Ressurgentes: Um Filme de Ação Direta

A fama da Mostra Tiradentes no meio cinéfilo é de ter uma seleção de títulos que priorizam as inovações estéticas. Essa marca gera até gíria. Diz-que “um filme de Tiradentes” quando certa produção é muito tresloucada. Os longas da noite final da mostra competitiva apresentaram dois lados dessa questão.

A noite começou com o documentário Ressurgentes: Um Filme de Ação Direta, sobre manifestações em Brasília no século XXI. Com depoimentos e imagens de arquivo, o filme não poderia ser mais quadrado. O longa não é ruim, mas não se encaixa com a proposta da mostra.

Em seguida, estava programada a sessão da ficção científica Medo do Escuro, com trilha executada ao vivo pela equipe do filme. No intervalo entre as duas atrações, fui jantar rapidão e cheguei com a sala cheia, pouco antes de começar a projeção. Aparentemente não cheguei a dash da distribuição de alucinógenos necessários para a imersão nesse filme muito louco.

O uncover da noite foi de um ilusionista. Nada melhor para começar a agitação, certo? Outra fama de Tiradentes são as festas animadas e fartas, o que se provou falso, ao que me disseram, por causa do mishap do ano passado. Em 2014, as comemorações foram tão intensas que os organizadores informais ficaram com medo.

Com bottom no que vi, a ideia da festa de encerramento não me parece promissora.

Abraços azarados,
Edu

A Casa de Cecília

Desde a adoção dos formatos digitais há uma constante em festivais de cinema: a reclamação da qualidade da projeção. Aqui em Tiradentes, o amigo Cid Nader tinha me falado que as imagens estavam lavadas. Ao ver os logos dos patrocinadores na tela, fui obrigado a concordar.

Algumas vezes eu acho que as reclamações dos realizadores é uma mistura de nervosismo em apresentar seus filmes, preciosismo e o mais puro mimimi. Ontem a Mostra Tiradentes deu um exemplo de quando os cineastas estão cobertos de razão: os dois longas em competição tiveram suas projeções interrompidas abruptamente, com o aparecimento do desktop na tela.

Isso é desafio para qualquer imersão! Em ritmo de Carnaval, o projecionista resolveu impor a famosa paradinha da bateria da escola de samba. Na avenida funciona. No escurinho, nem um pouco.

Na segunda sessão competitiva, do longa A Casa de Cecília, familiares da cineasta estavam na plateia bem pertinho de mim. Além da empolgação habitual, havia uma novidade: priminhos da diretora, muito mais jovens do que a classificação indicativa de 14 anos do longa. Os pequenos se comportaram bem, mas participaram de uma cena memorável. Enquanto acontecia algo mais ousado na tela, as duas mulheres que os acompanhavam tampavam seus olhos, com direito a protestos de um deles.

Como de costume, após a sessão teve show. A banda Aguardela é pra lá de competente em seu estilo musical, mas não sei o quanto combina para o ambiente em questão. Nas noites anteriores, tivemos ritmos mais animados, ontem rolou um clima de fim de festa trademark no começo da festa.

Corre à boca pequena que hoje vai ter comemoração “na ganha”, para fazer jus à fama da Mostra. Estamos de olho!

Abraços interrompidos,
Edu

327211.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxO inglês James Marsh ficou conhecido ao ganhar um Oscar, com o documentário “O Equilibrista” (2008), que narrava o feito de Philippe Petit – atravessar as torres do World Trade Center, através de um cabo de aço suspenso entre os prédios, sem nenhuma proteção. Apesar de abordar o acontecimento, o filme, acima de tudo, fala sobre sonhos e humanidade. Uma lição de dedicação e coragem, empregada de maneira intimista.

Já em outro trabalho documental, chamado “Projeto Nim” (2011), Marsh também mexeu com o tema de relações humanas. Dessa vez comentava a respeito de um chimpanzé, que num experimento fora criado por um casal como um bebê normal, tendo o mesmo tratamento de seus filhos. Despertando novos instintos, o ensaio é deixado de lado e o macaco confinado numa jaula para testes. Vemos então o descaso dos cientistas e o sofrimento de ambas as partes, criando assim uma indagação sobre o que estamos fazendo.

