Celebrando sua décima edição, no período de 30 julho a 5 de agosto, o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo traz como grandes homenageados os cineastas Hector Babenco e Lírio Ferreira. E reúne uma programação com os destaques da produção mais recente feita na região, incluindo vários títulos inéditos no Brasil e obras exibidas em eventos prestigiosos, como os festivais de Cannes, Berlim, Veneza e Sundance.

No total, são 111 filmes, representando 17 países da América Latina e do Caribe. Na mostra Contemporâneos estão 21 filmes, sendo 13 inéditos no Brasil (cinco são produções brasileiras em première mundial). As demais seções são Doc Musicais América LatinaMostra de Escolas Ciba-Cilect e DocTV Latino-América. Entre as atividades paralelas, destaca-se o Seminário Internacional “Caminhos do Audiovisual Latino-Americano no Século 21”.

A programação acontece no Memorial da América Latina (Tenda Petrobras para o Cinema Latino-Americano, Biblioteca Latino-Americana e Galeria Marta Traba), Cinesesc, Cine Olido, Centro Cultural São Paulo (Sala Lima Barreto e Sala Paulo Emílio), Cinusp Maria Antonia, Cinusp Paulo Emílio, Reserva Cultural e Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca, Cinemateca Brasileira e Centro de Pesquisa e Formação – Sesc. Todas as projeções têm entrada franca.

A homenagem a Hector Babenco traz alguns de seus grandes sucessos: “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”, que alcançou 5,4 milhões de espectadores, “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1980), “O Beijo da Mulher-Aranha”, pelo qual William Hurt foi premiado com o Oscar de melhor ator, “Coração Iluminado”, “Carandiru” e “O Passado”. Já Lírio Ferreira tem exibidos seus cinco longas-metragens (“Baile Perfumado”, “Árido Movie”, “Cartola – Música para os Olhos“, “O Homem que Engarrafava Nuvens” e “Sangue Azul”) e uma seleção de oito curtas, entre eles raridades de início de carreira e obras feitas para TV e museus. Uma mesa reúne, em 30/07, o cineasta pernambucano ao lado dos diretores Paulo Caldas, Kiko Goifman e Hilton Lacerda. Outro homenageado é o DJ Tutu Moraes, músico cuja carreira foi impulsionada como residente diário nas primeiras edições do festival e hoje realiza apresentações no exterior.

Entre os títulos recentes, estão cinco premières mundiais de longas-metragens brasileiros; “Trago Comigo”, de Tata Amaral; “Sermão dos Peixes”, de Cristiano Burlan; “Através”, de André Michiles, Fábio Bardella e Diogo Martins; “Não Estávamos Ali para Fazer Amigos”, de Miguel de Almeida e Luiz R Cabral; e “Trago seu Amor”, de Dellani Lima. Fazem ainda sua primeira exibição em São Paulo “A Misteriosa Morte de Pérola”, de Guto Parente;“As Fábulas Negras”, de Rodrigo Aragão, Petter Baiestorf, Joel Caetano e José Mojica Marins; “Condado Macabro”, de Marcos DeBrito e André de Campos Mello; e “Meia Hora e as Manchetes que Viram Manchete”, de Angelo Defanti.

Produções argentinas dominam a seleção internacional, com destaque para “As Insoladas”, novo filme de Gustavo Taretto (de “Medianeras, Buenos Aires na Era do Amor Virtual”); “Morte em Buenos Aires”, de Natalia Meta, que tem no elenco Demian Bichir (indicado ao Oscar por “Uma Vida Melhor”, de Chris Weitz) e Chino Darín (filho do Ricardo Darín); “Natureza Morta”, de Gabriel Grieco, anunciado como o primeiro filme “terror vegano” do mundo; “O Ardor” , de Pablo Féndrik, protagonizado por Gael García Bernal e Alice Braga; e “Ragazzi”, do diretor cult Raúl Perrone, que tem mais 30 de títulos no currículo e é desconhecido no Brasil.

Outras obras presentes e inéditas no Brasil são “Mar”, coprodução Chile/Argentina selecionada para o Festival de Berlim e dirigida por Dominga Sotomayor; “Sozinhos”, da peruana Joanna Lombardi (de “Casadentro”); “Viva a Música”, do colombiano Carlos Moreno, exibido no Festival de Sundance; e “Videofilia (e Outras Síndromes Virais)”, a primeira produção peruana a vencer o Festival de Roterdã.

