As polaridades da alma

O ator e diretor Bruno Torres, de 35 anos, está finalizando seu primeiro longa-metragem, a ficção autoral “À Espera de Liz”, um drama feminino e intimista, com Simone Iliescu e Rosanne Mulholland, nos papéis centrais de duas irmãs, filmado em cenários deslumbrantes em dois extremos do Brasil, o Monte Roraima (na fronteira com a Venezuela) e as serras gaúchas do Rio Grande do Sul. Rodado em duas semanas e meia na Venezuela e em um mês na serra gaúcha, “À Espera de Liz” é definido por Bruno como “uma história de amor narrada pela perspectiva da ausência e da solidão”.


Ares de superprodução

O argumento sobre um triângulo amoroso, que nunca é visto junto em cena, teve seu primeiro tratamento de roteiro feito em 2011 e inscrito no edital para filmes de baixo orçamento do Ministério da Cultura, no qual foi contemplado com R$ 1,2 milhão, o que permitiu sua realização, mesmo filmando em lugares inóspitos, em que toda equipe precisava ser transportada de helicóptero. Para o diretor, as locações “ao redor” dos personagens significavam muito para reforçar a linguagem intimista dada ao filme. “Comecei a trabalhar com a ideia de fazer um filme sobre uma história de amor, mas com uma abordagem diferente. Optei fazê-lo sendo narrado pela perspectiva da ausência, da solidão”, relata Bruno à Revista de CINEMA.

Nesses cenários deslumbrantes, transita o solitário personagem Miguel, interpretado pelo próprio diretor, que atua desde os 16 anos e, recentemente, foi um dos protagonistas de “Entrando numa Roubada”, de André Moraes. “Eu não iria fazer o papel. Escrevi o roteiro tendo a certeza que eu não correria esse risco logo no meu primeiro longa. No entanto, em uma produção, as reviravoltas são muitas e quando percebi já estava na Venezuela imerso no universo que era o que o personagem tem dentro do filme. E foi uma grande experiência”, conta Bruno.

O diretor confessa que queria fazer um trabalho de viabilidade média de produção e muito sugestivo para a linguagem, “então criei essa história que trata de um triângulo amoroso que nunca é visto junto, focando-se de forma subjetiva na dor que a falta faz. Eu queria também que esse longa fosse totalmente voltado para o edital para filmes de baixo orçamento do Ministério da Cultura, o qual considero ter o formato ideal para o primeiro longa de um diretor, já que permite muita liberdade de criação”.

Bruno, em cenário do filme, na Gran Sabana, na Venezuela © Luciana Melo

A energia das polaridades

Para narrar esse drama intimista, Bruno buscou dividir os universos feminino e masculino como uma forma de linguagem. “Os motivos de trabalhar em lugares de natureza tão distinta, como Venezuela e Brasil, esse contraste, é uma das propostas conceituais do filme. Por trás da história, esse filme tem uma segunda camada, já que eu trabalho com a energia das polaridades como linguagem, como se fosse o Yin e o Yang: o masculino e o feminino, o frio e o quente, o passivo e o ativo, o escuro e o claro, e por aí vai, num caminho sem fim. Então, enquanto Liz (a protagonista feminina) vive uma solidão introspectiva e passiva, Miguel (o protagonista masculino) vive uma solidão expansiva e ativa, e assim o cenário e a fotografia acabam por refletir o interior destes personagens. Confesso que termino as filmagens sentindo que estes dois cenários, a serra gaúcha e a Venezuela, foram ideais para a realização do filme”, afirma Bruno.

Com direção de fotografia de André Lavenére, as locações de Gramado e Canela, região de neblina da serra gaúcha, ocupam 70% da trama, enquanto que a parte ensolarada se passa na Venezuela.

Berço cinematográfico

Bruno é filho do cineasta Geraldo Moraes e irmão do também cineasta e músico André Moraes, e desde criança convive com sets de filmagem. Bruno guarda uma foto onde aparece aos oito anos com o olho na lente da câmera do diretor de fotografia Walter Carvalho, segurado no colo do próprio, durante a rodagem de “O Círculo de Fogo” (1984), dirigido por Geraldo Moraes. E foi com o pai onde atuou pela primeira vez em “No Coração dos Deuses” (1999), um épico de aventura ambientado no Tocantins, e ao lado de nomes como Antônio Fagundes, Roberto Bonfim e Tonico Pereira, entre outros.

Desde então, são quase duas dezenas de filmes como ator (sem falar no teatro e participações em novelas) – em muitos que o definem como um intérprete de transformações. Por “O Homem Mau Dorme Bem” (2009), de Geraldo Moraes, foi considerado o melhor ator coadjuvante no 42º Festival de Cinema de Brasília e no XIV Cine PE. Sua atuação em “Somos Tão Jovens”, de Antônio Carlos da Fontoura, o fez ser um dos finalistas como coadjuvante no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2014.

Curtas premiados e novos projetos

Como diretor, Bruno tem no currículo quatro curtas-metragens, “O Último Raio de Sol” (2004), que conquistou mais de 30 prêmios em festivais, “A Noite por Testemunha” (2009) – estes dois com tema sobre a violência social –, um tratado poético arquitetônico sobre Brasília, em “O Tempo do Plano” (2010), e uma também lírica manifestação sobre a natureza, em “Encontro das Águas” (2011). Em dezembro, Bruno atuou em “Bio”, do cineasta Carlos Gerbase, com quem já trabalhou em “Sal de Prata” (2005), rodado em Porto Alegre. E já prepara o seu segundo longa-metragem, “Terra de Cegos”, uma superprodução com um tema que lhe é muito caro, a atuação de madeireiros ilegais na Amazônia.

“Terra de Cegos”, para Bruno, será uma espécie de épico amazônico. “Estou há mais de doze anos trabalhando nas pesquisas do projeto, e durante oito anos elaborei o roteiro, que recentemente foi autorizado pela ANCINE para captação de recursos. Pelo que percebo, e por incrível que pareça, “Terra de Cegos” deve ser o primeiro longa de ficção do Brasil e da América do Sul a tratar do tema do desmatamento com profundidade, concentrando suas ações na atuação dos madeireiros ilegais”, conclui o diretor.

 

Por Ranieri Maia Rizza

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