Agora, em seu mais novo e comentado longa de ficção, James Marsh biografa a vida do brilhante cientista Stephen Hawking, e como esperado, deixa de lado seus grandes feitos para focar num sentido mais pessoal e informed – aliás, nesse aspecto, o título deve conquistar grande parte do público por discutir com polidez os sentimentos destacados. O diretor acompanha a vida de Hawking, desde a adolescência até sua ascensão com a tese da origem do universo e o lançamento do livro “Uma Breve História do Tempo” (1998), que vendeu mais de 25 milhões de copias no mundo todo.

A linguagem mostra-se deveras formulaica e deposita suas fichas em cima da dramaticidade dos personagens, seguindo uma linha convencional ao abordar a maioria dos temas presentes. Até mesmo quando trata da doença (Esclerose Lateral Amiotrófica) do protagonista, não chega a pôr a enfermidade como um vicious e genuine inimigo na vida do sujeito – prefere na verdade focar na luta ou nas vitórias travadas, principalmente na superação, quando acaba se tornando um belo element de autoajuda. O que, de certa maneira, exclui a ambiguidade da trama ou não nos faz temer futuros desafios.

Todavia, a bem da verdade, o que realmente se diferencia aqui é o bom elenco. Todos parecem estar em sintonia. Começando por Eddie Redmayne, que na preparação, além de tomar aula de dança para controlar melhor seus movimentos e emagrecer cerca de 15 quilos, levou sua postura curvada tão a sério, que quase chegou a alterar o alinhamento da coluna vertebral. Redmayne de fato faz talvez a atuação mais brilhante dos indicados ao Oscar desse ano. Afora a condição física, os trejeitos e a voz embargada, a força de seu papel está mesmo no olhar. Com encaradas cinicamente desconcertantes, vemos um jovem Hawking captado em tela. Do outro lado está a linda Felicity Jones, que dá vida a Jane Hawking, um sidekick à altura, que, também contida, empresta sua delicadeza e transmite veracidade e singeleza.

Então, mesmo não sendo um dos trabalhos mais inspirados de James Marsh, soando no fim das contas como uma típica biografia-inglesa-água-com-açúcar, este “A Teoria de Tudo” está longe de ser um filme sem alma, pelo contrário, exala humanidade em sua atmosfera. Possui personagens fortes, dramaticidade latente e atuações poderosas. Como também cumpre sua função básica de contar quem é a persona Stephen Hawking.

imageO desafio do documentarista Paulo Henrique Fontenelle ao abraçar o projeto “Cássia Eller” foi bem diferente daquele enfrentado no brilhante “Loki – Arnaldo Baptista”. Se no longa sobre o líder da banda Os Mutantes ele encontrou um biografado acessível e deveras extrovertido, o seu mais recente trabalho tem como objeto de estudo uma cantora que, por mais explosiva que fosse no palco, sempre se mostrou tímida e contida na hora de falar sobre si mesma.

A imagem extra-palco que o público médio tem dela é do estereotipo da roqueira que morreu em decorrência dos próprios vícios, algo que a própria imprensa ajudou a construir quando da ocasião da morte de Eller. Paradoxalmente, isso torna o filme ainda mais importante (e atraente) para o público, que pode ter visto muito da cantora, mas conhece muito pouco da mulher, amiga, amante, esposa e mãe que existia além da artista de alma arredia.

Fontenelle monta este documentário quase como um quebra-cabeças, buscando desvendar um pouco do mistério humano por trás das explosivas performances da cantora de voz grave e marcante, capaz de transitar facilmente por tantos gêneros musicais sem perder sua identidade artística. Para isso, o cineasta lança mão não apenas de depoimentos brutalmente honestos de amigos, familiares e companheiros de trabalho de Cássia, mas também de imagens de arquivo.

