o tema. A ideia é promover a reflexão sobre os povos indígenas e suas questões históricas, sociais, culturais, políticas e ambientais. Os oito episódios serão exibidos diariamente, até o dia 20 de dezembro.

Os debates foram ambientados no interior da Oca Hunikuin, instalada no Parque Laje, no Rio de Janeiro. Têm participação da antropóloga Betty Mindlin; do líder indígena Ailton Krenak; do antropólogo e cineasta Vincent Carelli; e de Felipe Milanez, jornalista e ativista dedicado às causas indígenas.

Os filmes a serem exibidos na série foram realizados em diferentes momentos históricos do país. As películas apresentam a relação dos índios com os sertanistas desde a época de Rondon, o contato dos índios isolados com o homem branco, a organização das comunidades indígenas até a aculturação destes povos.

No primeiro programa da série, Rondon, Amor, Ordem e Progresso, o tema motivador será o olhar do não-índio a partir do trabalho do Marechal Rondon. Ilustrado por imagens da época, o programa traça o perfil do homem que escreveu sua história junto com as demarcações de nossas fronteiras. Após o debate, será exibido na íntegra o documentário Rondon, Amor, Ordem e Progresso, dirigido por Marco Altberg. O filme resgata a trajetória de vida do sertanista, contada em depoimentos de estudiosos e seguidores, como Darcy Ribeiro e os irmãos Villas Bôas.