A vida de Elis Regina é contada nesta cinebiografia em ritmo energético e pulsante. A trendsetter cultural que sinalizou a mudança de estilos de Bossa Nova para MPB, a “pimentinha” ardente (brilhantemente interpretada por Andréia Horta), que viveu uma vida turbulenta. Ao mesmo tempo em que se chocava com a Ditadura Militar no Brasil, ela lutou com seus próprios demônios pessoais. “Elis”, o filme, está imbuído da alma da cantora e do país que ela amava.

Vencedor de três Kikitos no 44º Festival de Gramado – melhor filme pelo júri popular, melhor atriz para Andréia Horta e melhor montagem para Tiago Feliciano –, o longa traz algumas das mais relevantes passagens da carreira e vida pessoal da gaúcha como a chegada ao Rio de Janeiro no dia do Golpe de 1964; o primeiro contato com o boa praça Luiz Carlos Miéle e o charmoso Ronaldo Bôscoli, seu primeiro marido; o rápido sucesso e amadurecimento musical; o terror imposto pelos militares; a parceria amorosa e artística com o pianista César Camargo Mariano, que rendeu espetáculos históricos como “Falso Brilhante”; a maternidade e o fim da vida.

No elenco, estão Lucio Mauro Filho, como Miéle; Caco Ciocler, como César Camargo Mariano; Julio Andrade, como o dzi croquette Lennie Dale; Gustavo Machado, como Ronaldo Bôscoli, e Zécarlos Machado, como Romeu, pai de Elis. Em participações especiais, destacam-se Rodrigo Pandolfo, como Nelson Motta; Isabel Wilker, como Nara Leão; Icaro Silva, como Jair Rodrigues, e Natallia Rodrigues. O filme foi rodado no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Paris, entre agosto e setembro de 2015, e chega aos cinemas em 24 de novembro. A produção é da Bravura Cinematográfica, distribuição da Downtown Filmes e Paris Filmes e coprodução da Globo Filmes e Academia de Filmes.

Leia aqui crítica do filme.

Fazer cinebiografia não é fácil. Envolve centenas de desafios, desde os mais técnicos, como reconstituição de época, até os mais intangíveis, como a presença do cinebiografado no imaginário de cada um. Quando o personagem escolhido é de grande apelo popular, e viveu numa época relativamente recente, tais desafios parece que se potencializam: todo mundo quer dar palpite na obra pronta, todos se transformam em críticos, todos reclamam de uma coisa ou outra que o filme teve ou que deixou de ter, sem parar para pensar que cinema, acima de tudo, é síntese; é simplificação.

Assim, a cinebiografia “Elis” torna-se ainda mais merecedora de todos os elogios que virão: ela supera seus desafios intrínsecos com louvor e se caracteriza firmemente como uma preciosidade. Roteiro, a fotografia de Adrian Tejido, dramaturgia, ritmo, trilha sonora, reconstituição de época e – principalmente – a escolha da atriz Andreia Horta para o papel título, tudo funciona bem no filme de Hugo Prata, estreante em longas.

A opção é pelo tradicional. O roteiro – escrito a dez mãos por Luiz Bolognesi, Nelson Motta, Patrícia Andrade, Vera Egito e Hugo Prata – opta pela narrativa clássica e cronológica tão cara às convencionais cinebiografias norte-americanas que tanto já nos acostumamos a ver. De “Música e Lágrimas” a “À Noite Sonhamos”; de “Ray” a “Jersey Boys”, isso só para ficar no universo dos cinebiografados musicais.

Trata-se de um estilo que pode desagradar os apreciadores de um cinema mais ousado, mas que certamente fala mais de perto ao grande público. Esta falta de ousadia não chega a se configurar em problema para “Elis”, que acaba se alicerçando firmemente na figura da protagonista, que esbanja força e vitalidade suficientes para segurar todo o filme. Com direito a gostinho de quero mais, mesmo porque o imenso repertório que a cantora legou seria suficiente para uma baciada de longas.

Ainda que apoiando-se na segurança da narrativa episódica, “Elis” tem, no mínimo, dois grandes méritos. O primeiro e o mais evidente é a maneira como Andreia Horta (de “Muita Calma nesta Hora” 1 e 2) interpretou a personagem título. Aliás, “interpretou” talvez não seja a palavra mais apropriada: Elis “reencarnou” em Andreia. Gestos, risos, postura de corpo e até o timbre de voz da cantora ao falar são reproduzidos na tela com um realismo impressionante que chega a estarrecer quem teve a sorte de viver nos anos em que a “Pimentinha” era presença constante na mídia. O segundo mérito é a força de um roteiro que conseguiu escapar de um erro dos mais recorrentes de muitas cinebiografias: o de endeusar o cinebiografado, de colocá-lo num pedestal quase religioso, descolando-o das realidades de sua época e vesti-lo com um manto sagrado. Aqui, vemos uma Elis humana, que vive, sonha e sofre com suas hesitações, assim como todos nós. Uma pessoa comum com uma voz incomum que é ao mesmo tempo sua bênção e sua maldição.