A seção Docs Musicais América Latina traz doze produções. Entre os brasileiros, estão “Dominguinhos”, de Joaquim Castro, Eduardo Nazarian e Mariana Aydar; “Eu Sou Carlos Imperial”, de Renato Terra e Ricardo Calil; “Gangrena Gasosa – Desagradável”, de Fernando Rick; “My Name is Now, Elza Soares”, de Elizabete Martins Campos; “Paulo Moura – Alma Brasileira”, de Eduardo Escorel; “Premê – Quase Lindo”, de Alexandre Sorriso e Danilo Moraes; e “Sabotage: o Maestro do Canão”, de Ivan 13P. Os títulos internacionais, todos inéditos no Brasil, são os argentinos “Pescado Rabioso – Uma Utopia Incurável”, “Blues dos Plomos” e “Não Tenho Nada”, o colombiano “Picó – A Máquina Musical do Caribe” e o mexicano “Lixo”.

Já a competição Mostra Escolas de Cinema Ciba-Cilect reúne 43 filmes, de sete países, enquanto que 16 documentários estão na seção DocTV Latino-América, com destaque para o brasileiro “Guataha”.

Seminário Internacional “Caminhos do Audiovisual Latino-Americano no Século 21” reúne especialistas internacionais em cinco mesas: A Produção Audiovisual Latino-Americana na era Digital e Conectada. Possibilidades e Tendências; Escolas de Cinema e Audiovisual no Contexto Social, cultural e Profissional; A Web e o Audiovisual Latino-Americano. Produção e Distribuição na Rede; Novas Modalidades Temáticas, Dramatúrgicas e Estéticas; e Coprodução Internacional.

Outras atividades paralelas agendadas são o Encontro Ciba-Cilect, com representantes de 15 escolas de cinema de sete diferentes países; uma edição especial do projeto Cinema da Vela, reunindo a realizadora chilena Dominga Sotomayor e a brasileira Tata Amaral; o Debate “Ato, Atalho e Vento”, com Maria Rita Kehl e Jean-Claude Bernardet; e uma sessão especial do projeto Cine Direitos Humanos , exibindo documentários da Costa Rica e do Peru.

A curadoria do 10º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo é assinada por João Batista de Andrade, Jurandir Müller e Francisco Cesar Filho.

O FESTICINI – 1° Festival Internacional de Cinema Independente, que acontecerá cidade de Sumaré/SP, entre os dias 17 e 31 de outubro, está com inscrições abertas para sua mostra competitiva, até o dia 30 de agosto. O evento contará também com uma mostra paralela e oficinas gratuitas de roteiro e produção cinematográfica.

Podem se inscrever no FESTICINI produções independentes finalizadas entre 2012 e 2015, nas categorias de longa-metragem, média-metragem, curta-metragem ficção e curta-metragem documentário. O festival premiará um total de 15 categorias, incluindo melhores filme de longa-metragem, média-metragem, curta de ficção e curta documentário, além das categorias artísticas e técnicas, como melhores atriz, ator, atriz coadjuvante, ator coadjuvante, fotografia, direção, roteiro original, roteiro adaptado, música original, montagem e som.

Os premiados receberão estatuetas especialmente criadas para o FESTICINI. Os filmes ganhadores nas categorias de melhor filme de longa, média, curta ficção e curta documentário receberão, além da estatueta, prêmios em dinheiro para incentivo de futuras produções independentes. O regulamento do festival e outras informações estão disponíveis no site www.festicini.com.br, com informações em português, inglês e espanhol, sendo possível a inscrição de obras realizadas dentro e fora do Brasil.

Além da mostra competitiva, o FESTICINI contará também com uma mostra paralela de cinema independente, com filmes que se inscreveram no festival, mas não entraram na mostra competitiva, e oficinas de formatação de roteiros e produção cinematográfica, que acontecerão durante os meses de agosto e setembro. Para realizar a inscrição nas oficinas e mais informações, os interessados podem enviar um e-mail para oficinas@festicini.com.br.

