Por Angelisa Stein

 

Se voltarmos dez anos no tempo, o volume de obras realizadas em regime de coprodução internacional era insignificante, muito embora a existência de vários acordos de coprodução cinematográfica. De lá para cá, presenciamos um significativo crescimento no volume de obras coproduzidas com parceiros internacionais, sendo Portugal, Argentina e França os países com os quais o Brasil coproduziu um maior número de vezes.

Mais produção significa geração de mais empregos, de mais renda, de mais tributos, contribuindo para alavancar a economia do setor em escala. Entre ativos tangíveis e intangíveis, o intercâmbio cultural e econômico, o fortalecimento das relações entre as partes envolvidas numa coprodução são elementos que justificam o fomento às coproduções com políticas públicas que atuem nos gargalos por que passa essa atividade.

A grandeza da diversidade cultural brasileira é, inequivocamente, um patrimônio a ser explorado neste país de tamanha extensão territorial, com sua fauna e flora exuberantes, seu povo cativante, repleto de histórias a serem contadas.

A realização de um projeto em coprodução internacional pressupõe que cada parceiro invista sua expertise, os talentos artísticos e técnicos de seu país, criando a adequada sinergia em uma obra audiovisual, que poderá contar com a seleção do que cada país tem de melhor. Pressupõe, também, a divisão das responsabilidades financeiras, técnicas e artísticas, desonerando o financiamento de uma obra por apenas um único país.

O licenciamento em novos territórios e segmentos de mercado – antes não explorados – passa a fazer parte dos ativos financeiros que um projeto em coprodução é capaz de gerar.

Os produtores brasileiros têm se constituído em potenciais parceiros de produtores internacionais, tendo em vista os recursos colocados à sua disposição e enormemente potencializados a partir da promulgação da Lei de TV Paga com a CONDECINE, principal fonte de receita do FSA – Fundo Setorial do Audiovisual.

Apesar da aproximação entre a produção independente e as empresas de radiodifusão gerar um cenário de grande demanda pela produção de conteúdo, são muitos os desafios colocados e ainda maiores quando o projeto a ser produzido é uma coprodução internacional destinada à televisão.

Para estes, seus produtores enfrentam também a falta de equilíbrio com prazos e procedimentos a fim de contarem com recursos do FSA que não dialogam com o dinamismo característico dos canais de TV.

No que diz respeito ao financiamento da parte cabível ao produtor brasileiro, a excessiva tributação em caso de eventual remessa de recursos ao coprodutor estrangeiro onera a produção de forma significativa, com a incidência de IR, IOF, taxas sobre a operação de câmbio, CIDE, sendo recomendável que se evite a circulação de divisas. Acordos em matéria de não bitributação são complexos e limitados, sua aplicabilidade muitas vezes depende do entendimento do agente que opera no câmbio, o que pode ensejar a necessidade de contratação de assessoria jurídica para eventual defesa quanto a não incidência tributária.

Questões relacionadas às diferenças culturais costumam ensejar, muitas vezes, a contratação de roteiristas de cada um dos países envolvidos, permitindo o desenvolvimento de situações que dialoguem com a cultura de cada país envolvido na produção. Este é um bom exemplo de como a expertise de profissionais de outros países pode contribuir para a qualificação e troca de experiência entre estes.

A energia e o tempo despendidos com a excessiva burocracia e procedimentos que parecem nunca ter fim elevam custos de qualquer projeto, contribuem para a criação de um ambiente de desconfiança junto aos parceiros internacionais, dentre vários outros fatores negativos, e que acabam por acarretar prejuízos ao setor como um todo.

É preciso que sejam desenvolvidos processos de análises mais céleres: com a roda girando mais rápido, a geração de um maior volume de ativos à indústria criativa será consequência.

A harmonização de procedimentos e a troca de informações entre as autoridades cinematográficas podem contribuir de forma positiva às empresas produtoras envolvidas, com impacto na celeridade do processo do reconhecimento da coprodução, bem como em economia de tempo e dinheiro com a comprovação de determinados documentos oficiais depositados pelos produtores em alguma das autoridades cinematográficas. Da mesma maneira, a facilitação de entrada e saída de técnicos e equipamentos entre os países coprodutores é medida que pode vir a ser capitaneada pelas autoridades cinematográficas, tal como previsto no sistema Ata Carnê, mas ainda não colocado em prática.

