Área de Negócios do Festival do Rio, o RioMarket, que acontece de 9 a 14 de outubro, está com inscrições abertas. Alguns dos nomes mais conceituados dos mercados audiovisuais brasileiro e internacional participarão de workshops, palestras, seminários, debates e rodadas de negócios, no Hotel Gran Meliá Nacional Rio. As inscrições para o evento podem ser feitas no site www.riomarket.com.br.

O RioMarket tem como objetivo contribuir para o desenvolvimento da indústria audiovisual, promovendo a troca de conhecimento entre profissionais renomados, novos produtores e empresas conceituadas da área, e proporcionando novas oportunidades de negócios e capacitação para profissionais do mercado. Diretores, produtores, roteiristas, figurinistas, maquiadores, técnicos, advogados e outros profissionais da indústria audiovisual debaterão temas como: legislação do mercado, ferramentas tecnológicas, modelos e oportunidades de negócios, cases de sucesso, financiamento, coproduções, entre outros.

Esta edição do RioMarket contará com duas atrações inéditas: as Round Tables (ou Mesas-redondas) e a Clínica de Coprodução. A primeira consiste em um espaço com público reduzido, com oportunidades para o diálogo e a troca de informações com os convidados. Será um espaço para a discussão de temas específicos e de grande relevância para a indústria audiovisual.

Já na Clínica de Coprodução, produtores terão a oportunidade de se reunir com advogados e especialistas da indústria audiovisual, que fornecerão orientações legais e comerciais para projetos audiovisuais e coproduções internacionais em reuniões de 30 minutos de duração cada.

Como em todos as anos anteriores, o RioMarket oferece parte da programação de forma totalmente gratuita. O grande destaque é o encontro com Graeme Manson, criador e roteirista do sucesso “Orphan Black”. Compõem ainda o bloco, o workshop sobre direção de fotografia do cinema europeu contemporâneo, com a brasileira radicada na França Priscila Guedes; workshop de trilha sonora com Vivian Aguiar-Buff; e workshop de Film Commission.

A Globonews e a TV Globo renovam a parceria com o RioMarket, e voltam com a Mostra Globonews (debates com jornalistas e apresentação de documentários) e o Sunset TV Globo (talentos da TV Globo analisam cases de sucessos recentes da emissora).

Por Maria do Rosário Caetano, de Brasília

“Arábia”, longa-metragem dirigido pelos mineiros Affonso Uchoa e João Dumans, venceu o Festival de Brasília, por escolha do júri oficial e da crítica. O público preferiu o afeto que se encerra em “Café com Canela”, dos baianos Ary Rosa e Glenda Nicácio.

O longa mineiro acompanha as andanças e labutas do operário Cristiano por empregos diversificados. Seguimos seus passos, ao longa de dez anos, e o vemos perambulando por lavoura de cítricos ou fábricas de cidades como Contagem, Ipatinga, Teófilo Otoni e uma Ouro Preto anti-cartão postal. O protagonista Aristides de Sousa, o Juninho, ganhou o Candango de melhor ator. Foram premiadas, também, a montagem e a trilha sonora de “Arábia”, um filme humanista, delicado e pontuado por humor sutil.

O júri oficial dividiu os principais troféus entre mais três filmes: “Era uma Vez Brasília”, do ceilandense Adirley Queirós (direção, fotografia e som), “Café com Canela” (atriz e roteiro) e “Vazante” (atriz coadjuvante e direção de arte). Mais dois concorrentes foram lembrados de forma secundária: o terror paraibano “O Nó do Diabo” (ator coadjuvante) e o gaúcho “Música para Quando as Luzes se Apagam” (prêmio especial para “ator social”, o transexual Emelyn Fischer).

O júri não atribuiu nenhum prêmio ao carioca “Pendular”, de Júlia Murat, nem ao pernambucano “Por Trás da Linha de Escudos”, de Marcelo Pedroso, nem ao paranaense “Construindo Pontes”, de Heloísa Passos. Este só foi reconhecido, pelo ótimo uso de imagens de arquivo, por júri do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro.

Na área do curta-metragem, que contou com júri próprio, os prêmios dividiram-se também com harmonia. O vencedor, o paranaense “Tentei”, assim como “Arábia”, ambienta-se em meio à classe trabalhadora. Uma operária da periferia procura, tomada por profunda angústia, Delegacia da Mulher para denunciar violência doméstica.

