Por Maria do Rosário Caetano, de João Pessoa

O longa-metragem “Desvio”, ficção paraibana de Arthur Lins, foi o grande vencedor da competição nacional do 14º Festival Aruanda do Audiovisual Brasileiro. E o longa documental “Soldados da Borracha”, do cearense Wolney Oliveira, triunfou na mostra Sob o Céu Nordestino, destinada à produção dos oito Estados do Nordeste. Ambos venceram por decisão do júri oficial e do júri popular. Já a Crítica preferiu o documentário “Indianara”, de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa, sobre a ativista trans Indianara Siqueira, amiga de Marielle Franco.

Não houve bairrismo na escolha de um filme paraibano como o melhor da competição nacional. “Desvio”, longa de estreia do jovem Arthur Lins, venceu por suas qualidades, que são muitas. Afinal, o filme traz um tema urgente e contemporâneo, exercita a crença no poder da imagem, conta com elenco afiado e roteiro enxuto, com ótimos e cortantes diálogos. Que ninguém espere, ao ver “Desvio”, um Nordeste (locações na capital João Pessoa e na interiorana Patos) folclórico, miserável ou idealizado. O que se vê na tela é uma juventude urbana, plugada no punk rock, rebelde, em crise com a família tradicional, próxima (ou não) do mundo das drogas e do crime.

O protagonista de “Desvio” é Pedro (Daniel Porpino, que dividiu o prêmio de melhor ator com Bukassa Kabengele, de “Pacificado”), integrante de uma banda punk rock, que foi parar na prisão. Ao obter “indulto de Natal”, ele poderá desfrutar de poucos dias com seus familiares e amigos, desde que não frequente bares e locais assemelhados, enfim, não transgrida as rígidas normas dos códigos penitenciários. Num trabalho marcado mais por seu corpo físico, que por pelo discurso verbal, Pedro transitará pela casa materna, irá ao encontro da avó e de amigos e, ponto nevrálgico do filme, se envolverá em um assalto. Como o filme é lacunar e pouco explicativo, o espectador ficará intrigado. Aquele crime se dá no tempo presente? Ou foi o crime que, no passado, levou o jovem à prisão (com sentença de 14 anos para cumprir)?

Arthur Lins, que tem cara e gestualidade de roqueiro, escreveu um roteiro (também premiado intencionalmente) lacunar e pautado pela ambiguidade. Assim sendo, seu ‘Desvio” é poroso e permite ao espectador a montagem de uma espécie de quebra-cabeça. Duas sequências do filme são notáveis por sua potência visual e sonora. Numa delas, Pedro testa um carro num terreno poeirento em círculos infernais. No segundo, um incêndio encherá a tela de vermelho e fúria.

“Soldados da Borracha” integra, junto com o longa “Os Últimos Cangaceiros” e o curta “Sabor a Mí”, a trinca de melhores documentários de Wolney Oliveira. O realizador cearense, formado pela Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de los Baños, em Cuba, narra a saga dos nordestinos, em maioria, que foram colher látex na Amazônia, dentro do esforço de guerra empreendido pelos Aliados no enfrentamento do Nazifascismo. Com o Sudeste Asiático sob domínio do eixo Alemanha-Japão-Itália, a borracha não vinha mais da Malásia. Os EUA acertaram (com Getúlio Vargas) a compra do látex amazônico. Para dispor de matéria-prima nas imensas quantidades necessárias, o Governo Brasileiro recrutou mais de 50 mil trabalhadores (1.200 deles saíram de presídios cariocas), gente que nunca tinha visto uma seringueira. Na floresta, malária, onças, cobras e tocaias esperavam pelos recrutados. Muitos, milhares, morreram em solo amazônico.

O longa “Soldados da Borracha” teve suas qualidades técnicas e artísticas valorizadas pelo júri composto pelos cineastas Emília Silveira e João Batista de Andrade e pelo professor da UFPB, Fernando Trevas. Foram premiados o trilheiro (o craque DJ Dolores), os montadores (Mair Tavares e Leyda Nápoles), os técnicos de som e esta trama tão significativa. Afinal, o filme mostra que gente do povo, quando é mobilizada para um grande empreendimento brasileiro, é tratada como “carvão”. Ou seja, mão-de-obra barata e descartável. E que suas histórias desaparecem do imaginário coletivo. Wolney contou, no debate do filme, que mesmo sendo cearense (o Ceará mandou metade dos recrutados para os seringais) só ouviu falar nos “soldados da borracha” quando já contava com 44 anos (hoje ele tem 59).