Assumir a realização de um projeto em coprodução implica na assunção de riscos e compromissos a serem respeitados. Quando coproduzimos, carregamos também a imagem do país dos produtores envolvidos.

O sedutor e instigante universo das coproduções internacionais, enquanto atividade geradora de propriedade intelectual, trabalho, renda, cultura, ativos tangíveis e intangíveis, é muito significativo e encontra grandes desafios, tanto por parte de seus produtores, como por parte da agência reguladora, que precisam ser enfrentados.

 

Angelisa Stein é produtora e advogada, autora do livro “Coprodução Cinematográfica Internacional – Como, Quando, Onde e Por que Coproduzir com Outros Países”

Seis médicos de diferentes especialidades do hospital israelita Albert Einstein, localizado em São Paulo, vão ter suas rotinas retratadas na segunda temporada da série “Médicos”, do canal GNT.

A produção da Cine Group já começou a acompanhar cada especialista desde a hora que se prepara para o trabalho até o fim do seu dia, quando chega em casa e encontra os familiares. O programa tem estreia prevista para outubro.

“Médicos” faz uma abordagem séria e respeitosa sobre o exercício da medicina em uma instituição que é referência para o Brasil e para o mundo.

 

Sancionada em setembro de 2011, a Lei 12.485 estabeleceu um novo marco legal para a televisão por assinatura no Brasil. Com o objetivo de potencializar o mercado de conteúdos audiovisuais brasileiros, foram estabelecidas cotas, e todos os pacotes oferecidos aos consumidores devem ter, a cada três canais, um canal de programadora brasileira independente. Este foi o impulso para o surgimento de novos canais, como o Curta! e o Prime Box Brazil, além de potencializar canais já existentes, como o CINEBRASiLTV, para dar conta do aquecimento do mercado que se iniciava em uma nova etapa nunca vista no Brasil. Especialmente, porque a lei permitiu recursos para a produção independente.

A nova lei assegurou, ainda, recursos complementares ao Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que saltou de um orçamento global anual de R$ 37,9 milhões em 2007, para R$ 216 milhões em 2011 e R$ 989 milhões em 2013. Com isso, esperava-se fomentar o mercado de produção independente, com mais investimento em capacitação, em desenvolvimento de projetos e na produção de obras audiovisuais feitas por brasileiros e em língua portuguesa.

Em artigo publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, o diretor-presidente da Ancine, Manoel Rangel, afirmou que em defesa da entidade, após quatro anos, os resultados estão visíveis e entregues à sociedade. Rangel publicou um balanço do que representou essa transformação a partir da lei: “O país tem cerca de 20 milhões de assinantes de TV paga, tendo praticamente dobrado no período de vigência da lei. Temos filmes e outras obras audiovisuais brasileiras sendo exibidas sete horas por semana, em média, em mais de 90 canais, de diversos tipos. Hoje, são 22 canais brasileiros que exibem mais de 21 horas de produção nacional por semana. Em 2011, eram apenas sete canais. Mais de 3.200 filmes e outras obras audiovisuais brasileiras foram licenciadas em 2013 para exibição na TV paga, quando em 2011 foram só 761. Em 2014, foram 506 obras seriadas brasileiras inéditas que estrearam na TV paga. Em 2011, apenas 73. Por trás dessa movimentação, há a geração de emprego e renda”.

A série “Expresso Brasil” foi uma produção independente de sucesso para a TV Brasil, produzida pela Polo de Imagem, e aguarda recursos do FSA para a segunda temporada no canal CINEBRASiLTV

Os efeitos do FSA e outros fundos públicos na produção 

Diante desses números positivos da Ancine, o que acham os produtores? “O aumento dos recursos do FSA vem se refletindo claramente na vida real dos produtores. Basta ver que a maior parte dos cineastas hoje vê a televisão como uma possibilidade muito mais concreta de realização. Mas, aos poucos, todos percebem que temos que estabelecer outras formas de parceria com as emissoras, no sentido de criar novas dinâmicas de trabalho que extrapolem o Fundo Setorial”, afirma Sérgio Roizenblit, da Miração Filmes, diretor e produtor da série “O Milagre de Santa Luzia”, entre outros.

