No ano em que são comemorados os 100 anos da Revolução Russa, o CPC-UMES (Centro Popular de Cultura da União Metropolitana de Estudantes Secundaristas) promove, na Cinemateca Brasileira, a quarta edição da Mostra Mosfilm Brasil – Cinema Soviético e Russo. De 5 a 10 de dezembro, serão exibidos, com entrada franca, onze longas-metragens.

O filme inaugural será o inédito “Anna Karenina – A História de Vronsky”, de Karen Shakhnazarov, baseado no famoso romance de Lev Tolstoi, publicado em 1877. Só que, nesta adaptação, o diretor privilegia o ponto de vista do Conde Vronsky.

A obra do grande Tolstoi já recebeu múltiplas releituras no cinema. Para não se repetir, o cineasta moscovita, de origem armênia, inicia sua narrativa trinta anos mais tarde, durante a guerra russo-japonesa. Para tanto, usa um artifício: o filho de Karenina procura saber do amante da mãe (o Conde Vronsky), o que a fizera desistir da vida. Tolstoi, nunca é demais lembrar, narra, neste que é um de seus livros mais conhecidos, o caso extraconjugal de Anna Karenina, que se apaixona pelo nobre Vronsky e abandona a família, chocando a sociedade de seu tempo.

As produções selecionadas para o festival vão de clássicos da era muda soviética até produções contemporâneas. Ou seja, de “Encouraçado Potemkin” e “Outubro”, ambos de Sergei Eisenstein, até os recentes “Amor na URSS” e “Ana Karenina”, ambos de Karen Shakhnazarov.

No recheio da Mostra Mosfilm, estão realizações das décadas de 1930 (“O Cartão do Partido”, de Ivan Pyryev), de 40 (“A Questão Russa”, de Mikhail Romm), de 50 (“O Destino de um Homem”, de Serguey Bondarchuck), e 60 (“Libertação” – Parte 1 – Arco de Fogo, e Parte 2 – Ruptura, de Yuri Ozerov).

Sérgio R. Torres, da comissão organizadora da Mostra Mosfilm – o nome é uma homenagem ao maior estúdio de cinema da história soviética – explica que a ideia é apresentar filmes realizados na maioria possível de décadas pós-Revolução de 1917. Jamais ficar só nos clássicos do Construtivismo Russo. Por isto, a temporalidade é tão elástica.

Os anos 1970 se fazem representar por “Estação Bielorrússia”, de Andrey Smirnov, e por um dos maiores sucessos internacionais dos Estúdios Mosfilm, “Dersu Uzala”, de Akira Kurosawa. A década de 1980 marca presença com “Um Homem do Boulevard dos Capucines”, de Alla Surikowa. Duas décadas, porém, ficaram sem representação: a dos anos 1990 e 2000. Foram anos do desmonte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em que os Estúdios Mosfilm perderam força. Hoje, a empresa voltou a ter destaque (mas nada que lembre a grandeza da era soviética).

Quem não se lembra do êxito planetário de “Dersu Uzala”? O filme foi realizado em 1975, por um Kurosawa ainda no auge de sua potência artística (apesar das angústias existenciais e criativas que o levaram a tentativa de suicídio, em 1971). O realizador japonês tornara-se mundialmente conhecido quando “Rashomon” (1950) venceu o Festival de Veneza. Mas na década de 1970, enfrentava grandes dificuldades para financiar seus filmes. Sua relação com a Rússia vinha de adaptação de Dostoievski (“O Idiota”, 1951) e Gorki (“Ralé”, 1957). A Mosfilm recebeu o mestre japonês com honras e carta branca. E foi regiamente recompensada.

Afinal, “Dersu Uzala” rendeu um Oscar de melhor filme estrangeiro a Kurosawa e conquistou outras láureas internacionais (incluindo o Donnatelo italiano). Esta produção soviético-japonesa baseia-se em livro do explorador e topógrafo Vladimir Klavdievich Arseniev (publicado em 1923). O relato, que foi adaptado pelo roteirista Yuri Nagibin, ambienta-se na Sibéria, durante a primeira década do século XX, e une dois protagonistas, ambos russos: Maxim Munzuk (o nativo goldi Dersu Uzala) e Yury Solomin (o Capitão Arseniev, autor do livro).

