O Projeto Setorial FilmBrazil, realizado pela APRO – Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais em parceria com a Apex-Brasil – Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, realizará ação inédita nos Estados Unidos para promover o país como polo de produção audiovisual. Entre os dias 9 e 13 de março, a iniciativa levará dez produtoras para participar de reuniões com importantes agências de Nova York e Chicago, no qual terão a oportunidade de divulgar seus trabalhos para o mercado internacional.

As produtoras Conspiração Filmes, Fulano, Hungry Man, Lobo, Los Bragas, Oca Films, Prodigo Films, Santa Transmedia, Zohar e Zola terão a oportunidade de apresentar seus trabalhos para profissionais de criação/produção das agências e clientes em um espaço totalmente reservado para reuniões, no formato de “screenings”. Ao término, haverá um evento de relacionamento no intuito de estreitar o contato entre os convidados. O processo de seleção das empresas e diretores participantes desta ação contou com o trabalho de “trendsetter” da agência Havas PR, que apontou as principais tendências do mercado local. Em Nova York ,os screenings serão realizados no Soho House e o evento de relacionamento no The Standard Hotel. Já em Chicago, tanto os screenings como o evento de relacionamento serão realizados no Soho House.

Vale ressaltar ainda que essa iniciativa marca o início dos trabalhos da “Incubadora de Projetos Internacionais”. A partir dessa primeira ação, será dado continuidade ao trabalho de representação (ou como é conhecido “Sales Rep”) dessas produtoras, liderado pela executiva do Projeto, Marianna Souza, e pelo executivo recém-transferido para Nova York, Luis Ribeiro.

De 11 a 23 de fevereiro, acontece a mostra O Cinema de Nicolas Philibert, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo, em parceria com a Cinemateca da Embaixada de França no Brasil e com o apoio do Institut Français. O evento exibirá 8 longas-metragens, que englobam o início da carreira do cineasta até o seu último filme, rodado em 2012.

A mostra traz a obra de Nicolas Philibert, um dos mais expressivos documentaristas da atualidade, que resgata em seus registros a emoção da descoberta do real como nas origens do cinema. Ainda pouco conhecido no Brasil, o cineasta é um dos grandes nomes do filme documentário francês e mundial.

Nicolas Philibert nasceu em Nancy, em 1951. Após terminar a faculdade de Filosofia, ele decidiu ingressar no meio cinematográfico. Começou sua carreira como assistente de direção, especialmente de René Allio e Alain Tanner. Em 1978, ele correalisa, com Gérard Mordillat, seu primeiro longa-metragem documental, “A Voz de seu Mestre”, no qual um grupo de grandes executivos (L’Oreal, IBM, Thomson, Elf etc) falam sobre o poder, da hierarquia, do lugar dos sindicatos, desenhando aos poucos a imagem de um mundo dominado pela finança.

De 1985 a 1987, ele filmou diversos filmes de montanha e de aventuras esportivas para a televisão. Em seguida, se dedicou a realização de longas-metragens documentais, todos distribuídos comercialmente: “A Cidade Louvre” (1990), “O País dos Surdos” (1992), “Um Animal, os Animais” (1995), “O Mínimo das Coisas” (1996), entre outros.

Como um dos destaques da produção, está o filme “Ser e Ter” (2002), longa que levou o cineasta a alcançar o reconhecimento do público na França e em festivais internacionais. O documentário retrata uma escola rural na França onde os alunos, entre 4 e 11 anos, são todos educados pelo mesmo professor, Sr. Georges Lopez.

Outro destaque é “A Estação de Rádio” (2013), estreado no Festival de Berlim de 2013 e ainda inédito em São Paulo, que mergulha no coração da Radio France, descobrindo o que habitualmente escapa aos olhares: os mistérios e as cenas de um meio cuja própria matéria que utiliza (o som) é invisível.

Em 1975, Nicolas Philibert foi assistente de direção de René Allio em “Eu, Pierre Rivière, que Degolei minha Mãe, minha Irmã e meu Irmão”, baseado num crime local descrito em livro pelo filósofo Michel Foucault. Filmado na Normandia, a alguns quilômetros de onde aconteceu o triplo assassinato, o traço mais especial do trabalho de Allio era o fato de que todos os personagens do filme foram interpretados por camponeses da região. Trinta anos depois, Philibert retorna à Normandia para reencontrar estes atores de ocasião, personagens da vida real. O resultado é o documentário ”De Volta à Normadia” (2007).

Os filmes serão exibidos em 35mm com legendas eletrônicas. A mostra terá ingressos a preços populares e 10% dos ingressos serão disponibilizados gratuitamente ao público de baixa renda.

A programação completa está em www.bb.com.br/cultura.

