Crítica| Miriam Mente

A adolescência é uma fase cruel para as meninas, tanto que em vários filmes esta temática é abordada – seja em forma de comédia, como acontece em Meninas Malvadas (2004), ou em dramas mais pesados, como é o caso de As Virgens Suicidas (1999). Neste último filme, inclusive, um diálogo entre uma das irmãs que tenta suicídio e seu médico serve para definir muito bem toda a dificuldade que vem junto com o período: “Você nem tem idade para saber o quanto a vida pode ser ruim”, diz ele, que é rebatido imediatamente pela menina: “Claro, doutor! Você nunca foi uma garota de 13 anos...”. Quem é mulher não discorda. E quem é mulher e foi uma adolescente fora dos padrões, certamente, sentiu na pele o que a personagem quis dizer.

Este é o caso da Miriam que dá título ao primeiro longa de ficção escrito e dirigido pela dominicana Natalia Cabral e pelo espanhol Oriol Estrada: uma menina prestes a fazer 15 anos que se divide entre as raízes negras do pai – que ficam claras no seu cabelo, cor de pele e traços – e o local majoritariamente branco em que está inserida, já que sua mãe (Pachy Mendez), avó (Ana Maria Arías) e tio (Frank Perozo) são brancos e suas melhores amigas seguem o padrão de pele clara e cabelo liso. A textura dos fios, inclusive, é uma das maiores questões da adolescente, e isso fica claro desde o começo do filme – não tanto por ela, mas por sua mãe tentar negar o máximo que pode as características negras da filha. No longa, mesmo com o cabelo natural, Miriam (Dulce Rodriguez) mal tem o direito de mergulhar na piscina para que os fios não fiquem despenteados, e tudo isso enquanto suas amigas de cabelo liso brincam livremente na água.

O tempo todo ela é lembrada sobre o quanto precisa se esforçar para ao menos tentar ficar bonita, ainda mais quando revela que está com um namoradinho de internet que, ao que tudo indica, segue os padrões de beleza. Por causa do nome Jean-Louis, todos acreditam que ele é um francês filho de família importante e obviamente branco – para a alegria de Miriam, que sabe bem que a mãe não aceitaria um negro, por mais que tenha se relacionado com o seu pai. Porém, quando finalmente marca para conhecê-lo, a adolescente se decepciona e reflete o comportamento de sua progenitora ao ver que o garoto, na verdade, também tem os traços que tanto escuta que precisa renegar. Assim, em vez de encontrá-lo, ela foge e passa a ser mais fria nas mensagens da internet para que se afastem; mas, sem querer destruir de vez a história que havia montado em sua cabeça, continua dizendo para todos que o rapaz é branco e que será seu par na festa de 15 anos que irá fazer junto com sua melhor amiga.

É curioso ver Miriam reproduzindo um racismo do qual ela mesma é vítima – e esse é, sem dúvidas, um dos maiores trunfos do longa. No entanto, ao se levar em conta que a jovem é resultado de uma mistura de brancos e negros, fica claro que ela se encontra em um não-lugar. Por estar o tempo todo perto do racismo da mãe e da avó, a protagonista não se enxerga como negra. Até sabe que é diferente de suas amigas, mas não quer um garoto negro ao seu lado por não se ver como ele e por ter medo do que vão pensar. É como se a cor fosse errada, e ela reproduz as mesmas atitudes racistas que sente na pele sem nem perceber.

A ausência de um garoto fora do mundo virtual para ser o príncipe de 15 anos também mostra um conceito muito abordado no movimento negro: a solidão da mulher negra, que pode ser ainda pior durante a adolescência. Salvo raras exceções, a maioria dos meninos dessa idade não quer estar com uma garota fora dos padrões, e é muito comum que meninas brancas tenham uma fila de pretendentes enquanto as negras têm mais dificuldade durante essa fase. E assim como Miriam reproduz racismo com Jean-Louis, o mesmo acontece – e de forma ainda mais cruel – dos garotos negros para as garotas negras, como mostra uma das cenas mais tristes do filme. Por isso, mesmo sem aceitar as características do pretendente da internet, Miriam diz a todos que ele falta ao ensaios e aos ajustes de roupa porque ela esquece de avisá-lo sobre os encontros – tanto para manter sua história quanto para não ter que se submeter à busca de um par correndo risco de rejeição. Ela não se acha bonita o suficiente para isso, e julgando os sentimentos que temos na adolescência, provavelmente toma essas atitudes porque não quer se colocar à prova.

Além dessa história cheia de camadas, o filme também ganha pontos pela naturalidade. Aproveitando a linguagem documental que tanto dominam (antes de Miriam MenteCabral e Estrada só tinham feito documentários), os diretores conseguem fazer com que o espectador esqueça que está assistindo a um filme. Do enquadramento aos diálogos, tudo é muito natural no longa, o que torna ainda mais fácil se envolver com o enredo. O mesmo vale para as atuações, que contam com boas performances mesmo dos atores menos experientes – como é o caso de Dulce Rodriguez, a protagonista, que transmite bem a inadequação e jeito retraído da personagem. Outro destaque é para Vicente Santos, que interpreta o pai de Miriam, na cena em que fala sobre o racismo que sofria sem dizer muitas palavras, apenas olhando para a filha com um olhar triste de quem não tem coragem de contar que o mundo pode ser assim tão cruel.

No entanto, como um bom coming of age faz, Miriam é levada a uma jornada que a faz começar a entender a realidade, passando por um amadurecimento que vai muito além do que é proposto na tradicional festa de 15 anos em que o filme se encerra. Não chega a ser um soco no estômago como outras produções que apresentam uma temática parecida – como é o caso do excelente Pelo Malo (2013), de Mariana Rondón –, mas Miriam Mente certamente abre uma ferida nos mais sensíveis e nos que entendem os mecanismos que envolvem uma sociedade racista. Não é mesmo fácil ser uma garota… Mas ser garota e negra é ainda mais difícil.



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