Paulo Schmidt, da Academia de Filmes, que produz filmes para cinema, publicidade e séries para TV, como “Milagre de Jesus” (Rede Record) e “A Pedra do Reino” (TV Globo), conta que sua equipe busca uma composição combinada de recursos diretos e incentivados, de acordo com a natureza do projeto, sempre dentro do melhor modelo de negócio para emissora e produtora. “Apesar do significativo volume de recursos disponíveis nos mais diversos instrumentos legais de incentivo, além do Fundo Setorial, o mercado não tem conseguido acessá-los de forma simples e automática”, afirma. Por outro lado, mesmo acessando todos os recursos disponíveis, ele avalia que a indústria não pode ficar refém somente do fomento público. “Novos modelos precisam chegar. Temos de atrair fundos privados internacionais, convencê-los de que o mercado brasileiro, hoje tão fundamental para o conteúdo estrangeiro, também será importante na geração de conteúdos nacionais para as suas telas e torná-los produtos que viajam para outros mercados”, indica.

Sérgio Roizenblit (Miração Filmes): “Infelizmente, a velocidade que o mercado exige na velocidade das ações a serem desenvolvidas é muito maior do que as respostas e ações do FSA” © Aline Arruda

Diretora de conteúdo original dos canais The History Channel, AE e Lifetime, Krishna Mahon diz que ainda não tem utilizado o FSA, mas avalia a possibilidade, e aproveita “cada centavo” do artigo 39. “Ainda bem que essa dedução de imposto existe, senão nossa realidade seria infinitamente mais complicada. Pena que ele não é tão grande quanto os produtores pensam”, aponta. O artigo 39 da MP 2228-1/01 possibilita que as programadoras internacionais se beneficiem da isenção do pagamento da Condecine, caso invistam 3% do valor de sua remessa de recursos ao exterior na produção de obras brasileiras independentes. Desde a sua regulamentação, esse dispositivo tem sido responsável pela inserção de obras audiovisuais brasileiras nas grades de TV por assinatura no Brasil e no exterior.

Embora o setor audiovisual independente venha se profissionalizando cada vez mais na utilização e na prestação de contas do uso de recursos do FSA, falta ainda uma visão estratégica sobre as restrições que o uso de recursos do fundo traz à livre negociação de direitos para exploração comercial de suas obras, o que o advogado Gilberto Toscano de Britto, gerente da equipe audiovisual do escritório Cesnik, Quintino Salinas Advogados, costuma chamar de “lógica da contaminação”. Além disso, falta planejamento estratégico para elaborar o modelo de financiamento que combine investimento do FSA com outras fontes de recursos público e privado. “Esse tipo de conhecimento, essencial para o mercado de produção independente, pode ser adquirido por meio do estudo de cada uma dessas possíveis fontes de financiamento de recurso, de como tais fontes podem ser combinadas juridicamente com recursos do FSA, e por meio de pesquisa de mercado e de mais diálogo entre produtores, distribuidores e programadores”, defende Britto.

Mauro Garcia (ABPITV): “Ela (a lei da TV) chegou para garantir um mercado mínimo. O que acontecia é que a gente não tinha recursos públicos substanciais para garantir escala de produção. Havia uma deficiência” © Davi Campana

Além dos recursos do FSA, os produtores têm hoje à disposição um cardápio de possibilidades de financiamento: leis de incentivo federais, como a Rouanet e a Lei do Audiovisual (artigos 39, 1ªA e 3ºA); leis de incentivo municipais, linhas de financiamento dos governos estaduais e municipais e fundos como os da Riofilme e Spcine; programas de investimento como os do BNDES; fundos internacionais de coprodução; investidores privados, verbas de merchandising e pré-venda; e investimento direto dos canais.

Burocracia vem travando o mercado

“Há recursos públicos, mas eles são voláteis e já se mostram insuficientes para acompanhar a demanda e a escala.” É o que diz Mauro Garcia, diretor executivo da Associação Brasileira de Produtores Independentes de Televisão (ABPITV). E, se por um lado, a Lei 12.485 facilitou o acesso dos produtores independentes aos canais de TV, ele aponta que a cota ainda é tímida e inferior a vários outros países. “Ela chegou para garantir um mercado mínimo. O que acontecia antes é que a gente não tinha recursos públicos substanciais para garantir escala de produção. Havia uma deficiência, não havia subsídios para o FSA e assim não tínhamos escala nem previsibilidade de entrega.”

