Crítica | Um Homem de Família (2016): quase nada de bom

“De família”? Provavelmente essa qualificação é uma das poucas que não se adequa a Dane Jensen, protagonista de “Um Homem de Família”. O título (tradução do original em inglês, ou seja, fiel à ideia da produção) deve se referir ao coadjuvante Lou, é a única explicação plausível.

Dane (Gerard Butler, de “Deuses do Egito”) é um headhunter em uma empresa cujo dono, Ed (Willem Dafoe, de “A Grande Muralha”), deixa claro aos funcionários que o trabalho é prioridade absoluta, ainda que em detrimento da vida pessoal, da família e eventualmente de valores éticos. Prestes a se aposentar, Ed lança um desafio aos seus dois melhores empregados, Dane e Lynn (Alison Brie, de “Como Ser Solteira”): em três meses, quem mais se destacar será seu substituto. A disputa é mais acirrada que o normal, porém, o momento exige de Dane uma dedicação maior à família, o que ele não costuma fazer.

É por isso que o título já começa equivocado: Dane não é “um homem de família”. Aqui, é indispensável adentrar em um spoiler não muito pequeno, mas que é fundamental para a análise – ou seja, fica registrado o alerta ao leitor em relação à tolerância a spoilers, caso o filme não tenha sido visto. Como poderia “um homem de família” ser tão negligente a ponto de não cogitar os sintomas do filho como possibilidade de doença? Como uma mãe poderia demonstrar tamanha letargia? Nesse quesito, o péssimo roteiro se esforça para fugir da realidade – já quanto às brigas de casais (inclusive de cunho sexual), nisso ele é bastante verossímil.

Talvez o “homem de família” do título seja Lou, interpretado por Alfred Molina (de “Olhos da Justiça”). Embora Molina tenha se destacado mais com antagonistas – o exemplo principal está em seu Otto Octavius (“Homem-Aranha 2”) –, desta vez ele ratifica o próprio talento ao convencer como um coadjuvante de boa índole: ao que tudo indica (já que seu espaço é pequeno), bom marido, bom pai e bom avô. Lou tem uma subtrama realista (um homem experiente que encontra dificuldade em se colocar no mercado de trabalho) cuja participação periférica é previsível porque o roteiro é ruim – além de enrolado, como se fosse apresentar alguma surpresa.

Ao contrário, o desfecho também é previsível, já que o plot abraça um argumento clichê e se desenvolve da maneira mais clichê possível. O embate trabalho versus família: o tema tem se tornado desinteressante não pela sua essência, mas pelas abordagens sem criatividade, essa é só mais uma. Ao invés de se enriquecer, o texto prefere esbanjar machismo: constantemente humilhada, sua esposa Elise – Gretchen Mol (de “A História Verdadeira”), atuando melhor que Butler, o que não significa nada, pois o ator insiste em viver exatamente o mesmo papel desde “300”, apenas em filmes diferentes – jamais reage, demonstrando não amor incondicional, mas uma triste indolência. Note-se: em momento algum ela se defende! As personagens femininas, aliás, são marginalizadas: Elise é renegada à humilhação, Lynn existe apenas como engrenagem narrativa. Como plus para o público nacional, uma ofensa especial destinada às mulheres brasileiras, mostrando que o que é ruim pode piorar.

Como fazer um filme de boa qualidade com um roteiro de péssima qualidade? Em sua estreia na direção, Mark Williams tenta extrair o que pode: uma trilha sonora que exala pieguice, um workaholic que toma uma mistura de café com energético pela manhã (bastante sutileza, não?) etc. E tem um trunfo: uma história triste de criança doente, cujo trabalho é simples: pedir para o ator mirim fazer expressão de tristeza e carregar na maquiagem para dar a aparência da doença. São truques baratos que comovem o público que se deixa levar pela amargura de um enredo que acontece na vida real. Porém, isso não significa que o filme é bom. De bom não há quase nada em “Um Homem de Família”.

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