O 1º Festival de Cinema de Lajeado, que ocorrerá nos dias 30 e 31 de março e 1º de abril de 2017, no teatro do Centro Cultural da Univates, no Rio Grande do Sul, abriu as inscrições, até 19 de novembro, através do site www.festivaldecinemadelajeado.com.br. As inscrições para a mostra competitiva poderão ser realizadas pelos correios.

Podem participar pessoas físicas, profissionais ou amadoras. Cada concorrente poderá inscrever até dois trabalhos de curta-metragem, como realizador ou diretor. Os filmes podem ser produzidos em coautoria, mas deverão ser inscritos no nome de apenas um dos autores. As obras deverão ter até 25 minutos, incluindo os créditos, e precisam ter sido produzidas no período compreendido entre janeiro de 2014 e a data de inscrição. Os filmes cujo idioma não é o português, deverão ser legendados ou dublados na língua. Após a inscrição, nenhum membro poderá ser acrescentado ou substituído do grupo. Alterações também não serão aceitas nas obras. Não serão aceitas inscrições de filmes institucionais ou publicitários.

A pré-seleção ocorrerá a partir do dia 21 de novembro. Nesta etapa, serão selecionados, no mínimo, 50 filmes. O trabalho de seleção será finalizado até 21 de dezembro, mas a lista dos classificados para a fase eliminatória será divulgada somente no dia 20 de fevereiro, na página do festival e para o e-mail do inscrito.

O festival contará com uma mostra competitiva e outra não-competitiva. A mostra competitiva será composta por quatro categorias: animação, documentário, experimental e ficção.

Os vencedores da mostra competitiva receberão premiação em dinheiro e o troféu Exportando Belezas, este, uma miniatura do Viaduto 13, na cidade de Muçum, um importante ponto turístico do Estado por ostentar o título de o mais alto das Américas. Já a premiação em moeda dará R$ 1,2 mil para o melhor curta do festival. Melhor curta de animação, melhor documentário, melhor curta experimental, melhor curta ficção receberão R$ 1 mil. E o melhor curta temático (Belezas Naturais), R$ 500.

Por Maria do Rosário Caetano, de Gramado

O ator argentino-brasileiro FÁBIO MARCOFF (foto) é dono de raro senso de humor. Ele, que disputa o Kikito de ator protagonista por EL MATE, dirigido por Bruno Kott, e coadjuvante por O ROUBO DA TAÇA, de Caíto Ortiz, avisou (e arrancou tantas risadas quanto suas participações nos dois filmes) que, se ganhar o troféu KIKITO, vai derretê-lo e devolver a Taça Jules Rimet aos brasileiros. A brincadeira nasce, claro, de seu papel no filme de Caíto Ortiz, que estreia na próxima semana. Afinal, com enorme peruca, ele interpreta o argentino que atuou como receptador da taça Jules Rimet, roubada da sede da CBF, em 1983.

Em EL MATE, Marcoff interpreta um argentino que se expressa na totalidade de seus diálogos em espanhol portenho. Já no O ROUBO DA TAÇA, ele fala “portunhol”. O cineasta e ator Bruno Kott, de 33 anos, dirigiu o ator argentino, de 51, em série para o Canal Brasil (O DIVÃ DO DR. KURTISMAN). Da grande amizade dos dois, nasceu o desejo de fazer um filme escrito por ambos. Pois EL MATE tem a dupla MARCOFF-KOTT na função de roteiristas e protagonistas. O filme, que custou apenas R$ 300 mil, nos motiva a prestar atenção em futuros trabalhos do cineasta, por seu humor e senso anárquico. O talento histriônico de Fábio Marcoff é contagiante.

O diretor é, também, um bom ator. Quando elaborar mais seus roteiros e tiver o que dizer, fará filmes de grande valor. Desta vez, em 70 minutos e inspirado nos filmes de Tarantino (ele prefere dizer que seu diálogo se dá mais com os Irmãos Coen), Bruno Kott cria narrativa promissora. Um marginal portenho guarda, numa determinada casa, um homem de origem russa, que será entregue a quem fez a “encomenda”. A história, marcada no relógio, se passa num único dia (de manhã até altas horas da madrugada). Outros personagens vão se inserir nesta locação única: um jovem pregador evangélico (o próprio Kott), um funcionário da Sabesp (Eduardo Gomes, de “Sinfonia da Necrópole”), duas fogosas mulheres dispostas ao prazer e ao sexo (Carlota Joaquina e Michelle Boesche), o mafioso (Rodrigo Fregon) e seu motorista (Mauro Vedia).

