Estão prorrogadas, até 24 de outubro, as inscrições para o Workshop Fémis de Produção Criativa com Juliette Grandmont, produtora de “I Am Not a Witch”, indicado para representar o Reino Unido no Oscar 2019 de melhor filme estrangeiro. Inscrições e mais informações aqui.

Realizado no Brasil por iniciativa do Projeto Paradiso, em parceria com o Festival do Rio e SICAV, o curso acontecerá em período integral e será ministrado em inglês. Não haverá taxa de participação.

O curso da La Femis, renomada escola francesa de cinema, é direcionado para produtores com cinco anos de experiência, que já tenham produzido um longa de ficção e/ou tenham produzido e lançado três curtas ficcionais. Os produtores selecionados serão anunciados até 15 de novembro.

O workshop aborda o papel do produtor criativo, desde sua participação no processo de escrita de uma obra até o desenvolvimento e financiamento e discute também oportunidades de coproduções internacionais.

A atividade será no Rio de Janeiro, de 25 a 29 de novembro, antes do Festival do Rio, que este ano é realizado em dezembro. O workshop também contará com a participação especial de Tatiana Leite, produtora do filme “Benzinho”.

O Los Angeles Brazilian Film Festival encerrou a sua 12ª edição nesta quinta-feira (17), com a cerimônia de premiação realizada no Monica Film Center, em Santa Mônica. O filme “Pacarrete”, do cearense Allan Deberton, foi o grande vencedor da noite, levando cinco troféus LABRFF: Melhor Filme, Melhor Atriz (Marcélia Cartaxo), Melhor Roteirista (Allan Deberton), Melhor Diretor (Allan Deberton) e Melhor Edição (Joana Collier).

O prêmio de Melhor Documentário ficou com “Meu Nome é Daniel”, de Daniel Gonçalves, e o de Melhor Ator foi para Du Moscovis (Veneza).

Também foi divulgada a lista dos vencedores o 1º Los Angeles Latin Music Video Festival, a competição de videoclipes que estreou este ano dentro do LABRFF.

Confira a lista completa de premiados do LABRFF:

Melhor Filme: “Pacarrete”, de Allan Deberton;
Melhor Documentário: “Meu Nome é Daniel”, de Daniel Gonçalves;
Melhor Diretor: Allan Deberton (“Pacarrete”);
Melhor Ator: Du Moscovis (“Veneza”);
Melhor Atriz: Marcélia Cartaxo (“Pacarrete”);
Melhor Ator Coadjuvante: André Mattos (“Veneza”);
Melhor Atriz Coadjuvante: Carol Castro (“Veneza”);
Melhor Filme da Mostra Walfredo Rodrigues (Spotlight Paraíba): “Rebento”, de André Morais;Melhor Curta (empate): “Rosas”, de Ivann Willing; e “O Menino da Terra do Sol”, de Michel Marchetti;
Melhor Roteirista: Allan Deberton (“Pacarrete”);
Melhor Fotografia: Gustavo Hadba (“Veneza”);
Melhor Edição: Joana Collier (“Pacarrete”);
Melhor Trilha Sonora: Berna Seppas (“Boca de Ouro”);
Melhor Curta Internacional: “Tyler”, de Joel Junior;
Melhor Young Filmmaker (Brasil): “O Véu de Amani”, de Renata Diniz
Melhor Young Filmmaker (EUA): “Roses are Blind” de Gui Agustini, e “Mariposa”, de Dimitri Luedemann;
Reconhecimento Especial: “O Grande Amor de um Lobo”, de Kennel Rógis e Adrianderson Barbosa;
Reconhecimento especial: “Essência”, de Lael Arruda e Lúcio Cesar Fernandes;
Reconhecimento Especial para Melhor Ator Mirim: Eduardo Giovanella (“O Menino da Terra do Sol”);
Reconhecimento Especial: “Expedição 21”, de Alex Duarte;
Reconhecimento Especial: Caden Andreus (Tyler).

