O pântano da memória

Se Ruy Guerra começa a falar de uma de suas maiores paixões, a física, é impossível detê-lo. Há muito tempo, o cineasta de clássicos, como “Os Cafajestes” e “Os Fuzis”, parou de ler romances para se dedicar a livros sobre as mais diversas teorias do espaço, do tempo e da formação das matérias. “Os físicos são mais loucos do que os ficcionistas. Pensam que estão tratando da realidade, mas estão inventando tudo. Beiram o absurdo total”, explica. “Não leio para compreender o que eles dizem. Leio pelo encanto da loucura deles. Pelo puro prazer da loucura. Passado, presente, futuro, é tudo uma grande abstração”.

Foi com essa cabeça que, nove anos depois de seu último longa, “O Veneno da Madrugada”, ele mergulhou em “Quase Memória”, livro de Carlos Heitor Cony sobre um jornalista que um dia recebe uma misteriosa caixa. Ao longo dos anos, o roteiro passou por inúmeras reelaborações. A principal delas: o jovem Carlos (Charles Fricks) tem um ferrenho embate com seu eu mais velho (Tony Ramos). Ambos relembram o pai jornalista (João Miguel), numa narrativa pontuada por dois momentos bem distintos da história do Brasil; a decretação do AI-5 em plena ditadura militar, em 1968, e a morte de Ayrton Senna, em 1994. O que o Ruy de hoje, com 84 anos, diria ao Ruy de 30 se o encontrasse? “Diria que já é tempo de se aprender a fazer cinema”, brinca. O conselho seria tomado ao pé da letra: aos 31, Ruy faria sua retumbante estreia em longas com “Os Cafajestes” (1962).

Um dos pontos fortes do filme é a ideia de abri-lo e encerrá-lo com os pensamentos de um sapo em um pântano, numa narração do próprio cineasta. “A memória é sempre fantasia. Quanto mais o tempo passa, mais a gente efabula”, reflete, ecoando o antigo parceiro Chico Buarque, recentemente: “quanto mais envelhecemos, mais íntimos ficamos do nosso passado”. Para Ruy, o pântano é a melhor metáfora para a memória.

A princípio, a fotografia do longa ficaria a cargo de Walter Carvalho, mas este teve que assumir outros trabalhos na Globo. A tarefa ficou a cargo de Pablo Baião, marido da atriz Dira Paes, que já havia sido assistente de câmera em “O Veneno da Madrugada”. O resultado primoroso é uma câmera na mão que passeia sem cortes entre os personagens, dando uma sensação fluida entre o sonho e a memória – ou, nas palavras de Ruy, criando a sensação de um “falso presente”, reforçado pelas interpretações exacerbadas dos atores, uns três tons acima do registro realista. Para a luz, as referências foram o quadrinista americano Will Eisner – para uma atmosfera de quase preto e branco com um pouco de amarelo – e o pintor Marc Chagall, que trabalhava com a ideia de manchas de cor. A direção de arte foi pensada com pouquíssimos objetos, detalhes que a memória costuma apagar.

Outra novidade foi trabalhar pela primeira vez com Tony Ramos, “um ator cuja técnica não esmaga nunca a emoção dele”, descreve. Ao contrário de outros filmes, porém, não houve muito tempo para ensaios. “Os atores, hoje em dia, são muito ocupados. Bom para eles. Mas isso acaba dificultando a preparação.”

Ruy Guerra (à direita) com o ator Tony Ramos, sua primeira atuação em filme do cineasta © Eduardo Martino

“Quase Memória” ficou pronto após um processo de quase 25 anos. Passou pelas mãos de outros dois produtores antes de ser assumido por Janaína Guerra, filha de Ruy, e finalizado com um orçamento de R$ 4,3 milhões. Ruy preferiu filmar o mínimo possível no Rio e partiu para Barra do Piraí, no interior fluminense – onde foram rodadas as cenas do cemitério, do casarão, da igreja e do pântano – e a cidade mineira de Passa Quatro – onde foram filmadas as cenas rurais. “Precisamos fugir do Rio, que é caríssimo para se filmar hoje em dia. E é uma cidade muito dispersiva – ao fim do dia, cada um volta para sua casa. No interior, conseguimos manter a equipe mais coesa”, explica o diretor.

