Por Maria do Rosário Caetano

Até a estreia, prevista para 13 de junho, de “Dolor y Gloria”, o novo Almodóvar, grife maior do cinema de expressão espanhola, uma boa seleção de filmes falados na língua de Cervantes chegará às telas brasileiras. Para os próximos três meses, estão previstas dez estreias oriundas da Península Ibérica e América Hispânica.

Nesta quinta-feira, 21 de março, estreia deliciosa e irônica comédia argentina, “Minha Obra-Prima”, de Gastón Duprat. O diretor integra a trupe responsável pelo festejado “O Cidadão Ilustre”, que rendeu muitos prêmios a seu protagonista (o ator Oscar Martínez), e o sensível “O Homem do Lado” (ambos em parceria com Mariano Cohn).

“Minha Obra-Prima” – como “O Cidadão Ilustre” – sustenta-se em roteiro engenhoso e dois atores notáveis: Guillermo Francella, 64 anos, o patriarca da família bandida de “O Clã” (Pablo Trapero, 2015), e o veterano Luis Brandoni, 78, de “Patagônia Rebelde”, “Esperando la Carroza” e “Made in Argentina”.

A dupla joga um bolão nesta comédia de diálogos envenenados, que satiriza o mundo das artes plásticas. Brandoni interpreta um pintor já quase octogenário, cuja obra saiu de moda. Seus quadros estão entulhados no estúdio. Seu galerista, o diabólico personagem de Francella, tenta ajudá-lo, mas o artista plástico comete todas as loucuras possíveis e imagináveis. Num filme maniqueísta, tomaríamos birra de personagem tão idiossincrático. Mas não. “Minha Obra-Prima” nos faz gostar da dupla formada pelo pintor e pelo galerista e acompanhar, com entusiasmo, suas tramas e tramoias. O filme fez sucesso na Argentina (quarta maior bilheteria de 2018, com 710 mil ingressos vendidos).

“Minha Obra-Prima”, de Gastón Duprat

O novo longa de Gastón Duprat chega para somar-se a duas produções argentinas, que entraram em cartaz recentemente: a comédia romântica “Um Amor Inesperado”, com Ricardo Darín e Mercedes Morán, e “As Filhas do Fogo”, de Albertina Carri, road movie lésbico-feminista, com pitadas de sexo explícito. O “Darín movie” da hora traz, em sua trilha sonora, uma canção brega de Wando, usada em festa igualmente brega. O filme (sucesso na Argentina) teve uma boa arrancada em sua primeira semana brasileira (25 mil ingressos, nada mal para um filme lançado no restrito circuito de arte).

Virão, pois, da festejada Argentina, os principais lançamentos hablados em español nos próximos 90 dias. O melhor deles é “Vermelho Sol”, de Benjamin Naishtat, previsto para 25 de abril. Um filme de envolvente beleza plástica, história que soma política e violência, com sutileza e mistério, e dois atores, Dário Grandinetti e o chileno Alfredo Castro, ambos em estado de graça.

Também imperdível é “Família Submersa”, de María Alché, “la niña santa” de Lucrécia Martel. Pois a jovem atriz que contracenou com a experiente Mercedes Morán, em “A Menina Santa” (2003), agora dirige a colega neste drama intimista, envolto em fascinante atmosfera. Estreia prevista para o próximo 4 de abril.

“Família Submersa”, de María Alché © Hélène Louvart

O mais badalado dos filmes argentinos e o que mais público mobilizou, “O Anjo”, de Luís Ortega (maior bilheteria de 2018, com 1,4 milhão de tíquetes, sendo “Um Amor Inesperado” o segundo, com quase 800 mil), chegará aos cinemas brasileiros no dia 18 de abril. Como “O Clã”, um dos maiores sucessos do cinema portenho contemporâneo, o filme de Ortega buscou na crônica policial seus personagens: o jovem de classe média, Carlitos (Lorenzo Ferro), e seu amigo Ramon (Chino Darín, filho de Ricardo), que se envolvem com o crime. Carlitos será conhecido como “El Angel Negro”, pois cometerá assassinatos em série. O adolescente que o interpreta vem colecionando prêmios em muitos festivais. O diretor estabeleceu para ele um visual glamouroso, que lembra o Tadzio (Björn Andresen), de Visconti, em “Morte em Veneza” (1971).