A aventura filmada por Kurosawa mostra o militar Arseniev e seus soldados em missão topográfica na gelada Sibéria. Lá, ele fará amizade com um homem simples, Dersu, “a águia das estepes e taigas”, conhecedor profundo da imensa região siberiana.

O filme, um épico apaixonante, centra-se no embate entre a natureza e a civilização. O crítico francês George Sadoul escreveu, em seu “Dicionário de Filmes”, que o obstinado Kurosawa encontrou nos Estúdios Mosfilm, amplo orçamento e todo o tempo sonhado para realizar seu épico. Da parceria, resultaria “um filme-rio de remansos generosos, corredeiras e água parada, meditação sobre os relacionamentos do homem com a natureza”. E mais: “a extrema atenção dada por Kurosawa à qualidade dos diálogos sem palavras, que se trava entre o cientista e o homem da floresta, prova, na verdade, com bastante eficácia, que ele não lança uma Natureza-maiúscula contra um Homem-minúsculo, mas dá um testemunho para o futuro que saberá ser o da troca e não o do saque”.

Alguns dos filmes programados pelo CPC-UMES abordam, claro, a participação soviética na Segunda Guerra Mundial, por eles chamada de Grande Guerra Patriótica. Caso de “Libertação 1: O Arco de Fogo”, “Libertação 2- Ruptura”, “O Destino de um Homem” e “Estação Bielorrússia”. Quem acompanhou as recentes comemorações russas por ocasião do centenário da Revolução Bolchevique, viu que o presidente Vladimir Putin fez vista grossa ao que se passou em 1917 e centrou atenções nos feitos da Guerra Patriótica. Esta, avaliou com esperteza, une os russos. Já a Revolução comandada por Lênin racha o país ao meio.

Fora do tema da Guerra Patriótica, vale destacar títulos mais recentes. Caso de “Um Homem do Boulevard des Capucines”, de Alla Surikova, de 1987. A trama evoca o passado do próprio cinema. Na alvorada do século 20, Mr. Johnny First chega ao Oeste Selvagem com um projetor e algumas latas de filme. O título do longa-metragem, uma sátira, evoca o Salão Indiano do Grand Café do Boulevard des Capucines, onde os Irmãos Lumière encantaram as plateias com sua maravilhosa invenção.

Já “Amor na URSS”, de Karen Shakhnazarov, de 2013, se passa na década de 1970, momento em que um jovem universitário “dissidente” disputa com o amigo comunista o amor de Lyuda. O triângulo amoroso se constitui sobre pano de fundo em que o entusiasmo socialista soviético sofre gradual, porém contínua, erosão. O filme é uma revisita a “Cidade dos Ventos”, realizado pelo mesmo diretor, em 2008.

Shakhnazarov, de 65 anos, iniciou sua carreira aos 23, e tem pelo menos dois de seus dezoito longas-metragens conhecidos no Brasil: “Cidade Zero” (1988), lançado em nosso circuito de arte nos tempos da perestroika/glasnost, e “Tigre Branco” (2016), já apresentado na Mosfilm Brasil e com promessa de lançamento em 2018.

Por Maria do Rosário Caetano

As duas vagas que ainda estavam pendentes na diretoria da Agência Nacional do Cinema (Ancine) foram ocupadas, no dia 20 de outubro, com a nomeação de Alex Braga Muniz – que já trabalhava como procurador-chefe da Procuradoria Federal na agência – e Christian de Castro, que atua no setor audiovisual desde o final dos anos 1990, especialmente, como consultor financeiro e produtor. Para a sua palestra no 3º Mercado Audiovisual do Nordeste (MAN), realizada no primeiro dia do evento, em Fortaleza, Castro foi convidado a falar sobre a regulamentação do vídeo sob demanda (VoD) no Brasil e as discussões sobre a Condecine, que deverá incidir sobre os players desse segmento. Além de enfatizar a importância de trazer empresas do porte da Netflix e da Amazon para investirem no mercado nacional, o novo diretor reforçou que, neste primeiro momento, as cotas para o conteúdo brasileiro nessas plataformas ainda não serão discutidas pelo grupo de trabalho que está analisando a questão das taxas. Tal discurso se mostrou plenamente alinhado com as últimas entrevistas e palestras proferidas pelo ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, de quem Castro é bastante próximo desde o começo da sua carreira.