A violência é também tema de “Chico”, curta ambientado em  favela carioca, num futuro próximo (2029). Lei de Ressocialização Preventiva permite o encarceramento de crianças. A guerra no morro trará desespero à casa onde o menino Chico vive com a mãe, uma ex-presidiária, e a avó. O filme, realizado pelos gêmeos Eduardo e Marcos Carvalho, rendeu a eles o Candango de melhor direção, som e o Prêmio Canal Brasil. No palco, Eduardo agradeceu “os R$15 mil e o troféu oferecidos pela emissora”, lembrando que seus atores não são conhecidos (a mãe e o menino atuam no grupo teatral Nós do Morro, no Vidigal, e a avó é professora em escola de periferia). “Agora, ao verem o filme exibido no Canal Brasil” – pontuou, emocionado – “nossos atores se sentirão valorizados como artistas e como cidadãos”.

“Mamata”, comédia anárquica baiana, foi outro curta que recebeu prêmios importantes, como o de melhor ator (o também diretor do filme, Marcus Curvelo), montagem e prêmio da crítica. O diretor-ator repetiu no palco gracejos semelhantes aos colhidos na internet para constituir o tecido narrativo de sua “Mamata”.

Não havia filme arrebatador entre os doze curtas, nem entre os nove longas concorrentes. Daí, a serena divisão de troféus Candango. Na categoria longa-metragem, quatro foram destinados a “Arábia”, três a “Era uma Vez Brasília”, dois para “Café com Canela” e  dois para “Vazante”.

O júri mostrou sintonia fina com os temas que fizeram ferver (muitas vezes de forma excessiva e extra-filme) os debates de curtas e longas da competição. O assunto que mais incendiou debates e gerou intervenções virulentas foi a representação dos negros.

O filme “Vazante”, de Daniela Thomas, que se passa no Brasil escravagista, foi massacrado. Houve quem o desqualificasse como “um Sinhá Moça global”. Ou seja, uma “versão lenta” do folhetim apresentado em duas versões pela Rede Globo, no qual uma sinhazinha branca se apaixona por um galã abolicionista. Só não ocorreu ao autor de tal comparação que, no filme de Daniela Thomas, a sinhazinha branca, de apenas 12 anos, é feita esposa de um senhor e comerciante de escravos, e que se relacionará não com um príncipe encantando ariano, mas sim com um jovem negro.

Daniela Thomas, aturdida e nocauteada pelo agressivo debate, não conseguiu se defender. Chegou, sob fogo cerrado, a admitir que, se pudesse, não faria de novo um filme como “Vazante”. Uma voz no auditório chegou a sugerir que ela nem lançasse o longa-metragem no circuito comercial.

Outros temas polêmicos ligados a gênero (novas sexualidades) e etnias tiveram destaque nos debates. O recifense Marcelo Pedroso, por sua vez, colocou nitroglicerina na fogueira ao abrir generoso espaço (em “Por Trás Linha de Escudos”) para o repressivo Batalhão de Choque da Polícia Militar de Pernambuco. Ficou sob tiroteio verbal (quase) tão intenso quanto o que nocauteou Daniela Thomas. Mas, mesmo abalado, o cineasta conseguiu defender seu filme com argumentos escandidos com perturbadora calma. Regressou ao Recife, sem nenhum prêmio.

As causas sociais e de gênero calaram fundo nas decisões nos diversos júris das competições do festival. Todos os atores premiados – a baiana Valdineia Soriano e a mineira Jai Barbosa, o mineiro Aristides de Sousa e o pernambucano Alexandre Sena – são negros ou mestiços. O “ator social” (antes os chamávamos de não-atores) Emelyn Fischer, adolescente transexual gaúcho, ganhou prêmio especial do júri.

Na hora dos agradecimentos pelo Candango de “melhor filme” atribuído a “Arábia”, o cineasta mineiro (de Contagem) Affonso Uchoa, branco (como o codiretor ouro-pretano João Dumans) mandou, sutilmente, um recado aos polemistas dos debates matinais, em especial, àqueles que desautorizaram cineastas de classe média branca a realizarem filmes sobre pretos, pobres e periféricos. Clamou, sem alterar o tom da voz, pelo direito à alteridade. Ou seja, à capacidade humana de se colocar, por identificação, no lugar do outro. Alteridade é a marca de “Arábia” e de dois filmes que tiveram profunda ressonância no cinema brasileiro contemporâneo: “Serras da Desordem”, do ítalo-brasileiro Andrea Tonacci, e “Martírio”, do franco-brasileiro Vincent Carelli.

