Com décadas de tradição em apresentar o que há de melhor na cinematografia mundial, sejam as novidades mais originais e premiadas, sejam clássicos, a singularidade do cinema de rua mais tradicional de São Paulo agora ganha expansão nacional graças ao lançamento do streaming Petra Belas Artes à la Carte – www.belasartesalacarte.com.br –, com uma seleção de filmes compatível com a programação deste cinema, o primeiro a ter um canal de exibição VOD.

A novidade, que vai ao ar em 31 de outubro, tem curadoria de André Sturm – autor da iniciativa –, o fundador da distribuidora Pandora Filmes e programador do conjunto de salas do Petra Belas Artes, em São Paulo. Partindo de sua própria carência de encontrar uma plataforma online com cinema de qualidade, ele idealizou o Petra Belas Artes à la Carte, um espaço com alternativas diferentes da oferta comum encontrada nos serviços já existentes neste segmento. Diante de uma seleção tão criteriosa, neste streaming o cinéfilo encontrará apenas o que ele quer ver, sem perda de tempo.

Entre os diferenciais oferecidos, estão categorias singulares e criativas com classificações como: “cults incríveis”, “mulheres maravilhosas”, “hahaha”, “para roer as unhas”, “o que todo cinéfilo precisa ver antes de morrer” e “novo no cardápio”, entre várias outras.

O streaming, com pré-venda a partir de 17 de outubro, irá disponibilizar duas opções complementares de uso: plano de assinatura mensal, por R$ 9,90, com acesso a todos os filmes do catálogo (com exceção dos lançamentos especiais), em dois dispositivos simultaneamente; ou locação por filme unitário (catálogo e lançamentos especiais), para assistir em um período de até 48 horas após a compra, por preços variados, a partir de R$ 4,90.

Quanto ao conteúdo, o Petra Belas Artes à la Carte será o lugar certo para encontrar joias raras como ”As Damas do Bois de Boulogne” (1945), obra-prima de Robert Bresson, diretor que, até hoje, é referência para jovens cineastas; ”E Deus Criou a Mulher” (1956), filme que transformou Brigitte Bardot em sex symbol; ”As Diabólicas” (1955), de Henri-Georges Clouzot, o grande mestre francês do suspense; ”O Casamento de Muriel” (1994), comédia australiana que revelou a atriz Toni Collette e tornou cult as músicas do grupo Abba; ”Possessão” (1981), de Andrzej Zulawski, com a arrepiante atuação de Isabelle Adjani, premiada no Festival de Cannes; e “O Pequeno Buda” (1993), uma das mais ambiciosas produções do diretor italiano Bernardo Bertolucci, com a magnífica direção de  fotografia de Vittorio Storaro.

Tudo ia bem após a morte do Papa João Paulo II, um nome-fenômeno que havia alçado a Igreja Católica a áureos patamares de mídia e alcance global. O então cardeal Joseph Ratzinguer assumiu a frente das cerimônias póstumas e conduziu a Igreja ao Conclave – processo de escolha de um novo Papa – que elegeria o 265º chefe máximo da Igreja Católica, quando os fieis veriam a tão esperada fumaça branca, que anuncia a escolha, saindo da chaminé da Capela mais famosa do mundo. Nos bastidores, rumores e vazamentos davam conta de que a disputa estava entre um desconhecido argentino chamado Jorge Mario Bergoglio, um nome que dividia opiniões dentro da Igreja por suas visões mais progressistas e um polonês, Joseph Ratzinger, que dividia o grupo pelo oposto motivo: um ferrenho conservador.

Longe de desejar para si tanto poder e notoriedade, Bergoglio voltaria para casa feliz após Bento XVI, o cardeal Ratzinger, ter assumido o papado. Prepararia sua aposentadoria enquanto chefe da Igreja na Argentina, em Buenos Aires, e passaria a viver como sempre desejou: dedicando-se aos necessitados. Para a surpresa de todos, o papa Bento XVI fez história rapidamente: foi o primeiro a renunciar em quase 600 anos, o que desnorteou e abalou a Santa Sé. Em rápido Conclave, não houve escapatória para o argentino, agora eleito Papa Francisco, o primeiro Papa latino-americano da História. Como podem conviver dois Papas, líderes máximos, com visões tão opostas? Como resistiria a Igreja frente a tão inédito acontecimento? Quem os fieis e líderes católicos reconheceriam como líder? Como se dividiria a Igreja a partir de agora: conservadora ou reformista?