O segundo filme mais premiado na Mostra Sob o Céu do Nordeste foi o também cearense “Currais”, de Sabina Collares e David Aguiar. O documentário tem como protagonistas seres humanos invisíveis: sertanejos flagelados, que, vítimas de terrível seca, tentaram chegar à capital, Fortaleza, em busca de ajuda. O Estado criou, então, “campos de concentração” para impedi-los de chegar ao centro geopolítico-administrativo do Ceará. Um exemplo emblemático da “higienização” empreendida pelos poderes instituídos. Nenhum esforço foi medido para impedir a presença daqueles flagelados em avenidas e ruas de bairros ricos fortalesenses. O filme teve sua direção premiada e, também, a fotografia de Petrus Cariry, um dos grandes nomes do cinema cearense. Como o documentário conta com cenas ficcionalizadas, a atriz paraibana Zezita Matos foi escolhida como melhor atriz.

Um terceiro longa — “Jackson, Na Batida do Pandeiro”, de Marcus Vilar e Cacá Teixeira — ganhou Prêmio Especial de júri e o Troféu Aruanda de “Ator ou Personalidade”, atribuído, postumamente, ao rei do ritmo, Jackson do Pandeiro (1919-1982). O filme é uma sólida biografia do artista paraibano, nascido em Alagoa Grande, que depois partiu para Campina Grande, Recife e Rio de Janeiro, tornando-se o grande intérprete de “Chiclete com Banana” e Comadre Sebastiana”, ídolo de Gilberto Gil, Alceu Valença, Lenine (autor de “Jack Soul Brasileiro”), Gal Costa, Elba Ramalho, Silvério Pessoa e jovens bandas paraibanas. Por causa de sua construção clássica (e biográfica), o filme não vem conseguindo, ao menos nos festivais, a receptividade que merece. Villar e Teixeira definem sua obra como “um longa-metragem em processo”, pois ainda realizam mudanças em sua estrutura. Apresentado neste ano de 2019 em algumas mostras e festivais, o filme integrou o calendário do Centenário de Jackson do Pandeiro. Em 2020, chegará aos cinemas.

O júri da competição internacional formou-se com os atores Suzy Lopes (de “Bacurau”) e Marco Ricca (“Chatô”) e com o escritor Fernando Morais (“Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, matriz de “Wasp Network”, de Olivier Assayas). A trinca fez a coisa certa: concentrou seis prêmios em “Desvio” (incluindo melhor filme e direção), reconheceu as qualidades do instigante documentário (na verdade um “híbrido”) “Partida”, de Caco Ciocler, e valorizou o que “Pacificado”, produção brasileira (com parceiros norte-americanos), tem de melhor (o elenco e as imagens, assinadas pela fotógrafa turca Laura Merians).

Vencedor do Festival de San Sebastián, na Espanha (melhor filme e melhor ator, para Bukassa Kabengele), “Pacificado” tem direção do estadunidense Paxton Winters, radicado há nove anos no Brasil (no Morro dos Prazeres). O júri brasileiro premiou seus protagonistas Débora Nascimento, que interpreta jovem mãe favelada, consumidora de drogas e displicente com a filha (a excelente Cássia Nascimento Gil, de 13 anos), e o congolês, naturalizado brasileiro, Bukassa Kabengele. O ator, de 49 anos, 40 deles vividos no Brasil, quebra com todos os estereótipos dos chefes de tráfico, donos de morro. No filme, o vemos saindo da prisão, com a alma “pacificada” e disposto a montar uma pizzaria no Morro (carioca) dos Prazeres. Zen como um “buda nagô”, ele se verá de novo no redemoinho de múltiplas violências. Voltará ao crime? Eis a questão posta pelo filme.

Num júri de três membros, sendo dois atores, deu-se, como era de se esperar, uma certa “reforma agrária” de troféus no ítem “intérpretes feminininas e masculinos”. Outra atriz, ex-aqueo, foi laureada: a indomável e brilhante Georgette Fadel, alma de “Partida”. E outro ator, ex-aqueo, também foi aquinhoado: o ótimo Daniel Porpino. Como o quarteto está muito bem em seus respectivos papéis, o distributivismo não incomodou os críticos. Nem a plateia, que aplaudiu com garra os laureados.
Registre-se, aqui, que houve muita confusão na cerimônia de premiação. Havia dezenas de troféus expostos aos olhos do público. Uns 40. E mesmo assim verificou-se ausência da láurea, composta com desenho estilizado de um vaso de cerâmica enfeitado com flor de celulóide, símbolo de “Aruanda”, seminal filme de Linduarte Noronha.

