#MakeSolo2Happen: como o filme do Han Solo mobilizou os fãs de Star Wars em prol de uma sequência

Han Solo: Uma História Star Wars” não teve muita sorte em sua trajetória no cinema. Lançado em 24 de maio de 2018, a produção chegou meros cinco meses depois do controverso “Star Wars: Os Últimos Jedi“, que desencadeou amor e ódio em doses extremas nos fãs da saga. Com uma janela tão curta, mal houve tempo para que o público em geral se recuperasse do choque e passasse a pensar no retorno de Han Solo às telonas. Há até hoje quem sequer tenha assistido ao filme.

Agora, a conversa sobre “Han Solo” vem voltando à tona nas redes sociais. Em muitos cantos da internet a campanha #MakeSolo2Happen (“faça com que ‘Solo 2’ aconteça“) vem aparecendo com mais força e frequência, e um debate real sobre a possibilidade de sequência passou a existir entre os fãs. Há aqueles que não veem sentido nessa ideia, e que provavelmente já não viam sentido em um filme para Han Solo, e há aqueles que veem com bons olhos, afinal, é mais uma oportunidade de volta à galáxia muito, muito distante de “Star Wars“.

Ao longo da última semana, parte do elenco de “Han Solo” se tornou assunto pelas possibilidades que vêm sendo postas ao redor de uma continuação – Alden Ehrenreich por afirmar que aceitaria retornar ao papel de Han, e Donald Glover pelos rumores de uma série para Disney Plus focada em sua interpretação de Lando Calrissian. Mas qual é a possibilidade real de a história de “Han Solo” ter continuidade no universo de “Star Wars”? Para entender esse quadro, é preciso olhar para os motivos que levaram o filme ao desempenho fraco nas bilheterias no mundo todo, e ao que os fãs pretendem quando pedem que “Han Solo 2” aconteça.

Afinal, por que “Han Solo” fracassou?

De um modo geral, a expectativa de público e fãs para “Han Solo” era baixíssima. Apenas entre os mais fervorosos a ideia de voltar ao cinema para ver mais um “Star Wars” após tão pouco tempo soava atraente – e mesmo assim estes ficaram satisfeitos por saber que o próximo projeto da saga, o Episódio IX de J.J. Abrams, viria apenas em dezembro do ano seguinte.

A percepção de público e crítica sobre o filme não é exatamente quanto à qualidade baixa da produção, mas que a obra simplesmente não é tão boa quanto os antecessores. O agregador Rotten Tomatoes apresenta 63% de aprovação do público, enquanto descreve sua recepção entre os críticos como a de um longa que “deve satisfazer novatos na saga e fãs de longa data que deixarem suas expectativas na porta do cinema“. Mas ao ouvir opiniões do público em geral, e não de fãs, a opinião predominante é de que se trata de um filme ruim, e seu desempenho nas bilheterias (US$ 213 milhões domésticos e US$ 179 milhões no mercado internacional segundo o Box Office Mojo) parece corroborar essa ideia.

Não é segredo que “Han Solo” passou por diversos contratempos durante suas fases de produção. Os diretores iniciais, os inovadores Phil Lord e Chris Miller (produtores de “Homem-Aranha no Aranhaverso”), foram demitidos já com as gravações se encaminhando para o final e substituídos por Ron Howard (“Uma Mente Brilhante”), cineasta de olhar mais tradicional. O intérprete de Han Solo seria Alden Ehrenreich, que venceu a corrida pelo papel com diversos outros atores ascendentes de Hollywood, todos de talento inegável. Substituir Harrison Ford é uma tarefa ingrata, e os relatos de que Ehrenreich teria precisado de aulas também durante as gravações não ajudaram, apesar de não ser algo incomum.

O produto final foi um filme padrão, tecnicamente inovador mas que fez de tudo para não se comprometer com os fãs. Uma aventura como milhares de outras que há no cinema. Lidar com um produto final que não é o melhor que poderia ser nunca impediu estúdio nenhum de gerar lucro. Não faltam exemplos de obras problemáticas que conseguem um bom desempenho nas bilheterias.

“Eu não gosto. Eu não concordo. Mas eu aceito.”