Confira a lista completa de premiados do LAMV:

Melhor Videoclipe: “Saci” (Baiana System), de Rafael Kent;
Melhor Diretor: Rafael Kent (“Saci”, da Baiana System);
Melhor Fotografia: “Coração Cigano” (Lia Paris), Gleeson Paulino e Jens Ostberg;
Melhor Edição: “Coração Cigano” (Lia Paris), de Gleeson Paulino e “Saci”, de Rafael Kent;
Melhor Lançamento: “We are the Nature”, de Marcos Negrão e “AA Song”, de Gabriel Novis;
Melhor Voz: Alex Albino.

Por Maria do Rosário Caetano

Com três minutos a mais que a versão apresentada na competição ao Leão de Ouro, no Festival Veneza, “Wasp Network” está pronto para chegar ao público, escorado em tema explosivo e elenco estelar, encabeçado por Penélope Cruz, Wagner Moura, Édgar Ramírez, Gael García Bernal, Ana de Armas e Leonardo Sbaraglia.

E qual é o tema explosivo do novo filme do francês Olivier Assayas, 64 anos, diretor do lisérgico e apaixonante “Carlos”? A operação Havana-Miami que, no começo dos anos 90, infiltrou agentes secretos cubanos em grupos anticastristas, radicados na ensolarada Flórida. Na origem deste thriller de base documental, está o livro “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, do brasileiro Fernando Morais.

Que nenhum espectador espere espiões similares ao emblemático James Bond, com seus carros e armas de última geração. Os cubanos que desembarcam nos EUA como dissidentes são insignificantes proletários. Viverão, em raros momentos especiais, já que são pilotos de avião, do resgate de balseiros no mar do Caribe. Balseiros que fogem de Cuba em frágeis e improvisadas embarcações. Mas, no dia a dia, os pilotos estarão condenados a exercer ofícios (jardineiro, limpador de piscina), que encheriam de envergonha o espião britânico dotado de licença para matar.

Cena de “Wasp Network”

Depois de exibição de gala na abertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “Wasp Network” poderá ser visto em mais três sessões: nesta sexta-feira, dia 18, no Cinearte (16h30), no domingo, 20, no Itaú Frei Caneca (21h15), e no sábado, 26, no CineSesc (21h15).

Os participantes da Mostra poderão, ainda, assistir a Retrospectiva (com 15 filmes) de Olivier Assayas, na qual o título mais procurado dever ser “Carlos”. Este filme, nascido como série de TV, é o carro-chefe da Retrospectiva e será exibido em sua versão integral, com mais de cinco horas. Como a adrenalina marca as ações desta narrativa vertiginosa, o espectador não verá o tempo passar.

Na manhã da última quarta-feira, o produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, recebeu Olivier Assayas e os atores Édgar Ramírez, venezuelano, e Leonardo Sbaraglia, argentino, para coletiva de imprensa, no Hotel Renaissance, na Alameda Santos paulistana. Wagner Moura, que era esperado, não pôde comparecer “devido a compromissos nos EUA”.

Leonardo Sbaraglia, Olivier Assayas, Édgar Ramirez e Rodrigo Teixeira © Natali Hernandes

Assayas assegurou que não houve uma “remontagem” de “Wasp Network”, pós-Veneza. “O que fizemos” – esclareceu, “foram alguns ajustes para dar mais clareza à história”. O diretor lembrou que “as filmagens, em Havana, foram encerradas em 4 de maio último. Como Veneza acontece anualmente, no início de setembro, ele teve muito pouco tempo para supervisionar a montagem e cuidar de todos os detalhes de finalização. Mesmo assim, o filme foi selecionado e exibido no festival italiano.

“No pós-Veneza” – explicou Assayas –, “vimos que faltavam detalhes capazes de esclarecer aspectos da política cubana”. Afinal, “o livro de Fernando Morais traz muitas informações, uma infinidade de dados. Para lê-lo e tomar conhecimento real da história que contava, consumi mais de três semanas. Há grupos diferentes entre os anticastristas da Flórida, alguns deles militaristas. Outros não”.

