Em evento realizado em 15 de setembro, na ANCINE, foram anunciadas as normas e os critérios constantes da Instrução Normativa nº 128/2016, que regulamenta o provimento de recursos de acessibilidade visual e auditiva nos segmentos de distribuição e exibição cinematográfica.

Para a formulação da IN, foram realizadas uma Análise de Impacto Regulatório, publicada em fevereiro 2015 – com amplo levantamento sobre a experiência internacional na implantação desses recursos e pesquisa sobre as tecnologias disponíveis no mercado –, e uma Consulta Pública em julho de 2016.

De acordo com a Instrução Normativa, as salas de exibição comercial deverão dispor de tecnologia assistiva voltada à fruição dos recursos de legendagem, legendagem descritiva, audiodescrição e LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais. Os recursos serão providos na modalidade que permita o acesso individual ao conteúdo especial, sem interferir na fruição dos demais espectadores. Cabe ao exibidor dispor de tecnologia assistiva em todas as sessões comerciais, sempre que solicitado pelo espectador. O quantitativo mínimo de equipamentos e suportes individuais voltados à promoção da acessibilidade visual e auditiva varia em função do tamanho do complexo.

Os prazos para adequação à nova regra são gradativos e variam de acordo com o número de salas de cinema de cada grupo exibidor. Em 14 meses, cerca de 50% do parque exibidor terá que contar com os recursos implantados de legendagem descritiva, audiodescrição e libras. Em 2 anos todo o parque exibidor deverá contar com os recursos de legendagem descritiva, audiodescrição e libras.

Ao distribuidor cabe disponibilizar cópia com os recursos de acessibilidade em todas as obras audiovisuais por ele distribuídas. Os prazos para a adaptação dos distribuidores são de até 6 meses para legendagem descritiva e até 12 meses para libras.

Esta norma compõe o conjunto de ações empreendido pela ANCINE voltado à promoção do acesso visual e auditivo ao conteúdo audiovisual, que inclui também a IN 116/14, que dispõe sobre a obrigatoriedade da apresentação de recursos de acessibilidade nos projetos financiados com recursos públicos federais gerenciados pela Agência.

Nesta semana, a Diretoria Colegiada da ANCINE aprovou a formação de uma Câmara Técnica para acompanhar a implementação dos recursos de acessibilidade e validar as tecnologias de provimento. Integrado por exibidores, distribuidores e representantes da ANCINE, o grupo terá até seis meses para concluir os trabalhos. As empresas que comercializam sistemas de acessibilidade serão convidadas a acompanhar e participar dos trabalhos.

Nesta 40ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, a arte do cartaz é assinada por Marco Bellocchio, que será homenageado pelo evento com o Prêmio Leon Cakoff e a apresentação de seu mais recente longa, Belos Sonhos (Fai Bei Sogni), além de outros 11 títulos do diretor, incluindo o curta Pagliacci.

A inspiração do diretor para o pôster é em seu filme Bom Dia, Noite (Buongiorno, Notte), que é baseado no livro Il Prigioneiro, de Anna Laura Braghetti, onde a autora narra o sequestro do ex-primeiro ministro italiano Aldo Moro.

 

O SESI-SP e o Instituto Cultural da Dinamarca trazem para São Paulo a mostra inédita Cine SESI-SP no Mundo: Dinamarca em Família com exibições gratuitas de quatro longas do cinema contemporâneo escandinavo, entre os dias 17 de setembro e 8 de outubro. As sessões de Esta VidaPerdido na África, A Grande Caça aos Pássaros e do clássico Europa, de Lars von Trier, serão realizadas sempre aos sábados, a partir das 15h, no Espaço Mezanino do SESI-SP.

Um dos destaques da edição é o longa Europa, de Lars von Trier, que abre a programação, no dia 17. O drama retrata a história de Leopold, um americano que acaba de chegar à Alemanha pós-guerra para trabalhar na companhia de trem Zentropia. No meio de um misto de cenas coloridas e em branco e preto, Leopold conhece a filha do dono da companhia e se vê em conflito com os ideais de sua família e da sociedade.