Daniel Porpino recebeu, tranquilo, o seu Troféu Aruanda. Na hora de Bukassa Kabengele receber o dele, não havia troféu disponível. Educado, o ator congolês-brasileiro agradeceu mesmo assim. Em seguida, falou de seu orgulho de ter sido o primeiro ator negro premiado em San Sebastián (um festival que se aproxima dos 70 anos). Contou que sua família chegou do Congo e radicou-se no Rio Grande do Norte, portanto, no Nordeste, indo depois para São Paulo (o pai, professor universitário, ia dar aulas na USP). Elogiou o Fest Aruanda e o troféu. E avisou que esperaria o seu, em sua casa paulistana. Na hora, num gesto de extrema elegância, Porpino repassou ao colega o seu troféu. Os dois se abraçaram e a plateia aplaudiu calorosamente.

Outra confusão foi causada pelo júri da mostra Sob o Céu Nordestino, que colocou o potiguar “O Grande Amor de um Lobo” e o paraibano “Brasil, Cuba” entre os filmes que analisou. Os dois, no entanto, haviam sido selecionados para a competição nacional (e não para a nordestina). A gafe foi percebida, inclusive, pelo codiretor de “Lobo”, Kenel Rogis. E pelos mais atentos, que viram, estupefatos, um filme ganhar, num mesmo festival, dois prêmios do júri popular.

A falta de um catálogo, que não saiu em tempo hábil, pode ser creditada aos atropelos deste primeiro ano da era Bolsonaro, tão hostil com o setor artístico-cultural. Mas que, ano que vem, o Festival Aruanda (a edição de número 15 acontecerá de 3 a 9 de dezembro) disponha de catálogo no dia de sua abertura e dedique ao cinema feminino, força revitalizadora do cinema brasileiro contemporâneo, a atenção que merece e horários nobres.

Este ano, o único debate, que reuniria um grande time de mulheres-diretoras, foi cancelado por atropelo de horário. Faltou tempo para o cinema no feminino, que seria o último tema de uma série de quatro debates, todos previstos para uma mesma manhã. Houve um remendo: o debate, improvisado, aconteceu no Cinepólis Manaíra, palco fílmico do festival, depois de exibição (no péssimo horário das 14h) de curtas-metragens dirigidos por cineastas paraibanas.

Na noite da atribulada entrega dos prêmios (com muitos discursos, homenagens, erros e falta de troféus), três cartas de categorias cinematográficas foram lidas. Todas em defesa da democracia, contra a censura, a favor Ancine (que foi, agora, “higienizada” de cartazes físicos e digitais de importantes produções brasileiras). A favor, também, de outros mecanismos de fomento ao cinema brasileiro (como o Fundo Setorial), da regionalização e da interiorização do cinema.

Manifestações devem ser livres e aceitas em tribunas como festivais. Mas faltou síntese às duas cartas paraibanas, imensas, a ponto de entendiar a plateia e atrasar a exibição do convidado da noite, o longa documental “O Barato de Iacanga”, de Thiago Mattar. Um exercício de síntese faria muito bem aos cineastas e ao festival.

Os curtas vencedores foram “Apenas o que Você Precisa Saber de Mim”, de Santa Catarina , dirigido por Maria Augusta Nunes (mostra nacional), e “Quitéria”, do paraibano Tiago Neves (Sob o Céu do Nordeste). Outro curta paraibano foi, merecidamente, muito premiado: o instigante “Faixa de Gaza” (melhor direção, Prêmio da Crítica e mais dois troféus). Os prêmios de melhor atriz (para Arly Arnaud, a Quitéria) e Jean-Claude Bernardet (pelo pernambucano “Nuvem Negra”) foram perfeitos.

Um reparo: o curta paulista “De Longe Ninguém Vê o Presidente”, de Rená Tardin, merecia figurar na lista de premiados. Bernardet, grande estudioso da presença do povo (incluindo o operariado) no cinema documental brasileiro (tema de seu livro “Cineastas e Imagens do Povo”) foi certeiro ao comentar o filme paulistano: “trata-se da obra mais conceitual do festival”. Por 15 minutos, este documentário mostra o discurso final do ex-presidente Lula, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, antes de partir para a prisão curitibana, e estabelece complexo contraponto com imagens da ultra-moderna fábrica da Mercedes Benz, capaz de montar um imenso caminhão em menos de 10 minutos. Estaria o discurso do metalúrgico, por duas vezes eleito presidente, em sintonia com este admirável mundo novo, capaz de trocar dez (ou mais) operários por uma única máquina? O filme nos instiga a pensar.