Dois ingredientes perturbam a narrativa que, por mais anárquica que seja, trabalha com elementos realistas (a marca temporal e os serviços públicos paulistanos). O funcionário da Sabesp (Serviço de Água e Esgoto de SP) vai fiscalizar o relógio da residência, uniformizado, já noite, fechada. Quem conhece o funcionalismo público sabe muito bem que estes serviços são prestados em horários burocráticos. O personagem ARMANDO (Fábio Marcoff) é muito bem desenhado, seus diálogos são saborosos e o ator, muito carismático. Já o personagem de Bruno Kott (o pregador evangélico) fica à deriva e não consegue estabelecer um perfil orgânico. O ator-diretor, muito simpático e atento ao debate, admitiu que seu pregador funciona como “escada” para as graças do argentino. Mas defendeu-se dizendo que queria que seu personagem fugisse do estereótipo do evangélico que vemos na mídia e na TV e que, como realizador e roteirista, quis subverter a gramática da narrativa realista. Neste caso, deveria ter apagado marcas temporais rígidas e também evitado siglas como Sabesp e assemelhadas.

O filme, uma comédia de erros, conta com fecho arrebatador: um “tanguero” canta CAMBALACHE, de Enrique Discépolo, o maior clássico – na verdade um hino – da marginalidade portenha (e latina). É animador ver um jovem cineasta, em seu longa de estreia, dialogando de forma tão apaixonada com a América Hispânica. Filmes como EL MATE e como O SILÊNCIO DO CÉU (este de Marco Dutra, produzido por RODRIGO TEIXEIRA) mostram que, finalmente, o cinema brasileiro une as América Hispânica e Lusitana de forma orgânica, sem esperar que dinheiros dos dois países se juntem.

E VALE registrar fala de TEIXEIRA, no debate de O SILÊNCIO DO CÉU, depois de lembrar que ele se iniciou na produção cinematográfica brasileira com a adaptações de obras literárias nacionais e, depois, rumou para os EUA, onde estabeleceu parcerias no cinema independente, com sucessos como FRANCES HA e A BRUXA. Agora, finalmente, produziu o denso filme de MARCO DUTRA a partir de romance argentino, com dois protagonistas portenhos (Leo Sbaraglia e Chino Darín), com locações em Montevideo e com duas atrizes (Carolina Dieckman e Paula Cohen) e dinheiro 100% brasileiros. A FALA de TEIXEIRA, NO DEBATE: “Produzi, para a HBO, a série O HIPNOTIZADOR, na qual se falava espanhol ou português, sem que nos preocupássemos com isto. Vamos agora para a segunda temporada. No nosso filme, também se fala espanhol e português e temos atores de três países – Argentina, Brasil e Uruguai. E vamos estabelecendo novas parcerias”.

Por Maria do Rosário Caetano, de Gramado

Dois atores, um brasileiro-boliviano, FERNANDO ARZE, e a boliviana DANIELA LEMA (foto), representaram o filme CARGA SELLADA (CARGA INVIOLÁVEL), de JULIA VARGAS. O filme representa a Bolívia na mostra competitiva de Gramado. O elenco, mobilizado por Júlia, fotógrafa, formada na Suíça e muito reconhecida em seu país, compõe uma verdadeira OEA (Organização dos Estados Americanos) cinematográfica. O protagonista, Gustavo Sanchez Parra, é mexicano. Ele interpreta Mariscal, capitão da Polícia Nacional, a quem cabe levar carga tóxica, num trem, rumo ao Altiplano. Um de seus auxiliares é Gonzalo Cubero, ator venezuelano (também é venezuelana a atriz Prakti Maduro, que interpreta a fútil mulher do capitão). O condutor da locomotiva é boliviano (Luis Bredow), assim como Daniela, que interpreta jovem de origem indígena, que entra furtivamente no trem, para participar de toda a complicada aventura. Coube ao brasileiro (nascido na Bolívia) FERNANDO ARZE completar o time.