Todos estes aspectos suscitados pela renúncia de Bento e pela ascensão de Francisco se contornam com os frequentes escândalos de acusação de abusos infantis envolvendo membros da Igreja Católica, incluindo cardeais e a trajetória de cada um. Francisco, hoje de opiniões liberais, fora acusado durante toda a carreira eclesiástica de ser um conservador, porém atento à necessidade da Igreja se adequar aos costumes seculares e a reconhecer os erros que cometeu durante sua trajetória; e Bento, que no início da carreira como teólogo tinha tendências progressistas e libertadoras, mas que acabou tornando-se um conservador de referência na Igreja. A postura de ambos daria o tom do papado de cada um, mas como definir cada um dos papas vivos? São inimigos? Ou suas ideias convergem? Como fica a igreja com dois papas? O senso comum nos leva a pensar que, sim, divergem, mas a história narrada por McCarten em “Dois Papas – Francisco, Bento e a Decisão que Abalou o Mundo” revela que há aspectos na trajetória de ambos que os fieis desconhecem – e que os unem de maneira que não poderíamos imaginar.

Tidos como pontífices “opostos” por suas visões e opiniões sobre o papel da Igreja no Séc. XXI, os dois têm origens distintas na vida, na igreja, nos passos da ascensão eclesiástica e no que acreditam ser obrigação da Igreja quando o assunto é política, mas ganharam notoriedade no Vaticano por obra do mesmo nome: João Paulo II, o homem que os convidou para ocupar cargos importantes na Santa Sé. Com forte referencial histórico, o livro aborda curiosidades sobre o Vaticano, a Cúria, parte do papado de João Paulo II, “o Grande” (assim chamado informalmente), e mergulha nos rituais e tradições católicos, como o Conclave, os Sínodos (reunião magna de bispos com o Vaticano) e os jogos políticos que estão por trás da escolha de um nome para comandar a Igreja. Que mensagem quer passar a Igreja ao mundo? Deveria ela se adaptar à rápida transformação social pela qual passam as nações ou reafirmar as tradições? Como responder ao declive de fieis? São alguns dos desafios do Papado de Francisco, que, hoje, dialoga ativamente com o Papa Emérito Bento XVI – questões essas que tenta responder o livro.

O livro inspirou o filme homônimo da Netflix, Dois Papas, dirigido por Fernando Meirelles, que fez seu lançamento no Brasil, recentemente, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Sobre o autor: Anthony McCarten é escritor, roteirista e produtor neozelandês. Já escreveu diversos livros e peças de teatro, e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado pelos filmes A Teoria de Tudo e O Destino de uma Nação.

Dois Papas – Francisco, Bento e a Decisão que Abalou o Mundo
Autor: Anthony McCarten
Tradução: Carolina Simmer
Editora: Record
Páginas: 252
Preço: R$ 39,90

Produtores e empreendedores do mercado audiovisual terão a oportunidade de apresentar seus projetos a um grupo de players do segmento, no dia 29 de novembro, durante a Rodada de Negócios do Matapi – Mercado Audiovisual do Norte. As inscrições dos produtos são gratuitas e podem ser realizadas, até o próximo dia 11, por meio do site oficial do evento http://bit.ly/369LMDY. Os projetos selecionados, com horários de apresentação definidos pela organização do Matapi, serão divulgados em 18 de novembro via e-mail. Neste ano, o evento está recebendo produtos de toda a Região da CONNE (Centro-Oeste, Norte e Nordeste).

Os encontros com os investidores acontecerão nos espaços do Centro Cultural Palácio da Justiça, localizado no Centro de Manaus. Ao todo, seis players estão confirmados para o evento. São eles: Canal Brasil, Olhar Distribuição, TêmDendê Produções, Taturana Mobilização Social, Canal Curta! e Mov – TV Uol.

Durante a Rodada de Negócios, os participantes terão no máximo 20 minutos para a exposição dos seus projetos a cada investidor.

A Caixa Cultural Rio de Janeiro recebe, de 2 a 10 de novembro, a mostra Domingos. Com curadoria de Fernanda Teixeira e Renata Paschoal, a retrospectiva apresenta um painel com o que há de mais significativo na obra do cineasta carioca Domingos Oliveira, morto em março, aos 82 anos. São 14 longas-metragens, exibidos em formato digital, além de uma leitura dramatizada, um debate e um bate-papo. O projeto acontece no Cinema 2.