O livro de Fernando Morais conta a história da Rede Vespa, que infiltrou, como se fossem dissidentes, cinco agentes secretos cubanos em meio às comunidades anticastristas de Miami. A estes espiões, somou-se rede de apoio, em solo estadunidense, de mais nove colaboradores pró-Cuba (sete homens e duas mulheres).

Para não complicar muito a história de “Wasp Network”, Assayas escreveu seu roteiro, depois de rigorosa pesquisa, com cirúrgica capacidade de síntese. Preservou a essência dos fatos históricos, condensando-os nas ações de apenas três agentes cubanos: René González (Édgar Ramírez), Juan Pablo Roque (Wagner Moura) e Manuel Viramóntez (Gael García Bernal), o chefe da operação. Dos líderes anticastristas de Miami, o cineasta-roteirista abriu espaço maior para José Basulto (Leonardo Sbaraglia, soberbo em seu matizado desempenho) e menor para Jorge Mas Canosa e Luis Posada Carriles.

Roteirista e realizador de filmes em que mulheres ocupam papel central (caso de “Clean” e “Irma Vep”, protagonizados por sua ex-mulher, a atriz Maggie Cheung, e “Acima das Nuvens”, com Juliette Binoche), Olivier Assayas deu significativo destaque a duas personagens femininas (no livro de Morais, elas são secundárias): Olga Salanueva (Penélope Cruz), a esposa cubana que René abandonou em Havana, e Ana Margarita, a futura e bela esposa (Ana de Armas), a quem Juan Pablo (Wagner Moura, brilhando mais uma vez) se uniria, em Miami, com direito a festa colossal.

A se julgar pelo poderoso fotograma exposto no telão do Auditório Ibirapuera, na badaladíssima noite de abertura da Mostra SP, o filme vai apostar no carisma de Penélope Cruz. Na imagem (abaixo), ela é vista com filha-bebê no colo, em visita ao marido (Édgar Ramírez), preso nos EUA. Um vidro os separa. Mesmo assim eles se dão, simbolicamente, as mãos.

© Claudio Pedroso

A Revista de CINEMA dirigiu à Rodrigo Teixeira, Olivier Assayas e seus atores, uma série de questões.

Rodrigo, quando “Wasp Network” será lançado no Brasil, com quantas cópias e com que nome? Haverá uma tradução para esta rede Wasp (white, anglo-saxã, protestante)?

Rodrigo Teixeira – Ainda estamos negociando com distribuidores internacionais o lançamento do filme. As negociações estão bem adiantadas. Quanto ao nome, ainda estamos estudando. Em Cuba, a operação foi denominada Rede Vespa. Na França, o filme se chamará “Cuban Network”. No Brasil, pensamos em utilizar título que se aproxime mais do livro de Fernando Morais (“Os Últimos Soldados da Guerra Fria”). Mas nada está decidido.

Assayas, gostaria que falasse do relevo dado às personagens femininas. E gostaria, também, de saber se você acha que o filme será exibido no Festival de Havana. Ou haverá censura a ele?

Olivier Assayas – Prefiro que Rodrigo (Teixeira) fale sobre a participação no Festival de Havana.

Rodrigo Teixeira – Não creio que teremos problemas com Cuba e seu festival. Faremos, em breve, uma sessão para importantes integrantes do governo, em Havana. Mostramos o filme ao advogado que, nos EUA, defendeu os cinco agentes secretos cubanos (durante o longo processo que os condenou a duras sentenças, incluindo prisão perpétua) e ele teve uma visão muito positiva. Destacou pontos altos na narrativa, emocionou-se. Então, creio que o filme será exibido no Festival de Havana. Aguardamos a confirmação.