Um comentário final: além da turca Laura Merians, dos cubanos Leyda Nápoles e Arturo de la Garza, mais um nome internacional brilhou no Fest Aruanda, na hora dos prêmios, o lusitano Vasco Pimentel, parceiro de Wim Wenders e de outros grandes realizadores europeus, considerado um dos maiores técnicos (e teóricos) de som do planeta.

Confira os vencedores:

LONGA-METRAGEM NACIONAL

. “Desvio” (PB) – melhor filme, diretor (Arthur Lins), ator (Daniel Porpino), roteiro (Arthur Lins), trilha sonora (Vitor Colares), direção de arte (Shiko), melhor filme pelo Júri Popular

. “Partida”, de Caco Ciocler (SP) – Prêmio Especial do Júri, melhor atriz (Georgette Fadel), montagem (Thiago Marinho), som (Vasco Pimentel)

. “Pacificado”, de Paxton Winters (Brasil-EUA) – Melhor atriz (Débora Nascimento), melhor ator (Bukassa Kabengele), fotografia (Laura Merians), menção especial para Léa Garcia.

. “Indianara”, de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa (RJ) – Prêmio da Crítica (Abraccine), melhor figurino, menção honrosa.

. “Barretão”, de Marcelo Santiago (RJ) – menção honrosa

MOSTRA SOB O CÉU NORDESTINO

. “Os Soldados da Borracha” (CE) – melhor filme, trilha sonora (DJ Dolores), montagem (Mair Tavares e Leyda Nápoles), som (José Louzeiro, Fernando Cavalcanti e Lênio Oliveira), melhor filme pelo Júri Popular

. “Currais”(CE) – melhor direção (Sabina Collares e David Aguiar), atriz (Zezita Matos), fotografia (Petrus Cariri), direção de arte (Caroline Vieira, Sabina Colares e Thaís Campos)

. “Jackson – Na Batida do Pandeiro”, de Marcus Vilar e Cacá Teixeira (PB/PE) – Prêmio Especial do Júri, melhor ator ou personalidade artística (Jackson do Pandeiro, in memoriam).

. “O Que os Olhos Não Veem”, de Vânia Perazzo (PB) – melhor roteiro (de Vânia Perazzo)

CURTA-METRAGEM NACIONAL

. “Apenas o que Você Precisa Saber de Mim” (SC) – melhor filme, melhor direção (Maria Augusta Nunes), atriz (Alice Doro), figurino

. “O Grande Amor de um Lobo” (RN) – melhor filme pelo júri popular, roteiro (Adrianderson Barbosa e Kenel Rogis).

. “Brasil, Cuba”, de Bertrand Lira e Arturo de la Garza (Brasil/Cuba) – melhor fotografia (Arturo de la Garza)

. “Nuvem Negra”, de Flávio Andrade (SP) – melhor ator (Jean-Claude Bernardet)

. “Um”, de Daniel Kfouri e e João Castellano (SP) – melhor montagem (Diógenes Moura e Daniel Kfouri), direção de arte (Daniel Kfouri)

. “Nadir”, de Fábio Rogério (SE) – melhor trilha sonora

. “Gravidade”, de Amir Admoni (SP) – melhor som (Felipe Grytz)

CURTA-METRAGEM (SOB O CÉU DO NORDESTE)

. “Quitéria”, de Tiago Neves (PB) – melhor filme, melhor atriz (Arly Arnaud),

. “Faixa de Gaza” (PB) – Melhor direção (Lúcio César Fernandes), ator (Paulo Phillipe), som (Diogo Rocha), Prêmio da Crítica (Abraccine)

. “Costureiras”, de Virgínia Gualberto (PB) – melhor roteiro (de V. Gualberto, Mailsa Passos e Rita Ribes).

. “Fim”, de Ana Diniz (PB) – melhor roteiro (de Anna Diniz)

A Mostra Mosfilm de Cinema Soviético e Russo realiza sua sexta edição em casa nova. Ou melhor, em casas novas. Deixa a Cinemateca Brasileira, onde o CPC-UMES (Centro Popular de Cultura da União Municipal de Estudantes Secundaristas) realizou suas cinco primeiras edições, e estabelece-se, a partir desta quarta-feira, 4 de dezembro, no Espaço Itaú Augusta e no Cine Olido, do Circuito Spcine. Até dia 11 de dezembro, serão exibidos doze longas-metragens, em 29 sessões.

