Crítica | Hotel Transilvânia 3 (2018): faltou saber a hora de parar

Usar as figuras clássicas do cinema de horror para fazer comédias e sátiras não é novidade. Tanto no cinema quanto na televisão, personagens como Drácula, Frankenstein e Lobisomem já mostraram um lado cômico e divertido para reverter a lógica da sua própria essência. Por esse motivo, “Hotel Transilvânia” não foi um grande destaque quando chegou aos cinemas em 2012. Mesmo tendo um diretor como Genndy Tartakovsky (“O Laboratório de Dexter”), a animação parece não conseguir dar passos que vão muito além da própria sessão. O resultado é o sentimento de que aquilo poderia ser bom se houvesse coragem de ir além.

Na terceira tentativa de trazer o lado mais divertido dos monstros para o cinema, Tartakovsky, que também assina o roteiro ao lado de Michael McCullers (“O Poderoso Chefinho”), aposta num cenário novo para “Hotel Transilvânia 3: Férias Monstruosas“. Drácula decide tirar férias para poder passar um tempo com seus amigos e familiares e vai parar num cruzeiro monstruoso. Contudo, a capitã é pertence à família Van Helsing, lendária inimiga dos vampiros e outros monstros, e deseja eliminar para sempre o senhor da Transilvânia.

O poder mais icônico de uma boa animação está no uso inteligente do absurdo para criar um conceito ou uma discussão que seria impossível para um filme live-action fazer igual. O nonsense é um privilégio como recurso nesse sentido, mas é fácil se perder e torná-lo um artifício simples de piada. Este é, sem dúvida, o maior problema em “Hotel Transilvânia 3”. Há um mínimo de aproveitamento do formato, das personagens e das situações para ir além da primeira camada. O discurso é quase infantil e o roteiro, quando decide arriscar algo diferente, é incomodamente expositivo.

O que sobra é uma aventura divertida, utilizando os monstros de forma alegórica para aproveitar melhor os cenários que destoam do verdadeiro ambiente deles. E com isso Tartakovsky consegue soltar discretas referências, como parte do universo criado por H.P. Lovecraft ou a própria literatura de Bram Stoker. A presença dos Gremlins também é bem aproveitada, numa cena que poderia se tornar chata com facilidade, dado a exposição das pequenas criaturas.

Porém, enquanto a aventura parece funcionar bem, as piadas se tornam cansativas conforme o filme avança. Não espere por nada muito bem elaborado, pois o longa está bem mais próximo das famigeradas anedotas óbvias – há uma cena irritantemente comprida envolvendo uma piada de peido – do que do humor bem construído. Enquanto alguns estúdios se focam em animações com cenas cômicas totalmente embasadas, capazes de divertir tanto os mais novos quanto os mais velhos (e de maneira diferente, o que as tornam muito mais inteligente), o que é apresentado aqui é o velho humor físico gratuito.

Vindo de um diretor que soube trabalhar tão bem os potenciais da animação, essa terceira parte da franquia já nasce datada. É um filme de onde há pouco o que se extrair além de piadas óbvias e algumas cenas divertidas. “Hotel Transilvânia 3” entra para a lista dos longas animados que nascem sem que se saiba o motivo. Certamente irá divertir os mais novos, mas dificilmente irá estabelecer algum vínculo afetivo. Uma pena, seja pelo potencial das personagens, seja pela capacidade do diretor.

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