A experiência de Agnes (Kelly Macdonald, “T2 Trainspotting”) em sua vida como dona do lar se resume a cuidar da organização e limpeza de sua casa, além de alimentar pontualmente marido e filhos. Enquanto o patriarca supre as necessidades financeiras da família, em sua oficina mecânica, com a ajuda do primogênito, o mais novo engata um romance com uma jovem vegana e budista. Estas são as peças deste “O Quebra-Cabeça”.

A vida de Agnes precisa de uma epifania, e isso está claro no olhar significativo desta mulher. Em seu aniversário, quando deixa todas as peças de sua própria festa fixadas em um belo retrato, metafórico, de sua vida perfeita, Agnes ganha de presente de sua tia um quebra-cabeça. Aos poucos, ela descobre seu talento matemático em identificar formas e padrões e, desta forma, montar rapidamente o objeto de mil peças.

Mas as peças de sua vida estão soltas, como o olhar não esconde, contando com interpretação magistral de Macdonald. Ela capta as nuances da simplicidade daquela mulher, acostumada às obrigações religiosas, não perdendo sequer um horário de jantar. É por isso que a peça coringa de seu novo passatempo tem tanto significado para as mudanças que a personagem passa a se permitir.

“O Quebra-Cabeça” é uma daquelas produções que nos leva diretamente ao protagonismo não somente da atriz principal, mas, sobretudo, ao cerne da história. Aqui adaptada pela novata Polly Mann e por Oren Moverman (“The Beach Boys: Uma História de Sucesso”), a narrativa culmina em mudanças que atingem o casamento da personagem principal, o relacionamento com os filhos e a amizade com Robert (Irrfan Khan, “Inferno”), aspirante a montador profissional de quebra-cabeças que procura por uma parceira de jogo.

Aliás, é justamente quando Agnes e Robert passam a ensaiar a montagem de diferentes quebra-cabeças que a epifania passa a rondar a protagonista, transformando cada peça de sua vida em uma sucessão de questionamentos. Desta forma, é plausível que o casamento com Louie (David Denman, “Logan Lucky: Roubo em Família”) tenha suas cores divididas entre peças harmoniosas e conformistas, pois o niilismo em que Agnes se enquadra não a deixa mais se encaixar com seu dia a dia. Desta forma, não existe mais uma casa com organização, limpeza e alimentação devidamente cronometrados.

Esta é a beleza deste “O Quebra-Cabeça”. A simplicidade de uma protagonista questionadora leva o espectador diretamente ao lado de Agnes, que poderia ser a vizinha, tia ou até mesmo esposa de quem assiste ao longa. Enquanto as partes do novo passatempo dela se encaixam com o passar dos ensaios, as peças de sua vida passam a tomar outro formato, levando-a a novos caminhos.

Mas, apesar da bela premissa deste roteiro, a direção de Marc Turtletaub (produtor de “Loving” e “Meu Nome é Ray”) peca ao apresentar três personagens carismáticos que não possuem conflitos aprofundados, como é o caso de Louie, enquanto este cria tridimensionalidade em tela, levando, muitas vezes, o espectador a compreendê-lo mais do que à própria protagonista; o mesmo, por sua vez, é representado pelas intenções de Robert, criando interesse por mais sobre o personagem, quando isso, na verdade, não acontece.

Portanto, Turtletaub promove uma bela composição estética entremeada por um roteiro repleto de boas premissas, mas que peca ao não conseguir promover mais do que os principais questionamentos da protagonista. Enquanto somos apresentados ao trio de ótimos atores, seus respectivos personagens decaem no segundo ato, culminando em um atrapalhado início do terceiro, cuja mensagem é claramente a epifania de Agnes enquanto esta encontra a peça que faltava para, de fato, concluir seu passatempo: o quebra-cabeça de tomar a frente de seu destino aceitando seus fracassos e dores, sem perder, sobretudo, o talento para encontrar suas próprias formas e padrões.

Tudo aquilo que é visto nos primeiros minutos de “A Profissional”, dirigido por Babak Najafi (“Invasão a Londres”), remete aos filmes B dos anos 1970 conhecidos como blaxploitation. Taraji P. Henson (“Estrelas Além do Tempo”) produz o longa e é a atriz responsável por dar vida à Mary, uma assassina profissional que trabalha para uma família de gângsters de Boston, nos Estados Unidos. Em uma de suas missões, ela precisa eliminar um homem que devia à família e cumpre o seu papel, mas descobre que o alvo era pai do jovem Danny (Jahi Di’Allo Winston, da série “Everything Sucks!”), de quem ela se sente obrigada a cuidar.

