A Mostra Aurora, dedicada à exibição de longas inéditos de realizadores em início de carreira é uma das seleções mais aguardadas da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que este ano acontece entre os dias 22 e 30 de janeiro. A Aurora, em sua nona edição, mantém o perfil de apostar em filmes de invenção e experimentação da produção contemporânea brasileira, exibindo títulos de realizadores com no máximo três longas-metragens no currículo. Eles são avaliados pelo Júri da Crítica e concorrem ao Troféu Barroco e a prêmios de parceiros do evento.

Na 19ª edição da mostra, na cidade histórica mineira, a Aurora exibirá sete filmes inéditos de quatro Estados do país: “Animal Político” (PE), de Tião; “Aracati” (RJ), de Aline Portugal e Julia De Simone (RJ); “Banco Imobiliário” (SP), de Miguel Antunes Ramos; “Filme de Aborto” (SP), de Lincoln Péricles; “Índios Zoró – Antes, Agora e Depois?” (PE), de Luiz Paulino dos Santos; “Jovens Infelizes ou um Homem que Grita Não É um Urso que Dança” (SP), de Thiago B. Mendonça; e “TaegoAwa” (GO), de Marcela Borela e Henrique Borela.

A seleção, a cargo do curador Cléber Eduardo e do curador assistente Francis Vogner dos Reis, foi feita a partir de 59 filmes inscritos para seleção com perfil e requisitos para a Aurora.

Uma das presenças aguardadas da Aurora 2016 é a de Luiz Paulino dos Santos, lendário cineasta baiano que, aos 83 anos, exibirá seu terceiro longa-metragem como diretor, “Índios Zoró – Antes, Agora e Depois?”. Paulino foi diretor de primeira hora de “Barravento” (1961), que viria a se tornar o primeiro longa de Glauber Rocha, e esteve presente em diversos projetos ao longo das últimas décadas, como ator, consultor ou mesmo inspiração a várias gerações.

Como em todos os anos, os filmes da Mostra Aurora são avaliados pelo Júri da Crítica, composto de cinco profissionais do pensamento acadêmico e crítico cinematográfico. Na 19ª edição da Mostra de Tiradentes, o Júri da Crítica será formado pela professora e pesquisadora da UFPE Angela Prysthon (PE); pelo professor e pesquisador da Universidade Federal de São Carlos Arthur Autran (SP); pelo crítico e pesquisador Carlos Alberto Mattos (RJ); pelo crítico Marcelo Ikeda (PE); e pelo jornalista Paulo Henrique Silva (MG).

A ANCINE lançou hoje, 22 de dezembro, dois editais do Programa Brasil de Todas as Telas – Ano 2: as Chamadas Públicas PRODECINE 05/2015, que selecionará projetos de linguagem inovadora com destinação inicial para as salas de cinema; e PRODAV 05/2015, que selecionará propostas de desenvolvimento de projetos de obras seriadas e não seriadas; e formatos audiovisuais para TV e salas de exibição, ambos por meio de concurso público.

Os editais cumprem o cronograma previsto pelo Calendário de Financiamento da ANCINE, compromisso assumido com o lançamento do Plano ANCINE + Simples, plano de ações para a qualificação da gestão do financiamento público do audiovisual.

A Chamada Pública PRODECINE 05/2015 se destina à seleção de projetos de produção independente de longa-metragem de ficção, animação e documentário, com foco em propostas de linguagem inovadora. O objetivo é investir em filmes com potencial de participação e premiação em festivais e que apontem para a experimentação, mas que também sejam capazes de dialogar com seu público-alvo e de realizar seu potencial comercial. As inscrições abrem hoje, dia 22 de dezembro, e encerram-se dia 26 de fevereiro de 2016.

Para esta linha, serão destinados R$ 30 milhões, em recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), respeitando-se os indutores regionais de no mínimo 30% dos recursos destinados a projetos audiovisuais de produtoras independentes localizadas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste; e no mínimo 10% para projetos de produtoras independentes da região Sul ou dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Em sua terceira edição, esta Chamada Pública já contemplou um total de 33 projetos, sendo 17, em 2013, e 16 projetos, em 2014. Entre eles, “Mulher do Pai”, da Okna Produções, premiado no Talent Highlight Pitch Award do Talent Project Market do Festival de Berlim 2011; e “Mormaço”, de Marina Meliande e Felipe Bragança, vencedor do Brasil CineMundi – 4th International Coproduction Meeting. Outros filmes já estão em fase de produção, como o documentário “Baía de Guanabara”, de Murilo Salles, e o longa de ficção “Pendular”, de Julia Murat.

Já a chamada PRODAV 05/2015 selecionará 70 propostas de desenvolvimento de projetos de obras audiovisuais seriadas e não seriadas destinadas aos segmentos de TV paga ou aberta, salas de exibição e vídeo por demanda (VOD). As inscrições vão de 23 de dezembro de 2015 a 28 de março de 2016.