A Mostra Brasília, que apresentou 13 curtas e quatro longas, teve a plateia mais ruidosa da cansativa noite dos Candangos e Troféus Câmara Legislativa do DF (foram entregues mais de 50 prêmios). Nem a habilidade da dupla de mestres-de-cerimônia, formada pelos atores Mariana Nunes e Caco Ciocler, conseguiu dar dinamismo ao suceder de prêmios, tamanha era a lista de nomes enunciados, sem que fossem registrados graficamente (como faz o Festival de Gramado) no telão.

O júri oficial da competição candanga premiou um longa documental, o simpático, mas redundante, “talking heads” de Denilson Félix, “O Fantástico Patinho Feio”. Tema vibrante (quatro mecânicos amadores que transformaram sucata em potente carro de corridas) recebeu tratamento convencional.

Já o público, consagrou a “ongueira”, mas instigante, ficção juvenil “Menina de Barro” (e sua protagonista, a adolescente Rafaela Machado, foi escolhida pelo júri oficial como melhor atriz). Na categoria curta-metragem, o público ungiu outra obra infanto-juvenil, “O Menino Leão e a Menina Coruja”, de Renan Montenegro.

O júri oficial dividiu o prêmio principal (categoria curta-metragem) entre o documentário “Tekohá – Som da Terra”, de Rodrigo Arareju e Valdelice Veron, e o ficcional “UrSortudo”, de Januário Jr., um potiguar radicado no Paranoá, uma das cidades-satélites que gravitam em torno do Plano Piloto. O realizador lembrou sua origem periférica e defendeu, com veemência, a continuação dos Editais Afirmativos da SAv-MinC (destinados a realizadores negros e indígenas). “Meu filme” – lembrou – “só tornou-se realidade, porque fomos premiados por este único edital realizado no Governo Dilma Roussef”. Que, ao que tudo indica, será (já foi) descontinuado.

Veja a lista dos premiados:

LONGA-METRAGEM

“Arábia” (MG) – melhor filme, ator (Aristides de Sousa), montagem (Luís Pretti e Rodrigo Lima), trilha sonora (Francisco César e Christopher Mack), Prêmio da Crítica

“Era uma Vez Brasília” (DF) – Melhor direção (Adirley Queirós), fotografia (Joana Pimentel) e som (Francisco Craesmeyer, Guile Martins, Daniel Turini e Fernando Henna)

“Café com Canela” (BA) – Melhor atriz (Valdinéia Soriano), roteiro (Ary Rosa), melhor filme pelo Juri Popular

“Vazante” (SP) – melhor atriz coadjuvante (Jai Batista), direção de arte (Vady Lopes)

“O Nó do Diabo” (PB) – melhor ator coadjuvante (Alexandre Sena)

“Música Para Quando as Luzes se Apagam” (RS) – Prêmio Especial para “ator social” (Emelyn Fischer)

“Construindo Pontes” (PR) – Prêmio Marco Antonio Guimarães de melhor uso de imagens de arquivo (atribuído pelo CPCB – Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro)

CURTA-METRAGEM NACIONAL

“Tentei” (PR) – melhor filme, atriz (Patrícia Savary), fotografia (Renata Corrêa)

“Chico” (RJ) – melhor direção (Irmãos Carvalho), som (Gustavo Andrade), Prêmio Canal Brasil

“Mamata” (BA) – melhor ator (Marcus Curvelo), montagem (Amanda Devulsky e Marcus Curvelo), Prêmio da Crítica

“Peripatético” (SP) – melhor roteiro (Ananda Radhika), Prêmio Especial do Júri

“Carneiro de Ouro” (DF) – melhor filme pelo júri popular

“Torre” (SP) – melhor direção de arte (Pedro Franz e Rafael Coutinho)

“Nada” (MG) – melhor trilha sonora (Marlon Trindade)

MOSTRA BRASILIA/CÂMARA DISTRITAL  (CURTAS E LONGAS)

