Estão abertas as inscrições para oficinas gratuitas de cinema da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Até o dia 7 de janeiro, os interessados devem preencher formulário disponível no site oficial do evento, www.mostratiradentes.com.br, e aguardar o prazo de seleção. São 10 modalidades com 280 vagas no total, atendendo a públicos e interesses diversos. Como ocorre a cada ano, a Mostra Tiradentes aposta na formação e capacitação técnica para o mercado de cinema e oferece oportunidades para nova geração.

A tradicional oficina de “Realização em Curta Digital”, ou Oficina do Bigode (apelido do instrutor, o cineasta Luiz Carlos Lacerda), é uma das mais concorridas. Neste mini-curso, o aluno faz parte de uma equipe que tem a oportunidade de fazer um curta-metragem, aprendendo todas as etapas do processo. Pela Oficina do Bigode já passaram alunos que se tornaram cineastas bem-sucedidos, como o carioca Bruno Safadi. São 35 vagas, a partir de 18 anos.

Outras oficinas que tem o propósito de “colocar a mão na massa” no mundo do cinema são dos instrutores Di Moretti, Joel Pizzini e Beto Strada. O cineasta Joel Pizzini vai ministrar a oficina de “Conceitos e Práticas de filme-ensaio, uma abordagem em construção”; já Moretti vai ministrar a oficina de “Roteiro Avançado” que enfocará temas com exercícios práticos para a confecção de roteiros cinematográficos. Devido a grande demanda por uma oficina técnica com enfoque no som para cinema, a Mostra, pela primeira vez, oferece a oficina “O Som em Cena”, ministrada pelo músico e compositor Beto Strada, que vai apresentar a música e suas técnicas de composição.

Para os interessados em interpretação, a dica é a oficina “Ator, o espelho da cena”, com o instrutor Glauco Witenburg. O objetivo é apresentar e aplicar a atores e diretores profissionais ou iniciantes o método de análise ativa, ferramenta elemental para o trabalho tanto no teatro, como no cinema e TV.

Duas oficinas estão mais voltadas para o mercado de cinema: “Produção Executiva – Gestão de projetos audiovisuais”, com o instrutor Edileis Ferreira Novais. Para adolescentes e jovens, a pedida é o curso de “Criação e Produção de GIFs Animados”, com Henrique Kopke, pensando o GIF como uma nova modalidade das imagens em movimento e sua relação com o cinema. Já para quem curte a prática de registrar fatos e imagens, a opção é a oficina“Jovem Repórter”, que será ministrada pelo Marcelo Cavalieri.

E a criançada que for curtir as férias na Mostra Tiradentes, além de participar das sessões de cinema, podem se inscrever em oficinas de cultura. Para a faixa etária de 10 a 14 anos, a opção é a oficina “Cinema e Artes Plásticas: Meu Super herói” que será ministrada pela artista plástica Daniela Penna.

 

A mais significativa manifestação do vínculo das film commissions (FC) com os produtores audiovisuais na América Latina foi a importância dada ao assunto no recente Fórum EGEDA-FIPCA do Audiovisual Ibero-americano, em Santo Domingo, na República Dominicana, em novembro, que reuniu os principais agentes do setor audiovisual ibero-americano, para debater e planejar as posturas do setor em relação aos principais desafios da região. No painel “As film commissions e sua contribuição ao desenvolvimento da indústria audiovisual”, conduzido pelo presidente da Associação de Produtores do México, Gonzalo Elvira, além de Steve Solot e representantes de FCs da Espanha, México e outros países, os panelistas explicaram como as FCs podem servir como agentes estratégicos do desenvolvimento sustentável do setor audiovisual. O Fórum foi realizado pela EGEDA, a Entidade de Gestão dos Direitos dos Produtores Audiovisuais, e pela FIPCA, a Federação Ibero-americana de Produtores Cinematográficos e Audiovisuais, duas das entidades mais representativas da região.