O filme inaugural, “A Balada do Soldado”, de Grigori Chukhray, realizado em 1959, é um rod-movie em tempos de guerra (a Segunda Guerra Mundial, ou A Grande Guerra Patriótica, como os russos a denominam), protagonizado por dois adolescentes.

Aliosha, um soldado de 19 anos, destrói dois tanques alemães. Ao invés de uma medalha, ele solicita licença para visitar a mãe e para consertar o telhado da casa da família, num aldeia. Ganha seis dias. Ao longo de sua jornada, feita em trens militares e nos mais improváveis meios de transporte, ele compartilhará com uma linda e arisca jovem (e com povo soviético, claro!) os sacrifícios da vida na retaguarda bélica.

Sintético (apenas 88 minutos), o filme, que recebeu prêmios em festivais internacionais (Cannes, São Francisco, Londres e Milão) se deixa ver com grande prazer e interesse, pois os atores são muito carismáticos e a fotografia (em preto e branco), de grande beleza. Excessiva, só a música.

A sexta edição da Mostra Mosfilm traz, claro, filmes de guerra, gênero em que os soviéticos desenvolveram excelente expertise (vide o magistral “Vá e Veja”, de Elem Klimov), obras de imenso empenho artístico (caso de “Stalker”, de Andrei Tarkovsky), balés filmados (o imperdível “Spartacus”, dançado pelo Bolshoi), comédias (“A Prisioneira do Cáucaso”, visto por 76 milhões de espectadores), dramas de nomes impensáveis em nosso tempo (“O Comunista”), e um filme menos badalado de Mikhail “Soy Cuba” Kalatozov ( “Amigos Verdadeiros”).

“Stalker” (1979) é uma ficção científica comandada por um dos maiores nomes do cinema soviético, Andrei Tarkowsky (1932-1986). Ao longo de 162 minutos, com imagens que imprimem a predominância de verdes, cinzas e cobres, o grande realizador moscovita nos conduz a um futuro indefinido e misterioso. E a um espaço idem. Um guia (o stalker do título) leva dois homens, identificados apenas como Escritor e Professor, a uma área proibida, a “Zona”. Dentro dela, há uma usina nuclear desativada e um aposento capaz de realizar os desejos de quem nele adentrar. No elenco, estão Aleksandr Kaidanovsky, Anatoly Solonitsyn, Nikolai Grinko e Alisa Freyndlikh. O filme conquistou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes, em 1980.

“O Comunista”, de Yuli Raizman, realizado em 1957, foi produzido para marcar o quadragésimo aniversário da Revolução Bolchevique. O diretor optou por narrar “a curta, mas brilhante, vida” de Vassily Gubanov, “seu trabalho honesto e consciencioso” na construção de uma grande central elétrica em Zagora, durante a Guerra civil que se seguiu à revolução de Outubro. Sem perceber, “Vassily Gubanov realiza os feitos que o tornarão, postumamente, um herói”.

O filme, que ganhou Menção Honrosa no Festival de Veneza, seria um típico produto do Realismo Socialista? Primeiro, há que se lembrar que Josef Stálin (1878-1953) morrera e que o país experimentava novos ares. No livro “Cinema para Russos, Cinema para Soviéticos” (Bazar do Tempo, 2019), o pesquisador e diplomata João Lanari Bo comenta: “Neste filme (‘O Comunista’), a história da implantação do comunismo em um microcosmo longínquo torna-se um relato privado (o filho relembrando a história do pai), carregado de tonalidades emocionais que revelam a internalização do mito revolucionário”. O herói “que mal conhece a cartilha comunista – a despeito do título do filme, ele age por uma ética própria, autodidata – termina sendo assassinado pelos representantes da velha Rússia: não há delegados do Partido que assegurem sua salvação, o que há é destruição da central elétrica e a falência momentânea do projeto revolucionário”.

Há que se prestar atenção em “Eles Lutaram pela Pátria”, outra atração da Mostra Mosfilm, por razão extra-obra: o currículo de seu realizador, o cineasta (e ator) Serguei Bondarchuk (1920-1994). O filme é um épico de guerra, gênero preferido do astro soviético. Além dele, que fazia questão de atuar também nos filmes que dirigia, foram escalados Vassily Shukshin, Vyacheslav Tikhonov e Yury Nikulin.