No palco do Palácio dos Festivais, Fernando impressionou a todos por seu português perfeito. No debate do filme, ele explicou por que fala tão bem nosso idioma. “Nasci na Bolívia, mas mudei-me para o Rio de Janeiro, aos dez anos. Fiz teatro, pequenos papéis em novelas na Globo e Record e cinema (interpretou o namorado de Ney Matogrosso no filme “O Primeiro Dia de nossas Vidas”, de Domingos Oliveira) até três anos atrás, quando voltei à Bolívia”. O ator, que estudou Teatro em Nova York, contou que as filmagens de CARGA SELLADA aconteceram no inverno, sob temperaturas baixíssimas: “estávamos a 4 mil metros de altura e chegamos a enfrentar gravações com os termômetros marcando 15 graus negativos”.

Um dos temas recorrentes no debate do filme, uma coprodução que uniu a Bolívia ao México, Venezuela e França, foi a introdução do elemento fantástico. Afinal, este “locomotiva-movie” mostra populações nativas do Altiplano boliviano enfrentando os policiais que levam a carga tóxica para descarte nas montanhas. Mas mostra também “diablos” (deuses indígenas) unidos contra a contaminação das terras e águas bolivianas. Os dois atores explicaram que JULIA VARGAS é uma “pessoa muito espiritualizada” e que ama e respeita a cultura dos povos do Altiplano. Por desejo dela, haveria ainda mais inserções “espirituais” na narrativa. Mas os montadores (Miguel Peres e Daniel Prync) e também os produtores, em nome do ritmo do filme (que dura 107 minutos), sugeriram cortes. E foi a parte fantástica que, mesmo filmada, perdeu espaço na narrativa.

Por Maria do Rosário Caetano, de Gramado

Um ator paraguaio, EMILIO BARRETO, de 76 anos, encantou Gramado e foi aplaudido com entusiasmo no debate do filme GUARANÍ, de Luis Zorraquín. Ao falar do veterano intérprete, o produtor Esteban Lucangioli (que faz também participação como ator no filme) chorou de emoção. Emílio protagoniza, ao lado da pré-adolescente Jazmín Bogarin, este “river movie (em águas caudalosas do Rio Paraná) que se transforma num “road movie”.

A trama rarefeita deste belo diálogo com o cinema documental percorre 1.100 km, indo de um pequeno vilarejo paraguaio até a periferia de Buenos Aires. GUARANÍ é o longa de estreia de Zorraquín, jovem cineasta argentino, que aproveitou a excelente repercussão de “7 CAIXAS”, o maior blockbuster da história do Paraguai, para realizar esta coprodução entre seu país e o do ator Emilio Barreto. Mas a alma do filme é mesmo paraguaia. Além dos dois protagonistas, o filme resulta em generoso canto de amor a este país que, no Séc. XIX, perdeu 70% de sua população masculina na Guerra da Tríplice Aliança contra Solano Lopez e que hoje é visto, por brasileiros inclusive, como terra de contrabandistas.

Em GUARANÍ, encontramos Atílio (Emilio Barreto), um pescador que vive com algumas de suas filhas e a neta Iara (Jazmín Bogarín) à beira do rio. A mãe de Iara foi buscar trabalho em Buenos Aires. O avô, que cria a garota como um menino (que o ajuda nos afazeres do pequeno barco de pesca), mexe na mochila dela e descobre que a filha-migrante espera um filho homem. Resolve, então, ir de barco com a neta até Buenos Aires. Mas o motor da embarcação pifa e eles não têm dinheiro para o conserto. Resolvem seguir rumo à capital argentina de ônibus, carona, o que for. Esta travessia é a alma do filme. No longo caminho fluvial e terrestre, os dois encontram pessoas as mais diversas, generosas e dispostas a ajudar no que for possível. Ninguém espere deparar-se com o Paraguai do estereótipo, povoado por malfeitores. A recepção ao filme nos festivais é motivo de alegria para o diretor e o produtor e de júbilo para EMILIO BARRETO (na foto, vemos Zorraquín, Emílio, com a bandeira do Paraguai, e Lucangioli).