Nesta entrevista para a Revista de CINEMA, ele falou sobre a regionalização dos recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e o papel dos bancos locais para agilizar os processos de fluidez e desburocratização, a exemplo do termo que foi firmado pela Ancine com o Banco do Nordeste, durante o 3º MAN.

Na foto, Christian de Castro (o primeiro à esquerda) está ao lado de Fabiano Piuba (Secult-CE), Marcos Holanda (BNB), Débora Ivanov (Ancine), Inácio Arruda (Secitece), Wolney Oliveira (CONNE), Fernanda Farah (BNDES) e Alex Braga Muniz (Ancine), no momento da assinatura do acordo com o Banco do Nordeste (BNB).

 

Revista de CINEMA – Ao longo da sua palestra, você mencionou a sua trajetória no mercado financeiro e na produção de longas-metragens, assim como a transição para a diretoria da Ancine nas últimas semanas. Poderia detalhar melhor quais são os seus desafios ao entrar para uma agência reguladora e o que pretende fazer nos próximos quatro anos de mandato como diretor?

Christian de Castro – O desafio é trazer essa visão do mercado privado para dentro da agência, com o objetivo de simplificar os processos. Eu sou um cara do mercado financeiro, mas também trabalhei com governança e gestão, capacitando empresas.

Revista de CINEMA – Você chegou a atuar na RioFilme também, não é?

Christian de Castro – Sim, na estruturação daquele modelo de negócio, com o Sérgio Sá Leitão. Eu fui assessor do Sérgio na primeira passagem dele pela Ancine, na estruturação do Fundo Setorial do Audiovisual, participei daquele grupo de trabalho, naquele primeiro minuto do PL 29. Quando o Sérgio foi para a RioFilme, ele me convidou para ir junto e nós montamos aquele modelo de negócio, que, no fundo, era um asset manager de conteúdo, um gestor de conteúdo. Deixou de ser aquele modelo de negócio de distribuidora – que era o que funcionava até então e que não precisava, não tinha mais razão de ser – para virar realmente um indutor, uma agência de desenvolvimento do mercado audiovisual carioca. Fiquei pouco tempo, até a máquina rodar, e saí. Com a minha empresa de consultoria, que eu tinha até antes de entrar na Ancine, fui trabalhando justamente em governança, gestão e planejamento estratégico de empresas, trazendo isso para dentro da agência, com o objetivo de olhar para a simplificação dos processos e trazer mais dinheiro, procurar estimular o investidor privado a entrar nesse mercado de uma maneira mais firme. Porque a partir do momento em que a gente simplifica os processos da agência, nós damos previsibilidade para a execução e conseguimos trazer o privado.

Revista de CINEMA – Essa nova diretoria que está chegando à Ancine tem um pouco esse perfil, não é? Essa será a linha de atuação?

Christian de Castro – É. A Débora Ivanov vem do mercado. O Alex Braga Muniz, apesar de ser um servidor da Procuradoria, acompanhou todo esse crescimento da agência e tem um embasamento regulatório muito forte, que serve de base para a gente trabalhar a simplificação disso. Ele também vem com essa pegada da simplificação, da desburocratização, o que é muito bom.

Revista de CINEMA – Você também falou na sua palestra que o BRDE não estava conseguindo dar conta de toda a demanda financeira do FSA. Até que ponto esses entraves do banco também acabaram segurando os R$ 3,9 bilhões que ainda estão parados no fundo?

Christian de Castro – Acho que esse é um dos elementos, mas a burocracia do processo acaba travando o dinheiro no meio do caminho. Isso sem dúvida. A forma como o regulamento do FSA foi concebido, é um regulamento muito intrincado, rebuscado, complicando a execução. E isso retarda alguns processos internos. A agência já sabe disso, a própria equipe da Superintendência de Desenvolvimento Econômico sabe quais são os processos que estão mapeados, o fomento já mapeou. Existe um trabalho interno da Ancine, não é nenhuma novidade. Tudo isso já foi identificado e tem sido trabalhado para poder executar mais rápido. Porque nunca teve, né? De uma hora para outra, passa a ter um volume grande. Não é simples você executar um volume grande de dinheiro com segurança, em um mercado em formação, com um monte de empresas novas entrando, sem ter referências dessas empresas. Tem que ter um pouco de segurança e controle, só que hoje a gente já tem reconhecimento do mercado que possibilita chegar e reavaliar certos processos e entender como que a gente pode investir e fazer esse recurso circular de uma maneira mais rápida, eficiente e eficaz.

