A ANCINE divulgou nesta quinta-feira, 27 de novembro, no Diário Oficial da União, o aviso de decisão da diretoria colegiada com o resultado dos recursos apresentados pelas empresas exibidoras que tiveram suas inscrições consideradas inabilitadas para o Prêmio Adicional de Renda – PAR 2014. Este ano, em mais uma medida para impulsionar o processo de digitalização do parque exibidor brasileiro, o valor concedido para premiação de R$ 3 milhões está sendo totalmente destinado à modalidade PAR Exibição.

De um total de 42 recursos interpostos pelas empresas, a Comissão de Análise de Documentação e Premiação reconsiderou sua decisão em relação a 26 inscrições. Outros 16 recursos apresentados foram indeferidos.

A partir de agora, com a definição final das inscrições habilitadas, tem início a aferição da pontuação dos complexos cinematográficos para fins de premiação. De acordo com o estabelecido no edital, a pontuação varia de acordo com o número de dias de exibição de longas-metragens brasileiros entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2013. O número de títulos diferentes exibidos no período também é levado em consideração.

Os valores da premiação deverão ser utilizados pelas empresas exibidoras contempladas exclusivamente em projetos de digitalização da projeção cinematográfica. O objetivo é garantir que grupos e empresas exibidoras cinematográficas nacionais de pequeno e médio porte consigam viabilizar a modernização dos seus sistemas de projeção e sonorização para a tecnologia digital. A iniciativa visa principalmente atender aos pequenos exibidores, que têm maior dificuldade para conseguir financiamento e fazer a atualização tecnológica de suas salas. Assim, o Prêmio Adicional de Renda se soma às ações do Programa Cinema Perto de Você no esforço para impulsionar o processo de digitalização do parque exibidor brasileiro.

Após a divulgação do resultado final do edital, o PAR 2014 será concedido por meio da celebração de um Termo de Concessão de Apoio Financeiro. A partir da assinatura do termo, as empresas contempladas deverão apresentar as propostas de destinação dos recursos em um prazo máximo de 60 dias. Os valores serão liberados após a aprovação das propostas.

O cinema que fala espanhol e português resolveu se autopromover. E em grande estilo. Tanto que, em março último, entidades de produtores e defensores de direitos autorais ibero-americanos promoveram, em Ciudad Panamá, a entrega do Prêmio Platino. Seis meses depois, no México, foi a vez de se atribuir o Prêmio Fênix aos melhores do cinema ibero-americano.

Desta vez, uma associação que congrega críticos e cinéfilos – a Cinema23 – se encarregou do empreendimento. As duas láureas tentam abrir espaços no imaginário dos que acompanham o glamour da entrega anual do Oscar. Têm, porém, grandes desafios à frente: conseguir espaço em grandes redes de TV e apostar na criação de um star system ibero-americano.

Enquanto a entrega dos prêmios ficar restrita a canais segmentados e não conseguirem enfeitar suas “alfombras rojas” com astros planetários, a batalha será inglória. Claro que as solenidades do Oscar, principalmente as mais recentes, ajudaram a projetar nomes de peso do cinema ibérico. Caso de Penélope Cruz, Javier Bardem, Ricardo Darín e Gael Garcia Bernal. E, outrora, da brasileira Sônia Braga. Do lado positivo, há fato estimulante: nossas cinematografias vivem momento animador. Países de pouca tradição como o Paraguai (“7 Caixas”), a República Dominicana (“Dólares de Areia”) e a Venezuela (com o imenso sucesso internacional de “Pelo Malo”) ganham relevo e passam a somar-se a centros tradicionais de produção como a Argentina, o Brasil e o México. Ano que vem, veremos se os dois prêmios – o Platino e o Fênix – terão continuidade. E se entrarão, para valer, na agenda promocional do cinema ibérico.

A atriz Geraldine Chaplin, nascida na Califórnia e naturalizada cidadã britânica, vem aprofundando cada vez mais sua relação com o cinema ibero-americano. Relação que começou em 1967, quando Carlos Saura (pai de sua filha Shane) a dirigiu no thriller psicológico “Pep­permint Frappé”. A parceria prosseguiu com títulos cultuados como “Ana e os Lobos” e “Cria Cuervos”. Depois da relação artística e matrimonial com Saura, a filha de “Carlitos” casou-se com o diretor de fotografia chileno, Patricio Castilla, seu companheiro até hoje e pai de sua segunda filha, a atriz Oona Chaplin (“Game of Thrones”).

Geraldine, mundialmente conhecida ao interpretar um dos vértices do triângulo amoroso de “Dr. Jivago” (com Omar Sharif e Julie Christie), está promovendo dois filmes latino-americanos. Um, “Dólares de Areia”, de Laura Guzmán e Israel Cárdenas, é uma produção da República Dominicana. O outro, “Amar em Madri”, tem na direção o argentino Eduardo Milewicz.

A atriz trabalhou também com o chileno Miguel Littin, em “A Viúva de Montiel”, escrito por Gabriel García Márquez e realizado no México; com o boliviano Jorge Sanjinés, em “Para Receber o Canto dos Pássaros”, e com o espanhol Pedro Almodóvar, em “Fale com Ela”.

