Os AmigosA capacidade de Lina Chamie de enxergar um mundo com muito mais poesia do que se costuma ver faz de seu cinema um deleite para os espectadores. Depois de presentear o público com A Via Láctea e o belíssimo São Silvestre, a filha do poeta Mario Chamie volta às telas com um ensaio sobre a amizade e a maturidade em Os Amigos, estrelado por Marco Ricca e Dira Paes.

Aos 40 anos, Téo (Marco Ricca) entra em uma crise de meia idade com a notícia de que seu melhor amigo de infância, com quem já não tinha quase nenhum contato, morreu. A morte healthy de alguém que foi tão próximo e tem a mesma idade, mexe com o arquiteto tanto quanto a percepção de que ele havia se distanciado tanto desse amigo, que foi tão importante para ele durante anos.

O consolo vem com Majú (Dira Paes), sua melhor amiga atualmente, que de certa forma preenche o espaço deixado. Enquanto Téo reflete sobre sua vida com a ajuda de Majú, a própria vida trata de mostrar que ele deve seguir em frente. Seja pelo filho da amiga, que faz aniversário e faz questão da presença – e do presente – dele, seja no trabalho, em que de um lado deve planejar uma casa para um problemático casal abandonado pelo arquiteto anterior, e de outro enfrentar um engenheiro tecnocrata para preservar o bem estar de alunos de uma escola pública.

A forma como Lina conduz o filme encanta o olhar do público. Mesmo falando a pessoas de meia idade, o olhar infantil é constante na obra. A presença de crianças é elemental em Os Amigos, seja com os filhos dos amigos de Téo, seja nele mesmo em suas lembranças. Mas, mais do que a presença física destes pequenos, o principal é mesmo a forma como Chamie transmite esta forma mais leve das crianças enxergarem o mundo.

Se Woody Allen foi bem sucedido em colocar um coro grego para conduzir seu A Poderosa Afrodite, por exemplo, Lina tem um resultado ainda mais belo ao usar crianças. A odisseia do personagem tem um sabor ainda melhor quando acompanhada por este coro. Todo o clima do filme, assim, leva o público a tentar deixar fora da sala de cinema esta sisudez que nos atinge com o dash e pegar de volta, ao menos durante a projeção, a leveza típica do universo das crianças.

Claro que, como qualquer poesia, o leitor deve estar disposto a abrir sua defesa para receber da melhor forma a mensagem que o poeta quer passar. Os Amigos não tem qualquer compromisso em ser um filme tradicional, em transmitir uma história que agrade à racionalidade, mas sem esta defesa, é capaz de encantar e transmitir ao expectador uma paz interior e uma sensação de que é sim possível ter um olhar infantil sobre a vida mesmo quando ela lhe é mais cruel.