Ainda no período das guerras, Esta Vida, baseado em fatos reais, mostra como era a vida na Dinamarca ocupada. Já a temática de Perdido na África aborda temas como sequestro e adoção. Em A Grande Caça aos Pássaros, a convivência entre pai e filho na busca por um mesmo objetivo.

Os três dramas e a aventura infanto-juvenil, selecionados pela curadoria do SESI-SP, propõem uma reflexão sobre relações familiares, tomando como pano de fundo diferentes fases da história dinamarquesa. Todos os longas serão exibidos com legendas em português.

Além de liderar o mercado cinematográfico europeu durante o início do século XX, a Dinamarca também foi berço de um dos movimentos mais importantes para a história do cinema mundial, o manifesto Dogma 95. Escrito por von Trier e pelo cineasta Thomas Vinterberg, em 1995, o texto pedia por um cinema mais realista e voltado para a força cênica dos atores, em vez dos artifícios impostos por Hollywood.

O legado e influência dessa iniciativa podem ser vistos até hoje em produções contemporâneas por todo o mundo. E, embora os filmes da mostra não pertençam ao movimento, eles demonstram a qualidade e a criatividade que os cineastas dinamarqueses desenvolveram após o marco.

As reservas antecipadas para as sessões podem ser realizadas on-line pelo sistema Meu Sesi (www.sesisp.org.br/meu-sesi). Os ingressos remanescentes serão distribuídos pela bilheteria no dia das sessões, a partir das 13h.

 

Cine SESI-SP no Mundo: Dinamarca em Família
Data: 17 de setembro a 8 de outubro (aos sábados)
Programação: Europa (17/9); Esta Vida (24/9); Perdido na África (1/10); A Grande Caça aos Pássaros (8/10)
Horários: 15h
Local: Espaço Mezanino do Centro Cultural Fiesp Ruth Cardoso – Avenida Paulista, 1313 (em frente à estação Trianon-Masp do Metrô)
Capacidade: 50 lugares
Entrada gratuita.

Chega aos cinemas, em 15 de setembro, o longa Mate-me por Favor, primeiro longa-metragem da carioca Anita Rocha da Silveira, que já foi selecionada para a Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes com o seu curta Os Mortos-Vivos, em 2012.

O filme mescla mistério, drama, fantasia, humor e tem como pano de fundo uma série de assassinatos que irá despertar a imaginação e os anseios de uma juventude. Uma curiosidade mórbida se apodera da vida de jovens cariocas, moradores da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro. A trama levanta ainda questões polêmicas como o respeito, estupro, violência contra a mulher e descobrimento da sexualidade.

O longa foi vencedor dos prêmios de melhor atriz (Valentina Herszage) e melhor direção no Festival do Rio de 2015. Participou também da Mostra Orizzonti, Seleção Oficial do prestigiado Festival Internacional de Veneza.

No elenco principal, os adolescentes, estreantes no cinema: Valentina Herszage (Bia), Dora Freind (Renata), Julia Roliz (Michele), Mariana Oliveira (Mariana) e Bernardo Marinho (João). As quatro garotas saíram premiadas do Festival de Veneza pela crítica independente Bisatto D’Oro, recebendo o prêmio de melhor Interpretação em conjunto.

Leia matéria sobre o filme.

Há um momento no filme Taxi Driver em que o personagem Travis quer desabafar com o mentor dos taxistas, que atende pelo apelido de Wizard. Travis tenta falar das “ideias ruins que estão na sua cabeça” e da sua vontade de “fazer alguma coisa”. Sua fala é reticente, seu olhar é fugidio. Wizard esboça um arremedo de lição de vida, palavras que para Travis soam como bobagem. Travis não sabe o que dizer, Wizard não sabe o que aconselhar. Uma comunicação condenada ao fracasso, confirmando a observação do dramaturgo Harold Pinter de que a linguagem é o instrumento que o ser humano inventou para não se comunicar.

