O Festival de Cinema de Locarno, na Suíca, divulgou a programação da sua 68ª edição trazendo boas notícias para o cinema brasileiro. Oito filmes brasileiros, dois curtas e seis longas-metragens passaram pela seleção da curadoria e serão exibidos em diferentes mostras do evento. Em 2014, o Brasil já tinha merecido atenção do festival, sendo o país homenageado na seção Carte Blanche, dedicada a filmes em pós-produção. Este ano, o festival acontece entre os dias 5 e 15 de agosto.

O longa-metragem “Heliópolis”, de Sérgio Machado, protagonizado pelo ator Lázaro Ramos, foi programado para a Piazza Grande, espaço que exibe filmes, fora de competição, em uma tela gigante ao ar livre. A produção, que contou com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, no valor de R$ 1,5 milhão, fará sua estreia mundial em Locarno e será o filme de encerramento do festival.

Outro filme selecionado, este para a seção competitiva Cineastas do Presente, é o segundo trabalho da cineasta Petra Costa, “Olmo e a Gaivota”. Codirigido pela dinamarquesa Lea Glob, o filme, que mistura documentário e ficção, é uma coprodução Dinamarca-Brasil-Portugal-França.

Os outros longas selecionados fazem parte do projeto Tela Brilhadora, idealizado pelo diretor Julio Bressane, que reúne quatro filmes produzidos com baixo orçamento. Bressane, que também foi convidado para presidir o júri da seção Cineastas do Presente, estreia seu filme “Garoto”. Os outros três longas do projeto também terão première no festival suíco: “O Prefeito”, de Bruno Safadi; “O Espelho”, de Rodrigo Lima; e “Origem do Mundo”, de Moa Batsow.

Entre os curtas-metragens, disputam os prêmios, na seção Leopardos do Amanhã, os filmes “História de uma Pena”, de Leonardo Mouramateus, e “O Teto sobre Nós”, de Bruno Carboni.

“Eu precisei simplificar tudo para não destruir a complexidade da história”, disse Christian Petzold, em uma recente entrevista, ao se referir a “Phoenix”, seu último filme, um conto cinematográfico (o termo, como veremos, não é usado aleatoriamente), sombrio e melodramático. Aos leitores menos familiarizados com a obra do realizador alemão, essa parece ser uma frase de efeito, talvez um tanto paradoxal. Ela, contudo, traduz uma espécie de máxima do cinema de Petzold (“Barbara” [2012], “Yella” [2007], “Jerichow” [2009]). Um cinema de sutilezas e transparência desconcertantes. Um cinema de grandes temas. Um cinema de personagens. Um cinema sobre a Alemanha e suas feridas mal cicatrizadas, do nazismo ao muro de Berlim.

O filme começa com a imagem de um rosto envolto em gaze. Uma mulher. Nelly Lenz (Nina Hoss) é seu nome. Ela é uma sobrevivente dos campos de concentração nazistas, e, embora tenha escapado da morte, teve o rosto totalmente desfigurado. Sua amiga, Lene Winter (Nina Kunzendorf), leva-a de volta a Berlim, onde passará por diversas cirurgias. Enquanto se recupera e tenta se acostumar com o novo rosto, Nelly decide procurar Johnny (Ronald Zehrfeld), o marido, que tudo indica ter sido quem a denunciou às autoridades alemãs. Certo dia, encontram-se. Convencido de que Nelly morreu, Johnny não a reconhece, mas propõe-lhe um acordo: dadas as semelhanças com a esposa que julga falecida, pede-lhe que finja ser ela própria e o ajude a reclamar uma herança em seu nome.