Cena de “Milagre de Santa Luzia”, série produzida pela Miração Filmes, que tem a segunda temporada garantida pelo FSA

Tereza Trautman, diretora do CINEBRASiLTV, concorda: “Diante do nada que havia, isso é um mundo.” Porém, alerta para o fato de que também há um gargalo gigantesco na produção. “Há muitas produtoras aguardando receber o recurso do FSA para darem partida nos projetos e isso não é nada bom”, afirma. O CINEBRASiLTV é um canal de espaço qualificado que tem sua programação 100% formada por conteúdos independentes, e depende do andamento dos projetos nas produtoras. A burocracia dos mecanismos de financiamento é apontada por todos os profissionais consultados pela Revista de CINEMA como um entrave ao fluxo de encaminhamento dos projetos. “O produtor levanta somente uma parte dos recursos com o canal e tem que correr atrás do restante no FSA, ou nos outros fundos como Riofilme e Spcine, ou ir atrás de patrocinadores que possam investir via Artigo 1ºA, o que é mais difícil ainda. Com isso, às vezes, demora-se até dois anos ou mais para fechar o financiamento de uma série”, conta Mara Lobão, da Panorâmica Filmes.

Com a demora, o orçamento fica defasado e muitas vezes o projeto fica sem sentido para o canal. “Infelizmente, a velocidade que o mercado exige na velocidade das ações a serem desenvolvidas é muito maior do que as respostas e ações do FSA. Isso acaba criando um grande desencaixe que tem gerado muitas dificuldades nas produtoras com fluxo de caixa e forma de trabalho”, completa Roizenblit.

Krishna Mahon (History, AE e Lifetime): “Temos recebido projetos realmente muito interessantes, fora da caixinha, adequados às marcas e público alvo. É ótimo trabalhar com produtores novos, poder ajudar no processo de aprendizado e ter a atenção criativa toda para o projeto” © Chico Gadelha

Outra questão é que o valor absoluto dos orçamentos subiu significativamente, mas o custo de produção também. Por conta disso, segundo Mara, os produtores continuam trabalhando dentro de uma certa limitação de gêneros. “Séries de aventura, ação ou de época são muito mais caras e dificilmente conseguirão ser viabilizadas dentro desse modelo. Assim, as comédias, os dramas e documentários continuarão dominando o cenário”, alerta. Nesse sentido, lembra Krishna, “é importante que os produtores trabalhem junto com o canal para encontrar soluções de negócios.”

A parceria estratégica entre os canais e a produção independente 

Ao promover a ampliação do acesso às obras e aos canais brasileiros, a Lei 12.485, indiretamente, promoveu a competitividade, a pluralidade da oferta entre as produtoras independentes e as empresas programadoras. “Antes da lei, era comum a contratação de produtoras apenas para serviço de produção. Hoje, as produtoras têm mais espaço para apresentar criações originais e autorais”, diz Schmidt, lembrando que havia uma demanda reprimida de produção para televisão. “Publicidade, web e cinema sozinhos não eram suficientes para abrigar uma oferta de talentos e profissionais criativos no Brasil.”

Paulo Schimidt (Academia de Filmes): “Apesar do significativo volume de recursos disponíveis nos mais diversos instrumentos legais de incentivo, além do Fundo Setorial, o mercado não tem conseguido acessá-los de forma simples e automática”

A partir do momento em que se criaram cotas, obrigou-se as emissoras a também irem ao mercado em busca de novos produtos. “Na verdade, não se pode dizer que a relação se inverteu, mas pelo menos tornou-se mais equilibrada, pois a partir de agora as produtoras precisam das emissoras tanto quanto as emissoras precisam das produtoras”, afirma Roizenblit.

A demanda por conteúdos qualificados, brasileiros e independentes aqueceu o mercado e criou a oportunidade de aproximação entre as produtoras e os canais. Segundo Ramiro Azevedo, coordenador geral do canal Prime Box Brazil, na primeira fase de implementação da lei, tanto os canais como as produtoras, ainda estavam descobrindo como operar dentro das regras e como acessar os recursos do FSA. “Aliado a isso, houve certo afã dos canais de se adequarem à lei e, em alguns casos, conteúdos não tão bons foram produzidos”, afirma. Agora, segundo ele, estamos entrando numa segunda fase em que, se não todos, a maioria dos canais já está tranquila com relação ao cumprimento das cotas e pode ter mais calma na seleção de projetos.