 

O Cinema de Nicolas Philibert
Data: de 11 a 23 de fevereiro (dia 15 não haverá programação)
Local: Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo – Rua Álvares Penteado, 112 – Centro – Próximo às estações Sé e São Bento do Metrô – (11) 3113-3651 – 70 lugares
Ingresso: R$ 4 e R$ 2 (meia)
Classificação indicativa: livre
Acesso e facilidades para pessoas com deficiência física // Ar-condicionado // Loja // Café Cafezal.

Léo vai visitar o primo no litoral alagoano. Lá, entre os amigos, conhece Sem Coração, menina que usa marca-passo, com quem passa a ter uma relação ambígua. Trabalhando temas como a iniciação sexual, a adolescência, as diferenças de realidades, entre outros, o curta pernambucano “Sem Coração” (2014) tem rendido bons frutos aos seus realizadores, Tião e Nara Normande. O filme estreou em Cannes, na Quinzena dos Realizadores, de onde saiu com o prêmio Illy de melhor curta, e seguiu uma carreira de sucesso, sendo premiado em Brasília, no Curta Cinema, em Havana, entre muitos outros.

O filme foi baseado em algumas histórias que Nara escutou no início de sua adolescência. Ela escutava fragmentos de conversas de seus amigos sobre uma menina chamada Sem Coração, que tinha um marca-passo, e sobre as idas a uma piscina abandonada. Nara contou a Tião sobre as memórias e logo bolaram uma história juntos. “Nos preocupamos muito em não estabelecer julgamentos, achamos que seria mais rico que as pessoas simplesmente entrassem em contato com as situações. Ao mesmo tempo, quisemos usar o filme pra falar de memórias dessa fase da vida, de férias, amizade, amor, liberdade”, conta Tião. “Falamos também da crueldade adolescente que está desde o nome que ela tem naquele grupo à forma com que ela é desprezada pelas outras meninas. Sem Coração convive com os meninos”, complementa.

Para formar o elenco, Tião e Nara entrevistaram mais de cem adolescentes, em Porto das Pedras, em São Miguel dos Milagres e em Maceió. As escolhas partiram de conversas com eles. Para preparação de elenco, chamaram a atriz Maeve Jinkings, que também faz uma ponta no filme.

“Sem Coração” é a primeira parceria conjunta na direção e no roteiro de Tião e Nara Normande, ambos premiados curta-metragistas, com, respectivamente, “O Muro” (2008) e “Dia Estrelado” (2011). “Como já tínhamos muitas variáveis nas filmagens e não queríamos ficar nos confrontando enquanto uma equipe esperava, tentamos conversar e planejar muito, até pensamos storyboards pra algumas cenas”, comenta Tião, que agora finaliza sua estreia em longas, “Animal Político”. E Nara produz seu próximo curta, a animação com técnicas mistas “Guaxuma”.

 

Por Gabriel Carneiro

Antes distribuído pela Videofilmes, e fora de catálogo, volta a ser lançado, agora pela Bretz Filmes, “O Céu de Suely” (2006), de Karim Aïnouz. Embora tenha sido reprisado constantemente pelo Canal Brasil, portanto, um filme de que muitos não podem reclamar dificuldades de acesso, é um dado interessante ver seu novo lançamento em DVD. Assim, a oportunidade para dizer algo para o qual esse filme sinaliza e que, com o tempo, pode ser ponderado com mais vagar. Tendo chegado ao público em 2006, talvez reúna com “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005), de Marcelo Gomes, sinais que indiquem um novo momento do cinema nacional pós-retomada.

O que se avizinha, num momento em que a produção nacional se diversifica substancialmente, é a preocupação em cineastas como Aïnouz e Gomes de voltar o olhar para o interior do Brasil. Mais precisamente, para captar os grandes espaços que não veem o mar, mas numa perspectiva que incorpore a experiência urbana ou, de outro modo, da costa. Assim, não se trata de um espaço incomunicável, perdido no meio do nada; pelo contrário, se trata sim de um lugar cuja presença palpável da “vida moderna”, ou do fetiche consumista, é explícita nos detalhes mais insignificantes.

Conquanto ambos tenham fundo narrativo em contextos históricos distintos (o filme de Gomes volta a ação para os anos de 1940), o interior para o qual as câmeras de Aïnouz e Gomes apontam é aquele marcado pela presença do indivíduo preso a uma realidade atávica. De um modo até certo ponto provocador, há um tanto de determinismo social no que propõem: as mudanças sociais são cosméticas, os indivíduos não escapam às condições cruéis e de miséria de seus ancestrais, malgrado poderem ter experiências que escapam à miséria a que estão envolvidos desde gerações ancestrais.