Nos anos 1980, a família Schurmann ficou bastante famosa por ser a primeira tripulação brasileira a dar a volta ao mundo em um veleiro. A empreitada, iniciada em 1984, durou dez anos e formou os filhos Wilhelm, Pierre e David, que aos poucos foram deixando o veleiro para cursarem faculdade. David desembarcou na Nova Zelândia, onde estudou cinema e televisão, e a partir daí sua missão passou a ser documentar as aventuras da família, mas também buscar outras aventuras no campo da ficção. Em 2006, fez sua estreia com o documentário “O Mundo em Duas Voltas” (2006), onde demonstrou explorar muito mais que as aventuras da família.

Depois da mal sucedida passagem pelo horror, no filme de baixíssimo orçamento, “Desaparecidos” (2011), David finalmente coloca na lata o seu mais novo filme, “Pequeno Segredo”, onde explora um tema sensível, baseado em fatos ocorridos com sua família, de um longo processo de uma criança rumo à morte anunciada, e que transforma a vida de todos à sua volta, especialmente, porque entre eles havia um segredo. “Pequeno Segredo” foi filmado no Brasil e na Nova Zelândia, e tem previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2016 com distribuição da Diamond Films.

A difícil escolha 

David relata que não foi fácil realizar um filme envolvendo sua família com um tema muito tabu para a época. “Quando essa história aconteceu, já imaginava algo incrível. Um neozelandês é enviado para a Amazônia para prospectar gás numa vilazinha, e em um mês se apaixona por uma cabocla. Leva-a para conhecer o mundo, vão até a Nova Zelândia. Nossa família chega nessa comunidade da Nova Zelândia, o primeiro veleiro brasileiro a chegar lá. Forma-se uma amizade, um elo tão forte, que, três anos depois, ele pede para que meus pais adotassem sua filha. Foi uma história tão forte quando aconteceu e meus pais decidiram adotar a Kat; era tão incrível que parecia coisa de filme. Na época, comentei com meus pais que queria fazer um filme a respeito. Só que tinha uma questão – e por isso o título do filme –, a Kat, pequena, tinha HIV e nós não queríamos que as pessoas soubessem para que não houvesse preconceito contra ela. Naquela época, começo dos anos 1990, ainda havia bastante preconceito. Respeitei esse segredo da família, tanto que, em ‘O Mundo em Duas Voltas’, tem toda a história da Kat, mas não tem o HIV”, conta David, que rodou “Pequeno Segredo” ao longo de oito semanas, em Florianópolis, no Pará e na Nova Zelândia, com produção de Vilfredo Schurmann e de João Roni.

David Schurmann, navegando em terreno sensível

Roteiro multiplot

Para escrever o roteiro, depois de fazer dezessete tratamentos ao lado de um grupo e não se sentir satisfeito com o resultado, David convidou Marcos Bernstein, com quem o cineasta enfim se acertou. Para a pesquisa sobre o assunto, o roteirista ouviu a história de Kat pelas versões dos pais Vilfredo e Heloísa e de David, bem como relatos de convivência com a menina, vídeos e o diário da garota. Teve acesso também aos manuscritos do livro de Heloísa sobre Kat, escrito paralelamente à feitura do roteiro, intitulado “Pequeno Segredo – A Lição de Vida de Kat para a Família Schurmann” e lançado em 2012. Bernstein também pesquisou a história de Robert e Jeanne, e da Barbara.

O longa foi estruturado em três tramas paralelas: uma história de amor vivida entre Robert (Erroll Shand) e Jeanne (Maria Flor), “que virou uma grande tragédia”; Vilfredo (Marcello Antony) e Heloísa (Julia Lemmertz), “que parece uma família de comercial de margarina, mas que se começa a perceber que tem muito mais em ebulição embaixo”; e a história de Barbara (Fionnula Flanagan), sobre a redescoberta do amor. “Queria começar com um desafio e contar essa história de forma não linear, na linha de filmes como ‘Crash – No Limite’ (2005) e ‘Babel’ (2006), multiplots que se cruzam”, conta o diretor. “As histórias eram muito intensas e resolvemos entrelaçá-las. E tem uma coisa: nossa vida não é linear. Sempre me interessou formas diferentes de contar uma história, em que você tenta juntar os pedaços. Um dos desafios do roteiro foi o de não deixá-lo complexo demais, para que não ficasse confuso, e nem totalmente manipulador, em que o multiplot não fosse apenas um artifício, em que a histórias realmente se integrassem”, complementa.