Olivier Assayas – Quando li o livro do Fernando Morais, vi que tinha uma história muito forte para contar. O que mais me interessou foram as relações humanas, a parte emocional dos envolvidos naquela operação (Rede Vespa). Como eu quis colocar ênfase nas emoções humanas, concentrei-me na composição de duas personagens femininas, que viveram esta história de forma singular. Penélope Cruz interpreta uma mulher cubana que, junto com a filha pequena, foi abandonada pelo marido, que partiu inesperadamente para os EUA. Já a personagem interpretada por Ana de Armas casa-se, por amor, com um homem que não é quem ela pensa que é. Me sinto um homem de sorte por ter trabalhado com este elenco maravilhoso. Não sou de muitos ensaios. Mas ter dirigido Penélope Cruz, Ana de Armas, Wagner Moura, Leonardo Sbaraglia, todos pela primeira vez, e ter voltado a trabalhar com Édgar Ramírez foi mesmo um lance de sorte.

Rodrigo Teixeira – Eu, então, nem sei como consegui produzir um filme dirigido por Olivier Assayas e com um elenco destes. Faço questão de dizer que Assayas é um realizador muito especial. Ele não me conhecia. Desejei tê-lo como diretor de “Wasp Network”, porque gosto muito de “Carlos”. Como conhecia um produtor francês que já trabalhara com ele, perguntei se achava que Assayas se interessaria em transformar o livro de Fernando Morais em um longa-metragem. A RT Features participou deste livro desde o início de sua produção, pois financiamos muitas das pesquisas que foram feitas em Cuba e nos EUA. Assayas, mesmo sem me conhecer, me recebeu com imensa generosidade. Desde que se soube que eu tinha os direitos de “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, muitos realizadores (brasileiros, inclusive) me procuraram, interessados em transformar o livro em filme. E vieram com sugestões de grandes nomes do cinema norte-americano para o elenco. Vi que havia ali muito de irreal, não iam conseguir tais nomes. Já Assayas, ao me dizer sim, me explicou como entendia o projeto e ponderou que fazia questão de que só trabalhássemos com atores latino-americanos. Eu sugeri Wagner Moura e Leonardo Sbaraglia. Ele sugeriu Édgar Ramírez, o “Carlos”, e me disse que tinha uma atriz latina em mente, mas não me disse o nome. Quando ela aceitou o papel, ele me contou: era a espanhola Penélope Cruz. Eu fiquei em estado de graça. Hoje, tenho certeza, Fernando Morais deve estar orgulhoso com o resultado do filme. Ele não esperaria tanto: um diretor de prestígio internacional, 14 atores em papéis protagonistas e coadjuvantes vindos de vários países ibero-americanos. Há atores de El Salvador, vários cubanos, um brasileiro, um venezuelano, um mexicano, um argentino. Nem ele (Fernando Morais), nem eu, esperávamos tanto.

Fernando Morais, na noite de abertura da Mostra SP © Natali Hernandes

Édgar, gostaria que você falasse da importância em sua trajetória como ator, de três filmes: “Punto y Raya” (Elia Schneider, 2003), “Carlos” (Assayas, 2010) e “Wasp Network”.

Édgar Ramírez – Primeiro registro minha alegria de estar, pela primeira, em São Paulo para participar de seu festival de cinema. Os três filmes citados são, mesmo, essenciais na minha trajetória. “Punto y Raya” é o início de tudo. Me coube interpretar um personagem que tem a vida atrapada y aplastrada (apanhada e destroçada) por uma guerra hipotética entre Venezuela e Colômbia. Isto foi há 12 ou 13 anos. Quem imaginaria que as aquelas tensões imaginadas pela ficção de Elia Schneider cresceriam e nos perturbariam no presente, agora no plano da realidade? Meu país, a Venezuela, vive um momento terrível. Já “Carlos” foi o princípio de minha carreira internacional, me trouxe uma nova vida. Eu era (e sou) jornalista e ator que fazia filmes e TV num país sul-americano. Depois de “Carlos” multiplicaram-se convites para atuar em grandes produções internacionais (o ator fala inglês, francês, italiano e alemão). Minha vida mudou. Devo muito a Olivier Assayas, mais que um diretor, um amigo, um grande companheiro. “Wasp Network” é esta maravilhosa experiência que terminamos de filmar neste ano e, depois de passar por Veneza, está chegando ao público brasileiro. Agora estou aguardando nossa terceira parceria. Como Assayas me chamou para ser “Carlos” e, agora, um piloto, um grande aventureiro, que foge de Cuba para Miami, creio que em breve ele me convocará para atuar no filme ambientado na Coreia do Norte. Brincadeiras à parte, meu personagem, René, é um homem complexo, tridimensional. É cubano, mas poderia ser de qualquer país, pois o que interessa é sua face humana, como este homem se coloca dentro da mecânica da política e da História. Há muito dele no soldado que interpretei em “Punto y Raya”.