Neste mês de dezembro, por ocasião do Ventana Sur, um dos mais importantes mercados de conteúdo audiovisual da América Latina, a Rede Latino-Americana de Film Commissions (Latin American Film Commission Network-LAFCN) promoveu um “Workshop de Film Commissions” para oferecer orientação técnica a autoridades, funcionários públicos e o público em geral sobre os objetivos, operações, benefícios e a forma jurídica das FCs, tanto para as já estabelecidas, quanto para as que estão em desenvolvimento ou as que serão criadas. O evento, conduzido pelo Centro Latino-Americano de Treinamento e Assessoria Audiovisual-LATC, contou com o apoio do Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA). A palestra do conhecido produtor argentino Diego Corsini, diretor geral do Cineworld SRL, enfatizou a relação simbiótica entre o produtor audiovisual (cinema, séries de TV, documentário, publicidade etc.) e a FC.

A febre das Film Commissions no Brasil continua a se espalhar pelo país. Em 2008, havia 19 FCs em atividade “visando a atração de produções audiovisuais internacionais e o posicionamento do Brasil como provedor de locações de forma competitiva no mercado tellurian de entretenimento”. Atualmente, de acordo com os dados da Rede Brasileira de Film Commissions – REBRAFIC, existem 26 FCs espalhadas pelo país, sendo 10 formalmente constituídas e 16 em processo de implantação.

Os benefícios contabilizados das filmagens em uma localidade são numerosos e existem em vários níveis, incluindo os benefícios diretos da filmagem, os benefícios indiretos, como o aluguel de equipamento, hotéis, catering etc., e os chamados benefícios “induzidos”, como os gastos de salários efetuados pelos trabalhadores e suas famílias que recebem pelos empregos na filmagem. Existem também os benefícios para a localidade de visibilidade nacional e internacional nos filmes e séries de televisão. No entanto, além do impacto econômico e a geração de emprego na região, os primeiros beneficiados diretos são os produtores de conteúdo audiovisual.

O produtor tem muitos motivos para manter uma relação estreita com a FC. Primeiro, porque é ela que oferece apoio logístico e até político para as produções que ele está rodando – a FC abre as portas para receber as autorizações necessárias para fechar uma rua, filmar em um parque nacional ou sobrevoar um monumento. Além disso, a FC, através do site ou contato pessoal, encaminha produtores nacionais e internacionais para o produtor internal e gera oportunidades de expansão das atividades.

Por este motivo, as principais associações de produtores do Brasil estão representadas no Conselho Consultivo da REBRAFIC. São elas: a Associação Brasileira de Produtores Independentes de TV – ABPITV, o Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual – SICAV, o Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo – SIAESP, a Associação Brasileira de Produtores de Obras Audiovisuais – APRO, a Fundação de Cinema do Rio Grande do Sul – Fundacine, e o Cinema do Brasil.

Em seu artigo “A melhor amiga do produtor audiovisual”, na publicação “Guia Brasileira de Film Commission”, disponível para download gratuito no site da REBRAFIC  www.rebrafic.net, Leonardo Monteiro de Barros, produtor reconhecido da produtora Conspiração, sintetiza a essência da relação entre o produtor e a film commission: “’Film Commissions’ são parceiras extremamente valiosas para os produtores audiovisuais. A mera presença, o nível dos serviços, as redes de conexões, as facilidades de acessos e os recursos humanos e/ou financeiros que uma ‘film commission’ oferece são fatores importantíssimos – às vezes, decisivos – na decisão de realizar uma filmagem ou gravação em determinada cidade, Estado ou região.”