O dilema de uma matadora ser a responsável por um pré-adolescente é a força motriz da obra. Como alguém que ganha a vida cometendo assassinatos pode criar outra pessoa que precisará de bons exemplos ao seu redor? E como o seu chefe Benny (Danny Glover, de “Monster Trucks”) e Tom, o filho do chefe (Billy Brown, da série “Lições de um Crime”), devem lidar com essa escolha? É nesse momento que o pano de fundo do filme de gângsters com cenas de tiroteio dá lugar a história das escolhas e decisões de uma mulher negra, solteira e que conseguiu se destacar em seu “trabalho”.

Diversos filmes de ação têm sido protagonizados por mulheres ultimamente. Tivemos exemplos recentes de filmes ótimos como “Atômica”, fracos como “Traffik” e, infelizmente, medianos como este “A Profissional”. E ele não é razoável pela falta de empenho de Henson. A atriz mostra que é capaz de encarar a máfia assim como Tom Cruise enfrenta terroristas em “Missão Impossível: Efeito Fallout” e Dwayne (The Rock) Johnson combate criminosos em “Arranha-Céu”. Ela convence na pele de Mary, seja nas cenas com o carro, seja invadindo uma casa repleta de homens armados até os dentes. Mas uma produção desleixada é capaz apagar uma boa performance.

O começo do filme é uma delícia. Mary está em seu belo apartamento, malhando, se vestindo e selecionando as melhores armas para sua missão. É quase uma viagem para uma sessão do cinema marginal dos anos 1970. A tipografia é estilizada, uma música soul inicia baixo e vai subindo de volume aos poucos, e tons de cores quentes como vermelho, laranja e amarelo dão um toque final no design. Esses elementos todos vêm do blaxploitation, um subgênero do cinema apelativo e de baixo orçamento chamado exploitation, mas protagonizado por atores negros, nos quais eles poderiam ser heróis e debater com policiais, diferente dos demais filmes ou da realidade segregadora das ruas. Acontece que toda essa aura de homenagem sai de cena aos cinco minutos de projeção e dá lugar a um filme morno com derrapadas e acertos pontuais.

A direção de arte fica a cargo de Carl Sprague (“Os Últimos Guardiões”) e Jennifer Engel (“Fragmentado”), que fazem um bom trabalho no apartamento de Mary, desde as cortinas e almofadas roxas, ao tapete colorido e demais elementos, mas parecem ter se dedicado pouco aos outros ambientes. Já no figurino, Deborah Newhall (“Slender Man: Pesadelo Sem Rosto”) perde uma excelente oportunidade de repaginar o visual dos heróis desse subgênero assim como foi com Shaft, do filme de mesmo nome. As roupas dos personagens são comuns e absolutamente apagadas. Jaquetas de couro, camiseta cinza, terno preto, tudo é sem sal e mundano demais para servir como homenagem ou para caracterizar mafiosos com muito dinheiro.

O sentimento que “A Profissional” deixa no fim da sessão é de um entretenimento OK, que melhora se tiver sido acompanhado por um balde de pipoca e refrigerante. O longa cumpre o seu papel de prestar uma homenagem de qualidade, com potencial para se igualar ou superar sua referência, como já fizeram Scorsese, Tarantino ou os irmãos Coen. E, talvez por conta de seu desempenho, infelizmente não sejam produzidas outras obras com um pé no blaxploitation em um futuro tão próximo.

O início das trajetórias de Federico D’Alessandro e Alex Garland (“Aniquilação”) são muito similares até certo ponto. Os dois trabalharam em outras áreas do cinema por anos antes de se arriscarem assumindo a direção, ambos de um filme envolvendo inteligência artificial, e com grande parte do roteiro se passando dentro da casa de um gênio da tecnologia. As semelhanças, infelizmente, param por aí. Enquanto “Ex_Machina: Instinto Artificial”, de Garland, é inteligente e explora interessantes questões filosóficas, “Tau“, de D’Alessandro, é raso e pouco apelativo.

Nos primeiros minutos vemos Julia (Maika Monroe, “Corrente do Mal”), uma jovem que pratica pequenos furtos em baladas, ser sequestrada e aprisionada na cela futurista de um homem misterioso. Daí em diante é queda abaixo. O filme logo se perde ao preencher seu tempo com uma sequência de ação ruim e sem sentido, que introduz dois personagens apenas para imediatamente matá-los. Tudo isso para levar Julia a finalmente conhecer de perto seu sequestrador, Alex (Ed Skrein, “Deadpool”). É apenas nesse momento que também identificamos Tau (voz de Gary Oldman, “O Destino de Uma Nação”), uma inteligência artificial em fase de desenvolvimento, mas que é utilizada apenas como uma mistura de governanta virtual com máquina de matar.