Mas o caso de “Han Solo” vai além dos problemas por trás das câmeras, da expectativa dos fãs ou de qualquer dano que “Os Últimos Jedi” possa ter causado. A estratégia de marketing da segunda “História Star Wars” foi inconsistente desde seu início e demonstrou estar fora de sintonia com o filme, vendendo algo que não era o que estaria nas telonas. Enquanto a campanha de marketing de um blockbuster em potencial geralmente tem início entre seis e sete meses antes de sua estreia, a de “Han Solo” começou apenas em fevereiro de 2018 com um trailer de pouco mais de um minuto. O segundo veio em abril, já um mês e meio antes da estreia, e ambos davam à história um tom de faroeste cyberpunk que não condizia com o longa exibido no cinema. Já durante abril, vários spots de TV foram divulgados junto a vídeos de bastidores focando no Han Solo de Ehrenreich, no Lando Calrissian de Donald Glover ou no set construído para a Millennium Falcon.

Essa demora toda tem um motivo ainda mais distante do filme em si. Antes da aquisição da Lucasfilm pela Disney, as estreias de “Star Wars” ocorriam tradicionalmente no mês de maio, e já havia uma identificação da comunidade com a data (vide campanhas como “May The 4th Be With You“). “O Despertar da Força” foi a primeiro a romper com essa tradição ao estrear em dezembro. A Disney nunca negou a intenção de retomar maio como o mês de “Star Wars”, mas devido a uma série de problemas, os lançamentos seguintes também ficaram para o fim do ano (“Rogue One” teve seu infame processo de refilmagem, enquanto para “Os Últimos Jedi” a empresa temia que a mudança de data pudesse afetar o desempenho nas bilheterias).

“O que você acha?”

Pela lógica empregada anteriormente, um filme tão problemático quanto “Han Solo” naturalmente deveria ter sido adiado para o fim de 2018, mas não foi. Isso gerou um novo problema: nunca dois “Star Wars” disputaram o mesmo espaço em campanhas de marketing. Não haveria qualquer hipótese de “Han Solo” concorrer com “Os Últimos Jedi” pela atenção dos fãs – um era o chamado “filme de antologia”, enquanto outro pertencia à Saga Skywalker e era o que de fato todos queriam ver. Não obstante, a recepção controversa da obra de Rian Johnson entre fãs e público afetou ainda mais a celeridade da divulgação de “Han Solo”, por medo de que ele acabasse “contaminado”.

Tudo isso contribuiu para que o longa tivesse o desempenho fraco que teve. Pior: começou a tornar evidentes problemas de gestão interna na Lucasfilm, que resultaram em cada vez mais intervenção no processo criativo e culminaram no fraquíssimo “A Ascensão Skywalker” de J.J. Abrams. Agora, a nova estratégia da Disney para a franquia “Star Wars” prevê lançamentos mais espaçados nos cinemas e um foco crescente na plataforma Disney Plus, principalmente à vista do sucesso da série “The Mandalorian“. E é aí que os fãs da saga, aqueles que querem apenas ter contato com esse universo fascinante, depositam suas novas esperanças…

E porque os fãs querem mais?

“Melhor apertar os cintos, baby.”

Ironicamente, apesar de todos os pesares, há cada vez mais gente entre a comunidade de fãs que pede por uma sequência para “Han Solo”. Uma campanha foi iniciada com a #MakeSolo2Happen e, gradualmente, o movimento foi ganhando tração pelas redes sociais. Recentemente, novos rumores falaram sobre a possibilidade do filme ganhar um spin-off no Disney Plus focado no Lando Calrissian de Donald Glover, que conquistou os fãs de imediato com uma performance digna de Billy Dee Williams, intérprete original do personagem. Alden Ehrenreich já se posicionou sobre o assunto e não descartou uma possível volta à pele de Han Solo desde que “seja coerente com a história“, e até afirmou que ouviu alguma coisa acerca, mas nada demais.

O sucesso de “The Mandalorian” e da temporada final da animação “The Clone Wars” (que também aconteceu por conta da mobilização dos fãs nas redes sociais) mostrou à Disney que sua plataforma de streaming é uma forma válida e rentável de manter a marca “Star Wars” relevante no mercado. Apesar de haver datas para estreias nos cinemas, os projetos de séries para Disney Plus estão em fases mais avançadas de produção e parecem aos fãs possibilidades muito mais concretas. O formato possibilitado pelo streaming garante muito mais liberdade criativa para cineastas, sem sacrificar elementos narrativos em prol da duração de um longa-metragem, e a ideia de uma série focada em Lando Calrissian tal qual apareceu em “Han Solo” foi bem recebida até pelos fãs mais carrancudos, que reconhecem nele um ponto positivo do filme de Ron Howard.