“O Fantástico Patinho Feio” – melhor longa-metragem

“UrSortudo” – melhor curta (ex aqueo), ator (Elder de Paula), roteiro (Januário Jr)

“Tekohá – Som da Terra” – melhor curta (ex aqueo), som (Maurício Fontenelli)

“Menina de Barro” – melhor atriz (Rafaela Machado), melhor longa pelo júri popular

“Carneiro de Ouro” – melhor direção (Dácia Ipiabina)

“Afronte” – melhor montagem (Lucas Araque), Prêmio Saruê do Correio Braziliense

“O Menino Leão e a Menina Coruja” – melhor direção de arte (Bianca Novais, Flora Egécia e Pato Sardá), melhor curta pelo Júri Popular

“A Margem do Universo” – melhor fotografia (Gustavo Serrate)

“O Vídeo de Seis Faces” – melhor trilha sonora (Ramiro Galas)

FESTUNIBRASILIA (FESTIVAL UNIVERSITÁRIO)

“O Arco do Medo”, de Juan Rodrigues (UFRB – Recôncavo da Bahia) – melhor filme

“Fervendo”, de Camila Gregório (UFRB – Recôncavo da Bahia) – melhor direção

“O Homem que Não Cabia em Brasília”, de Gustavo Menezes (UnB) – melhor curta pelo júri popular

Menções honrosas para “Afronte” (construção criativa), “Serenata” (fotografia) e “Mira” (filme de animação)

Por Maria do Rosário Caetano, de Brasília

Trágica sincronicidade. Enquanto soldados do exército tomavam a favela da Rocinha, no Rio, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro exibia, em sua mostra competitiva, o curta “Chico”, dos jovens Marcos e Eduardo Carvalho, potente narrativa sobre a violência que atormenta a vida da população civil dos morros cariocas.

Os irmãos Carvalho, que são gêmeos, estudaram Cinema na PUC-Rio, com bolsas de estudo. Moradores do Morro do Salgueiro, conhecem em profundidade a realidade que abordam em “Chico”. Por isto, em densos e vibrantes 23 minutos, constroem sólida narrativa, que se passa em futuro próximo (2029). “Treze anos depois do golpe de Estado no Brasil” – registram em sinopse sintética – “crianças negras e pobres são marcadas com tornozeleira e rastreadas por pressupor-se que irão, cedo ou tarde, entrar para o crime”. Chico (o expressivo Fabrício Assis) é uma destas crianças. No dia do aniversário dele, depois de apagar as velinhas de singelo bolo preparado pela avó (Lúcia Talabi), algo de trágico acontecerá, para desespero de sua mãe (Jeckie Brown, uma força da natureza). No mesmo dia, o Parlamento aprova Lei de Ressocialização Preventiva, criada para autorizar a prisão de menores. O final, arrebatador, tem força buñuelina.

Diretores sintonizados com seu tempo e com a vida negra nas favelas cariocas, a dupla realizou dois filmes em 2015 – “Boa Noite, Charles” e “Alegoria da Terra”. Com “Chico”, fortíssimo candidato ao Troféu Candango, eles conquistaram a prestigiosa Margarida de Prata, troféu humanista atribuído anualmente pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).

O Cine Brasília recebeu, na mesma noite de sexta-feira, 23 de setembro, sua maior lotação. Havia espectadores ocupando, inclusive, rampas de trânsito e todos os degraus. A razão de tamanha procura era, claro, o novo filme do cineasta goiano-ceilandense Adirley Queirós (“Era Uma Vez Brasília”), e o novo curta da realizadora e professora da UnB, Dácia Ibiapina (“Carneiro de Ouro”).

Adirley já ganhou o Candango de melhor curta com o vigoroso “Rap, o Canto da Ceilândia”, em 2005, e de melhor longa com “Branco Sai, Preto Fica”, em 2014. Em sua trajetória, que já soma quase uma dezena de títulos, ele vem apostando na hibridização, somando documentário e ficção (agora mais que nunca, a ficção científica).