Da experiência boliviana, ela guarda forte lembrança: “filmamos nos Andes, a 5 mil metros de altura. Topei esta aventura porque Sanjinés era um de meus ídolos, desde que assistira a “Sangue de Condor” (1969). Quando me convidou para atuar em seu novo filme,  avisei que não entendia uma palavra que fosse em quechua ou aimara, mas que queria muito viver aquela experiência. Ele me avisou que minha personagem, Katherine, seria uma antropóloga estrangeira e que eu teria que respirar a 5 mil metros de altura, nos Andes. Topei com o maior entusiasmo. Adoro o filme”.

A atriz nunca atuou numa produção brasileira. Mas conheceu o baiano Glauber Rocha na Espanha. “Eu tinha visto um filme dele, ‘Antonio das Mortes’ (“Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, melhor direção em Cannes/1969). Vim a conhecê-lo na fase em que vivia com Saura. Glauber filmou uma produção espanhola (“Cabeças Cortadas”). Lembro-me que, certa vez, ele chegou de filmagem na África (decerto de “O Leão de Sete Cabeças”), na companhia da mulher, a atriz Juliet Berto, trazendo um haxixe do bom, do qual aproveitamos todos”.

O ator franco-argentino Jean-Pierre Noher está se preparando, pela segunda vez para reviver o escritor Jorge Luis Borges (1899-1987) num filme. Catorze anos atrás, ele protagonizou “Um Amor de Borges”, de Javier Torre, projeto que lhe rendeu fama e prêmios. Agora, reviverá Borges em “El Amuerzo”. E mais uma vez sob a direção de Javier Torre. O novo desafio é bem maior. Afinal, Noher, de 58 anos, interpretará o autor de “O Aleph” quando ele já se aproximava dos 80 anos.

Ao protagonizar “Um Amor de Borges”, o ator tinha 42 anos. E o escritor-personagem também estava na faixa dos 40. A trama de “El Almuerzo” se passa em maio de 1976, portanto dois meses depois do triunfo do golpe que implantou uma ditadura militar na Argentina. Um grupo de escritores agendou encontro (o almoço do título) com o general Jorge Luiz Videla, que comandava a Junta Militar empossada pelos golpistas. E o fizeram para pedir informações sobre Haroldo Conti, importante escritor argentino e militante de esquerda, que estava desaparecido. Borges foi ao encontro do general na companhia de Ernesto Sábato, Horacio Ratti, presidente da SAE (Sociedade de Escritores Argentinos) e de Leonardo Castellani. Haroldo Conti, nascido em 1925, e cujo desaparecimento motivou o almoço, nunca mais foi encontrado. O trágico ano de 1976 ficou como data presumível de sua morte.

Noher acredita no potencial histórico e artístico deste fato e no gesto dos escritores que procuraram o ditador para pedir pela vida de um colega. Acredita, também, na nova parceria com Javier Torre, seu amigo e integrante de um dos mais importantes clãs cinematográficos da Argentina. Ele é neto de Leopoldo Torre-Rios (“Pelota de Trapo”) e filho de Leopoldo Torre-Nilsson (“La Casa del Angel” e “La Mano em la Trampa”).

O compositor e cantor Alceu Valença resolveu virar cineasta há uns 15 anos atrás. Tinha 50 e poucos anos. Só levou a tarefa a cabo já perto dos 70. Seu primeiro longa-metragem, “A Luneta do Tempo”, deu muito trabalho e o obrigou a estudar vários compêndios de cinema. E a aprender sobre um tal de “plano zenital” ou “plano picado”. Ele está satisfeito com o resultado. Fez um filme familiar e povoado de lembranças da infância pernambucana.

Lançado no Festival de Gramado, o longa ganhou dois prêmios (trilha sonora, do próprio Alceu, e direção de arte, do baiano Moacyr Gramacho). E segue por festivais brasileiros e estrangeiros. Alceu se escalou para um pequeno papel (Véio Quiabo). Escalou também os dois filhos, Cêceu e Rafael. Cêceu Valença, que é ator profissional, interpreta Nagib Mazola, dono de circo que seduz todas as mulheres. O cantor-cineasta garante que deu ao filho “o papel exato, pois ele é mesmo um grande sedutor, tem fama de tarado, puxou ao pai”. Para Rafael, o filho mais novo, coube participação em cena circense.

“A Luneta do Tempo” tem muitos personagens. Todos com cara de gente do povo, incluindo os três profissionais escalados para os principais papéis: Irandhir Santos (Lampião), Hermilla Guedes (Maria Bonita) e Servílio de Holanda (o terrível Antero Tenente). Alceu escalou também gente que trabalhou a vida inteira na fazenda do pai, Décio de Souza Valença (1914-1999). Aliás, foi para evocar memórias paternas, nascidas de um Nordeste profundo, que Alceu fez o filme. Um filme povoado de cangaceiros, rabequeiros, sanfoneiros, tocadores de viola, emboladores e loucos de feira. E embalado por 57 números musicais. “Compus 200”, contou ele em Gramado. “Como não coube, vou colocar as outras 143 nos extras do DVD”.