Filme sobre a família 

Para David, é mais do que natural fazer filmes sobre sua família, seja em documentários, seja na ficção. “Temos muitas histórias e até hoje elas me fascinam”, conta. Trabalhando com o tema há quase vinte anos, o cineasta tem procurado cada vez mais aprimorar a relação entre David, membro da família Schurmann, e David, o cineasta. “Como diretor, me coloco muito numa posição de contador de histórias, me excluo da família, falo da família Schurmann. Esse é um exercício de anos e que deu muito certo. E o fato de eu conhecer muito bem essa história, deixa-a mais natural para quando eu vou dirigi-la. Continuo me interessando em contar histórias da família”, comenta. Em “Pequeno Segredo”, o diretor aparece em sua versão ficcionalizada em dois momentos, com 15 e com 20 e poucos anos.

O cineasta não vê problemas éticos em retratar sua família em conflito. “Com a família, tenho uma intimidade, uma liberdade de mostrar uma verdade como ela é. Na nossa família, temos uma confiança, sabem que vou mostrar o que aconteceu. Nunca pedi permissão. Aí estaria traindo minha arte se cortasse algo porque meus pais não gostariam. E tem coisas que certamente não vão gostar. A única coisa que resguardei, para não virar um grande melodrama, é que não é um filme sobre Aids, é sobre essas três famílias que se misturam, em que o HIV faz parte disso”, aponta.

Equipe internacional 

David cresceu no mundo e é mais natural que sua produção tenha pessoas de vários países. Para contar a história de Kat, que se desdobra em diferentes partes ao redor do mundo, e que envolve pessoas de diferentes nacionalidades e sotaques, David fez questão de trabalhar com um elenco global em “Pequeno Segredo”, orçado em R$ 10 milhões – R$ 6 milhões dos quais já consumidos nas filmagens, captados via leis de incentivo e investidores privados. Além dos brasileiros Julia Lemmertz, Marcello Antony, Maria Flor e Mariana Goulart – menina que dá vida a Kat, escolhida entre mais de 300, ao longo de dois anos de produção –, o filme conta com o neozelandês Erroll Shand (de “Meu Monstro de Estimação”/2007) e com a irlandesa Fionnula Flanagan (de “Os Outros”/2001) no elenco.

David Schurmann contou com a participação de uma equipe internacional, inclusive no elenco, como o ator neozelandês Errol Shand, que contracenou com Maria Flor

A equipe também tem nomes internacionais. O fotógrafo é o peruano Inti Briones, de “O Planeta Solitário” (2011) e “Exilados do Vulcão” (2013), vencedor do prêmio Fedeora, em Veneza, pelo filme “Las Niñas Quispe” (2013). Já a direção de arte é assinada pela alemã radicada no México Brigitte Broch, vencedora do Oscar pela cenografia de “Moulin Rouge – Amor em Vermelho” (2001) e responsável por “Babel” e “O Leitor” (2008), entre outros.

Enquanto David Schurmann se preparava para filmar “Pequeno Segredo”, sua família embarcou na terceira volta ao mundo. Também filmada e transmitida, a “Expedição Oriente” busca retraçar o suposto caminho feito pelos chineses para chegarem à América em 1421. David novamente encabeça a direção audiovisual da expedição e preparou por dois anos uma equipe para tocar as gravações enquanto estava absorvido pela pré e produção do longa de ficção. Atualmente, concilia ambos os projetos.

Além de “Pequeno Segredo”, em fase de montagem, e de “Expedição Oriente”, o cineasta finaliza o documentário de longa-metragem “U-513 – Em Busca do Lobo Solitário”, previsto para lançamento em festivais e nos cinemas ainda em 2015, com distribuição própria. O filme aborda o submarino alemão afundado na costa brasileira durante a Segunda Guerra Mundial, encontrado pela Família Schurmann em 2011.