A programação reúne marcos da carreira de Domingos Oliveira (1936-2019), como os filmes Todas as Mulheres do Mundo (1966), Separações (2002) e Amores (1998). Um catálogo com fotos e texto inéditos será distribuído gratuitamente para quem comparecer a pelo menos três sessões.

Domingos Oliveira talvez tenha sido o único artista brasileiro a ter uma carreira de destaque em três meios distintos: cinema, teatro e televisão. Ao longo de mais de 60 anos de atuação, Domingos escreveu 28 peças, dirigiu 63, publicou seis livros, lançou seis traduções, dirigiu 19 longas-metragens e participou de quase 50 telefilmes, como roteirista ou diretor. Seus filmes costumavam ser produzidos a partir de suas próprias peças teatrais, mas se destacaram pelo domínio da linguagem cinematográfica.

A mostra terá uma série de atividades extras. A Sessão acessibilidade, por exemplo, vai exibir o filme Aconteceu na Quarta-Feira com audiodescrição (em 5 de novembro) e tradução em Libras (em 8 de novembro). No dia 5 de novembro, após a exibição de Carreiras (2005), haverá ainda um debate sobre cinema independente.

No dia 7 de novembro, a sessão de Feminices (2004) será seguida de um bate-papo com atrizes que atuaram em filmes de Domingos. Já no dia 9 de novembro, após a exibição de Amores, a atriz Maria Mariana, filha do cineasta, fará uma leitura dramatizada do texto do pai Duas ou três coisas que eu sei dela, a vida.

Mostra Domingos
Data: 
2 a 10 de novembro
Local: Caixa Cultural Rio de Janeiro – Cinema 2 (Endereço: Av. Almirante Barroso, 25, Centro – Metrô e VLT: Estação Carioca – (21) 3980-3815
Ingressos: R$ 6,00 (inteira) e R$ 3,00 (meia). Além dos casos previstos em lei, clientes CAIXA pagam meia.
Bilheteria: terça-feira a domingo, das 13h às 20h
Acesso para pessoas com deficiência

Por Maria do Rosário Caetano

O júri internacional da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – formado com a atriz portuguesa Maria de Medeiros, a produtora francesa Xénia Maingot, e os cineastas Lisandro Alonso, da Argentina, e Beto Brant, do Brasil – fez a coisa certa. Premiou três filmes internacionais de altíssima qualidade, com personagens femininas fortes e mulheres em seu comando: o macedônio “Honeyland”, o alemão “System Crasher” e o australiano “Dente de Leite”.

A Crítica também escolheu filmes dirigidos ou codirigidos por nomes femininos: o gaúcho “Aos Olhos de Ernesto”, o cearense “Currais” e o macedônio “Honeyland”, único duplamente premiado. Já o Público guiou-se pelo prazer da cinefilia e consagrou vencedores de Cannes, o sul-coreano “Parasita”, e de San Sebastián, o brasileiro “Pacificado”. Consagrou, também, uma grande causa, o reflorestamento da costa africana, tema de “A Grande Muralha Verde”, e um ídolo do rock brasileiro, que morreu cedo, “Chorão, o Marginal Alado”.

“Honeyland”, de Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov, filme indicado pela Macedônia (ex-Iugoslávia) para disputar vaga no Oscar internacional, é um documentário arrebatador. Sua protagonista, a quase sexagenária apicultora Hatidze, vive numa casa de pedra com sua mãe octogenária, quase cega e doente. O mel de abelha, que extrai de forma artesanal, garante o sustento das duas camponesas solitárias.

Um dia, uma família itinerante, numerosíssima e ruidosa, instala-se no sossegado território de Hatidze. De início, a apicultora anima-se com o casal de vizinhos, seus sete filhos, 150 vacas e motores barulhentos. Até descobrirmos que o modo de vida da família nômade trará grandes mudanças ao ecossistema da região, já estaremos totalmente conquistados por este documentário, que usa, sem parcimônia, recursos do cinema ficcional. O filme é um dos mais cotados ao Oscar de longa documental (e tem chances também no Oscar Internacional).

Os documentários brasileiros “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, “Cine Marrocos”, de Ricardo Calil, e “Meu Nome é Daniel”, de Daniel Gonçalves, os três habilitados a disputar uma vaga no Oscar, têm em “Honeyland” um concorrente peso-pesado, padrão Mohamed Ali. O filme macedônio (do Norte, já que a Macedônia grega conquistou para si o direito de usar o nome sem adjetivo restritivo) mereceu, com louvor, os prêmios do júri oficial e da Crítica.