As atrações argentinas deste primeiro semestre incluem, ainda, “Uma Viagem Inesperada”, de Juan José Jusid, veterano realizador de “Assassinato no Senado da Nação” e “Um Argentino em New York”. O filme tem significativa relação com o Brasil, onde sua narrativa começa. O protagonista, o engenheiro Pablo (Pablo Rago), vive feliz em um Rio de Janeiro paradisíaco, ao lado da mulher, a morena Lucy (Débora Nascimento). Só que a ex-mulher o convoca a regressar a Buenos Aires para dar assistência ao filho adolescente, cheio de problemas, que está para ser expulso da escola. O resultado é apenas mediano.

De Cuba, chegará um filme muito especial, “O Tradutor”, para o público brasileiro, já que seu protagonista absoluto é o carioca Rodrigo Santoro. Com estreia prevista para dia 28 próximo, o longa de Sebastián e Rodrigo Barriuso começa em 1989, quando se deu o acidente nuclear na Usina de Chernobyl, na antiga União Soviética. Cuba se prontificou a receber – e tratar – algumas dezenas de feridos e contaminados durante a tragédia atômica.

É neste duro contexto que o personagem de Santoro, um professor de Literatura Russa da Universidade de Havana, se vê convocado a atuar como tradutor (do russo para o espanhol e vice-versa), num hospital que atende a crianças contaminadas. O ator brasileiro já havia atuado em espanhol, no “Che” (2008), de Steven Soderbergh, no qual representou Raul Castro, mas deparou-se com desafio monumental: falar russo. Afinal, nesta coprodução cubano-canadense, ele se expressa, também, na língua de Dostoievski.

“O Tradutor”, de Sebastián e Rodrigo Barriuso

Santoro aceitou o desafio e seu trabalho resultou digno. O filme se desenvolve, em maior parte, no pós-Chernobyl e num dos piores momentos da história de Cuba. Com o desmanche da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, interrompe-se a ajuda financeira à ilha (petróleo trocado por açúcar em condições muito vantajosas) e começa a faltar tudo. O governo de Fidel Castro estabelece o que se chamou de “período especial”. Ou seja, economia de guerra. Como não há combustível, o jeito é andar de bicicleta; se não há banha de porco, nem óleo de soja, cozinha-se com água.

Apaixonado por papéis que lhe exigem esforço físico e emocional, o ator brasileiro aproveita para dar credibilidade ao sofrido professor cubano (o filme é baseado em personagem real, cuja história foi escrita e filmada pelos irmãos Barriuso, filhos do professor habanero).

Para divulgar “O Tradutor”, no Brasil, Santoro participará, juntos com os diretores, de duas sessões seguidas de debate. Nesta quinta-feira, 21, ele estará no CEU Perus, a partir das 19h (promoção da Spcine, agora dirigida por Laís Bodanzky, que o convocou para protagonizar “Bicho de Sete Cabeças”, em 2000). Nesta sexta-feira, 22 de março, ele e os irmãos Barriuso estarão no Estação Net Botafogo, no Rio (no horário matutino).

Do México, que vive momento especial em sua história, só há um filme anunciado para este semestre brasileiro: “Compra-me um Revólver”, de Júlio Hernández Cordón, fruto de parceria com a Colômbia. Trata-se de distopia, ambientada em um futuro indefinido, no qual o México está dominado por cartéis de drogas, e mulheres e crianças são encarceradas.

Do Chile, chega “Nona, se me Molham, Eu os Queimo”, de Camila José Donoso, previsto para 20 de junho. No elenco, o brasileiro Eduardo Moscovis, que contracena com a veterana Nona (Josefina Ramírez). Na montagem, a carioca Karen Akerman. O filme participou do Festival de Roterdã.

Por falar em Chile, vale lembrar que Sebastián Lélio, diretor do festejado “Glória” e vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro, ano passado, com “Uma Mulher Fantástica”, já está filmando em inglês. Com estreia prevista para o próximo dia 28 de março, “Gloria Bell” recria, nos EUA, a trajetória da divorciada de espírito livre (que consagrou Paulina García). Para o lugar da grande atriz chilena, Lélio convocou a ótima Julianne Moore (“Boogie Nights”, “Fim de Caso” e “Longe do Paraíso”).