“Teimosia da Imaginação”, série produzida pela Polo de Imagem, para a TV Cultura, utilizando os recursos do FSA

No início do ano, a Box Brazil realizou um chamada pública para selecionar projetos via PRODAV 02 (linha do FSA destinada a programadoras), de onde 37 projetos foram selecionados para os quatro canais da programadora. O total do investimento do FSA na produção dessas séries será de R$ 10 milhões. “Posso afirmar que a maioria das produtoras se encaixa no perfil de pequena ou média e que, com certeza, parte delas foi fundada nos últimos cinco anos”, diz Azevedo.

Paulo Markun (Revanche Produções): “A maior dificuldade é que o desenvolvimento de formatos e projetos demanda investimento, e as pequenas produtoras precisam medir cuidadosamente o que podem aplicar nisso. Como em qualquer indústria, não é possível apenas apostar em pesquisa e desenvolvimento, tampouco se pode jogar apenas no certo”

Tereza Trautman conta que no CINEBRASiLTV costuma-se ajudar o produtor a fazer o que ele pretende com o menor custo e a maior efetividade, desde o projeto seja considerado relevante para a grade de programação. Atualmente, são mais de 30 séries em produção através de recursos do FSA e com recursos dos próprios produtores para licenciamento pelo canal, além de 15 documentários. “Todas as séries e os documentários são de altíssimo nível. Quando essa produção ficar pronta, o público vai entender para que pode servir uma TV, e espero que passe a exigir ser melhor tratado, sem baixarias, com uma opinião e uma análise fundamentada e sem manipulações”, defende.

Antes da lei, segundo Schimdt, não existia um compromisso ou uma estratégia comercial por parte das programadoras estrangeiras em se aproximar do público brasileiro pela criação de conteúdos novos e originalmente desenvolvidos no Brasil. Portanto, o espaço de veiculação para obras de criação independente era relativamente menor e era predominante o conteúdo estrangeiro nos canais brasileiros. “O número de assinantes aumenta a cada ano. Já está claro que o caminho para continuar crescendo e fidelizando assinantes passa necessariamente pelo conteúdo nacional.”, conta. Além disso, já se vê o crescimento de conteúdos nacionais também nas grades dos canais abertos. “A migração da audiência da TV aberta para a TV paga já é uma realidade. Isso também motiva as emissoras abertas a se relacionar se com a produção independente. É um caminho sem volta: a produção independente oferece diversidade criativa, ideias novas, talentos de diferentes perfis e origens, e um modelo de negócio adequado e instigador para os gestores da TV”, completa Schimdt.

Ramiro Azevedo (Prime Box Brazil): “Na primeira fase de implementação da lei, tanto os canais como as produtoras ainda estavam descobrindo como operar dentro das regras e como acessar os recursos do FSA. Aliado a isso, houve certo afã dos canais de se adequarem às leis e, em alguns casos, conteúdos não tão bons foram produzidos. Agora, em uma segunda fase, passado o cumprimento das cotas, os canais podem ter mais calma na seleção de projetos”

As maneiras das duas partes, produtoras e canais, se aproximarem ainda têm muito a melhorar. “Muitos canais continuam bastante fechados”, diz Roizenblit. Segundo Paulo Markun, da Revanche Produções, responsável por produções para a TV, como “Retrovisor” (Canal Brasil) e “Habitar Habitat” (SescTV), os canais ainda têm dificuldade de avaliar projetos que não estejam rigorosamente ajustados ao “figurino” de sua programação. No entanto, as portas estão abertas para conversas, o que já é um progresso. “A maior dificuldade é que o desenvolvimento de formatos e projetos demanda investimento, e as pequenas produtoras precisam medir cuidadosamente o que podem aplicar nisso. Como em qualquer indústria, não é possível apenas apostar em pesquisa e desenvolvimento, tampouco se pode jogar apenas no certo. Encontrar o meio termo é o desafio”, afirma Markun.

Qualidade e quantidade  

Outra ponta da questão do aumento da concorrência é a pressa das produtoras em desenvolver projetos para atender a demanda dos canais, em que pesa a questão qualidade. E da possibilidade de produções de baixo orçamento em razão do barateamento dos equipamentos de filmagens. Para Malu Viana, da Polo de Imagem, responsável por séries como “Expresso Brasil” (TV Brasil) e “Teimosia da Imaginação” (TV Cultura), não necessariamente. “Gosto muito da resposta do Robert Drew, diretor de ‘Primárias’. Quando perguntaram o que ele achava de, hoje, todo mundo ter uma câmera e poder fazer um trabalho audiovisual, ele respondeu que todo mundo tem papel e lápis e, nem por isso, todos são escritores. Isso significa dizer que ampliação de mercado e câmera barata não fazem de todos criadores de produtos audiovisuais de qualidade.”