Revista de CINEMA – Além do Banco do Nordeste, quais são os outros bancos que poderão entrar no processo para também dar maior agilidade?

Christian de Castro – Nós estamos conversando tanto com bancos privados quanto com os bancos públicos. Mas, por enquanto, só o Banco do Nordeste está alinhado. A partir do Banco do Nordeste, a gente espera criar um case para poder conversar com outros e ver como podemos trabalhar.

Revista de CINEMA – Na área da produção, a sua empresa atuou especialmente em Brasília, que faz parte da região CONNE.  Como você vê esse processo de regionalização dos recursos do FSA?

Christian de Castro – É fundamental. A gente ter firmado esse termo de intenções com o Banco do Nordeste é fundamental na agilidade, porque ele conhece os players locais, a forma de lidar localmente. É mais fácil executar no Nordeste com um banco do Nordeste, com essa região fora do eixo. Daqui para frente, com a execução sendo mais fluida, isso passa por uma capacitação dos produtores e dos empreendedores locais. Acho que um evento como este [o 3º Mercado Audiovisual do Nordeste] é muito importante. Quando a gente traz uma equipe da Ancine, com os caras que sabem tudo, para passar uma tarde explicando como funciona o processo, respondendo dúvidas, indicando como é que se faz e mostrando os caminhos, acho que, cada vez mais, a gente vai fazendo isso para poder tornar o processo mais fluido. A regionalização passa por isso.

 

Por Belisa Figueiró

Três documentários feitos no calor da hora, “em estado de urgência”, serão mostrados no Cine Bijou, recém-reaberto na Praça Roosevelt paulistana. Além de assistir à trinca de “filmes urgentes”, o público será convocado a debatê-los com Jean-Claude Bernardet, Nabil Bonduki e Thales Ab’Saber, nomes de peso na reflexão sobre caminhos e descaminhos do país em tempos de crise político-econômica, polarização e ódio.

Os longas-metragens que darão início a esta mostra itinerante – a próxima cidade a exibi-los será Brasília – são “Operações de Garantia da Lei e da Ordem”, de Júlia Murat e Miguel Ramos, “Escolas em Luta”, de Consonni, Marques e Tambelli, e “Intervenção – Amor Não Quer Dizer Grande Coisa” , de Rewald, Aranda e Ab’Saber.

Júlia Murat e Miguel Ramos buscam desvendar, em “Operações de Garantia da Lei e da Ordem”, o olhar da mídia sobre as manifestações de 2013, enquanto o trio de jovens realizadores de “Escolas em Luta” mostra mobilização de secundaristas paulistanos contra projeto educacional da Gestão Alkmin. Já “Intervenção – Amor Não Quer Dizer Grande Coisa”, dos cineastas Rubens Rewald e Gustavo Aranda, que contaram com participação decisiva do psicanalista Thales Ab’Saber, registram, com arquivos da internet, a voz da extrema direita brasileira.

Durante três dias – terça-feira, 21, quarta, 22, e sexta, 24 (não haverá filme e debate na quinta-feira) – os documentários, todos de longa-metragem, serão exibidos e analisados no simpático e modesto Cine Bijou.

Para Thales Ab’Saber e Rubens Rewald, o chamado “cinema da urgência” configura “a retomada do engajamento, da força do cinema como dispositivo de discussão do mal social e propositor de perspectivas de trabalho sobre a vida”. Afinal, “o cinema brasileiro tem algo de sério a dizer sobre o regime da vida do presente, os trabalhos sociais necessários e as forças políticas reinventadas de que dispomos”.