Uma das cenas mais impactantes de “Honeyland” mostra Hatidze, que aparenta bem mais que seus 50 e poucos anos, numa casa-caverna, pintando os cabelos (escondidos sempre por um lenço) com tinta gerada pela indústria de cosméticos. Não há mulher que resista a este pequeno momento de vaidade num mundo marcado por luta brutal pela subsistência.

“System Crasher”, de Nora Fingscheidt, e “Dente de Leite”, de Shannon Murphy, têm duas meninas como personagens centrais e duas mulheres como diretoras e roteiristas. São filmes de ponta, com presença obrigatória na lista dos melhores apresentados pela Mostra SP 43.

O júri brilhou ao atribuir, ex-aqueo, o Troféu Bandeira Paulista (criação de Tomie Otake) ao alemão e ao australiano. Os dois, aliás, já chegaram a São Paulo com reconhecimento internacional. “System Crasher” ganhou o Urso de Prata em Berlim, em fevereiro último. Perdeu (injustamente, na minha opinião), o Urso de Ouro para “Synonymes”, coprodução entre Israel e França, comandada por Nadav Lapid. Na Mostra paulistana, “Sinônimos” gerou opiniões extremadas (como ocorrera com o estranhíssimo “Touch me Not”, da romena Adina Pintilie, Urso de Ouro em 2018, exibido ano passado pela maratona criada por Leon Cakoff).

O longa germânico exala vitalidade e paixão. Benni, uma garota de nove anos (a carismática Helena Zengel) está sob tutela do Estado, pois um trauma a tornou agressiva e incontrolável. A mãe, que a menina ama, tem dois filhos pequenos e não se sente capaz de cuidar dela (e, ao mesmo tempo, deles).

Nenhum método terapêutico dá jeito na indomável Benni, expulsa de dezenas de escolas. Um jovem professor fará a tentativa mais ousada: levará a garotinha, de pele alva e cabelos louríssimos, para viver experiência rural (ela não pode ser internada em reformatório enquanto não fizer 12 anos). Os 119 minutos do filme voam. Desde “Corra, Lola, Corra”, o cinema alemão não nos apresentava filme tão adrenalinado. E inesperado. Nunca sabemos o que vai acontecer. O final é arrebatador.

“Dente de Leite” foi um dos raros filmes “no feminino” apresentados na competição ao Leão de Ouro em Veneza. Conquistou apenas o Troféu Marcello Mastroianni para ator revelação (o jovem Toby Wallace). Merecia mais. No centro da narrativa, está a adolescente Milla (Eliza Scanlen), menina bem-nascida, que mora numa casa espetacular e estuda em colégio de elite. Ela está com câncer e tem pouco tempo de vida. Os pais (a bela Essie Davis e Ben Mendelsohn) fazem tudo por ela.

Os modernos genitores levam um choque quando Milla apresenta a eles o jovem Moses (Toby Wallace), um pequeno traficante de drogas, todo tatuado e boca-suja. O rapaz, de 21 anos, injeta, por vias tortas, energia e vontade de viver na burguesinha Milla. O filme não dá lições de moral, nunca apela à pieguice e tem a petulância do melhor cinema australiano. E faz da música, profissão da mãe e objeto de estudo da filha, um “personagem”. E, para tornar a trama ainda mais viva, há que se destacar uma vizinha maluquete, bem-resolvida e grávida. Em seu primeiro longa, Shannon Murphy, uma diretora de teatro globe trotter, revela-se uma cineasta das mais instigantes, que deve ser acompanhada bem de perto.

A ficção gaúcha “Aos Olhos de Ernesto” rendeu o Prêmio da Crítica a Ana Luiza Azevedo, autora do melhor filme brasileiro (sem separação entre documentário e ficção). Roteirista tarimbada, diretora de vários curtas e que comandara apenas um longa-metragem (“Antes que o Mundo Acabe”, 2010), Ana Luiza espanta pela maturidade. Seu novo filme não é inovador. Quem prefere obras mais ousadas (ou experimentais) poderá tachá-lo de “clássico demais”. E até dizer que parece um representante do “minimalismo melancólico uruguaio”, que fez de “Whisky” (Stoll e Rebella, 2003) seu exemplar paradigmático.