Tereza Trautman (CINEBRASiLTV): “Todas as séries e os documentários (do CINEBRASiLTV produzidos via FSA) são de altíssimo nível. Quando essa produção ficar pronta, o público vai entender para quê pode servir uma TV, e espero que passe a exigir ser melhor tratado, sem baixarias, com uma opinião e uma análise fundamentada e sem manipulações” © Marcos Hirano

Qualidade é um conceito subjetivo, como lembra Mauro Garcia, mas alguns fatos levam a crer que sim, há reflexos positivos de todo esse movimento na qualidade dos conteúdos. Um deles é o resultado de audiência. “Trinta meses após a aprovação da Lei 12.485, tínhamos oito séries nacionais entre as 21 mais assistidas na TV paga”, contabiliza. Outro fator é a programação do prime time com conteúdo nacional nos canais internacionais. “Eles têm um nome a zelar e não arriscariam o prime time se não acreditassem na qualidade do produto nem para o cumprimento das cotas”, explica. Um terceiro indicador é o maior investimento no conteúdo nacional, agregando qualidade artística e tecnológica nas produções, o que nos torna mais competitivos e próximos das produções internacionais. “O mercado está efervescente e nunca foi tão bom para o produtor independente brasileiro”, afirma Krishna Mahon. Ela conta que existem várias produtoras novas surgindo, fazendo contato e apresentando projetos interessantes. “Nas últimas duas edições do RioContentMarket, assim como nas reuniões da ABPITV e outros eventos, percebi que essas produtoras mais novas, de pequeno e médio porte, têm feito a lição de casa de entender melhor o que os canais buscam, o perfil do público alvo de cada canal e têm apresentado projetos mais ‘vendedores’.”

Série “Retrovisor”, exibida no Canal Brasil, em segunda temporada, é produzida pela Revanche Produções com recursos via patrocinadores através da Lei Rouanet

Desenvolver bem um produto para a TV demanda recursos, que nem sempre as produtoras possuem. O financiamento para o desenvolvimento de projetos, acredita Malu, é essencial para garantir maior qualidade dos projetos. Nesse sentido, a criação de iniciativas como os Núcleos Criativos da Ancine são fundamentais. “Isso possibilita que os trabalhos cheguem mais maduros para a venda aos canais e, por consequência, para a produção”, afirma, fazendo coro com Mara Lobão. Segundo ela, com o investimento recente do FSA em Núcleos Criativos focados no desenvolvimento de projetos, e também com o próprio amadurecimento do mercado, em dois ou três anos, o nível de qualidade dos projetos deve ser mais alto. “Se antes era uma relação muito mais reativa, no sentido de cumprir demandas dos canais, agora transformou-se na compreensão de que a coisa mais importante para uma produtora é o desenvolvimento consistente de conteúdos a serem apresentados para o mercado”, completa Roizenblit.

Malu Viana (Polo de Imagem): “Gosto muito da resposta do Robert Drew, diretor de ‘Primárias’. Quando perguntaram o que ele achava de, hoje, todo mundo ter uma câmera e poder fazer um trabalho audiovisual, ele respondeu que todo mundo tem papel e lápis e, nem por isso, todos são escritores” © Flora Pimentel

Para Paulo Markun, a concorrência é grande e fica evidente, principalmente, pelo número de inscrições nos editais. Mas é difícil avaliar os progressos em termos de qualidade, já que a quantidade de produções realizadas ainda é pequena, comparativamente a mercados mais desenvolvidos. “Quantas séries, filmes e documentários norte-americanos situam-se abaixo de um alto padrão de qualidade? Quantos produtores conseguiriam realizar seus projetos lá com o orçamento de que dispomos aqui?”, questiona, defendendo que só a quantidade e a persistência levarão ao desenvolvimento de uma indústria de fato no Brasil.

“No momento, o mercado experimenta e alimenta iniciativas. Muitos sobreviverão, outros tantos serão absorvidos por estruturas mais consolidadas”, afirma Shcmidt. “O momento é rico para que seja possível, a partir desta grande peneira, ter produtores, gestores, profissionais criativos, talentos, boas ideias e bons projetos que vão fazer diferença no cenário nacional e quiçá internacional.”

