Durante os debates que movimentaram a Assembleia Constituinte de 1988, um jovem índio subiu à tribuna e, ao invés de recorrer a discurso verbal sobre as dificuldades vividas por seu povo, preferiu fazer uma performance. Passou grossas camadas de tinta de jenipapo sobre seu rosto. 28 anos depois, estas imagens – do índio Ailton Krenak, hoje com 63 anos – voltam a causar funda emoção, pois ganharam nova vitrine: o épico indígena “Martírio”. Disponíveis no Youtube, elas podem ser acessadas por quem assim o desejar. E quem quiser saber mais sobre a trajetória de Ailton Krenak verá, em breve, um documentário inteiro dedicado a ele – “Ailton Krenak, o Sonho da Pedra”. O cineasta carioca Marco Altberg realiza, para o Canal Curta!, filme que mostra a trajetória do líder indígena, um dos maiores propagadores das causas dos povos originários. Altberg assinou, com Ailton, a série “Taru Andé – O Encontro do Céu com a Terra”, exibido no canal Futura, em 2006, e vencedora do prêmio de melhor série ambiental no FICA Goiás. O realizador carioca iniciou-se na produção de conteúdos audiovisuais de temática indígena em 1974, com o curta “Noel Nutels”. Para ele, “enquanto o Brasil não se conciliar no respeito e reconhecimento à nossa ancestralidade, essa sombra ficará estacionada sobre nossas cabeças”.

O cinema brasileiro, depois de ser ignorado pelo colegiado que elege os finalistas aos Prêmios Platino, mostra sua vitalidade no Prêmio Fênix, também dedicado à produção que fala espanhol e português. Dia 7 de dezembro, na cidade do México, três filmes brasileiros marcarão presença nas mais importantes categorias do Fênix: os pernambucanos “Aquarius”, de Kleber Mendonça, e “Boi Neon”, de Gabriel Mascaro, disputarão o troféu de melhor ficção e melhor direção. Sonia Braga concorrerá a melhor atriz (“Aquarius”). “Cinema Novo”, de Eryk Rocha, disputará o Fênix de melhor documentário. Os três filmes enfrentarão concorrentes de peso. Na ficção, figuram o vencedor de Veneza 2015, “De Longe te Observo”, do venezuelano Lorenzo Vega, o argentino “O Clã”, impressionante thriller político-policial de Pablo Trapero, a criativa cinebiografia de “Neruda”, do chileno Pablo Larraín, e o belíssimo “A Morte de Luís XIV”, do espanhol Albert Serra. Correndo por fora, como azarão, o mexicano “Te Prometo Anarquia”, de Júlio Condón. Os rivais de “Cinema Novo”, premiado com o “Olho de Ouro” em Cannes, também são potentes. O argentino “327 Cuadernos”, de Andres di Tela, é um fascinante mergulho na obra do escritor Ricardo Piglia. “Tempestad”, de Tatiana Huezo, acredita na força das imagens para criar perturbador retrato da violência no México. “Todo Comenzó por el Fin”, do colombiano Luiz Ospina, é uma imensa (quase 4 horas) revisitação dos loucos anos em que Medelín era a capital do narcotráfico, mas era também o berço de cineastas e escritores rebeldes. E, por fim, “El Viento Sabe que Vuelvo a Casa”, de Torres Leiva, premiado no Olhar de Cinema curitibano, poético registro da viagem de um cineasta ao encontro de ilhéus (muitos de origem indígena) chilenos.

O Festival de Gramado vem cumprindo, como nenhum outro festival brasileiro, o papel de ponte entre o cinema hispano-americano e o cinema brasileiro. Com sua Mostra Latina e o prêmio Kikito de Cristal, destinado a uma personalidade cinematográfica da América Latina, joga luz sobre o cinema de nossos vizinhos. Dois atores premiados em Gramado – o argentino Jean-Pierre Noher, de “Um Amor de Borges”, e o uruguaio Cesar Troncoso, de “O Banheiro do Papa” – tornaram-se crédito garantido em filmes e telenovelas brasileiros. Agora, um nome feminino inicia promissora carreira por aqui: a atriz (e cineasta) uruguaia Verónica Perrota. Ela codirige o longa “Las Toninas Van al Este”, pelo qual ganhou, por seu excelente desempenho, o Kikito de melhor atriz latina. No mês seguinte (outubro), conquistou, no Festival do Rio, o Redentor de melhor coadjuvante por “Mulher do Pai”, primeiro longa da realizadora gaúcha Cristiane Oliveira.

