Por Maria do Rosário Caetano, de Gramado

 

Sonia Braga reinou absoluta numa noite de Oscar e OSCARITO. Noite de Oscar, porque o filme da festa inaugural gramadiana, AQUARIUS, de Kleber Mendonça, está no centro de polêmica que envolve sua indicação (ou não) para representar o país na disputa pela estatueta de melhor filme estrangeiro. Personagens que jogam papel questionável no processo estavam na sala: o ministro interino da Cultura, Marcelo Calero, o secretário do Audiovisual, Alfredo Bertini, e o jornalista e crítico Marcos Petrucelli. Calero teve que ouvir parte da plateia gritar “Fora Temer”, “Ministro pelego”, “Golpista”, e “Vai fazer nude” (referência a poses narcisistas do ministro expostas por ele mesmo na internet). Nem Calero, nem Bertini (como ocorrera com o interino Michel Temer nas Olimpíadas) foram mencionados pelos apresentadores, a jornalista Renata Boldrini e o ator Leonardo Machado. Petrucelli, que escreveu uma série de notas na internet (numa delas dizia que o diretor de AQUARIUS preferia não competir em Gramado por medo de não ser premiado) pode agora dizer o que quiser. Afinal, viu o filme, que desconhecia.

Sonia Braga recebeu o Troféu OSCARITO das mãos do cineasta Bruno Barreto, aliás, substituto do cineasta e produtor mineiro Guilherme Fiuza Zenha na comissão de seleção do candidato brasileiro ao Oscar. Ainda não se sabe quem substituirá a atriz Ingra Lyberato. O que se sabe é que três filmes importantes deixaram a disputa: “Mãe Só Há Uma”, de Anna Muylaert, “Boi Neon”, de Gabriel Mascaro, e “Para minha Amada Morta”, de Aly Muritiba. Todos solidários com Kleber Mendonça. Embora as autoridades interinas digam que não há perseguição a AQUARIUS (em retaliação ao protesto feito contra o golpe parlamentar no tapete vermelho de Cannes) há que se reafirmar: só não o enxerga quem não quer ver. O ponto culminante destas campanha contra o filme está na CENSURA (ou classificação indicativa) que ele recebeu: 18 anos.

CENSURA 18 ANOS?

Relato aqui experiência pessoal. Assisti a AQUARIUS, pela primeira vez, na condição de integrante do colegiado ibero-americano que atribui o PREMIO FENIX (que será entregue aos vencedores, em dezembro, no México). Fiquei impressionada com a solidez do filme, com seu roteiro engenhoso, de grande inteligência e potência social e política, com a entrega de Sonia Braga a uma personagem complexa e madura, ao elenco de apoio, imenso e muito talentoso. E também ao diálogo do diretor com a paisagem humana e física de sua cidade (o Recife) e com a MPB. AQUARIUS é um musical moderno. As canções ajudam a contar sua corajosa história, que soma o individual-e-afetivo ao político (e no Brasil, sempre calcado em bases afetivo-familiares). Vi algumas cenas de sexo (pouquíssimas) tão integradas à narrativa, que nem me chamaram a atenção. Revendo agora o filme, em magnifica projeção no Palácio dos Festivais de Gramado, me obriguei a colocar toda minha atenção nas cenas sexuais que o teriam condenado à censura 18 anos. Decerto, eu não prestara a devida atenção. Estava pois com os sentidos ultra-atentos nesta segunda sessão do filme. E o que vi? Mais uma vez, cenas de sexo muito rápidas, nada apelativas e profundamente integradas – repito – à narrativa. Daí, digo, com a sinceridade de quem é mãe e avó. AQUARIUS merece censura 14 anos. Se artistas e intelectuais aceitarem a limitação de AQUARIUS para menores de 18 anos, estarão se entregando ao OBSCURANTISMO dos anos militares. Em pleno século XXI, estarão baixando a cabeça para estes tempos de retrocesso moral e político que nos ameaçam de forma tão explícita.

UM OSCARITO PARA SONIA BRAGA

A estrela brasileira foi a dona absoluta da noite inaugural do FEST Gramado. Para que ela chegasse ao Palácio dos Festivais, envelopada num preto colado ao corpo (corpo que segue belo e esguio como nos anos de Gabriela e Dona Flor), o público tomou um chá de cadeira de 65 minutos. Mas valeu a espera, pois ela cruzou o imenso tapete vermelho distribuindo simpatia e beijinhos. Enquanto dentro do cinema escutávamos sua biografia brasileira e internacional, ilustrada com imagens de seus filmes e telenovelas – e banhadas em músicas de Caetano Veloso, Chico Buarque e Tom Jobim, todas feitas para ela e suas personagens –ela era recebida, ainda no tapete vermelho, por Rubens Ewald Filho, um dos curadores do festival. Despediu-se dele com um selinho e entrou no cinema, sob aplausos e com a plateia de pé. Antes de receber o OSCAR-ITO, ela viu, num vídeo, depoimentos do amigo Carlos Diegues, que a dirigiu em TIETA, da atriz e comadre Renata Sorrah e de CAETANO VELOSO, amigo-super-amigo, que a homenageou com a canção TIGREZA. Aí entrou em cena o diretor Bruno Barreto, responsável por DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS, maior sucesso da carreira da estrela (quase 11 milhões de ingressos). Coube a ele entregar a ela o OSCAR-ITO. Bruno o fez com brincadeira das mais simpáticas.

PERGUNTOU: Sônia, se Kleber e eu fôssemos seus dois maridos, qual de nós seria VADINHO?”

Ela ficou indecisa.

E perguntou: qual dos dois é nordestino? (Afinal, VADINHO simboliza o amor carnal e fogoso).

Mas a atriz pensou melhor e deu a resposta definitiva: Acho que seria “DONA FLOR E SEUS DOIS VADINHOS”.

E chegou então a hora de receber, no palco, a trupe de AQUARIUS.

Estão abertas, até 24 de novembro, as inscrições para a 7ª edição do Festival Celucine de Micrometragens. Os filmes de tema livre, de origem de todo o Brasil e países de língua portuguesa, que tenham duração de trinta segundos  até três minutos, gravados exclusivamente em plataformas digitais, como câmeras de celulares, tablets, máquinas fotográficas e câmeras digitais, podem participar da competição nas categorias Ficção, Documentário e Animação.

A disputa é válida somente para produções inéditas, em qualquer mídia digital, de autoria de estudantes, amadores e profissionais, com idade a partir de 16 anos. No dia 25 de novembro, os cinco finalistas de cada categoria serão anunciados, após avaliação de uma banca formada por profissionais da área audiovisual, e ainda publicado na fanpage www.facebook.com/Festival.Celucine, onde as inscrições podem ser realizadas e onde é possível encontrar o regulamento completo do festival.

O anúncio dos vencedores será no dia 14 de dezembro, durante cerimônia no Oi Futuro, no Rio de Janeiro. Os vencedores de cada categoria receberão o prêmio de R$ 5 mil reais cada. Os melhores filmes nas categorias Ficção, Documentário e Animação serão escolhidos por um júri oficial.

Com uma seleção que destaca o que de melhor e mais ousado tem sido produzido pelo cinema italiano contemporâneo, a mostra 8 ½ Festa do Cinema Italiano será realizada no Brasil entre 25 e 31 de agosto.

Depois de nove anos em Portugal e de passar por Porto Alegre em 2014 e 2015, a mostra volta em 2016 ao país em sua terceira edição, ampliando seu circuito para mais seis salas em diversas capitais nacionais: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba e Florianópolis, além de Porto Alegre.

A abertura do festival, no dia 25 de agosto, nas sete cidades, ocorrerá, às 21h30, com a première de Loucas de Alegria (La Pazza Gioia), o novo filme do aclamado diretor Paolo Virzì (de La Prima Cosa Bella, de 2010, e Il Capitale Umano, de 2013). O longa estreou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes este ano e narra a cômica e ao mesmo tempo trágica história da amizade entre Beatrice (Valeria Bruni Tedeschi) e Donatella (Micaela Ramazzotti). Elas se conhecem em um hospital para mulheres com distúrbios mentais e acabam inesperadamente se tornando amigas inseparáveis, capazes de cometerem pequenas-grandes loucuras quando fogem juntas do hospital.

Com seu cinema sempre humanista, que une sua direção precisa à emoção, Virzì constrói com Loucas de Alegria mais uma comovente história, que faz rir, chorar e repensar a forma como a sociedade trata os que não se encaixam em seus padrões de normalidade. Distribuído pela Imovision, o filme estreia no Brasil em 1º de setembro.

Entre os demais filmes selecionados para esta edição, destacam-se o último de Roberto Andò, As Confissões, estrelado por Toni Servillo, o grande ator italiano que protagonizou A Grande Beleza (de Paolo Sorrentino, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014). O longa será distribuído pela Mares Filmes.

O filme de Andò, já conhecido no Brasil pelo longa Viva a Liberdade, é uma sútil e fascinante metáfora sobre a política e o poder.

Outra importante première da Festa do Cinema Italiano, será Amor Eterno (La Corrispondenza), novo filme do aclamado Giuseppe Tornatore (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por Cinema Paradiso). O longa narra uma história de amor contemporânea, em que a tecnologia é muito mais que um detalhe, mas sim determinante para a sobrevivência do relacionamento entre a estudante de astrofísica Amy e seu professor Ed. Ela é vivida pela atriz ucraniana Olga Kurylenko e ele é interpretado pelo prestigiado ator britânico Jeremy Irons. A trilha sonora do longa é assinada pelo mestre Ennio Morricone (autor da trilha de clássicos como Era Uma Vez na AméricaEra Uma Vez no OesteOs Intocáveis, além de parcerias com o próprio Tornatore em Cinema Paradiso e Malèna, e com Quentin Tarantino, cuja trilha de Os Oito Odiados lhe rendeu um Oscar).

A programação conta ainda com Meu Nome É Jeeg Robot (Lo Chiamavano Jeeg Robot), de Gabriele Mainetti. Em uma Roma tão fantástica quanto contemporânea, o longa narra a saga de um super-herói improvável e real. Ele é o recluso e desajustado Enzo Ceccoti (Claudio Santamaria), que acidentalmente entra em contato com uma substância radioativa e ganha superpoderes. Solitário, ele não sabe como usar a força que passa a ter, até que Alessia (Ilenia Pastorelli) entra em sua vida e está convencida de que Enzo é Jeeg Robot, o herói de um desenho animado japonês que ela adora. Sucesso de público e crítica, o filme venceu sete prêmios David di Donatello, considerado o Oscar da Accademia del Cinema Italiano.

Outro longa que foi aclamado, e indicado como o representante da Itália ao Oscar 2016, é Não Seja Mau (Non Essere Cattivo), de Claudio Caligari. O filme narra, com um olhar e um estilo que muitos associaram ao do diretor Pier Paolo Pasolini, a história de amizade entre Vittorio (Alessandro Borghi) e Cesare (Luca Marinelli). Eles vivem na periferia da grande Roma, na litorânea Ostia. Com apenas 20 anos, levam uma vida tão alucinada, em meio a drogas e festas, quanto dura, em um cotidiano difícil e sem oportunidades. Em busca de uma nova vida, Vittorio abandona Cesare, que mergulha cada vez mais no submundo. Mas os laços entre eles são fortes demais para se romperem. Exibido no Festival de Cinema de Veneza 2015, o longa é o último filme de Caligari, que faleceu pouco tempo depois de terminar a montagem do filme, em maio de 2015, e contou com a produção executiva e o empenho do ator Valerio Mastandrea para que fosse concluído e lançado.

Completam a seleção, o longa Paro Quando Quero (Smetto Quando Voglio), de Sydney Sibilia, e o já clássico do cinema italiano contemporâneo, nunca distribuído no Brasil, As Consequências do Amor (Le Conseguenze dell’Amore), que Paolo Sorrentino rodou em 2004, com o ator que viria a ser seu grande colaborador, Toni Servillo. A comédia Paro Quando Quero conta a história de um grupo de investigadores universitários. Encontram como alternativa ao desemprego a produção e comercialização da melhor smart drug do mercado. Constituem, assim, uma peculiar gangue de traficantes. O longa estrelado por Servillo, por sua vez, tem um tom mais sombrio. Narra a trajetória de Titta (Servillo), tímido e recluso, que tem uma virada ao sentir-se atraído por Sofia (Olivia Magnani), barwoman de um hotel.

A programação completa da mostra está disponível em www.festadocinemaitaliano.com.br.

 

8 ½ Festa do Cinema Italiano
Data: 25 e 31 de agosto, sempre às 19 e 21h30
Locais:
BELO HORIZONTE
Cine Belas Artes (R. Gonçalves Dias, 1581 – Lourdes)

BRASÍLIA
Espaço Itaú Casa Park (Shopping Casa Park, 2º Piso – SGCV Sul Lote 22 – Guará)

CURITIBA
Espaço Itaú Crystal (Shopping Crystal, Piso L1 – Rua Comendador Araújo, 731 – Batel)

FLORIANÓPOLIS
Cinespaço Beira Mar (Beiramar Shopping, Piso L4 – Rua Bocaiúva, 2468 – Centro)

PORTO ALEGRE
Espaço Itaú – Country (Bourbon Shopping Country, 2º piso – Av. Túlio de Rose, 80 – Passo da Areia)

RIO DE JANEIRO
Espaço Itaú – Botafogo (Praia de Botafogo, 316 – Botafogo)
Espaço Rio Design (Av. das Américas, 7777, lj 315)

SÃO PAULO
Espaço Itaú – Frei Caneca (Shopping Frei Caneca, 3º Piso – Rua Frei Caneca, 569 – Consolação)

Os ingressos das sessões da mostra têm preço fixo de R$ 20,00 em todas as sessões (meia R$ 10,00).

Vivemos uma era em que as até então verdades absolutas vão caindo por terra. Nesse mundo midiático e performático, colaborativo e instantâneo, verdades, dogmas e teses são contestados e negados na velocidade da luz.

O maniqueísmo que alguns ainda defendem não se sustenta, às vezes nem por minutos. Não há mais tempo nem lugar para posições absolutas. Bem e Mal, Esquerda e Direita, Masculino e Feminino. Há um pouco de tudo em cada um de nós. Há um muito de coletivo em cada ação individual, e um tanto de pessoal e intransferível em cada gesto coletivo.

E no audiovisual? O que era verdade absoluta e como nos portamos diante das mudanças inexoráveis do cotidiano contemporâneo?

Era verdade que emissora de televisão era quem produzia programas. Era verdade que tínhamos horário marcado para assistirmos a nossos programas preferidos. Assim como era verdade que programador era programador, produtor era produtor e operador de canais era operador/empacotador. Que cinema era cinema, TV era TV, web era web.

Quantos exemplos temos de que todas essas verdades/definições já se dissolveram? Produtores e “pessoas físicas” têm seus próprios canais de TV nas plataformas web e móveis; distribuidores implantaram canais de TV por assinatura; canais abertos estão conectados na web todo o tempo; portabilidade e mobilidade levam as obras visuais a qualquer tela, cada vez mais individualizada. Canais de TV são coprodutores de séries e filmes; operadores internacionais de TV por assinatura adquirem canais abertos de TV e se transformam em radiodifusores.

Como achar um lugar nesse “mundo novo” para realizar negócios de produção e distribuição? Se todas as tecnologias parecem acessíveis a todos, como se diferenciar no coletivo?

Estamos naquele ponto em que a “aldeia global”, a globalização predatória, nos trouxe de volta ao ponto inicial – à máxima segmentação. De volta ao conteúdo especializado, único. De volta à “história original a ser contada”. Um mundo em que todos querem ser únicos apesar de todos semelhantes, compartilhados, socializados. Os modelos de negócio no audiovisual se desdobram cada vez mais criativos, tanto quanto forem originais suas histórias.

Assim como a escolha do parceiro mais adequado para atingir o público-alvo desejado e o retorno necessário. É o tempo de estudar mais o negócio, o mercado. Criatividade aliada à cultura negocial. Estar no lugar certo, na hora certa, com o produto certo.

Outra verdade que vai escorrendo por entre os dedos: uma ideia na cabeça e uma câmera na mão. Nessa nova ordem, hoje se exige algo mais: da cabeça à apresentação, da câmera à tecnologia, e um bom “negócio na mesa” dos financiadores/acionistas.

Essa parece ser uma nova ordem da “verdade” no audiovisual. Pelo menos enquanto escrevo esse pequeno artigo.

 

Por Mauro Garcia, Presidente Executivo da BRAVI – Brasil Audiovisual Independente

O Festival de Cannes de 2016 consagrou o novo filme do diretor Eryk Rocha, “Cinema Novo”, com o prêmio Olho de Ouro, destinado aos documentários exibidos em todas as mostras que compõem o evento. O troféu é novo, criado no ano passado, mas já serviu para trazer à tona discussões importantes para a cinematografia brasileira que vem mostrando a força dos filmes-ensaio produzidos por nossos cineastas atualmente. Nessa linha, podemos lembrar também de “Yorimatã”, primeiro longa-metragem de Rafael Saar, premiado pelo júri e pelo público do Festival In-Edit Brasil 2015. Saar, inclusive, já trabalhou em parceria com Joel Pizzini, cineasta que consolidou sua carreira nesse experimentalismo e continua oxigenando as telas com novas poéticas. Mas, afinal, que cinema é esse que foge dos rótulos? A Revista de CINEMA foi conversar com esses cineastas para destrinchar seus conceitos e técnicas.

Se pensarmos que o filme-ensaio está diretamente associado ao poético e ao experimental, encontraremos um amplo catálogo de longas, médias e curtas-metragens desde os primórdios do cinema, inclusive entre os primeiros que foram rodados em terras nacionais. Porém, é interessante acompanhar como os diretores do século XXI continuam driblando os caminhos do cinema mais tradicional para buscar o espaço daquilo que deu reconhecimento ao próprio cinema como arte.

Para Eryk Rocha, existe uma “desfronteira” entre gêneros, seja documentário ou ficcional, que pode resultar nesse cinema que é experimental, poético e ensaístico, no qual o pensamento e a poesia se integram. “Se a gente entender o filme-ensaio como um espaço fértil de invenção, de possibilidade de linguagem, de experimentação de pensamento, eu acredito que dialoga com o meu trabalho e com meus filmes”. Um novo projeto é sempre “um novo abismo e uma nova aventura da criação” para “traduzir o mundo em imagens e sons”. Não raro em sua filmografia, essa dialética se dá em diversas camadas que mesclam o sensorial, o poético, o informativo, o político e o social, que também se organiza e narra uma história. “Talvez o que me interesse mais seja o entrelaçamento dessas camadas, criando esse corpo cinematográfico”.

O diretor Eryk Rocha com o troféu Olho de Ouro do Festival de Cannes, por seu documentário poético, “Cinema Novo”

Buscando inspiração na obra de Pier Paolo Pasolini e no cinema da década de 1960, Rafael Saar diria que hoje o cinema e o audiovisual “tem um dicionário linguístico com regras e uma gramática bem difundidas” e que, neste sentido, o filme-ensaio não se distancia daquele cinema de poesia, do cinema que “comunica e cria” mais próximo “da linguagem onírica e da memória” e, atualmente, “utiliza e pensa suas figuras de linguagem e concepção estética, e numa percepção pessoal também se aproxima da performance, do teatro, da música, da TV”. Sua filmografia está conscientemente ligada a isso, porque foi o que ele “se dispôs a estudar e tem grande interesse”.

Joel Pizzini acredita que o filme-ensaio tornou-se uma vertente mais inovadora do cinema autoral atualmente, pois “transcende ao cinema de resultados” e permite a produção de filmes “que formam um patrimônio audiovisual potente e atemporal”. Para ele, sua obra já era de filmes-ensaio “desde antes mesmo de existir essa ‘categoria’”, por ser uma “falsa ficção” e romper com o pudor do documentário e com o controle da ficção. “O filme-ensaio dilui esta fronteira, autenticando a expressão livre dos clichês inerentes aos dois gêneros” e “contempla a subjetividade”.

Nem na realidade ou na imaginação

O crítico e pesquisador Carlos Aberto Mattos vê o filme-ensaio como “um campo de atuação do cinema”, o qual “parte de perguntas e chega a outras perguntas”, “não conta histórias nem apresenta fatos que não sejam filtrados por uma subjetividade altamente atuante”, e essa subjetividade, na maioria das vezes, é “expressa pelo autor na primeira pessoa”. Também são filmes que desenvolvem “um pensamento a respeito de alguma coisa que não está dada nem na realidade, nem na imaginação”.

Nesse último ponto, Rocha concorda e, de certa forma, comprova a teoria, quando diz que faz filmes para saber o que ele é. “Se eu soubesse o que é o filme a priori, eu não o faria”. Seu processo criativo pode começar com uma imagem, uma música, um poema, uma palavra ou uma paisagem. A partir daí, ele busca a sensação daquela imagem e esboça o roteiro em uma espécie de “diário de criação”, no qual as páginas vão sendo preenchidas com textos, desenhos, recortes de jornais, reunindo apontamentos sobre aquilo que está movendo o cineasta. “Começa a nascer uma dramaturgia, uma primeira estrutura, que está em forma de roteiro”.

Joel Pizzini, premiado com seu cinema de poesia, em sessão de seu filme “Olho Nu”. © Leo Lara

Se, para os realizadores, é mais complexo separar os conceitos, uma vez que tudo é absorvido e apresentado de maneira muito orgânica, para Mattos é possível perceber e afirmar que o filme-ensaio pode ser realizado tanto na ficção quanto no documentário, no cinema experimental e no cinema de poesia. “Ensaios visuais, por exemplo, são facilmente assimiláveis ao experimentalismo. Mas o filme-ensaio se distingue sempre por buscar ou exprimir um pensamento, uma consideração sobre o seu objeto. O filme eminentemente experimental, por sua vez, não precisa disso, bastando-se como exercício formal, rítmico ou abstrato. Por outro lado, um filme de poesia pode ser ensaístico, assim como um filme-ensaio pode ser extremamente poético”. As fronteiras, portanto, são muito “fluidas”, porém a “construção de pensamento e a importância da dúvida sempre ajudam a delimitar o campo do filme ensaístico”.

Na concepção de Pizzini, o experimental leva ao extremo da própria experiência, em todos os níveis, “do formal ao dramatúrgico, incorporando-se o acaso, o acidente, a inconsciência, valorizando, sobretudo, o processo”. Ou seja, “o como é tão importante quanto o sobre”.

Sincretismos de linguagens para gerar o sentido

Tanto para Rocha quanto para Saar, é na montagem que o filme-ensaio verdadeiramente se transforma e se singulariza como tal. O diretor de “Yorimatã” lembra que ele mesmo escreveu, dirigiu e montou seus curtas e o primeiro longa, e que segue “um fluxo intuitivo um pouco caótico”, mas onde encontra sentido. “Às vezes, tenho um roteiro rígido, com diálogos e decupagem pré-definidas, em outras situações só preciso saber a locação, quem está e tudo acontece. Ou não, e tudo bem. ‘Yorimatã’ tem um roteiro simples que enumerava temas, músicas, personagens, lugares e tem uma base de uma pesquisa enorme de arquivo. Ou seja, muita coisa nasceu na montagem”, descreve Saar.

Cena de “Yorimatã”, filme de Rafael Saar, em que os desbotados das imagens refletem a memória no tempo

O diretor também reconhece que “Yorimatã” foi a sua maior imersão como autor e indivíduo e, embora possa ter uma linguagem documental mais prosaica, “tem uma força poética explosiva”, que está na essência das personagens e da obra musical como linguagem de comunicação, e não apenas como trilha sonora. O filme traz muitas memórias contadas por Luhli e Lucina, e muitas imagens e sons estão “arranhados, com mofo, com as marcas do tempo”. Com isso, “Yorimatã” não apresenta uma narrativa “transparente e óbvia”. Para Saar, “tem lacunas e desafios que demandam a subjetividade do espectador”.

Seu novo filme, intitulado “Peixe”, está em fase de montagem e agora a tarefa é explorar todas as potencialidades poéticas de tempo, linearidade, silêncio, som, lirismo e emoção. “O grande desafio do cinema de criação é a exploração máxima de todos os nossos sentidos”, acredita o diretor.

Rafael Saar, diretor de “Yorimatã”, um filme brotado na pesquisa e na montagem. © Thais Gallart

Com Rocha, o processo é ainda mais intenso. A montagem como dialética entre as imagens atravessa o processo de criação como um todo, desde o roteiro, e “todos os fios de eletricidade de invenção se encontram e criam uma metamorfose” na montagem final. Seguindo a cartilha dos mestres Sergei Eisenstein e Dziga Vertov como alguém que respira a montagem para manter-se vivo, Rocha sublinha que a sua janela de entendimento do cinema se dá nesta etapa. “A montagem é para o cinema como é o conceito para a filosofia. É um momento sagrado de invenção e reinvenção”. E não acontece apenas na ilha de edição. “Na primeira imagem do filme, eu já estou pensando na montagem. O meu pensamento já acontece em montagem, na sobreposição de imagens e na relação dessas imagens com o som”.

Em “Campo de Jogo” – seu penúltimo filme, que foi lançado em 2015 –, o documentário mostrava a final de um campeonato de futebol no qual os times representavam favelas cariocas, e que ocorreu durante a Copa do Mundo de 2014. As filmagens aconteciam apenas aos domingos, durante as partidas. Ao longo da semana, Rocha e o montador Renato Vallone analisavam o material já filmado junto com o diretor de fotografia para ir montando o filme e também pensando nos dias seguintes. “Ou seja, é a montagem afetando a filmagem. O que funciona e o que não funciona, naquela grande coreografia que era o jogo? Quais são os melhores ângulos e o que está faltando?”.

O cinema entrou na vida de Eryk Rocha de uma maneira muito “corpórea”, segundo ele, e não “historicista”, no sentido de estudar a arte para só depois aplicar as técnicas na prática. Filho dos cineastas Glauber Rocha e Paula Gaitán, ele conta que não havia um legado a ser seguido, apesar de todo o ambiente fazer parte da sua formação. Aos 17 anos, comprou sua primeira câmera quando morava em Bogotá, na Colômbia, e começou a filmar, a sentir o momento e o espaço da filmagem. Em seus últimos filmes, trabalhou com diretores de fotografia e montadores, mas continua usando a câmera para testar as primeiras sensações de um novo filme que se prenuncia.

Para o crítico Carlos Alberto Mattos, esta linha de documentário não conta histórias e é filtrada pela subjetividade

O cinema novo em montagem poética

Em “Cinema Novo”, 100% das imagens são de arquivo e acervos nacionais e internacionais, e no qual a montagem é a própria pulsação e o coração da obra. No entanto, o projeto começou a se estruturar com a filmagem de depoimentos atuais de alguns cinema-novistas pela própria lente da câmera de Rocha. A ideia surgiu há 9 anos, a partir de uma conversa do diretor com o Canal Brasil, que é coprodutor da obra, para garantir que houvesse um filme sobre o movimento. Ao chegar à fase da montagem, Rocha e Vallone reavaliaram o processo e decidiram apenas usar alguns poucos áudios daquelas falas iniciais e incorporá-los às imagens dos anos 1960.

“Foi uma aposta de linguagem. A partir dessa integração entre os filmes, das memórias, essa multidão de trechos e fragmentos, o nosso desejo era criar um novo corpo dramatúrgico”, relata o diretor. Com isso, o processo criativo se inverteu, de certa forma, e o (re)visionamento dos filmes e dos depoimentos passou a ser a etapa inicial para um filme que ali nascia como uma arqueologia viva.

Não há, portanto, nenhum depoimento atual sobre aqueles anos em “Cinema Novo”. São trechos de 130 filmes, entre obras dos diretores e acervos de entrevistas (algumas inéditas), com a inclusão de muitos dos filmes que foram restaurados pela Cinemateca Brasileira e estão com qualidade impressionante. As análises foram registradas no calor daquela hora e aparecem na voz e na imagem de Glauber Rocha, Leon Hirszman, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Paulo César Saraceni, Ruy Guerra, David Neves, Walter Lima Jr., Gustavo Dahl, Orlando Senna, Mario Carneiro, Geraldo Sarno, Luiz Carlos Barreto, Alex Viany, Arnaldo Jabor, Zelito Viana e Paulo Emílio Salles Gomes.

“Esse é um filme a partir do Cinema Novo. Eu não pretendo explicar e nem concluir o que foi o Cinema Novo. É um filme muito mais de aproximação da nossa geração com o Cinema Novo, traçando um diálogo poético, político e filosófico; dando movimento ao movimento Cinema Novo, trazendo para o presente”. Para alcançar essa interlocução, Rocha acredita que foi fundamental renunciar ao uso dos depoimentos de agora dos cineastas mais velhos para “cortar a intermediação”, a qual sempre pressupõe “um balanço crítico do que foi” e não era essa a intenção. “Era muito apaixonante ver aqueles caras falando nos anos 1960 sobre cinema e sobre o Brasil”. O filme está previsto para estrear em novembro deste ano, depois de passar por festivais nacionais e internacionais.

 

Por Belisa Figueiró