O cineasta, que se orgulha de ser ceilandense, já havia dialogado com o gênero futurista em “A Cidade é Uma Só?” e, principalmente, em “Branco Sai, Preto Fica”. Agora, radicalizou.  Em “Era Uma Vez Brasília”, pratica o que chamou de “documentário fabular”. Sua narrativa mistura metaforicamente temporalidades. Em 1959, quando Brasília nascia na terra vermelha do cerrado, um agente intergaláctico (WA4) é preso por fazer loteamento ilegal. No espaço sideral, receberá a missão de vir à Terra para matar o presidente JK, justo no dia da inauguração de Brasília. Sua nave espacial se perderá no tempo e só aterrissará no Planalto Central (na Ceilândia) em 2016, ano do golpe parlamentar que derrubou um governo eleito e entronizou governante que fala por mesóclises.

O filme, por sua relação com a ficção científica, com o documentário e com a política, deixou parte do público perplexa. Os aplausos não foram consagradores como acontecera, três anos atrás, com “Branco Sai, Preto Fica”. No debate, Adirley deixou claro que “o filme não é a favor da presidente deposta, mas visceralmente contra Temer e outros monstros que habitam o Congresso Nacional”. Deixou claro, também, que o filme foi gravado no Ano O P.G. (ou seja, ano zero pós-golpe).

Houve quem imaginasse um filme de orçamento robusto, devido ao poder de invenção de sua direção de arte sideral. Adirley esclarceu, no debate, que o filme foi feito ao longo de três anos, com R$ 350 mil, e finalizado com parceria lusitana. A diretora de fotografia (que soma-se a três outras mulheres nesta função, entre os nove concorrentes do festival) Joana Pimentel é portuguesa e teve papel fundamental no resultado de “Era Uma Vez Brasília”. Assim como Denise Vieira (um dos esteios do coletivo Ceiperiferia), que assina surpreendentes direção de arte e figurino. À frente do elenco, estão Wellington Abreu, Marquim do Tropa (alma de “Branco Sai, Preto Fica”), Andreia Vieira e Franklin Ferreira, todos ceilandenses e companheiros de vida-arte-cinema-e-rap da maior satélite do DF.

Adirley já prepara seu quarto longa-metragem, “Mato Seco em Chamas” e, pela primeira vez, dividirá a direção com uma mulher, justo a fotógrafa lusitana Joana Pimentel. E, também pela primeira vez, dará protagonismo absoluto a personagens femininas (lembremos que o cineasta, ex-jogador, já mergulhou no mundo do rap e dos bailes black, dominado por homens, no futebol e em greve operária idem). “Será uma doideira alucinada” – brincou – “pois ‘Mato Seco em Chamas’ vai contar a história de cinco mulheres que descobrem petróleo na área da Ceilândia”.

O curta da piauiense-brasiliense Dácia Ibiapina se passa em Sussuapara, no município de Picos, no Estado nordestino. Lá, vive Dedé Rodrigues, um praticante do chamado “cinema de bordas”. Ou seja, um fã de filmes de ação e efeitos especiais hollywoodianos, que, ao tentar imitar os gringos (evoquemos Paulo Emilio e “nossa incompetência criativa de copiar”), acaba gerando filmes ingênuos e divertidos, como “Cangaceiros Fora do Tempo 1, 2 e 3″ e “O Sanfoneiro que Tocou no Inferno”.

Dácia interessou-se pelo conterrâneo, por ver no cinema dele “uma profunda e orgânica relação com o sertão piauiense” e não uma mera imitação do cinema hegemônico.

O “cinema de bordas” é tema de série de TV em processo de produção, comanda pela baiana Sylvia Abreu, da Truq (mesma produtora de “Eu me Lembro” e “Abaixo a Gravidade”). Em Brasília, durante o festival, a série colhe farto material.

Por Maria do Rosário Caetano, de Brasília

Mais três filmes foram apresentados ao público do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro: o longa documental pernambucano “Por Trás da Linha de Escudos”, de Marcelo Pedroso, o curta paulistano “Torre”, de Nádia Mangolini, e “Baunilha”, do pernambucano Leo Tabosa. O mais aplaudido pelo público, demorada e calorosamente, foi a animação “Torre”, que revê, por fragmentos de memória dos quatro filhos, a trágica história de Virgílio Gomes da Silva (1933-1969).

Houve divisão nos aplausos para os dois pernambucanos. Parte do público que abarrotou a sessão não vaiou, mas também não aplaudiu estes filmes. Outra parte festejou os documentários, bastante diferentes em suas propostas. O curta “Baunilha” dá voz a Brenno Furrier, dono de espaço (um dungeon) onde se praticam radicais e consentidas formas de sexo representadas pela sigla BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo).