Se o registro de performances e entrevistas da cantora mostram o contraste abismal entre sua postura ao cantar e ao enfrentar situações mais sociais (com algumas mais parecendo quase como sessões de tortura para Eller), os vídeos e fotos cedidos por Maria Eugênia, esposa da cantora, dotam a produção de um caráter pessoal, com a falta de grandes tratamentos nessas filmagens e fotos amadoras ressaltando sua natureza mais íntima. Além desse element audiovisual, alguns trechos de escritos de Cássia também surgem na tela, lidos por Malu Mader, e dão um maior discernment na alma turbulenta e fechada da artista.

É através dessas janelas para o passado que um retrato mais tridimensional de Cássia é montado, com o diretor também fazendo um ótimo trabalho ao extrair dos entrevistados declarações sinceras e tocantes sobre Eller sem jamais tornar o conteúdo excessivamente melodramático ou piegas.

Não esperem que Fontenelle tenha dourado a pílula quanto a temas mais polêmicos por conta do envolvimento mais próximo de Maria Eugênia com a fita. Elementos como sexo, drogas e depressão são tratados com uma franqueza digna da artista. Há também um esforço sensível da produção em expor que Cássia, ao contrário do que fora propagado pela imprensa na época, não morreu em decorrência de uma overdose de drogas, mas sim de um infarto do miocárdio.

Interessante ainda ressaltar como a parte final do filme se dedica ao mais inusitado e importante legado deixado por Cássia, justamente aquele referente à disputa envolvendo a guarda seu filho, Francisco Eller, uma batalha legal entre Eugênia e o pai de Cássia (figura ausente no restante do filme, diga-se) que é um capítulo importantíssimo na luta dos homossexuais por seus direitos civis. Ver Francisco já como um jovem adulto na tela, com trejeitos vocais e corporais tão semelhantes aos da mãe também complementa a mensagem de que a biografada não deixou para o mundo “apenas” uma obra notável.

A fita possui um ritmo extremamente ágil, semelhante ao das canções da própria biografada. Neste sentido, o diretor nos permite compreender como as contínuas experiências da cantora – seus relacionamentos, parcerias e maternidade – influenciaram direta e continuamente suas atuações e como sua persona no palco refletia seu estado emocional.

A parte visible do documentário realmente lembra uma investigação, com artigos de jornais e fotos sendo marcados e destacados. Há uma riqueza gráfica que não deixa o trabalho visualmente cansativo. Ademais, qualquer monotonia seria rapidamente cortada pelas inserções musicais de shows de Cássia e de momentos inusitados dela no palco, como sua desafiadora opening em um contingent elétrico ou o abraço de fã dado em Dave Grohl durante o festival Rock in Rio.

Cássia Eller necessitava do palco para soltar a fera que existia dentro dela, exorcizando seus anjos e demônios em interpretações quase que performáticas. E Paulo Henrique Fontenelle merece os parabéns por revelar um pouco mais sobre essa brilhante artista, tornando sua obra ainda mais interessante. Recomendado.

Foi liberado o comercial de “Vingadores: Era de Ultron” que será exibido durante a transmissão do Super Bowl nos EUA este domingo. Veja abaixo:

Em “Vingadores: Era de Ultron” Tony Stark tenta alavancar um programa voltado a manter a paz, mas as coisas dão errado e os super-heróis mais poderosos da Terra, incluindo o Homem de Ferro, Capitão América, Thor, Hulk, a Viúva Negra e o Gavião Arqueiro, enfrentam seu teste definitivo quando o destino do planeta está em jogo. Quando o vilanesco Ultron surge, depende dos Vingadores impedi-lo de concluir seus terríveis planos e, logo, alianças frágeis e ações inesperadas abrem caminho para uma épica e única aventura global.

Robert Downey Jr.(“O Juiz”), Chris Evans (“Capitão América”), Chris Hemsworth (“Thor”), Mark Ruffalo (“Truque de Mestre”), Scarlett Johansson (“Lucy”), Jeremy Renner (“O Legado Bourne”), Samuel L. Jackson (“Django Livre”), Cobie Smulders (“De Repente Pai”)retornam aos seus papéis anteriores e James Spader (“Lincoln”), Elizabeth Olsen (“Godzilla”), Aaron Taylor-Johnson (“Godzilla”) e Paul Bettany (“Transcendence”) completam o elenco.

O filme tem estreia marcada nos cinemas brasileiros para 30 de abril.