 

Por Gabriel Carneiro

Em 1998, o premiado curta-metragista e animador francês Michel Ocelot estreia no longa-metragem em grande estilo. Com traços de extrema simplicidade e profundo encantamento, ele roteiriza, anima e dirige “Kiriku e a Feiticeira”, que rapidamente se transformaria num grande sucesso. A história apresenta Kiriku, um garotinho africano que aprende a falar, a raciocinar com clareza e a correr muito rápido, imediatamente após o seu nascimento. Logo ele se torna um dos elementos mais importantes na eterna luta que sua aldeia trava com Karabá, uma malvada feiticeira protegida por guerreiros de pedra. A trama mistura lendas africanas com elementos criados pelo próprio diretor, que passou sua infância na Guiné. O filme conquistou as mais importantes premiações em eventos de animação e de cinema infantil, incluindo o Grande Prêmio no prestigiado Festival de Annecy.

Foram necessários sete anos para que o pequeno africano ganhasse uma continuação, “Kirikou – Os Animais Selvagens”, desta vez, com o título em português grafando o nome do protagonista na sua forma original, com “ou” no final. Agora, sem o impacto da novidade, a repercussão do longa foi bem menor.

Mais sete anos se passaram para o lançamento do terceiro episódio protagonizado pelo esperto e carismático garotinho: “Kiriku – Os Homens e as Mulheres”, indicado ao Cesar 2013 de melhor animação, e que chega ao nosso congestionado circuito exibidor com justificáveis dois anos de atraso. Seu nome volta a ser escrito com “u” no final. A boa notícia é que, mesmo passado tanto tempo do primeiro episódio, o herói e seu criador continuam fidelíssimos às suas origens e tradições. Ocelot resiste com bravura em utilizar ostensivamente as inovações tecnológicas desenvolvidas de 2008 para cá. Que não foram poucas. A opção é, no mínimo, coerente, pois um dos maiores méritos desta série de longas é a simplicidade quase naif de seus traços, totalmente sintonizada com a própria ambientação da aldeia onde as histórias acontecem.

Ao priorizar o roteiro sobre a técnica, a série Kiriku se transformou num instrumento de resistência pacífica contra o domínio estrangeiro/mercadológico de desenhos produzidos com dezenas de milhões de dólares. E o faz exatamente da mesma forma que o herói enfrenta a tirânica Karabá: com astúcia, bom humor e muito jogo de cintura.

“Kiriku – Os Homens e as Mulheres” alinhava cinco histórias do personagem, todas contadas por seu orgulhoso avô. Na primeira, a bondosa mãe de Kiriku hospeda em sua residência uma mulher, cuja casa fora queimada por Karabá. Logo, porém, a hóspede se mostra das mais exigentes e desagradáveis, incapaz de um gesto de bondade para quem a acolheu. Kiriku e sua mãe, exercendo a mais profunda paciência, transmitem então ao público exemplos de solidariedade e tolerância. Na segunda, o desaparecimento de um velho habitante da aldeia preocupa Kiriku e sua mãe. Ao tentar ajudá-lo, o menino se defronta com um dos piores sentimentos humanos: a ingratidão.  A terceira história, provavelmente, a melhor, explora o sempre importante tema das diferenças. Kiriku encontra na savana um garoto todo vestido de azul. Como esta é a cor da roupa da maldosa Karabá, Kiriku, a princípio, sente medo, acreditando se tratar de um inimigo. Mas logo ele aprenderá a controlar a ansiedade de um julgamento precipitado e, principalmente, a desenvolver a sabedoria e a paciência suficientes para compreender a riqueza que se esconde sob as diferenciações. No penúltimo episódio, a aldeia de Kiriku é visitada por uma intrigante contadora de histórias que encanta o garoto. Logo ele aprende que existem duas formas de contar histórias: relatando-as ou inventando-as (seria um momento autobiográfico de Ocelot?). E, finalmente, no último segmento, Kiriku, sempre amparado pela doçura de sua mãe, aprende a tocar flauta para acalmar um bebê que chora amedrontado pelo vento. O instrumento surge como símbolo da identidade cultural de seu pai, que não aparece nas histórias. Invejosa, Karabá quer quebrar a flauta/herança de Kiriku, que vai desenvolver outra qualidade que a mãe lhe ensina: a persistência. “Se Karabá quebrar a flauta, faça outra”, ela ensina.

Paciência, bondade, doçura, resistência, altivez, identidade cultural… Realmente, Kiriku trabalha com valores que nem sempre vemos nos desenhos animados que dominam nosso mercado. Uma exceção digna de nota.