A cineasta, que escreveu o roteiro com o amigo e sócio (na Casa de Cinema de Porto Alegre) Jorge Furtado, não há de ofender-se com a comparação. Tanto que convocou para coprotagonizar o filme um dos atores de “Whisky”, Jorge Bolani, o “uruguaio-paulista” que vai visitar o irmão interpretado por Andrés Pazos e conhecer a companheira deste, a tímida personagem de Mirella Pascual. Há, ainda, no filme, outro hispano-americano, o argentino Jorde D’ Elia (de “O Abraço Partido” e que fez participação especial no brasileiro “Vips”, de Toniko Melo).

“Aos Olhos de Ernesto” corre suave ao longo de seus 124 minutos. E vai nos envolvendo com a história do septuagenário Ernesto, um uruguaio radicado em Porto Alegre, que enxerga cada vez menos. Aposentado com baixos vencimentos, ele vive sozinho e recebe raras visitas do filho, ocupadíssimo e “paulista”, interpretado por Júlio Andrade.

Um dia, entra na vida de Ernesto uma jovem passeadora de cachorros (Gabriela Poester), sem grana, sem rumo e com um namorado bem esquisito. A moça, que comete pequenas transgressões, acabará injetando vida na melancólica existência de Ernesto. O “melancólico” aqui fica por conta do personagem uruguaio, pois os brasileiros da trama são ativos e meio destrambelhados.

Na deliciosa trilha sonora, Caetano Veloso interpreta “Un Vestido y un Amor”, de Fito Paéz, parte de seu antológico e obrigatório álbum “Fina Estampa” (1994). Quem aprecia o cinema argentino-e-uruguaio (pelo menos aquele narrativo, com personagens bem-construidos, humor fino e ótimos atores), vai encantar-se com “Aos Olhos de Ernesto”, o nosso assumido similiar do “minimalismo melancólico” uruguaio (só que, no caso gaúcho – registre-se – com baixa dosagem de melancolia).

O Prêmio Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), destinado a filmes de diretores estreantes, escolheu o híbrido de documentário e ficção cearense “Currais”, de Sabina Colares e David Aguiar, realizado com apoio de projeto audiovisual do Itaú Cultural. O filme registra “campos de concentração” de flagelados da seca de 1932, criados para impedir que “hordas de miseráveis” invadissem a então pacata e provinciana capital do Estado, Fortaleza. Um projeto assumidamente eugenista. Para os pobres, currais isoladores.

O público, ao contrário do júri oficial e da Crítica, não premiou nenhum filme dirigido (nem codirigido) por mulher. Mas, convenhamos, fez sólidas escolhas. Como resistir à Palma de Ouro cannoise “Parasita”, o mix de horror e drama social, temperado com ação, do coreano Bong Joon-ho?

Um dos mais inventivos misturadores de gêneros cinematográficos da atualidade, o diretor de “O Hospedeiro” e “Okja” conseguiu recriar com rara habilidade (e altíssimas doses de imaginação) um clássico do cinema de seu país, “Hanyo, a Empregada” (Kim Ki-Young, 1960). Fez um filme que agrada aos críticos e inflama plateias orientais e ocidentais.

Duas das outras escolhas dos cinéfilos, que frequentam a Mostra há 43 anos, merecem comentário à parte: “Pacificado”, escolhido melhor ficção brasileira, e “A Grande Muralha Verde”, melhor documentário internacional.

O que os filmes do norte-americano Paxton Winters e do britânico Jared P. Scott têm em comum?  O DNA brasileiro (mesmo caso de “Dois Papas”, de Fernando Meirelles, e “Wasp Network”, de Olivier Assayas). “Pacificado” é o primeiro longa-metragem de um repórter-cinegrafista nascido e criado nos EUA, e que radicou-se no Brasil há sete anos. Com Wellington Magalhães, um carioca da gema (e do Morro dos Prazeres), ele escreveu história 100% brasileira, falada em português carregado de gírias e convocou elenco quase todo black e brasileiríssimo (Bukassa Kabengele, a impressionante pré-adolescente Cássia Gil, a bela Débora Nascimento, mais Lea Garcia, Jefferson Brasil, José Loreto e Rod Carvalho).