A maneira como o roteiro trata a questão das pressões que Elis sofreu dos militares, como ela lidou com isso, seus medos, as retaliações, e o consequente relacionamento com o cartunista Henfil, desembocando no clássico “O Bêbado e o Equilibrista”, é o ponto alto do filme. Tudo muito humano, crível, sem simplificações maniqueístas e de uma dignidade ímpar.

E um destaque final digno de aplausos. “Elis” consegue ser um filme ao mesmo tempo histórico, emotivo e importante, sem recorrer a duas das mais aborrecidas ferramentas cinematográficas aos quais muitas vezes as cinebiografias se rendem: a insuportável narração em off – vírus mortal que tem se alastrado epidemicamente pelo cinema brasileiro –, e os infantis letreiros que fazem questão de escrever, na tela, o ano e o local onde as coisas acontecem. Que alívio!

Hugo Prata faz aqui uma estreia de ouro. O trocadilho é péssimo, mas o filme é ótimo.

Assista ao trailer do filme aqui.

 

Elis
Brasil, 115 min., 2015
Direção: Hugo Prata
Distribuição: Downtown Filmes
Estreia: 24 de novembro

 

Por Celso Sabadin

“A Costureira e o Cangaceiro”, novo filme de Breno Silveira (“Dois Filhos de Francisco”) – na foto, de camiseta rosa –, que acaba de ser rodado no município de Piranhas, em Alagoas, e em Pernambuco, no Recife antigo e em Olinda, é baseado no livro homônimo da recifense Frances de Pontes Peebles.

A história se passa nos anos 1930 e fala sobre duas irmãs que moram na casa de uma tia, a melhor costureira da região. As duas irmãs, com suas personalidades, dão o tom ao filme.

A atriz Nanda Costa (foto) é Luzia, uma menina corajosa que se envergonha de uma deficiência física; Emília (Marjorie Estiano), não gosta do lugar onde mora e sonha em ser uma dama da capital. A ação gira em torno do sequestro de Luzia por um bando de cangaceiros.

No elenco do filme, ainda estão Leticia Colin, Julio Machado, Rômulo Estrella e Fabio Lago. Uma coprodução da Conspiração e Globo Filmes, “A Costureira e o Cangaceiro” deve estrear nos cinemas em 2017, com distribuição da H2O Films.

Com estreia global nesta sexta-feira, 25 de novembro, a série 3%, produzida pela Boutique Filmes, é a primeira produção original da Netflix no Brasil. A produção executiva é de Tiago Mello, direção de fotografia de Eduardo Piagge e direção de arte de Valdy Lopes Junior.

A série, em oito episódios, tem direção geral de César Charlone, que divide a direção dos episódios com Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema. O roteiro e criação são de Pedro Aguilera. O músico André Mehmari assina a música da série.

O elenco é composto por João Miguel, Bianca Comparato, Michel Gomes, Rafael Lozano, Rodolfo Valente, Vaneza Oliveira, Viviane Porto, Zezé Motta e Mel Fronckowiak. A história de 3% se passa em um mundo onde a maioria da população vive em situação decadente até ter a oportunidade de participar de um processo de seleção que escolhe os 3% que passarão a viver em um local melhor.

 

Quando o assunto é identificação de uma obra cinematográfica, geralmente os holofotes se viram para o diretor ou o elenco. Às vezes, para o roteirista e o produtor. Há até quem se lembre do diretor de fotografia. A série Cinema por Quem o Faz, do cineasta Ugo Giorgetti, contraria essa lógica e joga luz sobre profissionais pouco lembrados na trajetória audiovisual brasileira, mas fundamentais em seu processo artístico.

O lançamento dos primeiros cinco episódios será nesta sexta-feira (25/11), no canal da Spcine no Youtube. São 31 ao todo, cada um focado em um personagem.

Entram nesta primeira leva, Lauro Escorel, diretor de fotografia de clássicos como “Eles Não Usam Black-Tie”, “Bye Bye Brasil” e “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”; Cristina Amaral, editora, parceira de trabalho de cineastas como Carlos Reichembach e testemunha da passagem do negativo para o cinema digital; e Marçal Ferreira, produtor de filmes de diretores como Hector Babenco e o próprio Ugo Giorgetti.

Também integram o bloco o chefe eletricista João Sagatio, único técnico vivo da equipe que produziu “O Pagador de Promessas”, e a especialista em restauração Fernanda Coelho, que trabalhou por muitos anos na Cinemateca Brasileira.