Cinema do passado 

Como cinéfilo, Ruy prefere ficar fora do presente. Em sua casa, gosta de rever os dramas de Bergman, Antonioni e Eric von Stroheim. “Quero sempre entender o que motiva a linguagem deles”, diz. Tido como o cineasta da memória por excelência, o francês Alain Resnais não entra em suas preferências. “Nunca gostei do Resnais ficcionista. Sempre o considerei um grande documentarista, pelos primeiros filmes. Revi ‘O Ano Passado em Marienbad’ há pouco tempo e detestei, não descobri elementos verdadeiros de linguagem. É uma brincadeira sem sentido. Curiosamente, creio que não foram feitos muitos grandes filmes sobre a memória”. De cabeça, lembra-se de apenas um: “Amnésia”, de Christopher Nolan.

Do cinema contemporâneo, ele abre exceção para o novo cinema pernambucano, do qual acompanha os longas de Cláudio Assis, Paulo Caldas e Kleber Mendonça, entre outros. Gostou muito de “A História da Eternidade”, de Camilo Cavalcanti, e de “Sudoeste”, do carioca Eduardo Nunes. Diz que perdeu o contato com os colegas dos anos 60 – “encontro o Cacá [Diegues] no máximo uma vez a cada dois anos, nunca vejo Bressane. Tenho uma tendência à reclusão. E o Rio também separa muito as pessoas”, diz. Além dos filmes que vê e revê em casa, outro de seus passatempos preferidos são os games de RPG que joga em seu iPad.

Ruy Guerra (à direita) com o ator Tony Ramos, sua primeira atuação em filme do cineasta © Eduardo Martino

Fim da trilogia

Mas reclusão não significa inatividade. Ruy finaliza ao menos três roteiros, em diferentes fases de desenvolvimento. O primeiro é “O Fingidor”, filme policial protagonizado pelos heterônimos de Fernando Pessoa. “No filme, todos eles são reais. Só o verdadeiro Fernando é que é irreal”, define. O projeto, uma coprodução com Portugal, está parado por conta da crise econômica que também atinge o país parceiro.

O segundo, “Palavras Queimadas”, é inspirado numa história que Ruy ouviu há mais de 20 anos, sobre um negociante de tabacos que mantinha duas esposas em casas semelhantes, uma em Havana e outra nas Ilhas Canárias. “Na minha história, esse homem mantém duas casas idênticas, com suas duas esposas, Ana e Hannah, uma de cada lado do Atlântico. Quero usar o mesmo cenário, para provocar um espelhamento”. Para escrever o roteiro, Ruy passou quase três anos isolado numa casa perto de Petrópolis, “tão fechada que o sol não entrava”. Ao voltar, não queria se fixar e passou mais um ano como mochileiro, dormindo em casas de diferentes amigos.

O terceiro projeto, ainda sem título, é o que desperta mais curiosidade: um longa de fundo político que complete a trilogia iniciada com “Os Fuzis” (1964) e “A Queda” (1978). Para isso, quer trazer de volta os personagens de Nelson Xavier, Paulo César Pereio e Lima Duarte dialogando com a perspectiva da morte e com as corrupções com que lidaram ao longo da vida. Uma matriz será “O Bandido Giuliano” (1962), de Francesco Rosi, clássico do cinema político italiano. “Será uma história sobre o atual momento político. O olhar de cada um desses personagens, suas frustrações e esperanças – as que se perderam e as que ainda podem sobreviver. Mas é muito difícil hoje fazer um filme político. Todos os esquemas narrativos me parecem velhos, artificiais, desinteressantes”.

 

Por Thiago Stivaletti

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