Dois outros atores que causaram sensação em Gramado merecem espaço nos créditos de nossos filmes, telenovelas ou séries. Caso do paraguaio Emílio Barreto, notável protagonista de “Guarany”, papel que lhe rendeu o Kikito de melhor intérprete latino. O outro é o costarriquenho Leynar Gómez, que passou por Gramado com “Presos”, um drama penitenciário cheio de energia. Leynar ainda não chamou atenção de nenhum produtor brasileiro, mas atraiu atenção do carioca (radicado nos EUA) José Padilha, que o convocou para contracenar com Wagner Moura na segunda temporada da série internacional “Narcos”. Em breve, o Brasil verá outra grande estrela argentina – Soledad Villamil (do oscarizado “O Segredo dos seus Olhos”) – num filme brasileiro: “Meu Mundo Não Cabe nos seus Olhos”, do gaúcho Paulo Nascimento. Só que a grande atriz, também cantora, ainda não passou por Gramado.

O Prêmio Almanaque desta edição vai para o cineasta Vincent Carelli, criador do projeto Vídeo nas Aldeias e dos épicos “Corumbiara” (2009) e “Martírio” (2016). Estes filmes compõem as primeiras partes de trilogia que se complementará com “Adeus, Capitão”, título que se anuncia explosivo. Afinal, o realizador brasileiro de 63 anos, nascido na França, vai mergulhar em histórias de índios “milionários”. Ou seja, aqueles que, desde os anos 1960, receberam grandes indenizações.

O tom explosivo de “Martírio” nos estimula a esperar outro épico mobilizador. “Corumbiara” começa em 1985, numa gleba, em Rondônia, onde houve massacre de índios. Dez anos depois, o cineasta regressou ao local. E saiu em busca insana por um índio isolado. Com “Martírio”, Carelli registra a tragédia cotidiana do povo Guarani Kaiowá. Se os povos da Amazônia e do Xingu têm territórios para viver, o mesmo não se dá com os Guarani Kaiowá. Estes sobrevivem em Estado da Federação que é o epicentro do agronegócio (MS) e necessitam enfrentar a fúria diária de fazendeiros e parlamentares unidos sob a bandeira da União Democrática Ruralista.

Ao longo de 2h40’, vemos uma espécie de “western” caboclo. Forças poderosas (governador, senadores, deputados, fazendeiros e empresas de segurança) unidas para exterminar os índios e ampliar seus negócios (e eternos poderes). Nunca, em nenhum filme brasileiro, se viu o Parlamento (ou parte significativa dele) tão exposto quanto em “Martírio”. O filme dessacraliza o Marechal Rondon, mostra índios arregimentados pelo Governo Militar para ajudar em práticas de tortura, faz recuo histórico até a Guerra do Paraguai, mergulha no ciclo econômico da Erva-Mate, para que conheçamos a origem de tão sanguinária luta pela posse da terra, e mostra a resistência da língua guarani. E mais: apresenta imagens feitas pelos próprios índios equipados (pelo Vídeo nas Aldeias) com pequenas câmaras. Antes, ouvíamos os índios dizerem que pistoleiros atiravam neles para arrancá-los de seus pequenos nacos de terra. Mas nada víamos. Em “Martírio”, assistimos aos índios gritando e filmando sob o pipocar de armas a serviço da UDR.

O belíssimo filme “Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo” (2009), de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, ganha uma versão impressa, publicada pelo selo editorial do Sesc. O livro reproduz, em forma de diário poético, ilustrado com belíssimas fotos do sertão nordestino e seus habitantes, a viagem de um geólogo pelo interior do nordeste.

A jogada do filme, que o torna uma obra bem diferenciada no cinema, é uma proposta de separar o sujeito de seu objeto, onde não vemos o personagem, só seu ponto de vista pela longa jornada e sua reflexão existencial, confessional, diante de uma paisagem passageira com o qual não dialoga. O sentido do filme vem dessa junção entre o mundo da existência e o mundo das coisas.

O livro foi concebido pelo artista plástico Artur Lescher, sob coordenação de Daniela Capelato e João Junior, e acompanha o DVD do filme.