“Por Trás da Linha de Escudos” é o mais novo trabalho de Marcelo Pedroso, de 38 anos, diretor de “KFZ-1348″ (com Gabriel Mascaro), “Pacific” e de “Brasil S/A”, que lhe rendeu, três anos atrás vários prêmios no Festival de Brasília (inclusive o de melhor diretor). O cineasta resolveu acompanhar a vida cotidiana de policiais militares, que se colocam atrás de escudos em confrontos sociais. Afinal, eles compõem o Batalhão de Choque da Polícia Militar de Pernambuco. São o braço armado do Estado na repressão a manifestantes em passeatas ou ocupações de terras urbanas e rurais, rebeliões em presídios e casas de “atendimento sócio-educativo” a menores (chamadas Funase, em Pernambuco), e também em estádios de futebol.

O filme de Pedroso começa com raro vigor. O primeiro embate dos escudos se dá contra os recifenses do movimento “Ocupe Estelita”, que resistiram ao Choque, por dez horas. O combativo grupo se uniu para defender área vital da cidade do Recife da sanha da especulação imobiliária. O espaço daria lugar a uma dezena de gigantescas torres residenciais, ajudando a transformar o centro da já conturbada capital nordestina em megalópole higienizada, com menos área verde e trânsito sobrecarregado.

O Choque chega com seus soldados municiados com poderoso arsenal repressivo. Um deles conta ao cineasta que cada militar leva cem dispositivos, nem sempre suficientes, a ponto de exigirem reforço. Manifestantes desarmados são submetidos a significativa quantidade de bombas de gás lacrimogêneo.

Pedroso, que dá voz aos que são protegidos pelos imensos escudos, dá voz também ao manifestante mais atingido pelo gás lacrimogêneo. Muito articulado, o rapaz descreve o que sentiu sob três intensos jatos do gás. Com os olhos e nariz desprotegidos, pensou que ficara cego e que não conseguiria mais respirar.

A palavra e as imagens voltarão aos integrantes da Força Armada. O comandante do Choque discorrerá sobre a natureza do trabalho de seus subordinados e afirmará que há três tipos de manifestantes: os ideológicos, que acreditam ter uma causa a defender, os que seguem a multidão (efeito manada) e os baderneiros. Segundo a curiosa análise do militar, quando “o Choque chega ao local da manifestação, os primeiros vão embora, pois têm reivindicações a defender”. Os sem noção também partem logo. Restam “os baderneiros”.

O filme não problematiza esta análise exdrúxula. Mesmo assim, a narrativa segue vigorosa e potente. Estamos seguros, decorrida meia hora de filme, que Marcelo Pedroso seguirá os passos do teórico e documentarista francês Jean-Louis Comolli em seu texto mais famoso: “Como Filmar o Inimigo”. E que inscreverá “Por Trás da Linha de Escudos” em segmento raro do cinema brasileiro, aquele que enfrenta três temas tabus, tão bem explicitados por Jean-Claude Bernardet em suas reflexões (as Forças Armadas, o Poder Financeiro e o Poder Midiático).

Na sequência mais visual, mais potente do filme, nos deparamos com a votação do impeachment de Dilma Roussef. Os manifestantes que usam “verde-amarelo” (os ditos coxinhas) abraçam e fazem “selfies” com soldados do Choque preferencialmente em frente a imensos tanques. Já os “vermelhos” (ou mortadelas) levam porrada. Um jovem mostra sua indignação com a brutalidade do Choque enquanto o sangue escorre de seu rosto para a camiseta de cor clara.

Na segunda metade do filme, não veremos mais o vigor inicial. Pedroso e sua equipe se aproximarão, cada vez mais, dos “Choqueanos”, assistirão (o cineasta portando colete preto onde se lê POLÍCIA) a ação de desmonte de rebelião juvenil (numa unidade da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo, na verdade, uma prisão que não ousa dizer seu nome) e, o que é mais questionável, passa a fazer “treinamentos” reais ou teatrais (dramatizados) com os soldados. Estas sequências do filme, além de tediosas e pobres, em termos de imagens e sons, se submetem a premissa das mais questionáveis. Os militares do Choque garantem que também são vítimas de bombas (caseiras?) e de gás lacrimogêneo e de pedras arremessadas pelos manifestantes (não há, no filme, nenhuma desocupação do espaços ocupados pelo MST ou pelo MSTS, as duas forças sociais mais organizadas do país, a primeira, em defesa dos Sem-Terra, e a segunda, dos Sem-Teto).

