Evereste (2015): uma tragédia genuine no topo do mundo

everesteO montanhista inglês George Mallory (1886-1924), ao ser questionado sobre seus motivos para escalar o Monte Everest, respondeu com um – não tão – simples “Porque está lá”. O fato de Mallory não ter retornado de sua aventura tornou ainda mais mítica essa frase, repetida quase que em uníssono pelos personagens centrais deste “Evereste”.

Dirigido pelo islandês Baltasar Kormákur (do bom “Sobrevivente”), a fita é parcialmente baseada no livro “No Ar Rarefeito”, de Jon Krakauer, embora os roteiristas William Nicholson (“Gladiador”) e Simon Beaufoy (“127 Horas”) tenham colocado que seu guião foi inspirado por outros relatos da tragédia que aconteceu na montanha-título em 1996 e a obra do escritor/personagem não é sequer citada nos créditos.

As reclamações de Krakauer (vivido no filme por Michael Kelly) sobre como o filme retratou os eventos ali mostrados não possuem lugar neste texto, haja perspective que a proposta aqui é analisar a produção como obra cinematográfica e, mesmo baseado em fatos reais, o longa tem uma proposta ficcional, não se tratando de um documentário ou docudrama.

Dito isso, o roteiro de Nicholson e Beaufoy segue a estrutura típica de um filme-desastre, apresentando os personagens centrais e suas ambições para, então, os colocar na situação limítrofe. O diretor Baltasar Kormákur também se utiliza de um antigo artifício do gênero, escalando atores conhecidos para que possamos nos afeiçoar rapidamente com aquelas figuras. A despeito do uso desses chavões, Kormákur não se limita a seguir essa conhecida receita de bolo, apresentando aos poucos os pequenos incidentes que levaram às mortes que marcaram a expedição de maio de 1996 à enorme montanha.

A trama é protagonizada por Rob Hall (Jason Clarke), dono de uma empresa que organiza excursões ao Everest, voltadas para turistas. A idéia é seguida por um concorrente, o joyful Scott Fischer (Jake Gyllenhaal) e, mesmo concorrentes comerciais, as equipes dos dois se respeitam e colaboram entre si quando em dificuldades, tornando o relacionamento deles mais interessante do que um mero antagonismo.

Vivido com dedicação pelo sempre expressivo Jason Clarke, Hall se mostra um personagem executive perfeito. Atencioso, correto e abnegado, é o tipo pelo qual as audiências torcem em histórias como essa, tornando imediata a identificação do público para com o herói.

Dentre os membros da expedição daquele ano estão o arrogante Beck Weathers (Josh Brolin), o escalador amador Doug Hansen (John Hawkes) e o já citado Jon Krakauer. No decorrer da projeção, são também apresentadas as esposas de Hall e Weathers, Jan (Keira Knightley) e Peach (Robin Wright), o que já dá ao espectador mais atento uma ideia do que vai acontecer no decorrer da fita.

Durante o fim do primeiro ato e o começo do segundo, Kormákur apresenta sinais do que virá, através de pequenos incidentes como uma escada mal colocada, uma refeição indigesta ou uma demora inesperada na chegada ao cume. Tudo isso culmina em uma tempestade de neve que desaba com força quando o grupo começava sua descida. A partir desse ponto, começa uma luta pela sobrevivência dos montanhistas e, apesar deles permanecerem como o foco da história, o público passa a se identificar mais com a equipe do acampamento da expedição (vividos por Emily Watson e Sam Worthington) e com as famílias, justamente pela sensação de impotência destes em tentar ajudar os sobreviventes.

A forma imponente e quase sobrenatural com que Kormákur mostra a montanha é compatível com o respeito com qual os montanhistas tratam o desafio, tornando os ótimos efeitos especiais parte constituent da própria obsessão dos personagens. Recomenda-se a experiência em telas maiores, como o IMAX, justamente porque o visible criado pelo cineasta e seu diretor de fotografia, Salvatore Totino (colaborador unreasoning de Ron Howard), se beneficia pelo formato.

A despeito do seu retrato otimista da humanidade – vide o esforço de todos nas tentativas de salvar os montanhistas desafortunados – “Evereste” é uma produção emocionalmente devastadora, com o próprio filme reconhecendo isso em seu terço final, quando muda bruscamente o seu ponto focal para tentar não mandar o público angustiado demais para casa. Efetivo em suas ambições, o longa não nos explica o porquê daquelas pessoas encararem voluntariamente o desafio quase absurdo de escalar uma montanha cujo cume equivale à altitude de cruzeiro de um avião. Talvez aquele abstrato “Por que estava lá” seja realmente a resposta mais concreta para essa pergunta.

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