Para esta linha, serão destinados R$ 10 milhões, observada a seguinte distribuição: no mínimo 30% dos valores devem ser destinados a propostas apresentadas por empresas sediadas nas regiões Norte, Nordeste ou Centro-Oeste; e no mínimo 10% dos valores devem ser destinados a propostas apresentadas por empresas sediadas na região Sul, no Estado do Espírito Santo ou no Estado de Minas Gerais. Entre os proponentes, serão admitidas também empresas brasileiras que não apresentem a atividade econômica de produção audiovisual.

Também aberta, pelo terceiro ano consecutivo, esta linha de desenvolvimento já contemplou 175 propostas, sendo 86, em 2013, e 89, em 2014.

O Programa Cinema do Brasil está com inscrições abertas até 4 de janeiro para mais uma ação de qualificação para profissionais da indústria audiovisual brasileira, em parceria com o European Audiovisual Enterpreneurs (Eave). Trata-se do workshop Eave On Demand, marcado para 26 a 29 do mesmo mês, na cidade de São Paulo, em uma iniciativa viabilizada no âmbito de nova parceria do Programa com a Secretaria do Audiovisual/Ministério da Cultura.

O workshop terá como foco o desenvolvimento de produtos audiovisuais para o mercado internacional. Há nove vagas para produtores que estejam trabalhando em um projeto com forte potencial internacional e que tenham interesse em participar de uma das mais importantes redes de agentes da cadeia audiovisual europeia – o European Audiovisual Enterpreneur. Os três tutores responsáveis pelo curso são integrantes da cadeia: a produtora belga Diana Elbaum; o consultor francês de roteiros Jacques Akchoti; e Didar Domehri, consultora francesa especializada no mercado internacional e vendas.

Os interessados em participar, devem enviar e-mail para info@cinemadobrasil.org.br, com portfólio da empresa, currículo com resumo da experiência do produtor (principalmente em eventos internacionais de cinema), portfólio do projeto (sinopse, tratamento, estimativa de orçamento de produção e plano financeiro) e carta de motivação que enfatize suas expectativas em relação ao workshop. Todas as informações devem ser enviadas em inglês. A seleção será feita pela equipe do Cinema do Brasil em conjunto com a equipe do Eave.

O workshop será composto de atividades diversas, entre elas, masterclasses (com duração de dois dias) e reuniões one-to-one e trabalho em grupo (ao longo de outros dois dias). A programação completa será enviada aos selecionados no mês de janeiro.

Com direção de Roberto Santucci e Marcelo Antunez, “Até que a Sorte nos Separe 3” estreia nos cinemas quebrando um recorde. O filme chega ao circuito em 808 salas nesta quinta-feira, 24 de dezembro, com status de maior lançamento do cinema nacional.

A comédia reúne elementos de humor e de sátira política para tratar de temas atuais, como a crise econômica. O longa começa com Tino (Leandro Hassum) e sua mulher, Jane (Camila Morgado), pobres e falidos, até que a sorte os atinge em cheio e eles veem mais uma vez suas vidas mudarem. Tino promete a si mesmo que “não vai fazer cagada”, mas suas promessas não são para serem cumpridas. As consequências de seus atos são desastrosas e, na tentativa de arrumar o estrago, envolve-se até com a política brasileira, e nem a presidenta é poupada.

Produzido pela Gullane em coprodução com a Paris Produções, Miravista e Globo Filmes, “Até que a Sorte nos Separe 3” conta com Emanuelle Araújo, Bruno Gissoni, Julia Dalavia, Leonardo Franco, Kiko Mascarenhas, Aiton Graça, Silvia Pfeifer, Bemvindo Cequeira, Paulo Silvino e Mila Ribeiro no elenco. A distribuição está a cargo da Paris Filmes em parceria com a Downtown Filmes e a Rio Filme.

O ator e diretor Bruno Torres, de 35 anos, está finalizando seu primeiro longa-metragem, a ficção autoral “À Espera de Liz”, um drama feminino e intimista, com Simone Iliescu e Rosanne Mulholland, nos papéis centrais de duas irmãs, filmado em cenários deslumbrantes em dois extremos do Brasil, o Monte Roraima (na fronteira com a Venezuela) e as serras gaúchas do Rio Grande do Sul. Rodado em duas semanas e meia na Venezuela e em um mês na serra gaúcha, “À Espera de Liz” é definido por Bruno como “uma história de amor narrada pela perspectiva da ausência e da solidão”.


Ares de superprodução

O argumento sobre um triângulo amoroso, que nunca é visto junto em cena, teve seu primeiro tratamento de roteiro feito em 2011 e inscrito no edital para filmes de baixo orçamento do Ministério da Cultura, no qual foi contemplado com R$ 1,2 milhão, o que permitiu sua realização, mesmo filmando em lugares inóspitos, em que toda equipe precisava ser transportada de helicóptero. Para o diretor, as locações “ao redor” dos personagens significavam muito para reforçar a linguagem intimista dada ao filme. “Comecei a trabalhar com a ideia de fazer um filme sobre uma história de amor, mas com uma abordagem diferente. Optei fazê-lo sendo narrado pela perspectiva da ausência, da solidão”, relata Bruno à Revista de CINEMA.