TREZE ANOS PRESO – O ator, com sólida carreira no teatro, sonhou estudar Arte Dramática em São Paulo ou Buenos Aires, mas não pôde. Depois de citar o conterrâneo Augusto Roa Bastos, maior ficcionista do país (“A desgraça se enamorou do Paraguai desde o século XIX”), Emilio contou que passou 13 anos encarcerado como preso político durante da ditadura Stroesner. Para fugir da “loucura do encarceramento”, fez teatro com os colegas presos. GUARANÍ é seu terceiro filme (os anteriores são “El Invierno de Gunther” e “Requiem por un Soldado”, este sobre a Guerra do Chaco, que antagonizou Paraguai e Bolívia, em disputa por petróleo). Para dar credibilidade ao pescador Atílio, ele mergulhou no meio de pescadores guaranis, estudou seus gestos e falas. A qualidade de seu trabalho foi muito reconhecida ao longo do debate. O diretor ZORRAQUIN justificou sua opção pelo viés humanista de sua narrativa: “Claro que existe um lado escuro no Paraguai, como em muitos outros lugares. Optar por este lado escuro seria mais fácil e venderia mais. Só que a mim interessavam os conflitos internos dos personagens. Foi neles que investimos”.

O filme já foi lançado na Argentina, com resultado regular. Estreia hoje (1º de setembro) em um bom número de salas, em solo paraguaio. Um feliz EMILIO BARRETO, que expôs orgulhosamente a bandeira paraguaia no palco do Palácio dos Festivais e nas fotos que se seguiram ao debate (ele a traz guardada no bolso) torce para que seus conterrâneos prestigiem este filme tão generoso e respeitoso com a cultura paraguaio-guarani. Aliás, falado majoritariamente em guarani (Atílio só aceita se expressar neste idioma) e, minoritariamente, em espanhol.

Por Maria do Rosário Caetano, de Gramado

A cineasta ELIANE COSTER (de óculos, com sua produtora RAFAELLA COSTA) participa de Gramado com seu novo curta SUPER OLDBOY e avisa que está com seu primeiro longa (MEIO-IRMÃO) em processo. Mais um nome feminino que chega para a galeria de REALIZADORAS que estreiam, agora com frequência animadora, depois de décadas cumprindo papel secundário. Para seu curta, ELIANE convidou um time de “atores” da pesada: o protagonista Jorge Cerutti, a vistosa Elke Maravilha (que não viu o filme pronto, pois adoeceu e faleceu há poucas semanas), o professor, cineasta e roteirista Jean-Claude Bernardet (desta vez, deixando seu sotaque francês de lado), os cartunistas Luiz Gê e LAERTE, o técnico José Luiz Sasso e o cineasta FERNANDO COSTER, autor do ultra-inventivo AMASSA QUE ELAS GOSTAM. Sim, neste filme, Fernando desempenha um papel coadjuvante e assina a montagem.

O filme, que mistura atores e animação, conta a história de BIL e um time de motoboys, ou melhor, OLDBOYS, pois todos têm mais de 60 anos e trabalham numa firma que usa seus direitos (não pagar passagem de ônibus e entrar na fila dos idosos quando forem aos bancos) para empregá-los. BIL tem paixão por HQ que narra as aventuras de SUPER OLDBOY, um herói idoso. Um dia, numa fila de banco, ele acaba se envolvendo em inusitado assalto.

No debate do filme, ELIANE contou que o irmão FERNANDO, apaixonado por quadrinho e cinema de animação como ela, desde a pré-adolescência, “tomou bode” de seu ofício e parou de dirigir curtas. Há 13 anos, desde o triunfo de AMASSA QUE ELAS GOSTAM, ele não assina um filme. Mas deve voltar em breve. E agora com um longa-metragem.

Detalhe importante: a parte de animação do filme SUPER OLDBOY não foi feita por Fernando Coster, mas sim pelo marido da cineasta, Roberto Eiti Hukai. E a grávida que aparece na fila PREFERENCIAL do banco foi inspirada na própria Eliane. “Eu estava grávida, fui ao banco pagar uma conta e havia um motoboy (um oldboy) fazendo serviço da FIRMA. Ou seja, pagando centenas de contas. Fiquei indignada, fui ao gerente e reclamei. E recriei esta situação no meu filme”.