“Operações de Garantia da Lei e da Ordem”, o primeiro filme a ser exibido, será debatido pelo arquiteto Nabil Bonduki. “Escolas em Luta” contará com análise de Thales Ab’Saber. “Intervenção” será analisado por Jean-Claude Bernardet, autor de clássico da reflexão sobre o cinema documental brasileiro (“Cineastas e Imagens do Povo”, cuja primeira edição foi lançada em 1985, sendo relançado e atualizado recentemente). O professor da USP, que é também cineasta e ator, gosta de lembrar que os documentaristas brasileiros costumam evitar três temas fundamentais: o Poder Financeiro, as Forças Armadas e a Mídia. Resta ver que opinião ele emitirá sobre estes títulos reunidos sob o rótulo de “Cinema Urgente”.

Os longas programados para o Cine Biju chegam para somar-se a “Martírio”, de Vincent Carelli, “O Grande Salto para Trás”, de Zingaro e Bonnassieux, “Entre Homens de Bem”, de Cavechini e Juliano, “Um Domingo de 53 Horas”, de Cristiano Vieira, e “O Muro”, de Lula Buarque de Hollanda, todos exibidos em festivais (só “Martírio” chegou ao circuito comercial). A uni-los, estão temas urgentes como as manifestações de rua de 2013, o Parlamento brasileiro e sua aguda crise de representatividade, o impeachment de Dilma Roussef e as ocupações de escolas por estudantes secundaristas.

No próximo ano – quem sabe nas mostras competitivas e informativas de festivais, como o É Tudo Verdade, ou o de Gramado, ou de Brasília – devem estrear filmes, como “No Palácio” (título provisório), de Anna Muylaert, Lô Politi e César Charlone, que registra os últimos dias de Dilma no Alvorada, “Impeachment, Dois Pesos e Duas Medidas”, de Petra Costa, “Excelentíssimos”, de Douglas Duarte (que chegou a ter subtítulo provisório dos mais provocadores: “A Gangue da Gravata de Seda”), “O Processo”, de Maria Luíza Ramos (também sobre o impeachment), “Filme Manifesto – O Golpe de Estado”, de Paula Fabiano (idem), “Esquerda em Transe”, de Renato Tapajós, “Missão 115”, de Silvio Da-Rin, e “Impeachment Visto do Sul”, de Boca Migotto.

“Martírio” tem como tema central a luta dos povos Guarani-Caoiwá pelo direito às suas terras. Para entender por que parcela tão significativa de povos originários vive em estado de penúria e sob ameaça permanente, o cineasta Vincent Carelli e os parceiros Ernesto de Carvalho e Tita, do coletivo Vídeo nas Aldeias, mergulharam na internet e trouxeram, do espaço digital, um dos mais reveladores retratos da bancada do Boi e da Bala (e até, em menor proporção, da Bíblia). Os diretores não pediram autorização para usar tais imagens no filme. E nenhum deputado, senador, governador ou empresário ligado ao agronegócio veio a público protestar contra o épico “Martírio”. O filme ganhou dezenas de prêmios no Brasil e no exterior e foi visto por 10 mil espectadores.

“Entre Homens de Bem”, de Caio Cavechini e Carlos Juliano, tem como protagonista o deputado Jean Wyllys, da combativa (e pequena) bancada do Psol. Homossexual assumido, ele vive dolorosos embates no Parlamento. Seu maior opositor é Jair Bolsonaro, militar aposentado e deputado há sete legislaturas. O filme traça retrato assustador do Parlamento brasileiro.

Quem promete traçar outro retrato apavorante do atual Legislativo nacional é o cineasta Douglas Duarte. Ele filmou a famigerada sessão que cassou o mandato de Dilma Roussef e distribuiu louvores a torturadores, cusparadas e saudações a maridos, esposas, filhos, redutos eleitorais e a Deus.

“O Muro”, de Lula Buarque, exibido no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, parte da imensa cerca-tapume erguida na Esplanada dos Ministérios, para separar os contrários e os favoráveis ao impeachment da única mulher eleita para governar o país. Com a intenção de ampliar seu universo temático, Buarque foi à Alemanha, onde registrou escombros do Muro de Berlim, e também a Israel, para documentar grupos e famílias fragmentados por muralhas da Faixa de Gaza/Cisjordânia.

Renato Tapajós também focou o impeachment em “Esquerda em Transe”. Mas o fez “a partir da visão dos movimentos populares e das pessoas presentes às manifestações de rua a favor da Dilma”. De forma que “a votação na Câmara dos Deputados é toda contada a partir da multidão”, daqueles que “se reuniram em Brasília, diante do telão, para assistir à sessão”. A equipe do cineasta centrou-se no registro das expressões e movimentos que acompanhavam cada voto”. O material utilizado foi produzido, além da equipe de Tapajós, por integrantes de movimentos populares.