Sbaraglia, como foi para você interpretar um “gusano” (verme, nome com o qual os castristas definem os que deixaram a Ilha depois da Revolução de 1959)?

Leonardo Sbaraglia – Primeiro, quero lembrar que “Wasp Network” me levou a realizar minha primeira viagem a Cuba. Passei duas semanas em Havana. Fui convidado para interpretar José Basulto, um cubano radicado nos EUA e integrante de grupos de decidida oposição aos Irmãos Castro, e aceitei. Mas só tive três dias para treinar o cubanês (espanhol falado com acento cubano). E tive que treinar também meu inglês, que não é tão bom quanto o do Édgar. Então, ele gravou minhas falas em inglês com acento cubano para que eu o imitasse (risos). Estamos até pensando em montar uma peça chamada “O Ventríloquo e o Cubano” (risos). Mas, agora falando sério, nós vivemos uma experiência maravilhosa. Há filmes em que cada um faz sua parte, vivendo no seu mundo particular. No nosso, não, nós formamos uma família, trabalhamos juntos, convivemos uns com os outros diariamente. E tivemos o maravilhoso auxílio de dois grandes nomes do cinema cubano: o ator Patricio Wood e o diretor Arturo Soto. Eles estiveram conosco, nos ajudaram em tudo, corrigiram nosso cubanês, enfim, foram grandes parceiros. Eu só lamento não ter dado um “bezito” em Penélope. Sou amigo de Javier (Bardem, o marido dela), mas continuo querendo fazer par com ela. Mas Assayas deu este direito a Édgar, que pôde beijá-la à vontade. Já eu, fiquei com o “gusano” José Basulto. E olhe que é a segunda vez que trabalho num mesmo filme com Penélope. O primeiro foi “Dor e Glória”, mas Almodóvar me colocou longe dela, no tempo e no espaço. Voltando, de novo, a falar sério, o que me interessa, ao interpretar um personagem, não se ele é um herói ou um traidor, mas sim a proposta do filme. E a proposta de Olivier Assayas consiste em buscar atores para interpretar seres humanos complexos, não caricaturas. E quero, aqui, agradecer a parceria que venho desenvolvendo com Rodrigo (Teixeira). Neste momento, ele coproduz o quinto trabalho em que estou envolvido e que terá filmagens no Rio de Janeiro. Fizemos “O Silêncio do Céu”, de Marco Dutra, a série “O Hipnotizador”, “Wasp Network”… Enfim, um parceiro muito especial na minha carreira.

A vida de Mauricio de Sousa, o maior cartunista do Brasil, vai virar filme. O criador de Bidu e da Turma da Mônica tem uma trajetória cinematográfica que será revelada pelo diretor Pedro Vasconcelos. Quando o cineasta leu a autobiografia Mauricio – A História que Não Está no gibi, não teve dúvidas de que queria levar a história para o cinema e já começou a imaginar o storyboard.

A ficção em live-action vai contar as peripécias do menino de origem simples que, aos 6 anos, achou um gibi numa lata de lixo e, graças à paixão pelos quadrinhos, venceu grandes obstáculos até criar um império, a Mauricio de Sousa Produções.

Com produção de Tuinho Schwartz e argumento e roteiro de Pedro Vasconcelos, que comprou os direitos do livro através da produtora Boa Ideia Entretenimento, o longa-metragem será rodado em São Paulo – interior e capital – e promete encantar brasileiros de todas as gerações, com data ainda a ser confirmada.