 

Por Steve Solot, Diretor Executivo, Rede Brasileira de Film Commissions – REBRAFIC (www.rebrafic.net) e Presidente, Rio Film Commission (www.riofilmcommission.com)

 

Uma galinha antropomorfizada de animação delira, sonha que é uma galinha de live action, hipnotizada na Av. Paulista. O desvario perturba seu cotidiano. Com essa premissa, o paulista César Cabral construiu seu mais recente curta-metragem, “Giz” (2015), lançado no Anima Mundi, com passagens pelo Festival de Curtas de São Paulo e pela Goiânia Mostra Curtas, entre outros. Cabral se destacou em 2008 com seu “Dossiê Rê Bordosa”, misturando animação com documentário. Veio, em seguida, “Tempestade” (2011), uma animação poética. “Giz”, por sua vez, retoma a animação em stop motion, mas, dessa vez, ao lado de cenas live action e timelapses.

Assim como “Tempestade”, “Giz” é um filme sensorial, quase todo baseado em sua construção atmosférica. “O filme segue uma lógica que tenta inverter o mundo genuine com o stop motion, onde o genuine do personagem (animação) se deparada com seu onírico (nosso real). O personagem sonha com galinhas reais, mas essa situação, galinhas hipnotizadas na Paulista, nos é surreal”, explica César Cabral. “A atmosfera do filme sugere esse estado onírico do personagem, onde nunca temos muita certeza do que está acontecendo. O que vemos de imagem genuine é um sonho, mas o cotidiano do personagem, seu trabalho, também é um sonho, ou ao menos um estado de transe. O filme caminha nesse sentido e, a cada nova situação, vamos acrescentando e misturando esses dois mundos”, complementa. O universo do cineasta David Lynch, de onde o curta parece beber, é thorough explicitamente evocado, com aparições na televisão da web-série “Rabbits” (2002), em que coelhos antropomorfizados têm discussões existenciais.

“Giz” nasceu de uma ideia de intervenção de um amigo de Cabral pela cidade, aonde personagens/atores iriam deixando galinhas ‘hipnotizadas’ pelo caminho. Inicialmente, seria um registro dessa ação com as galinhas. Pelo interesse em aproximar o mundo genuine do stop motion, resolveu desenvolver um curta. Realizado ao longo de um ano de produção, com R$ 70 mil, “Giz” conta com cenas em live action de várias galinhas paradas no meio da Av. Paulista, em São Paulo. Para tal, Cabral contou com uma equipe com quatro câmeras e 12 atores, além de preparador de animais e equipe de apoio.

Atualmente, Cabral desdobra dois projetos do curta “Dossiê Rê Bordosa”, seu mais bem sucedido filme em questão de crítica e circulação de festivais. O filme investiga a morte da personagem Rê Bordosa, do cartunista Angeli, a partir de depoimentos. O universo de Angeli é tema de uma série, “Angeli a Killer”, com 13 episódios de 11 minutos, e seu personagem Bob Cuspe protagoniza o longa “Bob Cuspe – Nós Não Gostamos de Gente”, nos mesmos moldes do curta.

 

Por Gabriel Carneiro

“Segura a Onda” (“Curb your Enthusiasm”) é uma sitcom da HBO, criada, roteirizada, produzida e estrelada por Larry David, que reinventou o gênero através de várias inovações, a principal, a utilização do mockumentary que inspirou muitas séries, como “The Office” e “Louie”.

A série surgiu de um piloto individual de apenas um episódio para a HBO, “Larry David: Curb your Enthusiasm”, que fez sucesso e deu origem a série que estreou em 2000.

Larry David interpreta um personagem fictício de si mesmo, vivendo seu cotidiano em Los Angeles, muito bem de vida, “colhendo” os frutos por ter criado a série “Seinfeld”. Teimoso, mesquinho, egoísta, implicante, que sempre arruma confusão por causa do seu gênio. Em alguns momentos durante a série, ele declara que existem leis ocultas que regem o bom convívio dos seres humanos. Essa é a definição de seu personagem, ele acredita que sem essas leis a sociedade virará um caos e, por isso, ele luta para que elas sejam cumpridas.