Infelizmente, nenhum filme da Colômbia, outra cinematografia que vive momento especial, está programado por nosso circuito de arte. Registre-se que vem de lá o longa mais premiado da temporada – excetuando, claro, o “Roma” de Alfonso Cuarón – “Pássaros de Verão”, da mesma trupe do fascinante “O Abraço da Serpente”. Parece que nenhum distribuidor brasileiro, até agora, se atreveu a comprar o ousado e imperdível drama criminal de Ciro Guerra e Cristina Gallego.

“Los Silencios”, de Beatriz Seigner

O épico colombiano, que dura 2h10, narra o início do comércio de drogas no país latino-americano (ainda nos anos 1960), primeiro de maconha, para consumo da geração Woodstoock, depois de cocaína. Tudo se processa, de forma sangrenta, no seio de uma comunidade indígena, os Wayuu, dilacerada entre a tradição tribal e o que chega do mundo urbano.

Por sorte, a brasileira Beatriz Seigner escolheu a fronteira entre Brasil e Colômbia para ambientar “Los Silencios”, cuja estreia está prevista para dia 11 de abril. O filme, que reúne elenco colombiano e brasileiro (destaque para Enrique “Kike” Diaz, carioca nascido no Perú), vem destacando-se em diversos festivais internacionais e rendeu à cineasta, no Festival de Brasília 2018, o Candango de melhor direção.

Por Maria do Rosário Caetano

“Um Banho de Vida”, comédia agridoce sobre time de quarentões do nado sincronizado, chega ao Brasil depois de arrasar nas bilheterias francesas. O filme, dirigido pelo ator Gilles Lellouche, foi o mais visto entre as produções made in France, mobilizando 4,1 milhões de espectadores. Além do mais, recebeu dez indicações ao Cesar, o “Oscar francês”. Só ganhou uma estatueta (a de melhor ator coadjuvante para Philippe Katherine), mas liderou as indicações ao lado do vencedor, o drama conjugal “Custódia”, de Xavier Legrand. Um feito, convenhamos, para uma comédia blockbuster.

Gilles Lellouche, de 46 anos, fez questão de reunir time de atores da pesada e concentrou-se na direção (o que é raro, quando o realizador é, ele mesmo, ator dos mais atuantes e festejados). Liderando o elenco, está Mathieu Amalric, um dos futuros (e incompetentes) praticantes do nado sincronizado. Com ele, formarão a desajeitada equipe aquática o roqueiro cabeludo (e fracassado) Jean-Hughes Anglade (do cult “Betty Blue” e “Rainha Margot”), Gillaume Canet (ator e diretor da saborosa comédia “Rock’n Roll: Por Trás da Fama” e companheiro de Marion Cotillard), o belga amalucado Benoît Poelvoorde, o sensível Philippe Katherine, entre outros (serão oito, no total).

O time masculino será comando por duas mulheres poderosas, ambas na função de treinadoras: a democrática e (até) paciente Delphine (a comediante Virginie Efira) e a mandona Amanda (Leila Bekthi, beleza de origem árabe, hoje estrela ascendente do cinema francês).

Desde que a comédia edificante “Intocáveis” (Toledano e Nakache, 2011) vendeu um milhão de ingressos no Brasil (o filme virou peça de teatro e ganhou remake em diversos países), que uma pergunta se impõe: quando um novo filme francês repetirá tamanho sucesso?

As esperanças estão, agora, depositadas em “Um Banho de Vida”. Claro que se o filme chegar a um quinto do borderô brasileiro do blockbuster protagonizado por Omar Sy e François Cluzet, o dado será festejado. Chegará? Eis a questão.

O distribuidor brasileiro do filme, Bruno Beauchamps, da Pagu Pictures, prefere não adiantar números. Mesmo assim, não esconde que “Um Banho de Vida” é “o filme certo, na hora certa”. Ou seja, “uma comédia de qualidade, otimista, e que fala o tempo inteiro de superação”, características “importantes e necessárias no Brasil de hoje”.