 

Kiriku – Os Homens e as Mulheres
Kirikou et les Hommes et les Femmes
França, 88 min., 2012
Direção: Michel Ocelot
Distribuição: Imovision

 

Por Celso Sabadin

No início deste ano, foi destaque na imprensa brasileira o sucesso que o filme “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, conquistava internacionalmente, com prêmios nos festivais de cinema de Sundance e Berlim. Produzido pela Gullane e a África Filmes, o longa entrou em uma estratégia de internacionalização já tradicional na Gullane. “Cinema é um produto que custa muito dinheiro para ser feito para um só país”, afirma o sócio e diretor da produtora, Fabiano Gullane.

A Gullane já teve coproduções com Itália, China e Japão, Portugal, Alemanha e França. Já participou de 12 seleções internacionais, incluindo Cannes, Veneza e Berlim. Em Sundance, “Que Horas Ela Volta?” esteve em uma seleção com cerca de quatro mil filmes. O sucesso pode ser atribuído à conjunção de dois fatores: uma conquista gradual da produtora, que ano a ano foi conhecendo mais pessoas e articulando mais negócios, e um planejamento estratégico para que o filme fosse bem recebido.

Estratégias para lançamentos internacionais

“Não existe relação de articulação que garanta um filme que não funciona”, afirma Gullane. A diretora de “Que Horas Ela Volta?” participou de workshops e seminários sobre roteiro ainda enquanto escrevia. A equipe também participou do Carte Blanche, programa do Festival de Locarno, antes de finalizar o filme. “Agentes de venda e representantes de festivais conversaram muito com a Anna sobre o que acharam, o que mudariam, as suas previsões de interesse. Ali, já sentimos como poderíamos trilhar um caminho internacional”, conta o produtor.

Para Gullane, o programa Cinema do Brasil, as linhas de apoio da Ancine e os acordos bilaterais de coprodução têm sido fundamentais para a colocação dos filmes brasileiros no mercado estrangeiro. “Também é importante a chegada da Spcine, com uma preocupação e um foco em ajudar na internacionalização do nosso cinema.”

A estratégia de pensar o mercado internacional, antes de lançar um filme em seu país de origem, é comum em qualquer lugar do mundo, explica Eduardo Raccah, coordenador de internacionalização da Spcine. “A regra é: filme bom não estreia em casa, estreia em Cannes, em Berlim, em Locarno, em Toronto. Como o cinema brasileiro hoje tem qualidade melhor, os produtores estão arriscando mais esse caminho”, diz. Sem contar que, quando se ganha um prêmio internacional, a mídia gerada tem um valor que dificilmente uma produtora conseguiria pagar.

Spcine cria programa de internacionalização 

O programa de internacionalização da Spcine tem duas missões principais. A primeira é fazer com que o mercado internacional veja São Paulo não só como um dos maiores consumidores de cinema do mundo, mas também como produtor. A segunda é conseguir com que o produto audiovisual paulista viaje mais.

Eduardo Raccah, coordenador de internacionalização da Spcine: “filme bom estreia primeiro no mercado externo”

Uma das ações nesse sentido é a estruturação de uma film commission com as tarefas de receber o produtor audiovisual estrangeiro de maneira mais adequada, buscar mais investimentos e pensar em editais específicos de coprodução. A outra é dar ao produtor paulista uma experiência internacional. Para Raccah, o cinema brasileiro só vai viajar mais quando entender que, para isso, deve ter parceiros europeus desde a sua fase de criação e produção. “A gente precisa dar a experiência necessária para o produtor brasileiro saber acessar esses distribuidores e coprodutores”, afirma.

A Spcine já tem alguns acordos estabelecidos, como o fundo de desenvolvimento para coprodução de conteúdo digital com o Canadá; a parceria com a Roma Lazio Film Commission; e a criação de um fundo com a China, para desenvolvimento de documentários. Além disso, a empresa também negocia com Argentina e México para que filmes de pequeno porte sejam distribuídos nesses países, e pleiteia a criação de um catálogo de projetos. Uma das intenções é que os produtores paulistas consigam ter mais acesso aos laboratórios de formação de festivais internacionais.

“O mercado mundial é assustadoramente pequeno para filmes não falados em inglês. Aqui, não faltam boas histórias, não falta qualidade na produção, o que falta é conquistar parceiros internacionais certos”, defende Raccah.

 

Por Mônica Herculano