Apesar de Tau ser supostamente uma das mais avançadas inteligência artificial do mundo, ela não possui nenhum conhecimento factual. Cabe a Julia, portanto, ensinar pequenas coisas a ela, enquanto Alex está trabalhando. Dessa maneira, ela tenta humanizar a máquina para que ela ajude-a a escapar. O desenvolvimento pobre da obra torna essas cenas ridículas, com Tau tendo questionamentos ingênuos e sem nenhuma profundidade. Monroe até tenta salvar o filme, mas sua personagem é plana e sem graça. Já Skrein não consegue manter por muito tempo a pose de gênio psicopata, tendo um comportamento incoerente, que serve apenas como atalho para o roteiro.

Em certos momentos, o argumento de Noga Landau (da série “Escola de Magia”) ameaça atracar em temas mais fortes, ao associar a relação de criador e criatura de Tau e Alex, com a problemática relação de Julia com seus pais. Mas isso nunca passa de uma sugestão, e o filme acaba focando nas tentativas de fuga dela, entre outros fatores menos interessantes e muitas vezes já explorados. A catástrofe chega em seu ápice com um final que beira ao gore e não satisfaz o menos exigente dos espectadores.

Antes de dirigir “Tau”, D’Alessandro passou grande parte de sua carreira no departamento de arte dos filmes da Marvel. O que leva a crer que pelo menos na parte visual seu longa iria se destacar. Mas falta frescor e inventividade no design futurista que a obra aspira ter. É o genérico de filmes B de ficção científica. A exceção aqui é a identidade visual do personagem-título, que possui um design elegante e agradável ao olhos. Além da fotografia de Larry King (“O Guarda”), com iluminação bem marcada e cenas contrastadas entre o azul e o laranja.

“Tau” segue à risca a cartilha da grande maioria dos filmes distribuídos pela Netflix: desinteressante, com toques de amadorismo e completamente passável. Seus poucos pontos positivos não valem o desperdício de 90 minutos, que poderiam ser gastos com um conteúdo melhor.

Nem tudo pode estar perdido para uma sequência da franquia clássica de “Os Caça-Fantasmas” com o elenco original. O ator Dan Aykroyd (“Pixels”) apareceu esta semana no programa de TV americano The Big Interview with Dan Rather, e comentou estar com a fé renovada para a produção de um terceiro filme:

“Existe a possibilidade de uma reunião dos três Caça-Fantasmas restantes. Está sendo escrita agora mesmo.”

Sobre se Bill Murray (“Rock em Cabul”) aceitaria participar do projeto, Aykroyd comentou:

“Eu acho que Billy [Murray] virá. A história é tão boa. Mesmo que ele interprete um fantasma.”

Antes do reboot feminino de “Caça-Fantasmas”, de 2016, uma sequência que traria o elenco original para uma nova aventura estava sendo desenvolvida. Até mesmo o roteiro recebeu o sinal verde da Sony para a produção que, entretanto, acabou encontrando dois obstáculos difíceis no caminho: a recusa de Murray em fazer o filme e a morte de um dos atores do grupo original, Harold Ramis (“Correndo Atrás do Diploma”).

Paul Feig, diretor do reboot de 2016 estrelado por mulheres, também queria uma continuação para o seu filme, apesar do insucesso do filme nas bilheterias. Por enquanto, tudo não passa de especulação.

No cinema, a franquia já passou por duas gerações de equipes diferentes. A primeira geração, de 1984, fizeram parte do elenco Murray, Aykroyd, Ramis e Ernie Hudson (“Felicidade por um Fio”). Na segunda formação, participaram Melissa McCarthy (“Crimes em Happytime”), Kristen Wiig (“Mãe!”), Kate McKinnon (“Meu Ex é um Espião”) e Leslie Jones (“Gênios do Crime”).

A Apple fechou um acordo de parceria com o estúdio A24 para a produção de filmes para a gigante tecnológica, segundo a Variety. O acordo vem conforme a Apple passa a investir cada vez mais em fazer os seus próprios filmes e séries, tendo feito acordos semelhantes anteriormente com o diretor Steven Spielberg (“Jogador Nº1”) e as atrizes Reese Witherspoon (da série “Big Little Lies”) e Oprah Winfrey (“Uma Dobra no Tempo”).

O acordo permite à empresa de tecnologia colaborar com um dos estúdios mais respeitados da indústria do cinema atualmente. Criada em 2012, a A24 se destacou no mercado por impulsionar projetos ousados e autorais. O estúdio levou o Oscar de Melhor Filme em 2017, por “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, e também abriga sucessos como “O Quarto de Jack”, “A Bruxa” e “Ex_Machina: Instinto Artificial”.

A Apple não forneceu mais detalhes sobre o acordo, além de que este seria para durar por vários anos e múltiplos filmes. Ainda é incerto se os longas do estúdio serão lançados no cinema ou se irão estrear em alguma plataforma digital. Os termos financeiros da negociação também não foram divulgados.