Na produção, norte-americanos (entre eles Darren Aronofsky) e brasileiros (Marcos Tellechea e Paula Linhares). Sim, há dinheiro made in USA na jogada, mas o filme é fruto de bem-sucedida coprodução. Tão bem sucedida, que os norte-americanos, acostumados a colocar todo mundo (seja japonês ou boliviano, russo ou árabe) falando inglês, respeitou o idioma e a cultura do grupo social retratado. E Paxton soube construir trama envolvente portagonizada por uma garota da favela em busca do pai e ex-presidário (“ex-dono” do Morro dos Prazeres), decidido a abandonar o crime. Sua narrativa pulsa ao longo de 100 minutos, sem nenhum exotismo.

Quem acompanha a trajetória de Fernando Meirelles, cineasta e produtor (da poderosa O2) sabe o quanto de dedicação ele deu ao documentário “A Grande Muralha Verde”, do britânico Jared P. Scott. Produtor executivo do filme, o brasileiro mantém imensa afinidade com este longa-metragem. Respeitadíssimo na Inglaterra, um dos poucos países estrangeiros que amou “Cidade de Deus” (e lhe deu boa receptividade crítica e de público), Meirelles tem na causa do meio-ambiente sua maior paixão política. Quando os anglo-saxões o convidaram a assumir a produção executiva da “Muralha Verde”, ele o fez com empenho cívico. E contou à Revista de CINEMA, ao retornar de viagem à África, que não mediria esforços para ajudar na realização do filme de Scott.

E, afinal, o que mostra o longa que o público da Mostra SP elegeu como “melhor documentário internacional”?  Mostra a cantora e ativista Inna Modja, do Mali, em jornada épica pela chamada Grande Muralha Verde da África. E o que vem a ser isto? A resposta é desafiadora: uma iniciativa das mais ambiciosas, que se propõe a fazer brotar um “muro” de 8 mil km. Não um muro de cimento ou cerca de arame farpado, mas sim uma muralha de árvores, capaz de revitalizar toda a costa africana. Revitalizar a terra, a flora, a fauna e, o principal, a vida dos povos que ali habitam. O filme passa pelo Senegal, Mali, Nigéria, Níger e Etiópia.

O público da Mostra premiou, também, “Chorão, o Marginal Alado”, do paulistano Felipe Novaes, como o melhor documentário brasileiro. O longa teve sessões lotadas por fãs fervorosos do líder da banda Charlie Brown Jr, Alexandre Magno Abrão, o Chorão (1970-2013), morto aos 42 anos, de overdose de cocaína. Meses depois morreria, por suicídio com arma de fogo, Champignon, outro integrante do grupo musical nascido e consolidado no eixo Baixada Santista-São Paulo.

A Mostra abriu espaço nobre para o Instituto Olga Rabinovich premiar um filme ainda em fase de construção de roteiro. O escolhido foi “O Campo dos Lobos Guarás”, dos brasileiros Bárbara Cunha e Paulo Caldas. A dupla, que fez jus ao Prêmio Projeto Paradiso, participou da maratona paulistana com dois filmes: “Flores do Cárcere” (dirigido por ambos) e “Abismo Tropical” (dirigido por Paulo, co-roteirizado e produzido por Bárbara). Os dois devem voltar ano que vem, com seus lobos guarás.

Confira todos os premiados:

. “Honeyland”, de Tamara Kotevska  Ljubomir Stefanov (Macedônia do Norte) – melhor documentário pelo júri oficial, Prêmio da Crítica (melhor filme internacional)

. “System Crasher”, de Nora Fingscheidt (Alemanha), e “Dente de Leite”, de Shannon Murphy (Austrália) – melhor ficção internacional (ex-aqueo)

. “Aos Olhos de Ernesto”, de Ana Luiza Azevedo (Rio Grande do Sul) – Prêmio da Crítica de melhor filme brasileiro

. “Currais”,de David Aguiar e Sabina Colares (Ceará) – Prêmio Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) para filmes de diretores estreantes

. “Chorão, o Marginal Alado”, de Felipe Novaes (São Paulo) – Melhor documentário brasileiro pelo júri popular

. “Pacificado”, de Paxton Winters (Brasil/EUA) – melhor ficção brasileira, pelo júri popular

. “A Grande Muralha Verde”, de Jared P. Scott (Inglaterra) – melhor documentário internacional

. “Parasita”, de Bong Joon-ho (Coréia do Sul) – melhor filme internacional pelo júri popular

. “O Campo dos Lobos Guarás”, de Bárbara Cunha e Paulo Caldas (Brasil) – Prêmio Projeto Paradiso, do Instituto Olga Rabinovich (para filmes em fase de roteiro)