Mas por mais que seja um começo, se ater exclusivamente a Donald Glover soa como um desperdício da história original. Um dos maiores trunfos de “Han Solo” reside justamente na capacidade de seu elenco principal. Glover é uma das maiores estrelas do momento, uma força criativa sem igual na indústria do entretenimento por sua capacidade enquanto ator, roteirista (vide o sucesso da série “Atlanta“) e músico através de sua persona Childish Gambino.

Alden Ehrenreich tinha nas mãos uma tarefa ingrata e entregou um Han Solo compatível com o de Harrison Ford, mas sem perder de vista a inocência da juventude. A Qi’ra de Emilia Clarke iludiu não apenas Han, mas a todos os espectadores também, e uma atriz do porte de Clarke é um ativo para qualquer obra (vide “Game of Thrones“). Mas talvez a artista mais injustiçada se deixada de fora seria Phoebe Waller-Bridge, a droide L3-37. Apesar do final de seu personagem, Waller-Bridge é hoje uma das principais roteiristas e atrizes em atividade no mundo, e a qualidade de seu trabalho (principalmente as séries “Crashing” e “Fleabag“) fala por si só. Todo o elenco, incluindo Joonas Suotamo por baixo do traje do amável Chewbacca, tem potencial para muito mais do que foi entregue no filme.

Outro ponto a favor de #MakeSolo2Happen é a parte de efeitos, tanto práticos quanto digitais, de “Han Solo”. Um dos pontos mais impressionantes da série “The Mandalorian” é o fato de a maioria das cenas em ambientes abertos ter sido gravada dentro de um estúdio, com a ajuda de painéis de LED que funcionam a base de motores de alta performance. Essa tecnologia única da Lucasfilm é conhecida como O Volume e engana até o mais aguçado dos olhares. O que pouco se sabe é que uma tecnologia precursora do Volume já foi utilizada em “Han Solo”, principalmente nas cenas no cockpit da Millennium Falcon. Em vez de um set iluminado por luzes de estúdio, a imagem do exterior da nave era projetada no painel logo à frente do set, atribuindo muito mais realismo a tudo: da iluminação à própria performance dos atores, que podiam de fato visualizar o que seus personagens precisariam fazer. “Star Wars” sempre se destacou por ser um hub tecnológico na indústria do cinema, e “Han Solo” ilustra perfeitamente essa característica.

Para os fãs, no entanto, a possibilidade de sequências ou spin-offs para “Han Solo” vai além de grandes nomes na tela ou grandes tecnologia por trás das câmeras. Por muito tempo a comunidade de fãs de “Star Wars” foi reconhecida por sua toxicidade, algo que começou a mudar a partir da volta da saga aos cinemas em 2015. A campanha #MakeSolo2Happen tem como mote também a mudança de comportamento nesse contexto, ancorando-se nos valores da própria saga para melhorar a imagem da comunidade.

A ideia de um filme sobre Han Solo era controversa por si só desde o início: já que a Aliança Rebelde ainda não fazia parte da vida do personagem, como falar sobre um contrabandista com coração de ouro sem que se caia em um conto parecido com Robin Hood? E qual seria a necessidade de se contar essa história? “Han Solo: Uma História Star Wars” consegue entregar essa história e cumpre bem o papel ao qual se propõe, alinhando-se mais a um filme de aventura e amadurecimento do que aos tons políticos que normalmente permeiam a franquia.

“Estou com uma sensação muito boa sobre isso.”

Por mais que os rumores existam, ainda não há nada concreto ou definitivo sobre eventuais sequências de “Han Solo: Uma História Star Wars” ou potenciais spin-offs. Enquanto isso, o streaming Disney Plus segue com a segunda temporada de “The Mandalorian” prevista para lançamento em outubro, além de séries sobre os personagens Obi-Wan Kenobi e Cassian Andor já estarem em desenvolvimento.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *