Os mecanismos de incentivo fiscal dispostos na Lei 8.313/91 (Lei Rouanet), na Lei 8.685/93 (Lei do Audiovisual) e na Medida Provisória 2.228-1/01, como decorrentes da ação de fomento da Administração Pública, preveem o apoio financeiro indireto a projetos audiovisuais. Por meio deles, os contribuintes, pessoas físicas e jurídicas, direcionam recursos, através de patrocínio, coprodução ou investimento, a projetos audiovisuais, obtendo o abatimento ou isenção de determinados tributos.

Em razão do financiamento público, ainda que indireto, é o Estado quem implementa e traça os rumos do controle. Contudo, por serem os projetos executados por particulares, surgem, às vezes, algumas contraposições.

É importante que o controle dos mecanismos de fomento seja exercido de maneira exemplar. Apurar irregularidades, propor melhorias e orientar o mercado sobre procedimentos proibidos e permitidos por esses mecanismos são medidas de máxima relevância e não podem ser esporádicas, devem ser parte da rotina daqueles que acompanham e monitoram as atividades do particular e do Poder Público.

Cada vez mais, duas perguntas têm ressoado no mercado cultural, tanto para proponentes como para patrocinadores de projetos incentivados:

1- Quais são os limites para a contrapartida das empresas que financiam projetos incentivados a partir dessas leis?

2- Quais as medidas preventivas para que os patrocínios sejam feitos de forma segura?

Sobre a primeira pergunta, vale lembrar que, para melhor compreensão das contrapartidas possíveis, é importante observar qual a legislação que está sendo utilizada, já que elas podem prever contrapartidas diferentes, mais concessivas ou não. A Lei Rouanet prevê ao patrocinador, basicamente, contrapartidas de três naturezas: o benefício fiscal (integral ou parcial, conforme a área em que o projeto foi enquadrado), a inserção de sua marca nas peças de comunicação e nos produtos resultantes do projeto e até 10% dos ingressos ou produtos exemplares do produto cultural objeto do projeto e dos limites das ativações de marketing criadas para o projeto. A Lei do Audiovisual, por sua vez, é mais permissiva quanto à exposição da marca do patrocinador, sendo possível a negociação de merchandising e product placement.

A segunda resposta também é importante e precisa ser bem explicada. Como medida de aperfeiçoamento da governança interna, as empresas, patrocinadoras e patrocinadas, têm adotado ações de duas naturezas. A primeira, uma auditoria para reavaliação dos contratos de patrocínio celebrados aliada à adoção de manuais internos de procedimentos para a efetivação de patrocínios seguros. A segunda, a implantação ou aperfeiçoamento de programas de integridade com base na lei anticorrupção.

Em agosto de 2013, foi publicada a Lei nº 12.846, conhecida como lei anticorrupção, que trata da responsabilização administrativa e cível de pessoas jurídicas pela prática de atos contra a administração pública, nacional ou estrangeira.

De acordo com esta lei, quaisquer sociedades empresariais e simples, personificadas ou não, independente da forma de organização ou modelo societário adotado, quaisquer fundações, associações de entidades ou pessoas, ou entidades estrangeiras, que tenham sede, filial ou representação no território brasileiro, constituídas de fato ou de direito, ainda que temporariamente, estão sujeitas às suas determinações, principalmente as que administrem ou recebam recursos públicos ou que se relacionem com o Poder Público.

A lei estipula como regra a responsabilidade objetiva, ou seja, a pessoa jurídica responde pelas condutas praticadas em seu interesse ou benefício, independente da responsabilização individual de seus dirigentes e administradores ou de qualquer pessoa natural, autora, coautora ou partícipe do ato ilícito, incluindo neste rol os funcionários e os terceiros com quem a empresa se relaciona. Assim, como forma de proteção, as empresas podem implementar um sistema de ações com foco no compliance anticorrupção, estruturadas num Programa de Integridade.

Com essas medidas preventivas, é possível às empresas patrocinadoras e patrocinadas aprimorarem sua governança de forma a dar continuidade às suas atividades de forma segura e alinharem-se com as melhores práticas de transparência que o cenário atual demanda.

 

Por Aline Akemi Freitas e Roberto Drago Pelosi Jucá, advogados do escritório Cesnik, Quintino Salinas Advogados | www.cqs.adv.com.br

A ficção do roteirista português Pedro Varela, em colaboração com as brasileiras Adriana Falcão e Tatiana Maciel, com o título provisório de “Mulheres”, traz Paolla Oliveira (foto) ao lado de Ricardo Pereira, interpretando o casal na comédia romântica dirigida pelo português Leonel Vieira (“A Sombra dos Abutres”, “A Selva”, entre outros).

Rodado em Portugal e no Rio de Janeiro, o longa é uma produção da Gullane e Stopline Films, coproduzido pelo Telecine e Paris Produções. No Brasil, o filme será lançado pela Paris Filmes, no primeiro semestre de 2017.

Já vai mais de uma década que o crescimento do mercado audiovisual brasileiro vem se desenhando em uma curva ascendente, o que mais uma vez comprova estudos oficiais revelados recentemente, muitos deles mostrando o impacto das políticas públicas que atuam diretamente no setor, nos últimos anos. O levantamento mais recente foi divulgado pela própria Agência Nacional do Cinema (Ancine) e pela MPA (Motion Picture Association), que representa a indústria de Hollywood no Brasil, em parceria com o SICAV (Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual). Na prática, esses resultados de expansão da difusão interna, do cinema e TV, e das exportações, vão desde o fenômeno nacional e internacional de “Galinha Pintadinha”, por exemplo, até a venda expressiva no setor de TV de obras, formatos e remakes para o exterior. Pela primeira vez, as atividades vinculadas ao segmento de TV por assinatura ultrapassaram o de TV aberta.

O IBGE fez uma detalhada pesquisa, encomendada pela Ancine, para demostrar o tamanho e de que forma ocorreu o crescimento do setor audiovisual, responsável por gerar uma renda de R$ 24,5 bilhões na economia brasileira, em 2014. No ano de 2007, esse número estava na ordem de R$ 8,7 bilhões. Segundo Manoel Rangel, diretor presidente da Ancine, essas cifras da atividade audiovisual ficam atrás apenas das dos setores de telecomunicações (R$ 69 bilhões), serviços de tecnologia e informação (R$ 58,1 bilhões) e fabricação de veículos automotores (R$ 51,3 bilhões). E à frente da fabricação de celulose (R$ 22,6 bilhões), produtos farmacêuticos (R$ 18,8 bilhões), equipamentos de informática e produtos eletrônicos (R$ 16,8 bilhões) e produtos têxteis (R$ 12,9 bilhões).

Produção independente para TV ajudou no crescimento

O levantamento mostra como, pela primeira vez, as atividades vinculadas ao segmento de TV por assinatura, o que inclui a produção de conteúdo audiovisual e a sua distribuição, ultrapassaram o de TV aberta. No período entre 2007 e 2014, a principal mudança se deu entre os segmentos de TV aberta e TV fechada, foi a queda nos canais abertos de 22,2%, enquanto os pagos cresceram 21,4%. Em 2014, segundo a Ancine, o segmento de TV fechada foi responsável por mais de 50% do valor adicionado pelo audiovisual, pela primeira vez. Ou seja, foi a atividade dentro do setor audiovisual com maior geração de renda.

Isso demonstra como o setor audiovisual cresceu 66%, entre 2007 e 2013, o que equivale a uma expansão contínua de 8,8% ao ano, no período. O maior crescimento está ligado ao número de canais de TV paga dedicados à veiculação de conteúdos brasileiros. Em 2002, eram apenas dois canais, já, em 2015, esse número saltou para 19, registrando um crescimento de 950%. Ao mesmo tempo, também foi expressivo o crescimento do número de assinantes de TV paga: 3,5 milhões, em 2002, para 19,6 milhões, em 2015 (alta de 560%).

Manoel Rangel, presidente da Ancine, mostra através de pesquisa e estudo como o mercado audiovisual bateu recordes na geração de renda © Júnior Aragão

No cinema, o setor de exibição está em ascensão

A exibição cinematográfica também é outro destaque do levantamento realizado pelo IBGE e divulgado pela Ancine. Se, em 2002, o Brasil tinha apenas 1.635 salas, em 2015, o total era de 3.005, um crescimento de 184%. Com isso, o número de ingressos vendidos também registrou um salto importante: de 90 milhões para 173 milhões, alta de 192%. Nessa comparação, a Ancine também destaca o número de espectadores de filmes nacionais, de 7,2 milhões para 22,4 milhões (alta de 311%), assim como o número de filmes brasileiros lançados nessas mesmas salas: de 29 para 129 (crescimento de 445%), no mesmo período.

Embora os números sejam bastante favoráveis para o setor como um todo, os dados do MPA/SICAV acabam inserindo esses números em um contexto mais amplo e problematizando algumas questões. Em termos de expansão da exibição, por exemplo, a MPA reforça que dessas 3.005 salas, 60% estão localizadas em municípios com mais de 500 mil habitantes. Ou seja, por mais que tenha havido um crescimento da demanda no segmento de exibição e nas políticas públicas de incentivo à construção de novas salas e ampliação do parque exibidor, o acesso da população ainda é restrito, “uma vez que a expansão tem se concentrado em cidades de médio e grande porte, nas quais não existem grandes restrições de acesso”.

Outro problema ainda é com relação ao preço médio do ingresso e à tributação. Em 2013, o valor correspondia a 0,6% da renda per capita mensal do brasileiro, enquanto na Argentina essa proporção era de 0,5%; no México, 0,4%; na Alemanha, 0,3%; e na França, 0,2%. A tributação no Brasil, de acordo com o estudo da MPA, é de 30,25% do preço do ingresso.

A digitalização das salas, para a MPA, também é motivo de comemoração. Mas está diretamente ligada à exigência das próprias majors estadunidenses, segundo a associação. Se, em 2012, 31,1% das salas estavam digitalizadas, esse número pulou para 95,7% no primeiro trimestre de 2016. “Este salto decorreu, sobretudo, do anúncio feito pelos grandes estúdios norte-americanos de que, a partir de 2015, deixariam de operar com a distribuição de filmes em películas, limitando-se somente à distribuição em formato digital. Com isso, o port­fólio de títulos disponíveis em salas não digitalizadas tornou-se bastante limitado”, descreve o texto da MPA.

Exportação saltou de US$ 13 para US$ 85 milhões em um ano

Os números tornam claro, no setor de exportação do audiovisual, cujas produtoras e distribuidoras navegavam, praticamente, no escuro, no que tange ao mercado externo, os tipos de produtos mais exportados e os países que mais adquiriram esses serviços. Se, em 2014, os serviços técnicos ligados à produção e pós-produção concentravam as exportações, em 2015, foram os licenciamentos de conteúdo que dominaram as vendas, segundo a agência. Ao todo, somando os licenciamentos e cessões de direitos, foram US$ 85 milhões, em 2015, contra US$ 13 milhões, em 2014. Já a produção e pós-produção, estavam na ordem de US$ 33 milhões, em 2014, e subiram para US$ 42 milhões, em 2015.

O filme de animação “O Menino e o Mundo”, vendido para mais de 100 países, é um dos exemplos do crescimento das exportações no setor audiovisual

Em números globais, o total de exportações ainda é inferior às importações. Isto é, embora os produtores estejam conseguindo vender mais para o exterior e alcançar novos mercados, o Brasil ainda importa muito mais, principalmente conteúdos estrangeiros licenciados. Em 2015, as exportações cresceram 110,1%, com um total de US$ 154 milhões (em 2014, foram US$ 73 milhões), mas as importações seguiram em alta, com total de US$ 1,5 bilhão, em 2015.

Dentre os países que mais adquiriram os licenciamentos brasileiros e serviços de produção e pós-produção, especialmente em 2015, estão: Estados Unidos, Reino Unido, Uruguai, Argentina e Alemanha. Em 2014, a listagem da Ancine também incluía: França, Portugal e Suíça. Sendo assim, esses poderiam ser considerados como os países-alvo dos produtores brasileiros, de acordo com os dados dos últimos dois anos.

Mercados-alvo dos brasileiros 

Para os produtores, os Estados Unidos se confirmam como um dos mercados mais almejados. Leonardo Barros, sócio da Conspiração Filmes, conta que a produtora exporta filmes, programas de TV e direitos de remake dos seus filmes para o mundo todo, porém o mercado estadunidense aparece com mais recorrência na sua lista. Os longas-metragens “Eu, Tu, Eles”, “Casa de Areia” e “Rio Eu te Amo” tiveram distribuição internacional e foram vendidos para, praticamente, todos os continentes, incluindo países como Estados Unidos, Canadá, França, Japão, Alemanha, Austrália, Inglaterra, China, Rússia e territórios do Oriente Médio, Escandinávia e da própria América Latina.

O filme “A Mulher Invisível” teve os direitos adquiridos para remake nos Estados Unidos, na Turquia e na Itália; assim como “O Homem do Futuro” foi licenciado para adaptações na Coreia do Sul. Os dois longas-metragens foram dirigidos por Cláudio Torres e o primeiro chegou a virar uma série e foi exibida pela TV Globo.

A série documental “André Midani – Do Vinil ao Download”, da Conspiração Filmes, já está com distribuição internacional garantida pela distribuidora EuroArts, da Alemanha © Dan Behr

Segundo Barros, para coproduções cinematográficas, o foco da Conspiração segue sendo a Europa, especialmente, os países com os quais o Brasil mantém acordos oficiais de coprodução, além do Canadá, que é um mercado-alvo para a produtora. Para a televisão, as produções musicais e os documentários são os conteúdos mais exportados. Como destaque, ele cita a série documental “André Midani – Do Vinil ao Download”, dirigida por Andrucha Waddington e Mini Kerti, e realizada em parceria com o canal GNT, que já foi vendida para o distribuidor EuroArts, baseado na Alemanha, que fará a distribuição mundial.

Embora as vendas internacionais representem uma parte ainda pequena das receitas da Conspiração, Barros acredita “fortemente no futuro das exportações”, principalmente de direitos dos remakes e nas vendas de programas e formatos. É uma aposta que, para ele, está valendo a pena.

Leonardo Barros, sócio da Conspiração Filmes, exporta filmes, programas de TV e direitos de remake dos seus filmes para o mundo todo

Os tipos de filmes que conquistaram o mercado externo

A diretora executiva da distribuidora Elo Company, Sabrina Nudeliman Wagon, também investe diretamente no mercado internacional e aponta alguns dos caminhos que ela vem traçando nos últimos anos. Apesar de considerar o sucesso das vendas internacionais da premiada animação “O Menino e o Mundo” uma exceção, ela acredita no potencial de exportação das séries de animação e documentários para além do território brasileiro.

“O Menino e o Mundo” foi vendido para mais de 100 países, segundo Sabrina, incluindo os Estados Unidos, cujo mercado ela considera como “bem difícil de entrar”, embora a experiência com a animação tenha sido positiva. O documentário “Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil”, representado pela Elo Company, também vai estrear por lá em breve e já foi vendido para a Itália, Hungria, Romênia, Tailândia, Malta, Dinamarca, Bélgica, Rússia, além da estreia mundial pelo Vimeo.

O filme “Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil”, que em breve estreará nos EUA, já foi vendido para a Itália, Hungria, Romênia, Tailândia, Malta, Dinamarca, Bélgica e Rússia

Em um panorama mais amplo, Sabrina considera a América Latina como um território mais acessível para a exportação do conteúdo brasileiro, assim como os países de língua portuguesa. Em segundo lugar, ela destaca os países europeus para documentários e filmes independentes que tiveram destaque em festivais internacionais, além do potencial intrínseco das coproduções realizadas pelos produtores brasileiros, que acabam ganhando a chancela de dupla nacionalidade na Europa.

Em termos de receita, Sabrina não entrega os números da sua distribuidora, mas indica alguns parâmetros: “Eu diria que um produto pequeno pode ficar feliz se conseguir uma receita bruta de mais que US$ 50 mil em exportação. Porém, quando o filme quebra a barreira da América Latina, pode-se pensar em uma receita maior que US$ 1 milhão”.

Sabrina Nudeliman, diretora executiva da Elo Company, há uma década atuando na venda de nossos produtos para o mercado internacional, agora mira a América Latina

O fenômeno “Galinha Pintadinha”

Um dos casos de maior sucesso, não apenas nacional, mas também internacional, é o da “Galinha Pintadinha”, da Bromélia Produções. Totalmente voltada para o público infantil, a personagem se tornou um fenômeno no meio digital e nasceu de um videoclipe animado lançado no Youtube, em 2006. Inicialmente, segundo o site oficial da produtora, o desenho fazia parte de um projeto que foi apresentado em um pitching para um canal de TV e que acabou sendo rejeitado. No entanto, ao ser redescoberta pelo público na internet, a Galinha virou febre e, desde então, os números só crescem exponencialmente.

O gerente da produtora, Miguel Moreira, conta que o primeiro passo de internacionalização da “Galinha Pintadinha” foi adaptar o conteúdo para o espanhol para ter acesso ao público hispânico pelo Youtube. Atualmente, o canal brasileiro registra mais de três bilhões de visualizações e o hispânico vem logo atrás, com dois bilhões de acessos. A personagem também já está disponível com canais próprios em inglês e italiano, e, com tanta receptividade, a produtora está igualmente investindo nas adaptações para o alemão, mandarim, japonês e francês.

Miguel Moreira, gerente da Bromélia Produções, levou o sucesso infantil “Galinha Pintadinha” para diferentes plataformas no Brasil e no mundo

A distribuição se estendeu para outros aplicativos e plataformas, incluindo a Netflix. Na versão norte-americana, a Galinha foi rebatizada como “Lottie Dottie Chicken”; nos clipes em espanhol ela ganhou o nome de “Gallina Pintadita”.

“Criamos estratégias para manter a personagem lá fora e, uma delas, foi criar uma subsidiária da Bromélia em Miami, nos Estados Unidos. A chegada a outros países acontece gradativamente”, relata Moreira. O foco da produtora agora é lançar a nova série “Galinha Pintadinha Mini”, sendo que a primeira temporada terá 26 episódios de 11 minutos.

“Faremos o lançamento no cinema e a expectativa é de que seja uma experiência diferente para os pequenos acompanhados de seus pais. Após o cinema, iniciaremos também a distribuição através das plataformas digitais, DVD etc.”, adianta o produtor.

 

Por Belisa Figueiró

Por Maria do Rosário Caetano

 

A 11ª edição do Festival Aruanda do Audiovisual Brasileiro terá sua sessão inaugural nesta quinta-feira, 8 de dezembro, em João Pessoa, Paraíba, e prosseguirá até dia 14, quando serão entregues os troféus Aruanda aos vencedores de duas mostras: a competição oficial (com sete longas-metragens) e a mostra “Sob o Céu Nordestino”, com cinco filmes (neste segmento, serão apresentadas produções que têm o Nordeste como tema ou cenário).

Para a noite de abertura, foi escalado o documentário baiano “Axé, Canto de um Povo de um Lugar”, de Chico Kertész. Na noite de encerramento, outro documentário, “Pitanga”, de Beto Brant e Camila Pitanga, registro da trajetória do ator baiano Antônio Sampaio, o Pitanga, um dos preferidos de Glauber Rocha. Dá para antever a reação bem-humorada da plateia, que deverá lotar a sala premium da Rede Cinépolis, no Shopping Manaíra, quando o ator confessar que, por razões erótico-amorosas, não atuou em “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (filme que rendeu a Glauber a Palma de Ouro de melhor diretor, em Cannes).

A história narrada por Pitanga é divertidíssima e ganha ainda mais tempero com o depoimento da atriz Ítala Nandi. Depois de tornar-se conhecido em filmes do Ciclo Baiano (“Bahia de Todos os Santos”, “A Grande Feira” e “Barravento”), Antônio Sampaio, que adotaria em definitivo o nome de seu personagem (Pitanga) no filme de Trigueirinho Neto, mudou-se para o Rio e tornou-se um dos mais requisitados atores do Cinema Novo. Na segunda metade dos anos 1960, agregou-se à trupe do Teatro Oficina, comandado por Zé Celso Martinez Correia. Encantou-se com a inventividade do encenador, com a liberdade que rolava no grupo e, em especial, com suas atrizes.

Pitanga afirma que não atendeu ao convite de Glauber (que o dirigiria depois em “Câncer” e “A Idade da Terra”), porque estava comprometido com a montagem de uma peça. Mas não nega que razões erótico-amorosas o prendiam a São Paulo (o “Dragão da Maldade” foi filmado na Bahia). Ítala Nandi, com saborosa malícia, provoca: “confessa, Pitanga, você estava apaixonado por mim”. O sorriso cúmplice do ator, um namorador inveterado, nos convence que ela está certíssima.

“Pitanga”, de Beto Brant © Matheus Brant

Em “Pitanga”, prêmio da Crítica na Mostra Internacional de São Paulo, o ator fala também de sua arrebatadora paixão por Vera Manhães, bailarina e atriz, mãe de seus filhos Camila e Rocco Pitanga. Hoje, Vera, que atuou no filme “A Moreninha”, com Sonia Braga, e na novela “Bandeira 2”, de Dias Gomes, vive recolhida numa casa de saúde. Mas, há que se registrar, não há espaço para tristezas em “Pitanga”. O filme é uma celebração à vida, protagonizada por menino negro e pobre da Bahia de todos os santos, que chegou longe na arte da representação e na política (ao lado da atual mulher, Benedita da Silva, que governou o Rio de Janeiro).

Duas competições

Na competição nacional, o Fest Aruanda conta com filme dos mais festejados e reconhecidos: “Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé. O quinto longa-metragem da realizadora paulistana foi premiado pela Fipresci (Federação Internacional de Críticos de Cinema) no Festival do Rio e ganhou o Prêmio Spcine de melhor ficção na Mostra Internacional de São Paulo. Realizado como obras similares que apostam no “território expandido” (ou seja, filmes que rompem a fronteira entre a ficção e o documentário), “Era o Hotel Cambridge” soma dois atores profissionais (José Dumont e Suely Franco) a ocupantes filiados ao MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e refugiados (a maioria de guerras do Oriente Médio e África). Um filme de raras qualidades e imenso impacto.

“Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé

No momento em que o cinema feminino chama atenção especial, mais duas mulheres têm filmes na competição oficial do Aruanda: a atriz Leandra Leal estreia como diretora em “Divinas Divas”, sobre travestis que fizeram do palco seu templo, e Emília Silveira, que participa das duas competições do festival paraibano. Na mostra oficial, com seu terceiro longa, “ Silêncio no Estúdio”, sobre Edna Savaget (1928-1998), escritora e apresentadora de TV que vocacionou seu olhar ao público feminino. Um de seus livros mais conhecidos (“Silêncio no Estúdio – O Árduo Caminho que Conduz à Luz, Câmara, Ação!”) emprestou nome ao filme. Na mostra “Sob o Céu do Nordeste”, Emília apresentará “Galeria F”, sobre preso político (Theodomiro Romeiro dos Santos), que revê os lugares onde se escondeu durante fuga clandestina. A cineasta carioca está concluindo seu quarto longa-metragem, “Antônio Callado” (sobre o escritor niteroiense, cujo centenário será comemorado em 2017).

O time masculino do Fest Aruana forma-se com quatro realizadores. Charly Braun apresenta “Vermelho Russo”, deliciosa comédia filmada integralmente em Moscou, na Rússia, e protagonizada pelas atrizes Martha Nowill e Maria Manoela.

Os outros três concorrentes têm histórias ligadas ao teatro ou à TV: Guilherme Weber, Thiago Luciano e Caio Sóh. Weber disputa o Troféu Aruanda com o alegórico “Deserto”, filmado na Paraíba (com Lima Duarte, Cida Moreira, Magali Biff e grandes nomes do teatro nordestino). Thiago Luciano mostrará “Fica Mais Escuro Antes do Amanhecer”, com Caco Ciocler, Imara Reis e Lucy Ramos. Caio Sóh – como Emília Silveira – tem dois filmes nas duas competições paraibanas: “Canastra Suja”, na mostra oficial, e “Por Trás do Céu” (este filmado na Roliúde Nordestina, especificamente no Lajedo do Pai Mateus). “Canastra Suja” reúne elenco de famosos: Adriana Esteves, Marco Ricca, Bianca Bin e Pedro Nercessian.

A programação da mostra “Sob o Céu Nordestino” completa-se com o paraibano “Pedro Osmar: Prá Liberdade que se Conquista”, de Eduardo Consonni e Rodrigo Marques, sobre compositor nordestino muito festejado na região, “Cícero Dias, o Compadre de Picasso”, de Vladimir Carvalho, e “O Crime da Cabra”, de Ariane Porto e Tereza Aguiar. Estes filmes somam-se aos cariocas “Galeria F” e “Por Trás do Céu”.

Homenagens

O Festival Aruanda vai prestar homenagem aos 80 anos do pesquisador, cineasta e gestor cultural Wills Leal, por seus 80 anos. Ele foi o grande incentivador da Roliúde Nordestina. O projeto de transformar o sertão paraibano numa “Roliúde tropical” vive, porém, momentos muito difíceis. Rarearam os recursos de apoio ao projeto (fomentado em seus melhores momentos pelo Banco do Nordeste) e poucos produtores têm se arriscado a filmar lá.

As homenagens do festival se estenderão, ainda, em caráter in memoriam, a mais dois paraibanos: o teledramaturgo Péricles Leal (1930-1999) e o cineasta e montador Manfredo Caldas (1947-2016), que morreu semanas atrás, em Brasília. O pernambucano Geneton de Moraes Neto (1956-2016), jornalista e cineasta, que faleceu em agosto último, também será lembrado.

A contribuição de Péricles Leal à TV brasileira será tema de mesa-redonda idealizada por seu amigo, o ator Lima Duarte. Manfredo será lembrado com a exibição do longa “O Romance do Vaqueiro Voador” e Geneton, com “Dossiê Globonews”, dedicado ao cineasta Vladimir Carvalho.

A programação do Festival Aruanda inclui debates, seminário, oficinas, lançamentos de livros (incluindo “Os 100 Melhores Filmes Brasileiros”, parceria Abraccine-Letramento-Canal Brasil) e passeios turísticos pela capital paraibana e arredores. O mais badalado de todos tem como destino a Praia Naturista de Tambaba, dedicada ao nudismo. Convidados do festival vão, também, a Cabaceiras, pequena cidade situada depois de Campina Grande, em pleno sertão nordestino. O município, que detém um dos mais baixos índices pluviométricos do país, é conhecido como sede da Roliúde Nordestina e como capital nacional do bode, o bicho, não o estado d’alma. É conhecido, também, por contar com magnífica formação rochosa, o tal Lajedo do pai Mateus, cenário de mais de vinte longas e curtas-metragens brasileiros. Entre os quais, destacam-se “O Auto da Compadecida” e “Romance”, ambos de Guel Arraes, “Cinema, Aspirina e Urubus”, de Marcelo Gomes, “São Jerônimo” e “Garoto”, ambos de Júlio Bressane, “Canta Maria”, de Francisco Ramalho Jr” e “Cabaceiras”, de Ana Bárbara.

COMPETIÇÃO OFICIAL:

“Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé (SP)
“Divinas Divas”, de Leandra Leal (RJ)
“Silêncio no Estúdio”, de Emília Silveira (RJ)
“Vermelho Russo”, de Charly Braun (SP)
“Deserto”, de Guilherme Weber (RJ)
“Canastra Suja”, de Caio Sóh (RJ)
“Fica Mais Escuro Antes do Amanhecer”, de Thiago Luciano (SP)

MOSTRA SOB O CÉU NORDESTINO:

“Pedro Osmar: Prá Liberdade que se Conquista”, de Consonni Marques (PB)
“O Crime da Cabra”, de Ariane Porto (SP)
“Galeria F”, de Emília Silveira (RJ)
“Por Trás do Céu”, de Caio Sóh (SP)
“Cícero Dias, o Compadre de Picasso”, de Vladimir Carvalho (DF)

Baseado em um conto do escritor argentino Julio Cortázar, a história de Blow-up gira em torno do envolvimento acidental de Thomas, um fotógrafo de moda na Swinging London, em um caso de assassinato.

Após fotografar um casal que se encontrava em um parque, Thomas é procurado pela mulher, que exigia os negativos das fotos. Instigado pela insistência da mulher, o fotógrafo amplia as imagens e as examina, descobrindo o que acredita ser um indício de um crime, capturado ao acaso por sua lente. Dessa forma, o fotógrafo acaba se envolvendo em um enigma que tenta solucionar por meio de suas fotografias.

Primeiro filme de Antonioni falado inteiramente em inglês, Blow-up foi de extrema importância no contexto da contracultura. Relevante não só por exibir a agitação cultural na qual Londres estava imersa na década de 1960, com participações de alguns de seus ícones, como a modelo Verushka e os Yardbirds, o filme ganhou notoriedade – e controvérsia – também pela quebra de alguns paradigmas do cinema da época, rompendo com o Código Hays ao exibir cenas de nudez frontal, algo até então inédito no cinema britânico voltado ao grande público.

O filme foi o grande vencedor do Festival de Cannes de 1967, além de diversas outras mostras internacionais, e é considerado um dos mais relevantes da carreira de Michelangelo Antonioni.

Em 8 de dezembro, o projeto Clássica, da distribuidora Zeta Filmes, traz a versão restaurada desta obra-prima aos cinemas de São Paulo: Espaço Itaú Augusta, Cine Livraria Cultura, Caixa Belas Artes, Cine Olido e CCSP.