Em 2007, Chris Weltz aventurava-se no controverso mundo da saga Fronteiras do Universo, de Philip Pullman, e entregava sua própria visão com o lançamento do longa-metragem ‘A Bússola de Ouro’. Entretanto, apesar do rico material que tinha em mãos – e um elenco que contava com Nicole Kidman e Daniel Craig -, o cineasta falhou em capturar a essência que desejávamos ver nas telonas e se valeu muito mais da beleza estética do que o purismo e a competência de uma narrativa bem estruturada. Dessa forma, os planos para uma sequência foram descartados e, como de praxe, levou um tempo até que a ideia para um reboot fosse abraçado por algum realizador do entretenimento.

Neste ano, a HBO anunciou que o retorno para o fantasioso mundo da saga retornaria para as telinhas na adaptação intitulada His Dark Materials, prometendo para o ávido público que as investidas artísticas não seriam o único ponto alto. Aqui, Jack Thorne resolveu tomar as rédeas do novo projeto e, no geral, deu vida a uma interessante história que ainda não atingiu seu potencial completo. É claro que, levando em conta que a série nos mostrou apenas seu o episódio piloto, é natural que o ritmo dos acontecimentos permaneça recuado até explodir em suas aguardadas catarses e respectivos clímaces. De qualquer forma, Thorne e Tom Hooper, que comanda a direção do primeiro capítulo, mesclam drama, ação e uma pitada de comédia para nos apresentar aos personagens principais – falhando em aspectos primordiais para garantir que o público se envolvesse do começo ao fim.

O pontapé inicial, intitulado “Lyra’s Jordan”, não é uma peça ruim – muito pelo contrário: nos primeiros minutos, guiados por uma inebriante e tétrica apresentação do panteão místico, a trama premeditada o trágico destino de uma jovem garota chamada Lyra Belacqua (Dafne Keen), a qual está destinada a algo muito maior do que espera. Percebemos que a distorção vitoriana promovida pela equipe visual é bombardeada com comedidas críticas à retórica religiosa defendida pelo grupo conhecido como o Magistério.

Tais ideologias mascaradas também nos introduzem a um cenário caótico, manchado por perigosas e assustadoras máquinas que levam um perturbado Asriel Belacqua (James McAvoy) a deixar Lyra, sua sobrinha, aos cuidados da Jordan College, em Oxford, enquanto retorna para suas pesquisas para desmistificar o imperialismo descomunal exercido por líderes maquiavélicos e hipócritas.


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Como preâmbulo, o começo da obra funciona de forma impecável: percebemos as diferenças de personalidade que isolam Lyra e seu melhor amigo, Roger (Lewin Lloyd), em dois extremos bastante complexos e inebriantes, dentro de suas limitações – afinal, não podemos ter todas as respostas de uma vez só. Enquanto a esfera que engloba os dois personagens-mirins é propositalmente repetitiva, por assim dizer, temos outra perspectiva mais dura e mais amadurecida que envolve Asriel e o fato de ser taxado como herege por pesquisar acerca de uma misteriosa substância intitulada poeira (ou Partículas de Rusakov, como explanadas nos escritos de Pullman) e no multiverso que existe em paralelo àquele que vive. Tentando desconstruir a imagem imperialista do Magistério, ele é quase envenenado por seus colegas de profissão.

Assim como a trilogia escrita, percebe-se que Thorne trabalha arduamente para que a mitologia ganhe expressiva voz dentro do escopo seriado. Porém, é inegável dizer que os elementos fantasiosos e sobrenaturais são traduzidos de modo cru e impalpável demais, deixando de lado algumas explicações que não necessariamente precisariam estar explícitas, e sim escondidas com sutileza: temos os daemons, espíritos humanos reencarnados em formas animais que têm a habilidade de se transformar em outros até amadurecerem; temos a poeira, temida por parte dos humanos (mas sem motivação aparente); há, além disso, um grupo antagonista conhecido por Gobbles, um equivalente de bicho-papão da nossa cultura que faz parte de uma fábula cujo objetivo é assustar crianças – isso é, até que elas começam a desaparecer misteriosamente.

E isso não é tudo, visto que as tramas parecem se multiplicar nesse ainda breve pano de fundo. Além das mencionadas nos parágrafos acima, temos a excêntrica e um tanto quanto magnética personalidade de Marisa Coulter (Ruth Wilson), participante ativa da Jordan College que imediatamente se afeiçoa por Lyra. A priori, ela se mostra como uma paradoxal mulher que esconde segredos e é acompanhada por um amedrontador macaco-dourado cujo cruel instinto já é delineado nas primeiras cenas em que aparece, tendo deixado um gostinho agridoce que precisa ser mantido ou repaginado em um futuro próximo. Na verdade, para aqueles que se recordam dos livros, Marisa é uma das principais antagonistas cujo arco de redenção é um dos mais bem arquitetados de todo o universo literário – e esperamos que tais aspectos de sua persona sejam trazidos para a série.

O problema é que tais partes falam mais alto separadas do que em conjunto; quando justapostas em uma mesma linha narrativa, vê-se que nem o charme afetado de Hooper, nem as delineações pragmáticas de Thorne são o bastante para privar o episódio de deslizar mais do que deveria. De qualquer forma, Fronteiras do Universo demonstra ter um delicioso potencial que pode e deve ser explorado ao seu máximo nas próximas semanas. Ou ao menos é isso que esperamos.