Na hora da despedida, o mentor frustrado estende a mão e Travis a aperta. Um cumprimento estranho – Travis segura apenas as pontas do dedo de Wizard, mas se mantém segurando a mão do interlocutor por mais tempo do que manda a convenção. Eis aqui, no simples gesto, o drama interior de um candidato a psicopata social. Ele gostaria de driblar seu isolamento, daí segurar a mão por um longo tempo, ao mesmo tempo em que não consegue encontrar contato humano, daí o aperto de mão anacrônico, resultado de uma conversa que não vai para lugar nenhum.

O diretor Martin Scorsese conta que a pergunta clássica nas palestras que faz é “onde eu devo colocar a câmera?” A resposta são outras perguntas. Quem é o personagem? Sobre o que é a cena? No caso da cena de Taxi Driver, Wizard parte em seu carro e a câmera é colocada junto ao vidro traseiro. Através do vidro, vemos Travis se afastar, sozinho nas ruas que ele considera contaminadas pela escória.

Quem é o personagem e sobre o que é a cena? As mesmas perguntas são decisivas na hora de escrever. O sentido original das palavras pode ajudar. O protagonista é um proto-agon. Proto é primeiro. Agon, em grego, significa embate, disputa. Em nossas palavras atuais, o protagonista é um conflito. Cabe lembrar que agon originou também a palavra agonia, que aponta para um combate interior. “Na ficção, todo sentido nasce de um coração em luta consigo mesmo”, conforme nos lembra Faulkner.

Outra palavra-chave é simpatia. Um produtor afeito às receitas gosta de afirmar que não sente simpatia por este ou aquele personagem. Parece impróprio considerar Travis um sujeito simpático, e tornar ele gostável seria o pior conselho a ser dado ao roteirista. Curiosamente, a mensagem do produtor afeito às receitas acaba sem querer tocando no sentido profundo da palavra. Simpatia vem de syn-pathos, que aponta para partilhar a experiência e o sofrimento. Simpatizar com Travis não significa achar ele um cara legal, mas compreender o seu pathos. Dito de outro modo, simpatizamos com sua agonia.

O agon de Travis é ter ideias ruins em sua cabeça e não conseguir entendê-las e compartilhá-las. Um coração em luta consigo mesmo que se manifesta com toda grandeza em um aperto de mão. O agon do personagem Rafael, o Filho da Noiva, também pode ser capturado em gestos. Quando seu pai elegante, apelidado de comendador, entra com um buquê de flores no restaurante da família, o gesto instintivo de Rafael é tapar os olhos. E logo em seguida receber o pai com afeto. O pai traz a realidade que Rafael prefere não ver: o convite para visitar a mãe na clínica. Rafael dá a desculpa de estar ocupado, o pai observa que faz um ano que o filho não visita a mãe com Alzheimer e naquele dia é o aniversário dela.

A agonia de Kramer aparece quando o filho o acorda, no dia seguinte à mãe ter ido embora de casa. Assim que o filho o chacoalha, ele vê a cama vazia e emite uma interjeição que revela seu abandono. Mas logo em seguida levanta para fazer o café da manhã tentando convencer o garoto de que tudo está bem e de que vão se divertir juntos. Durante toda a cena, na verdade é a si mesmo que ele tenta convencer.

Quando Joe Buck, de Perdidos da Noite, reencontra o vagabundo Ratzo, seu primeiro gesto instintivo é sorrir. Só depois Buck se lembra que Ratzo passou a perna nele e vai tomar satisfação. O sorriso é de alguém perdido e sozinho que revê um amigo, a raiva vem do fato de que o único candidato a amigo é um trapaceiro.

Pequenos gestos que revelam cruéis combates interiores. Momentos que tocam na intimidade profunda do personagem, um lugar delicado, difícil de alcançar. O personagem não quer mostrar esse lugar nem para si mesmo. Um coração em luta consigo mesmo, na sentença de Faulkner que deveria ser recitada de joelhos, em louvor ao deus das narrativas.

 

Por Ricardo Tiezzi, escritor e professor