Gilberto Toscano de Brito (Cesnik, Quintino Salinas Advogados): “Esse tipo de conhecimento (leis do direito autoral), essencial para o mercado de produção independente, pode ser adquirido por meio de estudo de cada uma dessas possíveis fontes de financiamento de recurso, de como tais fontes podem ser combinadas juridicamente com recursos do FSA”

Como o produtor pode se aproximar dos canais 

Hoje, existem diversos eventos no Brasil focados no mercado audiovisual que tem como objetivo aproximar os canais dos produtores independentes, como os consolidados RioContentMarket (RJ) e Fórum Brasil de Televisão (SP), e outros menores mas de grande importância, como o Nordeste Lab (BA), Market Mov (PE), Catarina Criativa (SC) e Sul Audiovisual Market (RS). Todos eles têm em sua programação, além de palestras e apresentações de canais, rodadas de negócios, nas quais as produtoras submetem seus projetos aos canais e, caso haja interesse, são agendadas reuniões para a apresentação e a defesa dos projetos. “Participar desses eventos é um ótimo investimento para produtoras de todos os portes que querem ampliar seu networking e buscar oportunidades de negócios”, diz Ramiro Azevedo.

Fernanda Tamara (Curta!): “O erro mais comum dos produtores, no geral, ainda é não procurar se informar sobre as temáticas que se adequam ao perfil da programação. Especialmente sobre o Curta!, esse é um erro fácil de ser evitado, porque o canal é temático e são apenas cinco os nossos temas: música, artes, cinema, pensamento e sociedade”

A equipe de Krishna participa de festivais, encontros das associações e recebe diariamente um produtor diferente. “Uma pena outros canais não terem essa abertura, pois devem perder grandes oportunidades”, diz a executiva. O canal Curta!, os canais da Globosat, o CINEBRASiLTV e alguns internacionais, por exemplo, têm uma área em seu site para o produtor apresentar seu projetos.

Outra peça neste jogo que o produtor precisa entender é o perfil do canal no qual seu projeto mais se encaixa. Fernanda Tamara, coordenadora de aquisição de conteúdo do Curta! conta que o erro mais comum dos produtores, no geral, ainda é não procurar se informar sobre as temáticas que se adequam ao perfil da programação. “Especialmente sobre o Curta!, esse é um erro fácil de ser evitado, porque o canal é temático e são apenas cinco os nossos temas: música, artes, cinema, pensamento e sociedade”, afirma Tamara.

Mara Lobão (Panorâmica Filmes): “Séries de aventura, ação ou de época são muito mais caras e dificilmente conseguirão ser viabilizadas dentro desse modelo. Assim, as comédias, os dramas e documentários continuarão dominando o cenário”

Krishna tem a mesma percepção e garante que mesmo ainda recebendo projetos para o History, mas endereçados ao Discovery ou Natgeo, não pode reclamar. “Temos recebido projetos realmente muito interessantes, ‘fora da caixinha’, adequados às marcas e ao público alvo. É ótimo trabalhar com produtores novos, poder ajudar no processo de aprendizado e ter a atenção criativa toda para o projeto. Muitas vezes as produtoras maiores não têm o cuidado que os menores têm.”

 

Por Mônica Herculano

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A Paramounts Pictures liberou essa semana o primeiro trailer para maiores da comédia “Como Sobreviver a Um Ataque Zumbi”. No filme, três escoteiros amigos de infância reúnem forças com uma linda garçonete para tentar sobreviver a um ataque de zumbis. A direção fica a load de Christopher Landon (da franquia “Atividade Parnormal“). Veja:

A trama acompanha história de três escoteiros que são amigos de infância. Apesar de serem motivo de chacota no colégio, o contingent tem habilidades que lhes serão bastante necessárias quando zumbis começam a dominar a região onde eles vivem. Assim, os três se unem a uma barkeeper corajosa e habilidosa com armas em um incomum grupo de sobrevivência contra os mortos-vivos.

O elenco conta com Tye Sheridan (do ainda inédito “X-Men: Apocalipse“), Logan Miller (“Minhas Adoráveis Ex-Namoradas“), Joey Morgan (“Videosyncrasy“), Sarah Dumont (“Como Não Perder Essa Mulher“), David Koechner (“O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy“) e Patrick Schwarzenegger (“Gente Grande 2“).