A vida em família compensava a falta de recursos de seus pais, Petronilha e Antonio Mauricio. Eles eram muito unidos, criativos e afetuosos e isso garantiu ao garoto prodígio e impetuoso uma infância inesquecível em Mogi das Cruzes (SP), para onde se mudou ainda pequeno (ele nasceu em Santa Isabel, no interior de São Paulo). Colhia fruta no pé, tomava banho de rio com os amigos, brincava nas ruas de terra.

O filme vai mostrar não só a história de superação de Mauricio de Sousa, mas de onde veio a inspiração e as referências para cada um de seus mais famosos personagens – alguns criados a partir de memórias da infância, outros, de vivências diversas que teve nas mais diferentes fases. Aos 19 anos, depois de tentar sem sucesso apresentar seus desenhos, Maurício foi repórter policial – maneira que encontrou para entrar no jornal Folha da Manhã (atual Folha de S. Paulo), escrevendo reportagens enquanto não conseguia emplacar carreira de desenhista. Em 1959, criou o cãozinho Bidu, seu primeiro personagem, e nas horas vagas criava as tirinhas de Bidu e Franjinha para a Folha da Tarde, do mesmo grupo.

Por Maria do Rosário Caetano

Dois professores universitários, um compositor-poeta-filósofo e um artista plástico estreiam, como cineastas, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, cuja quadragésima-terceira edição começa nesta quinta-feira, 17 de outubro, e prossegue em 26 salas paulistanas e uma campineira até dia 30.

Lúcia Nagib, professora da Universidade de Reading, na Inglaterra, e Sidnei Paiva, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), assinam “Passagens”, um documentário sobre o cinema brasileiro contemporâneo.

Francisco Bosco, parceiro do pai, o compositor João Bosco, e autor do polêmico “A Vítima Tem Sempre Razão? – Lutas Identitárias e o Novo Espaço Público Brasileiro”, assina “O Mês que Não Terminou”, junto com o artista plástico Raul Mourão. A dupla investiga, em seu primeiro documentário, “o emblemático” mês de junho de 2013 no Brasil, seus acontecimentos marcantes e seus desdobramentos. E o faz a partir da análise de ativistas, cientistas políticos, filósofos, psicanalistas e economistas.

Lúcia Nagib, que foi professora de Teoria (e História) do Cinema na Unicamp, é autora de livros importantes como “Werner Herzog: O Cinema como Realidade”, “Em Torno da Nouvelle Vague Japonesa” e “Nascido das Cinzas: Autor e Sujeito nos Filmes de Oshima”. Em 2002, ela coordenou, na PUC-SP, projeto do Centro de Estudos de Cinema, que reuniu alunos empenhados em pesquisar o chamado “Cinema da Retomada”. Ou seja, os filmes e seus realizadores, aqueles que, depois do desmonte promovido pelo Governo Collor, se incumbiram de fazer renascer, quantitativa e qualitativamente, a produção cinematográfica brasileira. O material que a professora e seus alunos produziram resultou em livro essencial: “Cinema da Retomada – Depoimentos de 90 Cineastas dos Anos 90” (Editora 34).

Passados 17 anos, Lúcia Nagib, agora em parceria com Sidnei Paiva, convoca 15 artífices do Cinema da Retomada para refletir sobre a criação audiovisual. Os pernambucanos ocupam a linha de frente de “Passagens”. Estão no filme os cineastas Lírio Ferreira, Paulo Caldas, Cláudio Assis, Marcelo Gomes, Kleber Mendonça, Hilton Lacerda (também roteirista dos mais requisitados), Renata Pinheiro (também diretora de arte das mais premiadas) e Adelina Pontual. E o produtor João Vieira Jr. São Paulo se faz representar pelos cineastas Tata Amaral, Fernando Meirelles e Beto Brant e pela montadora (e professora da USP) Vânia Debs. O sergipano Helder Aragão, o DJ Dolores, inspirado trilheiro de “Narradores de Javé”, entre muitos outros filmes, e a curadora e fotógrafa Ana Farache completam o time.

