Crítica | Um Perfil para Dois – Charmosa comédia francesa sobre o conflito de gerações

Cara de um, focinho de outro

Se existe um país especialista em doces comédias românticas, que ao mesmo tempo em que pincelam justos comentários sociais, não destratam nossa inteligência (como, digamos, as americanas), este país é a França. É claro também que nem tudo produzido por lá é ouro, mas Um Perfil para Dois se encaixaria na definição que abre este texto.

Terceiro longa-metragem dirigido por Stéphane Robelin (E Se Vivêssemos Todos Juntos?), escrito pela própria, o filme apresenta uma agradável farsa, remetendo justamente ao tipo de cinema do passado, longe dos tempos acelerados de hoje, apesar de fazer uso da tecnologia como pilar de sua trama.

Na história confeccionada por Robelin, Alex (Yaniss Lespert) é um bom samaritano, sujeito generoso, que logo na primeira cena abre mão de celebrar uma conquista ao lado de amigos, para ajudar Juliette (Stéphanie Crayencour), uma total estranha, muito bêbada para voltar pilotando sua motinho. O sujeito a leva para casa, recebe um baita agradecimento, e com um pulo no tempo vemos que a noite foi mais frutífera do que esperávamos, já que o casal agora está junto. Nem tudo são flores, no entanto, e o comodismo, somado ao azar profissional do sujeito, surge como âncora neste relacionamento.

Como forma de ajuda-lo, a sogra lhe arranja um trabalho temporário: dar aulas de informática para o Sr. Stein (Pierre Richard), o pai dela e avô de sua namorada. O idoso, porém, não está a par da verdadeira identidade do sujeito, supondo que ele seja somente um professor que sua filha arrumou – igualmente no escuro encontra-se Juliette. Está feita a farsa.

Devo adereçar também o verdadeiro núcleo aqui. O personagem de Richard é um idoso solitário e recluso, que se fechou para o mundo após o falecimento da companheira de décadas. Ao descortinar o novo mundo tecnológico com a ajuda do jovem Alex, o veterano logo se interessa pelos famosos sites de relacionamento online. E termina por chegar a vias de fato, marcando um encontro com sua paquera virtual, muitos anos mais jovem, e pedindo para que Alex compareça no seu lugar – como seu “corpo”.

O roteiro de Robelin, uma subversão do clássico Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, no qual as palavras e ideias que seduzem uma mulher não estão na pessoa que ela vê em sua frente, mas numa figura tímida às sombras, é recheado de ternura e certa melancolia. Um dos chamarizes é definitivamente o relacionamento entre os personagens Alex e Stein, que não se queriam em suas vidas, e a amizade que entre eles nasce.

O discurso apresentado em Um Perfil para Dois vai justamente contra o mundo “descartável” como escolha de vida da maioria na atualidade, e reforça valores antigos e muito necessários. Na forma, a direção de Robelin exala o mesmo, com uma narrativa tradicional, e momentos de humor honestos e simples, longe da comédia ácida moderna.

No elenco destacam-se o veterano Pierre Richard e a estonteante Fanny Valette, que vive Flora, o objeto de afeto desta dupla disfuncional. Um Perfil para Dois é uma comédia despretensiosa, mas muito eficiente, que promete te deixar mais leve e com um sorriso no rosto ao fim da sessão.

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