Ano que vem, a Rússia vai festejar o centenário de nascimento de Bondarchuk, um dos nomes mais poderosos de sua história cinematográfica. Com sua bela estampa, ele tornou-se célebre nas 15 repúblicas soviéticas. Depois, tornar-se-ia nome de alcance planetário ao ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro com seu monumental “Guerra e Paz” (em quatro partes, 1966/67). Seu prestígio chegou ao ponto de ser ele o escolhido por Dino de Laurentis para comandar o épico “Waterloo”, com Rod Steiger na pele de Napoleão Bonaparte, Christopher Plummer como o General Wellington e Orson Welles como Luís XVIII (em aparição fugaz). Para se ter ideia do poder de Sergei Bondarchuk, basta evocar fala de Andrei Tarkovsky no filme “Uma Oração de Cinema”, dirigido por seu filho Andrey A. Tarkovsky e exibido na Mostra Internacional de Cinema de SP, em outubro último. O diretor de “Solaris” assegura que seu filme “Nostalgia”, realizado na Itália, só “não ganhou o Festival de Cannes, em 1982, porque Bondarchuk, um dos jurados, o teria boicotado sob o argumento de que aquele filme não representava a URSS”. Difícil apurar a história, agora que os dois estão mortos.

O selo CPC-UMES já lançou dois filmes de Bondarchuk em DVD – “O Destino de um Homem” (1959), sua estreia na direção e, para muitos, seu melhor trabalho, e o monumental “Boris Godunov”, recriação épica do poema de Alexander Pushkin. O próprio Bondarchuk interpreta o czar Boris Godunov, um dos malfadados herdeiros do trono de Ivan, o Terrível. Ambientado em tempo medieval-religioso, a narrativa nos atira no centro de um império, o russo, em convulsão e a ponto de esfacelar-se (entre 1598 e 1605). Os cenários são arrebatadores, os figurinos espantosos, as cenas de multidão impressionantes e a fotografia de aliciante beleza.

“Eles Lutaram pela Pátria”, que concorreu à Palma de Ouro em 1975, reconstitui os três dias de retirada de um regimento do Exército Vermelho, em direção à cidade de Stalingrado. E o faz a partir da ótica de três soldados de origens diferentes (um engenheiro agrônomo, um mecânico e um mineiro). Este épico bélico baseia-se em romance de Mikhail Sholokhov (1905-1984), Prêmio Nobel de Literatura, em 1965.

Confira abaixo dados gerais e sinopses dos sete filmes que completam a programação da sexta Mostra Mosfilm:

. “Spartacus” (1975, 93 minutos), de Yury Grigorovich. Com Vladimir Vassilev, Natalya Bessmertnova, Maris Liepa, Nina Timofeeva, este filme, um registro de um dos mais famosos espetáculos do Balé Bolshoi, criado por Khachaturian, situa-se na Roma Antiga. Spartacus, um soldado trácio, é capturado por Crasso. Forçado a lutar como gladiador e matar um de seus amigos, ele planeja um levante sem precedentes.

. “A Flor de Pedra” é uma trama de aventura, censura livre, dirigida por um mestre da animação e dos efeitos especiais, Aleksander Ptushko. Produzido em 1946, o filme tem fama, na Rússia, de ser “um dos mais instigantes exemplares da história do cinema fantástico”, gêneros de grande apelo popular. Ptushko narra a fábula de um artesão que se dispõe a sacrificar tudo pela perfeição técnica de sua arte.

.“Amigos Verdadeiros”, de Mikhail Kalatozov, premiado em Cannes com “Quando Voam as Cegonhas” (1959), é um mix de comédia e aventura. Três garotos, moradores de um subúrbio de Moscou, se comprometeram a, no futuro, se reencontrar. Adultos, Borka tornou-se um famoso cirurgião, Sashka, professor de pecuária, e Vaska, doutor em arquitetura. Para cumprir a promessa de outrora, eles partem em uma jangada, pelo rio Volga, para juntos, viverem uma série de aventuras.

. “Volga-Volga” (1938) é uma comédia musical, dirigida por Grigori Aleksandrov, o mais próximo colaborador de Serguei Eisenstein. Juntos, eles trabalharam em vários filmes, incluindo a frustrada experiência mexicana (“Que Viva México!”) do diretor de “Encouraçado Potenkin”. Embora um de seus filmes – “Jovens Alegres” (1934) – seja objeto de estima da crítica francesa, Alexandrov acabou distante dos “Anos Eisenstein” (e da glória do mestre). Fez, inclusive, filmes patrióticos (ou de baixo risco) na era Stalin. É o caso deste, “Volga-Volga”. Na trama, dois grupos de artistas amadores deixam sua aldeia para participar de concurso de talentos em Moscou. Eles o farão acompanhados de um burocrata, interessado em utilizá-los em proveito próprio (ou seja, para turbinar sua ascensão na hierarquia soviética).