“Passagens” traz potentes trechos de filmes (como “Baile Perfumado” e uma de suas principais sequências – a do canyon do São Francisco sob a artilharia musical de Chico Science), para refletir sobre a utilização que seus realizadores fizeram de expressões artísticas como a pintura (caso de Beto Brant, em “Crime Delicado”), a literatura, o teatro e a música. E, a partir destes diálogos, como os cineastas promoveram a passagem para a realidade social e política brasileira. O longa de Lúcia e Sidnei reflete também sobre o diálogo entre a ficção e o documentário. Paiva, registre-se, é autor, entre outros livros, de “A Figura de Orson Welles no Cinema de Rogério Sganzerla”.

O documentário de Bosco e Mourão nasceu de ensaio que o compositor-poeta-filósofo publicou na Folha de S. Paulo, cinco anos depois dos tumultuados dias de junho de 2013. O canal Curta! interessou-se pelo projeto e deu carta branca aos dois realizadores. Que resolveram compor o longa documental com vídeos de artistas plásticos, capazes de ajudar a complementar as necessárias reflexões sobre os acontecimentos daquele “mês que não terminou”.

Além de intervenção videográfica do próprio Raul Mourão, que é artista plástico e curador-produtor de exposições, o filme traz criações de Nuno Ramos, Cabelo, Lucas Bambozzi, Cao Guimarães e Pablo Lobato (estes três, também cineastas), Daisy Xavier, Janaína Tschäpe, Wagner Malta Tavares, Marcone Moreira, Cadu e Gabriel Giucci.

Para entender melhor o que aconteceu naquele mês de junho, seis anos atrás, Bosco e Mourão entrevistaram intelectuais como Marcos Nobre, professor de Filosofia da Unicamp, Áurea Carolina, socióloga e deputada federal, Laura Carvalho, professora de Economia da USP, Maria Rita Kehl, escritora e psicanalista, Samuel Pessoa, economista, Pablo Ortellado, filósofo, Pablo Capilé, ativista político e produtor cultural, entre outros. A atriz e escritora Fernanda Torres faz a narração de “O Mês que Não Terminou”.

Para os autores deste longa documental, os protestos de junho de 2013 constituíram-se como “o primeiro questionamento ao processo de consolidação da democracia liberal brasileira, rumo que o país tomava desde a redemocratização”. A partir deste momento, “o Brasil passou por uma transformação não só política, mas cultural, deixando de ser o ‘país do futebol’ para ser o ‘país da política’.

Eles entendem ser “impossível compreender o que aconteceu com o país nos últimos seis anos sem remontar àquele período de junho de 2013”. Por isto, “o filme começa buscando as causas daquele junho: os sinais ainda latentes de crise econômica, o esgotamento da representação institucional no país, o contexto de crise global das democracias liberais, o grande colapso econômico de 2008”. Daí em diante, o documentário aborda “os atos, propriamente, de junho, a cultura social do engajamento por eles produzida, a formação da polarização, os sentidos da Lava-Jato, o impeachment de Dilma Roussef, a emergência das novas direitas e o triunfo final da direita reacionária, com a eleição de Bolsonaro”.

“Sem pretensões ilusórias de neutralidade”, os diretores de “O Mês que Não Terminou” procuraram “realizar investigação sobre o recente processo político, social e cultural do Brasil, sendo os mais fiéis possíveis à complexidade que o define”. A intenção do documentário – arrematam – “é resgatar e refletir sobre este percurso”.

“Passagens” terá três sessões na Mostra SP: na segunda-feira, 21 de outubro, às 19h10 (no Itaú Frei Caneca 3), na terça, 22, às 17h45 (no Frei Caneca 4), e na sexta, 25, às 19h (Itaú Augusta 1). Nesta terceira e última sessão, haverá debate entre os realizadores (Lúcia Nagib e Sidnei Paiva) com os cineasta Tata Amaral e Lírio Ferreira.

Já “O Mês que Não Terminou” será exibido na terça-feira, dia 22, no Espaço Itaú Augusta (21h30), na quarta, 23, na CineSala (14h00) e na sexta, 25, no Itaú Frei Caneca (15h30).