“Phoenix”, uma adaptação de “Le Retour des Cendres”, de Hubert Monteilhet, é mais um roteiro de Petzold e Harun Farocki – outro grande cineasta alemão, falecido em 2014. E é, sem dúvida, o filme da dupla que mais faz referências ao cinema, envolvendo clássicos do cinema noir americano, de Edgar G. Ulmer a Jac-ques Tourneur. Nelly caminha pelos corredores do hospital como se estivesse em “Os Olhos sem Rosto” (1953), de Georges Franju, e ouve do médico que ter uma visagem nova é “uma grande vantagem”. Ela declina, quer seu rosto de volta, o que se mostrará impossível. Johnny não a reconhece, embora perceba algumas semelhanças. Ele a ensinará a ser mais como ela. Nelly, vestida com um rosto que não era dela, passa dolorosamente a ver a si mesma através dos olhos de outra pessoa. E, assim, o filme se transforma em uma curiosa variação de “Um Corpo que Cai” (1958). “Phoenix” é um filme de cinema. Parece meio óbvio, mas não é. Este é um dado da fotografia, da ambientação, como se o que vemos fosse o eco fantasmático de alguma coisa.

Nelly é Nina Hoss, uma das atrizes mais expressivas do cinema contemporâneo. E “Phoenix” estará menos nos mistérios e reviravoltas de sua trama do que na intensidade do olhar de sua protagonista. Sua fragilidade e o confronto com o passado são traduzidos por um olhar doce, doído, esperançoso. Ela não só parece querer permanecer na Alemanha, ao contrário de sua amiga Lene. Nelly acredita na possibilidade de retornar a um momento anterior à guerra. Johnny é teimoso, pouco gentil. Sua miopia é de origem moral e ele parece reprimir a imagem que tem de si mesmo. Johnny também tem seus desejos e motivações.

Petzold costura o jogo entre os protagonistas movendo-se do pessoal ao histórico e de volta, envolvendo uma série de convenções de drama e ambientação e refletindo a experiência dessas personagens com muito esmero. É uma coisa curiosa. O mistério está lá, aflorado. Ele se faz sentir, chama atenção para si, alimenta nossa curiosidade. Esta, no entanto, não se mantém exatamente na espreita pela resolução do caso. Claro: nos perguntamos se Johnny traiu Nelly, mas nossa atenção é logo direcionada aos olhares, aos gestos, aos detalhes. Não há tempo para por quês, nem conjunções condicionais. A história segue e nós vamos com ela. O mundo paranoico e instável de “Barbara”, quando qualquer um poderia ser um espião, é ainda mais escorregadio, incerto, doloroso – aliás, uma experiência bem curiosa seria rever “Barbara” com “Phoenix” no retrovisor, pois o país dividido do primeiro se ergue justamente nas ruínas do segundo. Lá, eles eram observados o tempo todo e o filme jamais se mostrava voyeur. Aqui, eles fazem de conta e o filme não se transforma em um estudo das aparências, ao contrário, é nelas que se revelam os personagens. Nelly e Johnny estão sempre atuando. Vemos, contudo, sempre e ao mesmo tempo, uma máscara e uma alma.

Ao fim, “Phoenix”, um dos mais bem arquitetados trabalhos dramatúrgicos do cinema recente, se transforma numa espécie de filme de zumbis, de fantasmas encarnados. Nada será como antes, eles não nos deixarão esquecer.

 

Phoenix
(Alemanha, 98 min., 2014)
Direção: Christian Petzold
Distribuição: Imovision

 

Por Julio Bezerra, crítico de cinema

De 3 a 6 de agosto, a Academia Internacional de Cinema (AIC) traz às suas sedes do Rio de Janeiro e São Paulo a Semana de Cinema e Mercado. Serão quatro dias de palestras gratuitas com profissionais para falar sobre tecnologia, distribuição, novas mídias e trazer diferentes pontos de vista sobre o universo do cinema comercial e independente.

Esta será a quarta edição da Semana de Cinema e Mercado em São Paulo, e a primeira no Rio. O evento é gratuito e aberto ao público. Para participar, é preciso se inscrever no site da AIC, www.aicinema.com.br/iv-semana-de-cinema-e-mercado.

Confira abaixo a programação:

“Mostra de São Paulo e a Importância dos Festivais”, com Renata Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo:
São Paulo – Segunda, 3 de agosto de 2015, às 19h30.
Rio de Janeiro – Quarta, 5 de agosto de 2015, às 19h30.