“Nossa narrativa” – explica o realizador – “vai buscando, ao longo do filme, as alternativas de luta e destacando movimentos como o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e o Levante Popular da Juventude”. Há, ainda, uma segunda linha narrativa em “Esquerda em Transe”. “Aquela que discute o papel da esquerda no processo, destacando, principalmente, seus erros”, de forma que “somos levados necessariamente à discussão de perspectivas”, assunto no qual “o filme assume claramente que não tem ideia do que deve ser feito”. Várias opiniões (de Marilena Chauí, Guilherme Boulos, Jessé Sousa, João Pedro Stédile e integrantes do Levante) e alternativas vão se somando. E deixam “a questão em aberto”. Enfim, “o filme se constrói na dinâmica entre as imagens de ação (escrachos, discussões públicas etc.) e na intervenção dos entrevistados, em busca do conflito e não da reiteração”. Mas – arremata Tapajós – “nosso filme tem lado, é frontalmente contra o impeachment e não está muito interessado em manobras daqueles que vivem dizendo que “respeitaram a Constituição”.

Só uma obra de ficção, “Era uma Vez Brasília” – mostrado e premiado na quinquagésima edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro –, tem o “golpe parlamentar” como um de seus temas. Na sinopse do filme, que dialoga com a ficção científica, o realizador Adirley Queirós registra: “Só Andreia, a rainha do pós-guerra, poderá ajudá-los (aos agentes intergaláticos) a montar o exército para matar os monstros que habitam hoje o Congresso Nacional”. E finaliza: “este é um documentário gravado no Ano 0 P.G. (Ano Zero Pós-Golpe), no Distrito Federal e região”.

Programação:

Dia 21 (terça-feira) – ”Operações de Garantia da Lei e da Ordem”, de Júlia Murat e Miguel Ramos. Debate com Nabil Bonduki.
Dia 22 (quarta-feira) – “Escolas em Luta”, direção de Eduardo Consonni, Rodrigo Marques e Tiago Tambelli. Debate com Thales Ab’Saber.
Dia 24 (sexta-feira) – “Intervenção – Amor Não Quer Dizer Grande Coisa”, de Rubens Rewald, Gustavo Arando e Tales Ab’Sáber. Debate com Jean-Claude Bernardet.

Horário: sempre às 20h.

Por Maria do Rosário Caetano

A fim de dar visibilidade aos jovens que estão entrando na competitiva indústria audiovisual, o Latin American Training Center-LATC anunciou uma nova ferramenta para a divulgação de projetos audiovisuais (ficção e documentário) para estudantes e recém-formados que estão em busca de apoio para financiamento, coprodução, crowdfunding, distribuição, serviços de pós-produção, entre outros.

Através de sua nova parceria com o FORCINE, o Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual, o LATC oferece esta plataforma em seu site, exclusivamente, a estudantes no último período e recém-formados (até um ano) das escolas associadas ao FORCINE, sociedade civil sem fins lucrativos que congrega e representa de forma permanente as instituições e os profissionais brasileiros dedicados ao ensino de cinema e audiovisual, visando o desenvolvimento e o fortalecimento dessa atividade. Atualmente, estão associadas 24 escolas de cinema.

Esta nova plataforma faz parte da missão da LATC de apoiar os novos profissionais da indústria audiovisual latino-americana e irá gerar grande visibilidade para os projetos, que serão disponibilizados a produtores de toda a América Latina, e até mesmo de outras regiões. Os produtores interessados entrarão diretamente em contato com os estudantes, sem o intermédio do LATC.

Os interessados em utilizar esse espaço de divulgação, cedido de forma gratuita, devem preencher a Ficha de Solicitação (disponível no site www.latamtrainingcenter.com), com informações resumidas do projeto, uma pequena biografia do responsável, um link e/ou e-mail para contato e uma imagem promocional, que será divulgada no site e nas redes sociais do LATC. A ficha deve ser enviada para Tiago Elídio (tiago.latc@gmail.com), que verificará as informações e avaliará se o projeto está em conformidade com o perfil do LATC e de seus parceiros. Será divulgado um projeto por semana, por ordem de chegada da solicitação e ele ficará disponível durante um mês.