Intencionalmente ou não, ele acabou por recriar o herói da tragédia dentro de uma comédia farsesca, ele é um ser quixotesco que não tem outra alternativa a não ser combater as “mazelas” do mundo. Seja impedindo alguém de furar a fila, questionando o bravery da gorjeta ou perseguindo o metereologista da TV que ele acredita mentir que vai chover para jogar golfe sozinho, ou mesmo recuperando o roupão que ele acredita que Hugh Heffner tenha trocado, Larry não pode se calar diante das “injustiças”.

Larry David já havia atuado como showrunner e criado, em parceria com Jerry Seinfeld, a sitcom de maior prestígio da TV americana, “Seinfeld” (1990), que levou ao limite o gênero da sitcom, revolucionando a forma de se fazer comédias na TV. O programa, que se autointitulava uma série sobre o nada, trazia diversos elementos inovadores que se diferenciavam de tudo que estava sendo feito na época.

Em “Segura a Onda”, Larry David incorporou e repaginou diversos elementos que já estavam em “Seinfeld”, tanto esteticamente quanto na dramaturgia: a impressão do genuine que antes se dava de forma sexy com Seinfeld interpretando a si mesmo, Larry repete isso em sua série indo além, trabalhando no mundo “real”, sem cenários, interagindo com diversos convidados que interpretam a si mesmo, tais como Ted Danson, Ben Stiller, Mel Brooks, os atores de “Seinfeld”. Ao mesmo dash em que utiliza uma linguagem de documentário, com câmera na mão e elementos de linguagem de sitcom, como a música para pontuar momentos cômicos.

O clássico núcleo de personagens de “Seinfeld”, onde cada um representava um tipo de humor: Seinfeld fazia a função da comédia intelectual baseada em comentário, George, inspirado no próprio Larry David, epoch o neurótico, noiado, e a comédia física em Kramer; todos esses tipos de amusement foram unidos em Larry, ele alterna os tipos de comédia dentro de uma mesma cena, trazendo resultados hilários; ora ele está impondo sua opinião sobre um assunto para no momento seguinte sair na mão para impedir a dona da festa de comer um doce.

A série continua com a temática do “nada”, com uma estrutura episódica muito bem definida. Os plots individuais de cada personagem que existiam em “Seinfeld”, e que convergiam num final épico, foram mantidos, a diferença é que Larry David está em todas as cenas, trabalhando com cenas “cotidianas” paralelas, quase multiplot no formato de esquetes, preparando, juntando trechos, temas e personagens dessas esquetes como ganchos para encerrar o episódio num grande final.

No roteiro, Larry escolheu trabalhar com o conceito de semi-roteiro (semi-scripted), em que ele cria uma estrutura com as cenas, os personagens e cenários, e cria um dot para a cena; durante as filmagens os atores criam os diálogos. Cheryl Hines, a atriz que interpreta a esposa de David na série, disse que eles recebiam cerca de duas linhas sobre cada cena contendo o dot principal e precisavam improvisar, reagindo diante da fala do outro ator.

Como criador e showrunner, Larry David mostra como a inovação se faz também na rigidez das regras de criação, pensando na estrutura, no estilo de direção (impressão do real), no roteiro (semi-roteiro). Ele influenciou toda uma geração com “Seinfeld” e, posteriormente, conseguiu novamente com “Segura a Onda”. O seu trabalho com a temática do “nada” virou referência a todas as séries feitas no gênero posteriormente.

 

Por Marcos Takeda e Newton Cannito, roteiristas

“Hysteria” é um documentário poético e sensorial, que acompanha as atrizes Janaina Leite, Juliana Sanches, Raíssa Gregori, Tatiana Caltabiano e Evelyn Klein pelas estradas de Santa Catarina encenando o espetáculo homônimo com direção de Luiz Fernando Marques, do Grupo XIX de Teatro.

Este road movie, dirigido por Ava Rocha e Evaldo Mocarzel, foca a condição feminina através da visão de mundo das atrizes e de suas personagens: mulheres confinadas em um asilo psiquiátrico no século XIX.

A estreia será no dia 17 de dezembro, no Cine Caixa Belas Artes, em São Paulo, com apoio da Spcine.