Nesses cenários deslumbrantes, transita o solitário personagem Miguel, interpretado pelo próprio diretor, que atua desde os 16 anos e, recentemente, foi um dos protagonistas de “Entrando numa Roubada”, de André Moraes. “Eu não iria fazer o papel. Escrevi o roteiro tendo a certeza que eu não correria esse risco logo no meu primeiro longa. No entanto, em uma produção, as reviravoltas são muitas e quando percebi já estava na Venezuela imerso no universo que era o que o personagem tem dentro do filme. E foi uma grande experiência”, conta Bruno.

O diretor confessa que queria fazer um trabalho de viabilidade média de produção e muito sugestivo para a linguagem, “então criei essa história que trata de um triângulo amoroso que nunca é visto junto, focando-se de forma subjetiva na dor que a falta faz. Eu queria também que esse longa fosse totalmente voltado para o edital para filmes de baixo orçamento do Ministério da Cultura, o qual considero ter o formato ideal para o primeiro longa de um diretor, já que permite muita liberdade de criação”.

Bruno, em cenário do filme, na Gran Sabana, na Venezuela © Luciana Melo

A energia das polaridades

Para narrar esse drama intimista, Bruno buscou dividir os universos feminino e masculino como uma forma de linguagem. “Os motivos de trabalhar em lugares de natureza tão distinta, como Venezuela e Brasil, esse contraste, é uma das propostas conceituais do filme. Por trás da história, esse filme tem uma segunda camada, já que eu trabalho com a energia das polaridades como linguagem, como se fosse o Yin e o Yang: o masculino e o feminino, o frio e o quente, o passivo e o ativo, o escuro e o claro, e por aí vai, num caminho sem fim. Então, enquanto Liz (a protagonista feminina) vive uma solidão introspectiva e passiva, Miguel (o protagonista masculino) vive uma solidão expansiva e ativa, e assim o cenário e a fotografia acabam por refletir o interior destes personagens. Confesso que termino as filmagens sentindo que estes dois cenários, a serra gaúcha e a Venezuela, foram ideais para a realização do filme”, afirma Bruno.

Com direção de fotografia de André Lavenére, as locações de Gramado e Canela, região de neblina da serra gaúcha, ocupam 70% da trama, enquanto que a parte ensolarada se passa na Venezuela.

Berço cinematográfico

Bruno é filho do cineasta Geraldo Moraes e irmão do também cineasta e músico André Moraes, e desde criança convive com sets de filmagem. Bruno guarda uma foto onde aparece aos oito anos com o olho na lente da câmera do diretor de fotografia Walter Carvalho, segurado no colo do próprio, durante a rodagem de “O Círculo de Fogo” (1984), dirigido por Geraldo Moraes. E foi com o pai onde atuou pela primeira vez em “No Coração dos Deuses” (1999), um épico de aventura ambientado no Tocantins, e ao lado de nomes como Antônio Fagundes, Roberto Bonfim e Tonico Pereira, entre outros.

Desde então, são quase duas dezenas de filmes como ator (sem falar no teatro e participações em novelas) – em muitos que o definem como um intérprete de transformações. Por “O Homem Mau Dorme Bem” (2009), de Geraldo Moraes, foi considerado o melhor ator coadjuvante no 42º Festival de Cinema de Brasília e no XIV Cine PE. Sua atuação em “Somos Tão Jovens”, de Antônio Carlos da Fontoura, o fez ser um dos finalistas como coadjuvante no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2014.

Curtas premiados e novos projetos

Como diretor, Bruno tem no currículo quatro curtas-metragens, “O Último Raio de Sol” (2004), que conquistou mais de 30 prêmios em festivais, “A Noite por Testemunha” (2009) – estes dois com tema sobre a violência social –, um tratado poético arquitetônico sobre Brasília, em “O Tempo do Plano” (2010), e uma também lírica manifestação sobre a natureza, em “Encontro das Águas” (2011). Em dezembro, Bruno atuou em “Bio”, do cineasta Carlos Gerbase, com quem já trabalhou em “Sal de Prata” (2005), rodado em Porto Alegre. E já prepara o seu segundo longa-metragem, “Terra de Cegos”, uma superprodução com um tema que lhe é muito caro, a atuação de madeireiros ilegais na Amazônia.

“Terra de Cegos”, para Bruno, será uma espécie de épico amazônico. “Estou há mais de doze anos trabalhando nas pesquisas do projeto, e durante oito anos elaborei o roteiro, que recentemente foi autorizado pela ANCINE para captação de recursos. Pelo que percebo, e por incrível que pareça, “Terra de Cegos” deve ser o primeiro longa de ficção do Brasil e da América do Sul a tratar do tema do desmatamento com profundidade, concentrando suas ações na atuação dos madeireiros ilegais”, conclui o diretor.

 

Por Ranieri Maia Rizza