. “A Prisioneira do Cáucaso” (1966, 80 minutos), de Leonid Gayday, com os comediantes Aleksandr Demyanenko, Natalya Varley, Yury Nikulin, Vladimir Etush. Um grupo parte em viagem de pesquisa folclórica, rumo ao Cáucaso. O jovem estudante Shurik apaixona-se pela atlética, bela e politizada Nina. Mas a garota é sequestrada pelo homem mais poderoso da região, que planeja impor a ela um casamento arranjado. Um dos imensos êxitos populares de Gayday, que vendeu mais de 76 milhões de ingressos.

. “Rapaziada!” (1981, 92 minutos) é um drama dirigido por Iskra Babic, com elenco encabeçado por Aleksandr Mikhaylov, Pyotr Glebov, Irina Ivanova, Mikhail Buzylyov-Kretso e Pyotr Krylov. Na trama, o protagonista, Pavel, encontra-se prestando serviços ao Exército quando recebe carta da mãe, dizendo que Nastya, sua esposa, o estava traindo. Ele decide, então, não retornar à sua cidade natal. Porém, passados treze anos, descobre que a mãe se enganara. Nastya morrera, deixando três filhos órfãos (a mais velha, filha dele). O filme recebeu menção honrosa no 32º Festival de Berlim.

. “O Mensageiro” (1986, 89 minutos) é um drama dirigido por Karen Shakhnazarov, o poderoso presidente dos Estúdios Mosfilm, e grande apoiador do projeto de difusão do cinema soviético (e russo) empreendido, no Brasil, pelo CPC-UMES. O diretor de “Anna Karenina – A História de Vronsky” (2017), lançado ano passado, e com sucesso, no circuito de arte brasileiro, participa da sexta Mostra com uma narrativa ambientada na Era Gorbachev. Um rapaz sem noção consegue emprego de office boy. Ele se sente parte de uma sociedade à deriva. Ao fazer determinada entrega à domicílio, ele conhece o Prof. Kuznetzov e sua filha Katya. Para irritar o professor, ele afirma ter engravidado Katya. Para sua surpresa, ela confirma a história. À frente do elenco, estão Fyodor Dunaevsky, Anastasya Nemolyaeva, Oleg Basilashvili e Inna Churikova.

. “Aluga-se uma Casa com Todos os Inconvenientes” é o filme mais recente da Mostra Mosfilm. Trata-se de uma comédia de 90 minutos, realizada por Vera Storozheva, com Victoria Isakova, Irina Pegova, Nina Dvorzhetskaya e Svetlana Khodchenkova à frente do elenco. Na trama, um corretor ambicioso aluga a mesma casa para várias famílias. Depois de algumas situações embaraçosas, tudo parecia caminhar bem. Mas, ao retornar de uma viagem, o proprietário do imóvel descobre, surpreso, que o amigo a quem ele emprestara a casa a havia alugado a terceiros.

Dos 12 filmes programados, três chegam em cópia restaurada pela Mosfilm, dentro do rigor das mais avançadas técnicas digitais: a ficção científica “Stalker”, o drama de guerra “Balada do Soldado” e a comédia “A Prisioneira do Cáucaso”.

Estão abertas as inscrições para a Competição Latino-Americana da 9ª edição da Mostra Ecofalante de Cinema. Os interessados podem inscrever seus filmes até o dia 15 de janeiro de 2020.

Serão aceitas obras latino-americanas, finalizadas a partir de 2018 e que não foram exibidas comercialmente na cidade de São Paulo antes da data do festival. Não há restrições quanto a gênero ou duração. Os filmes devem tratar de temáticas socioambientais tais como: energia, água, mudanças climáticas, consumo, povos e lugares, ativismo socioambiental, resíduos sólidos, contaminação ou poluição, políticas públicas socioambientais, questões urbanas, mobilidade, habitação, alimentação, economia, globalização, vida selvagem, sustentabilidade, entre outras.

Os selecionados concorrem nas categorias Melhor Longa-Metragem Pelo Júri (a partir de 60 minutos), com prêmio de R$15.000,00; Melhor Curta-Metragem Pelo Júri (até 59 minutos), com prêmio de R$5.000,00; e Melhor Filme Pelo Público. A critério do júri, poderão ser concedidas menções honrosas.

O regulamento, formulário de inscrição e outras informações estão disponíveis no site da mostra, http://ecofalante.org.br.

