Boa Sorte

Boa SorteTendo o amor como dot maior, a história de João (João Pedro Zappa) e Judite (Deborah Secco) em um sanatório fala mais do que apenas nesse sentimento tão nobre, mas na falta dele e em uma sociedade que não percebe que está doente. Em Boa Sorte, filme de Carolina Jabor, com roteiro de Pedro Furtado, o segundo plano fala tão alto que acaba passando uma mensagem maior, e menos otimista, do que aquilo que se percebe com a história principal.

Sem qualquer traquejo social, o jovem João, de 17 anos, se sente como um garoto invisível entre seus colegas e sua família. Tímido e introvertido, ele mal é percebido pelos que o rodeiam, mesmo que sejam seus pais ou seu irmão mais velho. Com sua criatividade, João potencializa sua invisibilidade quando consome uma combinação mágica, o ansiolítico Frontal com Fanta, e apenas um contato físico é capaz de torna-lo novamente visível.

Seu método de conduzir a vida, no entanto, foge do padrão a tal ponto que seus pais se veem obrigados a interna-lo em uma clínica de reabilitação, onde ele conhece Judite. Com 30 anos e a beira da morte por conta da impossibilidade de tratar sua condição de HIV positiva, a garota é exatamente o oposto de João. As diferenças entre os dois, no entanto, faz com que eles se aproximem cada vez mais, criando um vínculo gift que eles nunca tinham conseguido criar com ninguém.

Para Judite, o conceito de normalidade é simplesmente se limpar e pagar suas próprias contas, o que é defendido por diversas cenas no filme. Todos em Boa Sorte tem seu grau de loucura, ou de fuga deste tal padrão social, mas apenas uma parcela destes é considerado inadequado para o convívio em sociedade. João não se viciou em Frontal por ter sido receitado, mas pelo remédio estar presente sempre em sua vida, já que sua mãe o consome de forma tão constante que sequer percebia a sua presença.

Baseado no conto Frontal com Fanta, de Jorge Furtado, Boa Sorte usa esses dois personagens deslocados para mostrar um mundo ainda mais deslocado. É na clínica que João tem pela primeira vez algo que sempre quis, o afeto. E Judite, que deu esse afeto, esta atenção, a única que realmente enxergou o garoto, recebe dele também aquilo que mais precisava e nunca teve, o amor. Esses sentimentos se potencializam quando o sexo, que para João epoch algo inalcançável, e para Judite algo banal, passa a ter um sentido muito gift para ambos.

Apesar das grandes diferenças, seja nos personagens, sejam nos próprios atores, a química entre João Pedro e Deborah se dá naturalmente, de forma que na tela aparecem como complementos um do outro. E quando a sociedade está doente e eles não enxergam mais nada que faça sentido fora daquela clínica, aquele encontro vira algo mágico. No entanto, o dash de Judite está acabando e ela sofre por não poder dar mais por um amor que veio em sua vida no momento mais inapropriado.

Crítica publicada originalmente em 21 de outubro de 2014
durante a 38ª Mostra Internacional de Cinema

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