“Comercialização e Distribuição”, com Marco Aurélio Marcondes, responsável pela coordenação do lançamento de “Tropa de Elite 2”, entre tantos outros importantes títulos nacionais:
São Paulo – Terça, 4 de agosto de 2015 , às 19h30.
Rio de Janeiro – Quinta, 6 de agosto de 2015, às 19h30.

“Crowndfunding e Alternativas de Financiamento”, com Rodrigo Maia, um dos fundadores do Catarse, a maior plataforma de financiamento coletivo do Brasil:
São Paulo – Quarta, 5 de agosto de 2015, às 19h30.
Rio de Janeiro – Terça, 4 de agosto de 2015, às 19h30.

“Tendências do Mercado Nacional e Internacional de Televisão”, com Zico Góes, diretor de conteúdo da FOX International Channels do Brasil e ex- diretor de programação e conteúdo da MTV BRASIL:
São Paulo – Quinta, 6 de agosto de 2015, às 19h30.
Rio de Janeiro – Segunda, 3 de agosto de 2015, às 19h30.

 

Quinze anos depois de realizar “Brava Gente Brasileira”, Lucia Murat volta ao Mato Grosso do Sul para registrar o impacto provocado na reserva Kadiwéu pela chegada da eletricidade e com ela a televisão. Mas, ao chegar, encontra a comunidade na luta pela retomada de suas terras, invadidas por pecuaristas. Os desafios dessa nova identidade indígena, dividida entre a reserva e a cidade, para onde se deslocaram parte dos kadiwéus, surge em toda a sua complexidade, influenciada ainda pela instalação de cinco igrejas evangélicas na reserva.

O documentário “A Nação que Não Esperou por Deus”, dirigido por Lucia Murat em parceria com Rodrigo Hinrichsen, chega aos cinemas brasileiros no dia 16 de julho, com distribuição da Vitrine Filmes. E no cinema Odeon, no centro do Rio de Janeiro, no dia da estreia, haverá um debate após a sessão de 20h30, com a participação da Lucia Murat e da antropóloga Iara Ferraz (doutora pelo Museu Nacional/UFRJ, que desde meados da década de 70 presta assessoria aos “Gavião” de Mãe Maria e aos Aikewara, povos distintos que habitam a região de Marabá, sudeste do Pará).

Estão abertas, até às 23h59 do dia 27 de julho, as inscrições para a segunda etapa da décima segunda edição do Programa Encontros com o Cinema Brasileiro, uma iniciativa da ANCINE, em parceria com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), e com o apoio do Programa Cinema do Brasil. Participarão desta etapa o Festival Internacional de Documentários de Amsterdã – IDFA, que acontece de 18 a 29 de novembro, na Holanda, e o Festival Internacional de Documentários de Copenhagen – CPH:DOX, de 5 a 15 de novembro, na Dinamarca. Devido ao perfil dos eventos, totalmente dedicados ao documentário, esta etapa dos Encontros receberá apenas inscrições de filmes do gênero.

Os documentários inscritos na primeira etapa desta ediçao, com o Festival de Havana, serão considerados automaticamente inscritos nesta segunda etapa, sem precisar repetir o processo. Desta vez, excepcionalmente, os curadores do IDFA e do CPH:DOX não virão ao Brasil. Cada um deles selecionará, a partir do material das inscrições, doze filmes que serão avaliados pessoalmente e para os quais serão retirados os custos de inscrição nos eventos. 

Serão aceitas inscrições de documentários de longa-metragem já finalizados e ainda inéditos fora do território nacional, ou obras em fase de finalização que já possuam corte provisório capaz de ser projetado em formato DVD ou Blu-Ray. Os interessados em participar devem preencher o formulário de inscrição online no Portal ANCINE, indicando um link onde esteja disponível para visualização um teaser/trailer, com entre 2 e 5 minutos de duração, legendado em inglês. As informações das inscrições e os respectivos links serão repassados para os curadores que selecionarão doze filmes, cada, dos quais ao menos dois devem ser de associados do Programa Cinema do Brasil.