Junto com a ficha, deverá ser encaminhada carta/ofício da escola confirmando que o aluno está regularmente matriculado no último período. Recém-formados (até um ano) podem encaminhar uma cópia do diploma ou documento de conclusão.

As instituições de ensino com cursos da área do audiovisual associadas ao FORCINE são:

Cinema e Audiovisual – Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF
Cinema – Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio – CEUNSP
Cinema e Audiovisual – Universidade Estadual de Goiás – UEG
Cinema e Audiovisual – Universidade Federal da Integração Latino-Americana – UNILA
Cinema e Audiovisual e Cinema de Animação – Centro de Artes – Universidade Federal de Pelotas – UFPEL
Audiovisual e Publicidade – Faculdade de Comunicação Social – Universidade de Brasília – UnB
Cinema – Comunicação Social – Universidade Potiguar – UNP
Cinema de Animação e Artes Digitais – Escola de Belas Artes – Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Cinema e Audiovisual – Universidade Anhembi Morumbi- UAM
Cinema e Audiovisual – Instituto de Artes e Comunicação Social – Universidade Federal Fluminense – UFF
Cinema e Audiovisual – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB
Cinema e Realização Audiovisual – Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL
Cinema e Vídeo – Curso de Comunicação Social – Faculdade de Tecnologia e Ciências – FTC
Cinema – Comunicação Social – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-RIO
Cinema – cursos de curta duração – Academia Internacional de Cinema – AIC
Cinema – Faculdade de Comunicação – Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP
Cinema – Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
Comunicação (habilitações) – Escola de Comunicação – Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ
Imagem e Som – Departamento de Artes – Universidade Federal de São Carlos – UFSCAR
Midialogia – Instituto de Artes – Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP
Superior do Audiovisual – Escola de Comunicações e Artes – Universidade de São Paulo – USP
Tecnologia em Produção Audiovisual – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
Cinema e Audiovisual – Universidade Federal do Pará
Latin American Training Center – LATC

Está chegando ao fim o prazo para inscrições na linha de desempenho artístico do Sistema de Suporte Automático do Programa Brasil de Todas as Telas. A Chamada Pública PRODAV 07/2017 recebe inscrições até as 18h de quinta-feira, 16 de novembro. O edital pode ser acessado no site do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e prevê disponibilização de recursos no valor de R$ 20 milhões.

O edital beneficia empresas produtoras em razão do desempenho artístico de suas obras lançadas comercialmente, em 2015, de acordo com a participação e/ou premiação em festivais nacionais e internacionais.

Os R$ 20 milhões serão divididos de forma proporcional à pontuação alcançada pelas dez obras cinematográficas que obtiverem as maiores pontuações, com base na participação ou premiação na lista de mostras brasileiras e estrangeiras informada no edital. O cálculo será realizado através da divisão do valor total de recursos disponibilizados na Chamada, pela soma das pontuações das dez primeiras colocadas, multiplicando-se o resultado pela pontuação individual de cada obra.

Os critérios adotados para a pontuação das produções, de acordo com faixas de classificação atribuídas aos festivais, estão dispostos no edital. A lista com 160 festivais foi dividida em cinco categorias, de acordo com a relevância dos eventos, e a pontuação varia de acordo com o tipo de participação da obra dentro de um mesmo festival.

Obras vencedoras de prêmios de melhor filme ou diretor, por exemplo, ficam com as maiores pontuações, seguidas pelos filmes selecionados para mostras competitivas. Estes, por sua vez, pontuam mais do que produções selecionadas para mostras não competitivas.

As inscrições devem ser apresentadas em envelope lacrado e enviadas ao Escritório Central da ANCINE por serviço de encomenda expressa ou entregue por portador, contendo toda a documentação exigida e de acordo com as orientações contidas no edital, até as 18h do dia 16 de novembro.

As linhas de suporte automático, inspiradas nas melhores práticas internacionais de financiamento público à produção audiovisual, valorizam o mérito das empresas pelos resultados conquistados. Desta forma, possibilita o planejamento de suas atividades e parcerias com mais consistência e previsibilidade.