Sinceramente, não creio que Aïnouz e Gomes, deliberadamente, tenham tido intenção de trazer à tona questões de sociologia, como se propusessem filmes de “tese”, mas esse é um dado de fundo que suspeito não deva ser deixado de lado em seus filmes. Tanto quanto numa certa filmografia que vem a reboque no contexto pós-retomada. Tenho em mente, mas aqui na perspectiva da costa e não do interior, “Amor, Plástico e Barulho” (2013), de Renata Pinheiro. O deslocamento para a cidade no filme de Renata Pinheiro apenas faz ver que, do ponto de vista do indivíduo, não há mudança: os elementos atávicos nas condições de vida, de miserabilidade, de falta de perspectivas são os mesmos.

Bem, certo, em “O Céu de Suely”, há a volta da jovem que foi para sul, para a grande cidade, e premida pela pobreza, com um filho pequeno, tenta novamente a sorte, sem o pai da criança, em sua terra natal, Iguatu, no Ceará. A volta, contudo, revela que sua sorte é a mesma onde ela estiver: o que ela tem para oferecer a fim de garantir sua sobrevivência é o próprio corpo. Assim, como um bumerangue, num vai e vem, ela tenta conseguir dinheiro rifando o corpo para voltar para o sul. Nesse movimento cíclico, não há qualquer sinal de esperança, sua sina é voltar para a situação de origem; ou seja, ela se encontra condenada a viver entre idas e vindas sem que sua vida se altere.

Aïnouz, sob esse aspecto, capta com notável discernimento o quanto há de contraditório, ou de contrassenso, na incorporação de uma “modernidade” deslocada de quem está no interior do país, ou, implicitamente, nas periferias dos grandes centros urbanos. O céu de Suely, no título, é uma fantasia que não se realizará no contexto de modernização, ou de globalização, do mundo em que ela vive. Seu cabelo de corte estiloso, realçado por mechas descoloridas, realça o desconforto de sua situação: do fetiche consumista moderno ela retém tão somente o cosmético, fútil.

Assim, “O Céu de Suely” traz à baila um mundo em mutação no qual os indivíduos permanecem os mesmos. Como que, apenas na superfície, seriam diferentes do que foram seus pais e avós. Sintomático a esse respeito que, ao se estabelecer na casa da avó, aceite de algum modo a rígida moral ancestral e se desculpe pela vergonha que causa ao se prostituir. Mas sintomático igualmente, como acontece no nordeste desde tempos imemoriais, que a avó aceite de bom grado criar seu filho, enquanto novamente ela tenta a “sorte” no sul.

“O Céu de Suely”, assim como “Cinema, Aspirinas e Urubus”, volta o olhar para as contradições do interior do país de uma maneira que não só veio a influenciar alguns dos bons filmes nacionais deste último decênio, mas que, principalmente, permite lançar luz sobre as recentes eleições presidenciais. Ora, distante da lógica consumista e moralista burguesas do sul do país, Suely busca saída para sua condição numa rifa que lhe convém. Simplesmente condenar sua escolha, contudo, é virar as costas e não entender o que ocorre com metade do Brasil.

 

Por Humberto Pereira da Silva, professor de ética e crítica de arte na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado)

A ANCINE divulgou a lista de filmes selecionados pelos curadores Julien Welter, da Seleção Oficial do Festival de Cinema de Cannes, e Anne Delseth, da Quinzena dos Realizadores, seção paralela do festival dedicada ao trabalho de realizadores independentes, para a segunda etapa da 9ª edição do Programa Encontros com o Cinema Brasileiro. Eles vão assistir a dez longas-metragens brasileiros em sessões exclusivas, entre os dias 18 e 22 de fevereiro, no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo.

As escolhas foram feitas tomando por base os teasers e informações fornecidas pelos produtores nas inscrições do programa. Os títulos selecionados foram:

“Califórnia”, de Marina Person (Mira Filmes)
“Clarisse”, de Petrus Cariry (Iluminura Filmes)
“Dois Casamentos”, de Luiz Rosemberg Filho (Cavídeo Produções)
“Mundo Cão”, de Marcos Jorge (Zencrane Filmes)
“Para minha Amada Morta”, de Aly Muritiba (Grafo Audiovisual)
“Ponto Zero”, de José Pedro Goulart (Minima e Okna)
“Quase Memória”, de Ruy Guerra (Kinossauros Filmes)
“Todas as Cores da Noite”, de Pedro Severien (Orquestra Cinema Estúdios)
“Um Homem Só”, de Claudia Jouvin (Giros Interativa)
“Voltando pra Casa”, de Gustavo Rosa de Moura (Mira Filmes)

Cinco dos dez filmes selecionados foram realizados por empresas produtoras associadas ao Programa Cinema do Brasil, parceiro dos Encontros. Os curadores terão ainda a oportunidade de montar agendas próprias de reuniões com realizadores e produtores brasileiros durante sua estadia no país. Os responsáveis pelos filmes inscritos não selecionados para as sessões também podem enviar suas obras em DVD para que sejam entregues aos curadores pela equipe do programa.

A 68ª edição do Festival de Cinema de Cannes acontece na cidade francesa entre os dias 13 a 24 de maio.