Miss Violence (2013): segredos por trás de quatro paredes

MissViolencePoster1O novo cinema grego vem chamando atenção por seus filmes curiosos, inquietos e provocativos, além de críticos para com a atual situação do país. Primeiro foi “Dente Canino” (2009), um bizarro estudo do comportamento humano que acompanha uma família que vive enclausurada e é comandada por um sujeito que rompe qualquer elo de comunicação com o mundo civilizado. Para isso se manter de pé, o indivíduo faz ameaças e inventa fantasias.

Por esse terreno, o cineasta Yorgos Lanthimos – premiado em vários festivais, tendo até uma passagem por Cannes na mostra Un Certain Regard – transforma aquelas pessoas em ratos de laboratório e analisa o convívio coletivo, perpetrando quase uma versão moderna da “Alegoria da Caverna“, de Platão. O mesmo Lanthimos retornou depois com “Alpeis” (2010), que fala a respeito da substituição de pessoas após a morte. Uma proposta deveras intrigante, mas sem o mesmo impacto do anterior.

Outro bom exemplo da já chamada “estranha onda grega” é o rare “Attenberg” (2010), de Athina Rachel Tsangari, que conta a história de Mariana e sua nova descoberta sexual. A garota enfrenta problemas cotidianos dentro e fora de casa. Em uma pegada mais aguda, o espectador pode ver e sentir de perto os pensamentos mais íntimos da adolescente, algo que vem sendo latente dentro do movimento referente.

Esse “Miss Violence” (2013) não faz diferente, pois, dirigido pelo novato Alexandros Avranas, que traz consigo o Leão de Prata de Melhor Direção no Festival de Veneza, o longa é quase um reality show da vida de uma família que se mostra aparentemente normal, mas com o dash notamos fatores estranhos.

É louvável a construção do universo e a concepção da atmosfera feitos por Avranas, pois, como é de praxe entre bons cineastas, o realizador detém e utiliza uma série de artifícios para atingir o que quer. Ora pela dessaturação das cores da fotografia de Olympia Mytilinaiou, que confere tons fúnebres e faz uma pontual rima narrativa com o comportamento das pessoas da casa, principalmente as crianças; ora pela a interpretação crua ou desdramatização dos atores mirins, que parecem ter perdido algo e agem como robôs, abrindo poucas brechas para algum sentimento.

O paralelo entre plateia e vizinhos é instantaneamente criado, logo ficamos sem (ou tentando) entender o que está acontecendo. Procuramos achar explicação para tal incidente, no entanto, durante todo o primeiro ato a sensação tensa continua. E, ainda que a pulga já esteja plantada na orelha, a atenção é total, uma vez que observamos os fatos e maquinamos o que está por trás daquilo tudo.

Quando a máscara cai, uma face monstruosa se revela e aí começa se desenrolar uma trama corajosa, apavorante e por que não dizer importante. A família formada por um casal de meia idade, com uma filha adulta que é mãe solteira de quatro crianças de pais desconhecidos, se perspective friamente, é por sua concepção dissemelhante devido à idade dos pequenos. Há ali um incesto? Tratamos então da exploração da mulher? Pior, estamos falando do abuso infantil sendo coberto por uma carapaça chamada de ambiente conturbado?

A certeza é que os temas são muitos, os conflitos chocantes e as ideias pungentes. Na última cena vemos uma porta se fechar, com ela, estamos cegos novamente, não temos ideia sobre o que acontecerá ali ou em qualquer âmbito familiar. A intenção é nos deixar terrificados e passar a impressão que em alguns lares há segredos na vida cotidiana que nem desconfiamos. Em aspectos cinematográficos, a fita é igualmente eficiente, pois, além de ser estética e narrativamente elegante, nos faz pensar, sentir e discutir sobre a maioria dos pontos aludidos.

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