A entrada de Pedroso e sua equipe nos “treinamentos militares”  acontecerá depois de um “Choqueano” afirmar que, no palco do confronto, o Batalhão tem autonomia para decidir se deve lançar mão de armas mais pesadas em revide aos ataques sofridos. A falta de enfrentamento da equipe cinematográfica com seus personagens nos leva a concluir que eles aceitam que há duas forças igualmente armadas em confronto. Os corpos dos manifestantes, com suas pedras, bombas caseiras ou com uma ou outra cápsula de gás lacrimogêneo arremessada de volta, ganham o mesmo valor do poderoso arsenal militar, que virámos no começo do filme. Arsenal abundante e de alto custo financeiro (muitas vezes, somos informados dos valores pagos por tais armas de persuasão ou morte).

Saímos do cinema conhecendo os “Choqueanos”, que jogam peteca, amam a profissão, cumprem a lei (sem questionar se, muitas vezes, exercem o mesmo papel dos capitães do mato que caçavam escravos) etc. E, em momento “Brasil cordial” (povoado por aqueles que se guiam pelo coração, pelos afetos), vemos o jovem que foi vítima de três jatos de gás lacrimogêneo e sentiu a angústia da cegueira e asfixia temporários, ministrar exercícios de yoga para soldados do Chowue. Comolli e Bernardet, há que se supor, devem ficar desapontados com “Por Trás da Linha de Escudos”.

A ANCINE e o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) divulgaram, no dia 21 de setembro, a ata com o resultado final da habilitação das propostas inscritas no edital de coprodução Argentina-Brasil. Após análise dos recursos apresentados, 14 projetos foram habilitados para a próxima etapa da Chamada Pública PRODECINE 07/2017.

De acordo com o relatório do Sistema BRDE/FSA, foram apresentados recursos pelas empresas Produtora Brasileira de Arte e Cultura, Casadasartes Produtora de Filmes, Caravelas Filmes, Fantaspoa Produções Artísticas e Culturais, Artesã Comunicação e Filmes, Panda Filmes e Us One Comércio e Serviços de Criação e Produção de Obras com Direitos Autorais.

A Comissão de Recursos, formada por integrantes da Agência e do BRDE, decidiu dar provimento ao recurso da empresa Fantaspoa. Quanto aos demais recursos apresentados, manteve-se a decisão de inabilitação. Confira a ata aqui.

Seguem para a próxima fase do edital binacional as propostas “Amanda” (Valkyria Cine Eireli), “El Silencio de los Otros” (Estúdios Giz Produções), “Em teus Sonhos” (O Quadro Produções), “Fazer a Vida” (Tres Mundos Cine y Video), “Inundação” (Imagem-Tempo Produções Cinematográficas), “A Barbárie” (Big Bonsai Brasilis Produções Artísticas Culturais e Cinematográficas), “La Fiesta Silenciosa” (Manjericão Filmes), “Leoncinho” (Cine Latina Estudio), “O Diabo Branco” (Sombumbo Filmes), “O Rei do Malambo” (3 Moinhos Produções Artísticas), “Planta Permanente” (Be Bossa Nova Criações e Produções), “Terra Selvagem” (Iris Cinematográfica), “Traslasierra” (Augustinho Pasko) e “Caminhando a Mar del Plata” (Fantaspoa Produções Artísticas e Culturais).

O edital é uma parceria com o Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA) e tem como objeto a seleção de dois projetos de obra cinematográfica em regime de coprodução Argentina-Brasil. A Chamada Pública prevê investimentos equivalentes a 250 mil dólares para cada um dos dois coprodutores minoritários brasileiros vencedores.

Ao mesmo tempo, concurso argentino realizado nos mesmos moldes prevê a contemplação de dois projetos apresentados ao INCAA por empresas produtoras argentinas minoritárias no valor de 200 mil dólares, cada. No caso destes projetos, o Fundo Setorial do Audiovisual – FSA investirá também o valor de 50 mil dólares em cada proposta, por meio de contrato com as coprodutoras majoritárias brasileiras.