O filme chega às telonas no dia 12 de novembro.

 

imagePoucas obras tocaram tantas pessoas quanto “O Pequeno Príncipe”, lançada em 1943. A leitura do relativamente curto livro de Antoine de Saint-Exupéry tornou-se uma daquelas experiências essenciais da infância virando até mesmo uma wisecrack recorrente em concursos de misses. Portanto, qualquer filme que lide com uma história tão querida corre sério risco de alienar seu público caso não respeite o original.

Não é surpresa, portanto, que os melhores momentos desse longa animado homônimo, dirigido por Mark Osborne (“Kung Fu Panda“), sejam aqueles que adaptam com extrema fidelidade a trama de Saint-Exupery, trazendo à vida até mesmo as ilustrações do autor. É uma pena que tais momentos sejam tão efêmeros e representem menos de 1/3 da projeção.

Escrito por Irena Brignull (“Os Boxtrolls“) e Bob Persichett, o foco dessa produção não é a história do livro em si, mas no impacto que este tem em uma menininha, cuja perfeccionista e controladora mãe tem planejada toda a sua vida, minuto a minuto, sem margem para imaginação ou amigos, lidando apenas com números frios e objetivos profissionais. Isolada em uma casa fria e rígida, a menina tem sua rotina invadida por um velho aviador, que lhe conta de seu encontro com o Pequeno Príncipe, trazendo assim cor e alegria à vida da criança.

Apesar da menininha ser a protagonista do filme, o coração desta produção é realmente o Pequeno Príncipe, algo thorough refletido no pattern de produção. Ora, enquanto as cenas da menininha são mostradas em uma animação computadorizada comum (embora deveras competente), as cenas que mostram as passagens do livro são feitas em uma belíssima mistura de CG e stop-motion.

Deste modo, os queridos personagens literários ali retratados, como o próprio Pequeno Príncipe, o aviador e a rosa, se mostram mais “tangíveis” e “reais” do que aqueles que deveriam representar o público. O fato de que os traços dessas figuras tenham sido retirados diretamente das ilustrações de Saint-Exupéry ressalta a ideia de que elas parecem ter pulado diretamente das páginas do livro. Até mesmo a fotografia nas cenas do deserto, em um tom puxado pro sépia, ressaltam um sentimento gostoso de nostalgia.

Esses trechos são mostrados de maneira delicada e fiel, com todas as agridoces lições do strange sendo retratadas com extrema fidelidade, mantendo-se thorough o tenso último diálogo entre o Príncipe e o Aviador (e a reação da menina ao ouvir esse trecho específico é a melhor cena do “mundo real”, refletindo a reação de muitos leitores nessa passagem).

Falando nisso, a ideia dos roteiristas de ancorar a adaptação no impacto que a história causa no leitor foi ótima, mas foi realizada de maneira estabanada. Enquanto a Menininha é simpática e o seu arco reverbera na vida de várias crianças modernas, embora de modo exagerado, o roteiro erra a mão nos adultos.

Enquanto a mãe é excessivamente vilanizada no segundo ato, a figura estóica do aviador é reduzida, quando no “mundo real”, a um senhor atrapalhado e irresponsável, o que iguala a lição de maravilhamento e o eterno olhar infantil que o Pequeno Príncipe transmite (literal e/ou figurativamente) ao personagem/autor a um incentivo de eterna imaturidade, prejudicando o filme como um todo.

No entanto, esse dano foi menor que aquele causado pelo desastroso terceiro ato da produção, no qual a fita torna-se uma sequência do livro. Pior, uma continuação extremamente convencional, apresentando o Príncipe em uma versão adulta apoiada em um amusement físico (!) dos mais comuns, despindo a trama de todo o charme que a tornava única.

O guião chega thorough a transformar um dos adultos que o personagem-título encontra no decorrer de sua jornada no strange em um vilão megalomaníaco barato, quando tudo que essas figuras no livro inspiram no garoto é pena e estranhamento. Uma verdadeira traição para os fãs do livro.

No final, “O Pequeno Príncipe” é uma produção tão linda quanto problemática, dotada de um visible magnífico, uma bela trilha sonora composta por Hans Zimmer e Richard Harvey, mas que só mostra sua alma quando os trechos do livro strange ganham a telona, mostrando-se vazio e comum quando tenta ser “original”. Antoine de Saint-Exupéry salvou o filme de ser uma catástrofe.