A Mostra Ecofalante de Cinema é o mais importante evento audiovisual sul-americano dedicado a temas socioambientais. Realizado anualmente desde 2012, o evento contribui para a difusão de importantes e premiadas obras cinematográficas raras ao público brasileiro. Através de filmes e debates gratuitos, a Mostra amplia e enriquece discussões ambientais que envolvem a totalidade de nossa sociedade.

Além da competição, a programação conta com o Panorama Internacional Contemporâneo (não competitivo), que apresenta os mais novos filmes dos principais festivais de cinema e documentário do mundo; o Panorama Histórico, com filmes clássicos de diretores renomados que nos oferecem um outro olhar para a questão ambiental; a Homenagem a um diretor de relevância histórica para a causa; o Concurso Curta Ecofalante, que incentiva produções audiovisuais em escolas e universidades; e a Mostra Escola e o Programa Ecofalante Universidades, que levam filmes e debates para dentro do ambiente de ensino.

Em todas as noites do evento, a Mostra promove debates que partem dos filmes exibidos e contam com a participação de especialistas, pesquisadores, críticos e convidados especiais – diretores e produtores nacionais e internacionais – que também acompanham as sessões de seus filmes para conversas com o público.

O festival, que é organizado pela Ecofalante, uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo a educação para o desenvolvimento sustentável, acontecerá em junho de 2020, com toda a programação gratuita.

Com direção assinada por Samir Abujamra e protagonizada por Stella Miranda, estreia no Canal Brasil, no dia 4 de dezembro, às 23h30, a série de ficção “Stella Models”. Com elenco formado por Tonico Pereira, Leandro Firmino, Anna Markun, Larissa Maxine, Kênia Barbara, Nathalie Sztokman e Karine Barros, a produção acompanha o dia a dia de uma agência de prostituição de Copacabana.

A atração divide-se em dois momentos para narrar a história de Stella (Stella Miranda). Na juventude, quando ainda respondia pelo nome de Hermínia (Larissa Maxine), a protagonista rapidamente percebeu o valor da sexualidade e como sua sensualidade poderia ser uma aliada para alcançar seus objetivos de vida. Os planos de sair de uma cidade pequena para morar no Rio de Janeiro começavam a dar certo, quando uma batida policial a levou presa por mais de 20 anos por uma série de atividades ilícitas, incluindo associação com o tráfico de drogas, prostituição e atuação como mandante de um homicídio. Da cadeia, Stella confidencia seu passado a um gravador enquanto prepara seu retorno triunfal.

Passados os primeiros capítulos, a série chega ao presente e mostra como a ex-prostituta vai tentar reerguer sua vida. O plano principal parece simples: montar a Stella Models, uma agência de acompanhantes de luxo para um público exclusivo. Para isso, ela vai contar com a ajuda de Priscilla (Anna Markun), uma travesti com amplo conhecimento da vida nas ruas de Copacabana. Seu time para essa empreitada é eclético: Juliana (Karine Barros) já vive de programas com gringos; Gleide (Kênia Barbara) está à procura de dinheiro para sustentar o filho; e Karine (Nathalie Sztokman) veio do Rio Grande do Sul para tentar ser atriz no Rio de Janeiro e levou um golpe de um falso agente. Juntas, essas mulheres vão vivenciar de perto o céu e o inferno da noite carioca.

Depois de emplacar grandes sucessos de público como roteirista (De Pernas pro Ar, SOS Mulheres ao Mar e Loucas pra Casar, entre outros), Marcelo Saback dirige seu primeiro filme: Dois Mais Dois. Estrelada por Marcelo Serrado, Carol Castro, Roberta Rodrigues e Marcelo Laham, a comédia começou a ser rodada, em São Paulo, com produção da Paris Entretenimento e distribuição da Paris Filmes.

Na história, Diogo e Emília estão juntos há 16 anos, têm uma filha adolescente, e passam por uma fase entediante. Mas tudo vira de cabeça pra baixo, quando eles descobrem que os melhores amigos, Ricardo e Bettina, têm um casamento aberto. Mais do que isso, são adeptos da prática de troca de casais, vivem super seguros com a escolha e tentam convencê-los de que é possível ser muito feliz levando esse estilo de vida, digamos, mais liberal.

A notícia cai como uma bomba. Depois de reagir mal à ideia, Emília se anima e convence Diogo a pelo menos ir a uma festa com a “turma” de Ricardo e Betina. É aí que começa uma série de acontecimentos que vai abalar a vidinha mais ou menos do casal.

Dois Mais Dois será filmado em 24 dias, em locais como restaurantes, academia, motel e cinema.