Beauchamps destaca outro mérito do filme: “nele, nos deparamos com a força feminina”. São “as mulheres que comandam o grupo de homens”. Lellouche destaca “a brincadeira entre o feminino e o masculino”. E o distribuidor revela curiosa e tentadora ideia: “por entender que todos nós podemos usar as cores que quisermos e fazermos o que bem entenderemos, quase dei ao filme (‘Le Grand Bain’, no original), o título de ‘Mulheres Vestem Azul e Homens Vestem Rosa’”. Mas a presença da água e a prática da natação levaram Beauchamps a “um título mais alto astral e aquático”.

“Um Banho de Vida” – defende o jovem empresário – “nos faz rir com a força da transformação pessoal, com a superação de obstáculos”. Por isto, “merece ser visto neste momento difícil que atravessamos”.

A Pagu Pictures foi criada há apenas dois anos. Seu primeiro lançamento foi “Gabriel e a Montanha”, de Fellipe Gamarano Barbosa, “uma dádiva, que nos trouxe muita alegria”. Depois, vieram “On Yoga: Arquitetura da Paz”, de Heitor Dhalia, “Aos teus Olhos”, de Carolina Jabor, e “Slam, a Voz do Levante”, de Tatiana Lohmann e Roberta Estrela D’Alva, “filmes dos quais me orgulho de ser o distribuidor”.

A Pagu, segundo seu proprietário, “veio para tentar fazer diferente, com energia, estratégia e, principalmente, muito trabalho, lançando filmes de valor artístico e potencial comercial, sempre atrás do público certo em todas, digo todas, as plataforma de exibição”.

É hora, pois, de testar a receptividade do público brasileiro para a história dos quarentões do nado sincronizado, que tanto mobilizou os franceses, um povo louco por piscinas públicas.

Quando “Um Banho de Vida” começa, o quarentão Bertrand (Mathieu Amalric) está desempregado e deprimido. Os medicamentos não estão fazendo efeito. Ele busca, então, a piscina municipal do bairro onde vive. Acabará conhecendo, no local, outros homens com histórias parecidas com a sua. O grupo se juntará, de forma desajeitada, em equipe de nado sincronizado masculino, algo incomum dentro desta prática artístico-esportiva. Quem conhece Hollywood e seu poderoso cinema, sabe que a Metro Goldwyn-Mayer fez de Esther Williams a estrela de seus musicais aquáticos. Um deles, “A Rainha do Mar”, de 1952, tem um trecho acrobático mostrado em “Um Banho de Vida”.

O time de marmanjos desajustados e melancólicos será treinado por uma ex-atleta, saudosa de seus anos de glória. Quando um problema a afastar do trabalho, ela será substituída por uma amiga, presa a uma cadeira de rodas, mas pronta a domar e disciplinar os quarentões.

Thierry (Philippe Katherine), um gordo de coração mole, convencerá os novos companheiros a participar do Campeonato Mundial de Nado Sincronizado, na Noruega, país que conta com time espetacular, capaz de acrobacias dignas de Esther Williams. A equipe francesa terá chances? Esta é a pergunta que se impõe aos quarentões, que encontram na água válvula de escape para seus problemas cotidianos. E, rumo à Escandinávia, mais que um desafio, um novo propósito para suas vidas. Com direito a visão estonteante do sol da meia-noite.

Se o filme emplacar no Brasil, ele integrará time seleto, no qual os campeões vindos da França são o melodrama “Retrato da Vida” (Claude Lelouch, 1981), que permaneceu por mais de um ano em cartaz, e o bem-aventurado “Intocáveis”. Um dado curioso: como “Um Banho de Vida”, o filme do veterano Lellouch tinha longa duração (184 minutos), portanto mais de três horas, e “Intocáveis” dura quase duas horas. Quando um filme cai no gosto do público, a longa duração não constitui problemas. Vide “E o Vento Levou…”.

 

Um Banho de Vida
França, 122 minutos, 2018
Direção: Gilles Lellouche
Elenco: Mathieu Almaric, Guillaume Cantet, Virginie Efira, Jean-Hughes Anglade, Leila Bekhti, Marine Foïs, Felix Moati e Philippe Katherine